O clima no castelo de Astúria havia mudado drasticamente. Onde antes havia faíscas de uma briga apaixonada, agora só restava o gelo absoluto. Caelum cumpria suas obrigações com uma precisão robótica, mas seus olhos, antes fixos em Catarina, agora pareciam atravessá-la como se ela fosse feita de vidro.


​Catarina tentou a primeira abordagem no corredor das tapeçarias. Ela o viu vindo na direção oposta, com uma pilha de documentos nos braços.

​— Caelum, podemos conversar? Sobre o que aconteceu no jantar... — ela começou, bloqueando o caminho dele.

​Caelum sequer diminuiu o passo. Ele desviou dela com uma agilidade fria, sem olhar em seus olhos.

— Tenho uma reunião com os emissários do Sul, Lady Catarina. Assuntos de Estado não esperam por... arrependimentos tardios.

​— "Lady Catarina"? — ela repetiu, sentindo o golpe da formalidade. — Desde quando você me chama assim?

​— Desde que percebi que a intimidade foi um erro de julgamento meu — ele respondeu, já distante. — Com licença.

​O Baile da Colheita

​O Baile da Colheita era a festa mais alegre do calendário, com o salão decorado com trigos, uvas e fitas coloridas. Mas para Catarina, o ambiente parecia cinzento.

​Caelum estava impecável em um traje verde-escuro e dourado. Ele não ficou parado no canto. Pelo contrário, ele estava incrivelmente sociável. Ele tirou a mãe para dançar, depois Aria, e então começou a convidar as jovens nobres da corte, uma a uma.

​Catarina ficou encostada em uma pilastra, observando-o rir com a filha de um barão enquanto a girava pelo salão. Quando a música parou e ele passou perto dela para levar a dama de volta ao lugar, Catarina segurou o braço dele.

​— Caelum, chega de teatro. Você já dançou com metade do salão. Guarde a próxima para mim.

​Caelum parou e olhou para a mão dela em seu braço como se fosse um inseto incômodo. Ele soltou o braço com uma lentidão deliberada.

​— Receio que minha agenda de danças esteja completa, Lady Catarina. E, honestamente? Acho que o Lorde Stefan Drake está logo ali, ansioso por sua atenção. Por que não vai testar seu deboche com ele? Ouvi dizer que ele aprecia mulheres que acham tudo "patético".

​— Eu não quis dizer aquilo daquela forma! — Catarina sussurrou, a voz falhando. — Eu estava assustada, Caelum.

​— Assustada ou apenas sendo você mesma? — ele rebateu com um sorriso amargo que não chegou aos olhos. — Não se preocupe. Você queria ser livre do meu "cortejo sufocante", e agora você é. Aproveite a festa.

​Ele se virou para uma jovem nobre que passava.

— Senhorita Beatrice? Concederia-me a honra desta valsa?

​A moça aceitou, lisonjeada, e Caelum entrou na pista novamente, deixando Catarina sozinha sob os olhares de pena da corte.

​O Confronto no Terraço

​Exausta de ser ignorada, Catarina o seguiu quando ele saiu para tomar um pouco de ar no terraço.

​— Por quanto tempo você vai manter esse orgulho ferido? — ela perguntou, a voz embargada pela raiva e pela tristeza. — Você está me humilhando na frente de todos!

​Caelum virou-se, a luz da lua acentuando as linhas duras de seu rosto.

— Humilhando? Eu estou apenas dando a você exatamente o que você pediu. Você desdenhou do meu pedido na frente da minha família e da sua. Você me chamou de patético. Eu apenas aceitei sua avaliação.

​— Eu agi por impulso! Eu não sabia como lidar com o fato de que você... de que você realmente se importava — ela deu um passo à frente.

​— O problema, Catarina — ele disse, a voz num tom mortalmente calmo — é que enquanto você se diverte jogando palavras como se fossem pedras, eu estava oferecendo o meu futuro. Eu não sou um brinquedo do Norte para você testar suas garras.

​Ele caminhou em direção à porta do salão, parando apenas por um segundo ao lado dela.

— Você teve a chance de ter o Príncipe de Astúria. Agora, você tem apenas o silêncio dele. Boa noite, Lady Catarina.

​Ele entrou no salão, e o som da música alegre lá dentro parecia zombar do silêncio pesado que ficou no terraço entre Catarina e a noite. Pela primeira vez, a loba do Norte sentia que o gelo de Astúria era muito mais frio do que o de sua terra natal.