As portas da sala de conselho se fecharam com um estrondo, isolando a família do resto do reino. O ar estava saturado de uma eletricidade perigosa. Gaspar, Richard, Claire e Katrina sentaram-se de um lado da mesa de carvalho, enquanto Aria e Caelum permaneciam de pé, em extremidades opostas, como dois animais feridos prontos para o abate.


​A discussão que começara no corredor explodiu novamente, mas agora com um veneno que nenhum dos adultos esperava.

​— Eu não aguento mais olhar para o rosto dele! — Aria gritou, apontando o dedo para Caelum. — Cada vez que vejo essa cicatriz, lembro do erro que cometi ao sentir falta de alguém tão vazio! Por mim, Caelum, você nunca teria voltado daquela Academia! Eu desejaria que o gelo tivesse te engolido e que você morresse antes de pisar em Astúria para me trair dessa forma! Suma da minha frente, suma da minha vida!

​O rosto de Caelum, que já era uma máscara de pedra, tornou-se cinzento. A dor de ouvir aquilo da única pessoa por quem ele sangrara durante oito anos transformou-se em uma fúria cega.

​— Pois eu desejo o mesmo! — ele rugiu, dando um soco na mesa que fez os cálices saltarem. — Eu desejaria nunca ter conhecido a menina do pátio de jogos! Desejaria que você fosse apenas uma desconhecida, e não essa princesa ingrata que prefere destruir tudo ao seu redor a aceitar a realidade! Se eu pudesse apagar cada memória sua da minha mente e te ver sumir deste reino para nunca mais voltar, eu faria agora mesmo! Você é a minha maldição, Aria!

​O Ultimato de Claire

​— CALEM A BOCA! OS DOIS!

​O grito de Claire não foi alto, mas carregava uma autoridade e uma dor tão cortantes que o silêncio caiu sobre a sala como uma mortalha. Ela se levantou lentamente, as lágrimas escorrendo pelo rosto, mas seus olhos brilhavam com uma severidade que fez Aria recuar.

​— Eu nunca... nunca em toda a minha vida — começou Claire, a voz tremendo de indignação —, senti tanta vergonha de ser mãe e tia de vocês dois.

​Ela caminhou até o centro da sala, olhando para a filha e depois para o sobrinho.

​— Vocês dois falam de morte? Falam de desejar que o outro suma? Vocês não têm ideia do que estão dizendo! — Claire aproximou-se de Aria, segurando-a pelos ombros com firmeza. — Nós lutamos contra exércitos, contra a fome e contra a morte real para que vocês tivessem o direito de estar aqui, vivos e seguros! E agora vocês usam as línguas para se matarem como se a vida fosse um jogo de crianças?

​Ela virou-se para Caelum, que não conseguia sustentar o olhar dela.

​— E você, Caelum... um soldado que viu a morte de perto, usando-a como arma contra o seu próprio sangue? Se o ódio de vocês é tão grande, se preferem ver o outro morto a serem homens e mulheres honrados, então vocês não são dignos deste sobrenome. Vocês estão agindo como monstros egoístas que cospem no sacrifício de seus pais!

​Claire voltou para o lado de Gaspar, a voz agora gélida.

​— Se querem se odiar, odeiem-se em silêncio. Mas se eu ouvir mais uma palavra sobre morte ou sumiço nesta mesa, eu mesma garantirei que vocês sejam separados de uma forma que nunca mais terão a chance de pedir perdão. Porque a morte não é um desejo, Aria... é um fim. E se ela vier para um de vocês, o outro passará o resto da vida queimando no inferno que acabou de criar aqui hoje.

​Aria baixou a cabeça, soluçando baixinho, enquanto Caelum apertava os punhos, o peso das palavras de Claire caindo sobre eles como uma sentença. A família, que deveria ser o porto seguro, agora era o campo de batalha de uma guerra onde ninguém sairia vencedor.