O ar nos corredores de Astúria parecia ter se tornado rarefeito. Onde antes havia cumplicidade e risos abafados, agora restava apenas o som metálico das botas de Caelum ecoando atrás do passo apressado e ríspido de Aria. Eles caminhavam em direção à ala leste, mantendo uma distância que não era apenas física, mas um abismo de mágoa.

​Aria parou bruscamente, sem se virar, observando uma tapeçaria antiga sem realmente enxergá-la.

​— Você não precisa mais fingir esse zelo excessivo, Duque — ela disse, a voz gélida e cortante como o vento do norte. — Logo o Conde Julian estará aqui. Você finalmente terá a liberdade que tanto deseja para buscar suas alianças... e sua noiva. Não terá mais que me aguentar.

​Caelum sentiu o sangue ferver. A frieza dela era um insulto maior do que qualquer grito. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço que ela tentava preservar.

​— Você fala como se eu estivesse partindo por escolha, Aria. Como se eu não desse a mínima — ele rebateu, a voz rouca de uma fúria contida.

​— E não dá! — Ela virou-se para ele, os olhos faiscando com um desprezo que o atingiu como um soco. — Você provou o que vale no café da manhã. Você é um calculista, Caelum. Alguém que coloca títulos acima de promessas. Para mim, você agora é apenas um estranho com um sobrenome familiar.

​— Um estranho? — Caelum soltou uma risada amarga, aproximando-se ainda mais, a postura imponente e ameaçadora. — Eu passei oito anos sangrando naquela academia com o seu nome na minha mente! Tudo o que eu fiz foi para voltar e garantir que você estivesse segura!

​— Então você falhou! — Aria gritou, perdendo o controle da máscara de indiferença. — Porque eu nunca me senti tão desprotegida e traída como agora! Você é um covarde que se esconde atrás de protocolos porque não tem coragem de enfrentar o que sente!

​— Eu não sou um covarde! Eu estou salvando a sua coroa de você mesma, sua princesa mimada e ingrata! — Caelum vociferou, a voz ecoando pelas paredes de pedra.

​— CHEGA!

​O grito de Gaspar silenciou o corredor instantaneamente.

​Aria e Caelum congelaram, as respirações pesadas e os rostos vermelhos de raiva. No fim do corredor, parados como estátuas de julgamento, estavam quatro pares de olhos que carregavam uma mistura de choque e profunda tristeza.

​Gaspar e Richard estavam à frente, com expressões severas e mandíbulas travadas. Logo atrás, Claire e Katrina observavam a cena com as mãos cobrindo a boca, vendo a dor crua que os filhos tentavam transformar em ódio. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, quebrado apenas pelo som distante do vento nas frestas das janelas. A máscara de "primos distantes" havia caído definitivamente diante dos olhos de quem mais temia aquele confronto.