Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
16 Beijos e ofensas
O silêncio nos aposentos de Aria foi quebrado pelo estrondo da porta se abrindo. Caelum entrou como uma tempestade, a fúria emanando de cada cicatriz em seu rosto. Ele parou a poucos centímetros dela, a respiração pesada, os olhos azuis faiscando de um ciúme que ele tentava, em vão, mascarar como autoridade.
— Julian é o seu escudo, Aria. Nada mais — ele sentenciou, a voz rouca e vibrante. — Ele está aqui para vigiar as sombras, não para ocupar os seus pensamentos ou receber esses seus olhares. Eu proíbo você de se interessar por ele. Entendeu bem? Eu proíbo!
Aria soltou uma risada alta e amarga, um som que ecoou pelas paredes de pedra.
— Você proíbe? Quem você pensa que é? O meu dono? O meu noivo? — Ela deu um passo à frente, o rosto vermelho de indignação. — Você abriu mão desse direito no momento em que aceitou se vender por um contrato de casamento!
Em um movimento súbito, movida por uma raiva acumulada de dias de desprezo, Aria desferiu um tapa sonoro no rosto do primo. O impacto fez a cabeça de Caelum virar para o lado. O silêncio que se seguiu foi elétrico.
Caelum voltou o rosto lentamente, os olhos agora sombrios. Antes que ela pudesse reagir, ele a segurou pelos braços com força, sacudindo-a.
— Eu te odeio, Aria! Eu odeio o modo como você me olha, odeio o modo como você me desafia e odeio o fato de que eu tive que me destruir para te salvar! — ele rugiu, o rosto a milímetros do dela.
— Pois eu te odeio mais! — ela gritou de volta, tentando se soltar, mas colando o corpo ao dele no processo. — Odeio a sua covardia, odeio o seu orgulho e odeio o fato de que você ainda respira o mesmo ar que eu!
A fúria atingiu o ponto de ruptura e, em vez de outro golpe, os lábios se encontraram em um beijo desesperado, uma mistura de ódio, urgência e uma devoção que nenhum sermão fora capaz de apagar. Era um beijo de guerra e de entrega.
— PAREM COM ESSA LOUCURA!
Claire estava parada à porta, o rosto pálido e a voz carregada de uma dureza que Aria nunca imaginara ver na mãe. Ela não gritou, mas o peso de suas palavras foi pior que qualquer açoite.
— Caelum, saia daqui. Agora — Claire ordenou, apontando para o corredor. O rapaz, ainda atordoado e com os lábios marcados, soltou Aria e saiu sem olhar para trás, a cabeça baixa pela primeira vez.
Claire caminhou até a filha, que tentava recompor o vestido e o fôlego.
— Você não aprendeu nada com a dor que causamos a esta família? — a rainha perguntou, a voz gélida. — Seus atos são egoístas, Aria. Você está brincando com fogo em um palácio de papel.
Aria tentou desviar o olhar, mas Claire segurou seu queixo.
— Julian é um conde honrado, é bonito, charmoso e, ao contrário do seu primo, ele pode lhe oferecer um futuro sem sombras e sem vergonha. Ele seria um partido maravilhoso para uma princesa que realmente se importa com o seu povo e com a sua própria dignidade.
Claire deu as costas e saiu, fechando a porta e deixando Aria mergulhada no silêncio sufocante do quarto. A princesa sentou-se na cama, o calor do beijo de Caelum ainda queimando em seus lábios, enquanto as palavras da mãe sobre Julian ecoavam como uma sentença. Ela estava dividida entre a chama que a consumia e o porto seguro que todos esperavam que ela aceitasse.
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