Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
7 O Ritmo do Desejo
A noite em honra ao Duque Caelum superava em opulência até mesmo as celebrações anteriores. O Grande Salão estava banhado em luz dourada, e a nobreza de Astúria assistia, fascinada, ao retorno triunfal do herdeiro de Valmor. Mas, para Caelum e Aria, o mundo parecia ter se reduzido àquele tablado de mármore.
A música começou lenta, uma melodia de cordas que exigia proximidade e cadência. Quando Caelum estendeu a mão para Aria, o salão silenciou. Não era apenas uma dança entre primos; era o encontro de duas forças que o reino não conseguia mais ignorar.
Caelum envolveu a cintura de Aria com uma firmeza que a fez perder o fôlego por um instante. Seus corpos se moveram em uma sincronia absoluta, como se os oito anos de distância nunca tivessem existido. A cada giro, a proximidade aumentava. O olhar de Caelum, antes severo e militar, agora queimava com uma intensidade que Aria sentia na alma. Ela, por sua vez, não desviava os olhos, desafiando o protocolo com uma entrega que não era de uma súdita, nem de uma prima.
O Olhar dos Pais
Nas tribunas de honra, Gaspar e Richard observavam a cena. O que começou como um sorriso de orgulho paternal logo se transformou em uma expressão de dúvida silenciosa.
— Eles dançam muito bem juntos — comentou Gaspar, tentando manter o tom casual, mas seus olhos estavam cerrados, analisando a tensão entre os dois.
Richard, que conhecia o filho melhor do que ninguém, notou como a mão de Caelum pressionava as costas de Aria com uma familiaridade que ultrapassava o afeto fraternal.
— Eles sempre foram unidos, Gaspar. Mas há algo na forma como Caelum a olha... ele não a está protegendo apenas como um escudo. Ele a está olhando como um homem olha para a sua rainha.
Ao lado deles, Claire e Katrina trocaram um olhar carregado de preocupação. Elas viram o momento em que Aria inclinou a cabeça levemente, e Caelum sussurrou algo em seu ouvido que a fez fechar os olhos e morder o lábio inferior.
— Gaspar... — Claire murmurou, tocando o braço do marido. — Veja as mãos deles.
Caelum havia deslizado a mão da cintura para a base das costas de Aria, um toque possessivo e íntimo demais para os olhos da corte. Aria retribuiu apertando o ombro do primo, seus dedos afundando no tecido da túnica dele como se ela temesse que ele pudesse desaparecer novamente.
A Tensão no Ar
A música atingiu o clímax e, por um breve segundo, antes do giro final, os rostos de Aria e Caelum ficaram a milímetros de distância. A respiração de ambos se misturou, e a "safadeza" silenciosa nos olhos de Caelum encontrou a face ruborizada e desejosa de Aria.
— Isso é... perigoso — Richard sussurrou para Gaspar, a voz sombria. — O conselho e o clero nunca aceitariam isso. São primos diretos, Gaspar. O sangue de Astúria é o mesmo neles.
Gaspar não respondeu de imediato. Ele apertou o cálice de vinho até os nós dos dedos ficarem brancos. Ele vira o fogo nos olhos da filha e a devoção absoluta no rosto do sobrinho. O que ele temia aconteceu: o "escudo" não estava mais apenas defendendo a "coroa"; ele estava se apaixonando por ela.
Quando a música parou, os dois permaneceram imóveis por um segundo a mais do que o necessário, com as testas quase se tocando, alheios aos aplausos e, principalmente, aos olhares vigilantes de seus pais que, pela primeira vez, viram que a ameaça ao trono não vinha de fora, mas de dentro do próprio coração da família.
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