Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
5 A revolta e o aniversário
A sala de desjejum estava inundada pela luz morna da manhã, e o aroma de café fresco e pães quentes preenchia o ar. Gaspar e Claire ocupavam as cabeceiras, enquanto Richard e Katrina conversavam baixo em um dos lados da mesa. O clima era de absoluta harmonia, até que a porta se abriu e os dois jovens entraram.
Aria e Caelum caminhavam lado a lado. A diferença de altura era notável; ela, elegante e altiva; ele, imponente, com seus ombros largos e o andar silencioso de um predador treinado.
— Bom dia a todos — disse Caelum, fazendo uma breve reverência antes de se sentar ao lado do pai.
— Vejam só se não é o par mais bonito de Astúria — comentou Gaspar, com um brilho divertido nos olhos, enquanto servia-se de uma generosa fatia de presunto. — Aria, você parece ter recuperado o fôlego da dança de ontem. E Caelum, espero que tenha descansado, pois o seu retorno causou um alvoroço maior do que qualquer vitória militar.
Aria tomou seu lugar, tentando manter a expressão neutra, embora o contato visual com o primo fizesse suas mãos tremerem levemente sob a mesa.
— Foi apenas um baile, papai — respondeu Aria, pegando uma maçã.
— "Apenas um baile"? — Gaspar riu, olhando para Richard. — Meu irmão, prepare o seu estoque de paciência. Ontem à noite, recebi pelo menos cinco consultas de condes e duques interessados em saber se Caelum já tem um compromisso. Logo, as carruagens de jovens nobres de todo o continente estarão fazendo fila no porto. Metade das moças da corte não dormiu hoje, suspirando pelo "Lobo de Ferro".
Caelum deu um sorriso de lado, visivelmente desconfortável com o rumo da conversa, enquanto Richard apenas observava com um ar de quem já esperava por aquilo.
— Elas buscam um título e uma armadura, Majestade — disse Caelum, a voz rouca e calma. — Não creio que estejam preparadas para o homem que habita dentro dela.
Aria sentiu uma pontada de irritação que subiu como fogo por sua garganta. Ela largou a faca de prata com um tilintar agudo contra o prato.
— Será que não podemos passar uma única refeição sem falar de contratos de casamento? — disparou Aria, a língua afiada como sempre. — Primeiro o Bispo tenta me vender como uma joia de vitrine, e agora você, papai, quer transformar o retorno do meu primo em um leilão de gado nobre?
— Aria, é apenas a realidade da corte... — Claire tentou intervir com doçura, mas a filha não cedeu.
— A realidade da corte é tediosa e previsível! — Aria levantou-se, os olhos faiscando na direção de Gaspar. — Caelum acabou de chegar daquela prisão de gelo, e a única coisa em que vocês conseguem pensar é em com quem ele vai se deitar para gerar novos ducados? Ele é o meu escudo, não um troféu de caça para as filhas dos seus aliados!
Um silêncio tenso caiu sobre a mesa. Gaspar arqueou uma sobrancelha, surpreso com a intensidade da reação da filha. Caelum olhou para ela, e por um breve segundo, um brilho de admiração e algo muito mais profundo passou por seus olhos azuis.
— Se me dão licença — concluiu Aria, saindo da sala a passos firmes, deixando para trás um Gaspar pensativo e um Caelum que, silenciosamente, sentia que o seu dever de protegê-la seria muito mais complicado do A atmosfera na mesa mudou instantaneamente. Claire, percebendo a tensão que a saída de Aria deixara no ar, trocou um olhar cúmplice com Katrina. Ela sabia que, para acalmar os ânimos e celebrar verdadeiramente a família, o retorno de Caelum precisava de um destaque próprio, longe das obrigações políticas.
— Gaspar tem razão sobre o alvoroço, mas estamos esquecendo o principal — disse Claire, suavizando o tom e olhando para o sobrinho com carinho. — Se ontem celebramos a nossa princesa, não podemos deixar passar o fato de que Caelum também atingiu a maioridade longe de nós. Ele merece as honras de um herdeiro de Valmor.
Katrina sorriu, os olhos brilhando de entusiasmo ao ver o filho de volta.
— Você está certa, Claire. Um jantar em família é pouco para quem enfrentou o Norte por tantos anos.
Caelum tentou intervir, a voz grave e contida:
— Mãe, não há necessidade de tamanha pompa. Eu prefiro a quietude do castelo ao barulho dos salões.
— Bobagem, meu filho — interrompeu Katrina, já planejando os detalhes mentalmente. — Não será apenas um baile, será a sua apresentação oficial como o Duque que Astúria esperava. Vamos preparar tudo para esta noite. Quero que cada lustre deste palácio brilhe para o seu retorno.
Gaspar deu um soco leve na mesa, aprovando a ideia com uma risada.
— Excelente! Se Aria ficou estressada com o falatório, que ela se prepare para dançar novamente. Richard, parece que teremos mais uma noite de gala.
Richard assentiu, embora seu olhar estivesse fixo em Caelum, percebendo que o filho parecia mais focado na porta por onde Aria saíra do que na perspectiva de uma festa em sua honra.
— Que assim seja — concluiu Richard. — Que o reino veja que o escudo de Astúria não é apenas forte, mas também a nossa maior honra.
Enquanto os planos começavam a ganhar vida, Caelum permanecia em silêncio. Ele sabia que aquela noite não seria apenas sobre música e brindes. Seria a oportunidade perfeita para confrontar o que sentira ao ver Aria sair daquela sala defendendo-o com tanta fúria. Se ela queria protegê-lo das pretendentes da corte, ele teria que descobrir se o motivo era apenas a velha amizade de infância ou se o coração da princesa estava batendo no mesmo ritmo acelerado que o seu.que imaginava.
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