O ar fresco da noite de Astúria carregava o aroma das gardênias e o som abafado da música que ainda vinha do salão. No ponto mais afastado do jardim, onde a luz dos candelabros mal chegava, a Princesa Aria e o Duque Caelum caminhavam sob a luz da lua.


​O silêncio entre eles era denso, carregado pela tensão que se acumulava desde o momento em que os seus olhos se reencontraram no porto. Aria parou perto de uma fonte, as mãos trêmulas enquanto tentava controlar a própria respiração.

​— Você não deveria ter dançado comigo daquela forma, Caelum — ela começou, a voz quase um sussurro. — Todos viram. Meus pais viram.

​Caelum deu um passo à frente, a presença dele sufocando qualquer dúvida.

— Eu disse que nada mudou, mas menti. Tudo mudou. Eu não vejo mais a minha prima quando olho para você, Aria. Eu vejo a razão pela qual eu sobrevivi àquela academia.

​Antes que ela pudesse responder, ele a puxou para si. O beijo foi repentino e intenso. Por um segundo, o choque de Aria falou mais alto; ela o empurrou pelo peito, o coração batendo na garganta enquanto a confusão tomava conta de seus sentidos. Mas o recuo durou apenas um batimento. Ao ver o olhar de devoção nos olhos de Caelum, a resistência dela desmoronou.

​Aria o puxou pela nuca, mergulhando os dedos nos cabelos escuros dele e devolvendo o beijo com uma urgência que vinha de anos de solidão. Foi um beijo de devoção, de dois seres que compartilhavam o mesmo sangue e, agora, o mesmo desejo proibido.

​— PAREM AGORA!

​A voz de Gaspar soou como um trovão, quebrando o feitiço. O Rei estava parado sob o arco de pedras, o rosto transformado em uma máscara de fúria e decepção.

​— Aria, para dentro. Agora! — Gaspar ordenou, sem desviar os olhos do sobrinho.

​Aria tentou protestar, mas o olhar de seu pai era inabalável. Ela olhou uma última vez para Caelum e correu em direção ao palácio, com as lágrimas começando a cair.

​O Confronto de Sangue

​Gaspar caminhou até Caelum. O silêncio que se seguiu era mais perigoso do que qualquer grito. O Rei observou o rapaz — o filho do seu irmão, o guerreiro que ele mesmo ajudara a moldar.

​— Eu o enviei para a Academia para ser o escudo dela, Caelum, não a ruína dela — a voz de Gaspar era baixa e perigosa. — Você conhece o protocolo. Você conhece as leis de sucessão e as leis da igreja. O que você está fazendo é uma sentença de traição.

​— Eu a amo, Majestade — Caelum respondeu, mantendo-se ereto, embora o respeito pelo tio o fizesse baixar o olhar.

​Gaspar deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal do sobrinho.

— Você fala de amor? Eu conheço a força, Caelum. Eu conheço o peso das correntes. Você sabe o que acontece com aqueles que desafiam o trono dessa forma? São as masmorras, o exílio ou algo pior. Eu pergunto a você, como o homem que deveria protegê-la: é isso que você quer para a Aria? Você quer vê-la perder a coroa? Quer vê-la ser humilhada pelo clero e arrastada para o escândalo?

​Caelum empalideceu. O peso das palavras de Gaspar atingiu o ponto mais vulnerável de sua armadura.

​— Se você realmente a ama como diz — continuou Gaspar, com a voz carregada de uma dor antiga —, você será o escudo que a protege até mesmo de você. Se eu vir esse tipo de comportamento novamente, eu o enviarei de volta para o Norte e, desta vez, não haverá navio de volta. Escolha bem o seu papel, Duque. Ou você é o herdeiro de Valmor, ou é o homem que destruirá a Rainha de Astúria.

​Gaspar virou as costas, deixando Caelum sozinho na escuridão do jardim. O jovem duque apertou os punhos até que as cicatrizes em suas mãos doessem, percebendo que a maior batalha de sua vida não seria contra um exército inimigo, mas contra o próprio sangue que corria em suas veias.