Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
17 O Reflexo nas Águas
O sol da tarde dourava as águas do lago, criando um cenário de tranquilidade que contrastava com a tempestade que Aria carregava no peito. Ao seu lado, Julian caminhava com a postura relaxada de quem estava acostumado a terrenos difíceis, mas sua presença era leve, desprovida da tensão sombria que acompanhava cada passo de Caelum.
Aria observava Julian de soslaio. Ele não parecia um soldado em guarda, mas sim um companheiro de passeio. Curiosa, e talvez querendo abafar as vozes em sua cabeça, ela quebrou o silêncio.
— Conte-me sobre Valória, Julian. Sobre sua família e como é a vida onde o gelo nunca derrete totalmente. Quero saber quem é o homem que meu primo confia tanto a ponto de entregar a minha vida em suas mãos.
Julian soltou uma risada curta e melodiosa, parando à beira da água para observar um cisne.
— Valória é um lugar de contrastes, Alteza. É duro e implacável, mas as auroras boreais fazem tudo valer a pena. Venho de uma linhagem de condes que valorizam mais a palavra dada do que o ouro guardado. Meu pai me ensinou a ler o vento antes de desembainhar a espada.
Ele se virou para ela, os olhos verdes brilhando com uma sinceridade desarmante.
— Tenho duas irmãs que falam mais que um regimento inteiro e uma mãe que governa a nossa casa com mais punho de ferro que meu pai no campo de batalha. Fui criado para ser leal, mas também para apreciar a beleza onde ela existe. E devo dizer... Astúria é muito mais quente do que os mapas sugeriam, em todos os sentidos.
Aria sorriu genuinamente pela primeira vez em dias. — Suas irmãs... elas são como eu?
— Elas têm o seu espírito, mas talvez não a sua paciência — Julian brincou, fazendo Aria rir. — Elas teriam adorado ver como você enfrentou aquele banquete. No Norte, admiramos mulheres que não abaixam a cabeça.
A Sombra à Distância
A poucos metros dali, escondido sob a sombra dos arcos de pedra do claustro, Caelum observava a cena. A mandíbula dele estava tão travada que os músculos do pescoço saltavam. Ver Aria rir — um riso que ele não ouvia há dias — e vê-la olhar para Julian com aquela curiosidade descontraída era como sentir uma lâmina sendo girada em suas entranhas.
Ele apertava o parapeito de pedra com tanta força que pequenas lascas de calcário se soltavam sob seus dedos.
— Ele está fazendo exatamente o que eu pedi — Caelum sussurrou para si mesmo, a voz carregada de uma amargura tóxica. — Ele a está protegendo. Ele a está distraindo.
Mas a racionalidade de Caelum estava perdendo a batalha para o instinto. Ele odiava o modo como Julian gesticulava, odiava como Aria inclinava a cabeça para ouvi-lo. Ele queria descer lá, arrancar Julian de perto dela e gritar que aquele riso pertencia a ele, e a mais ninguém.
A raiva que ele sentia não era mais apenas pela quebra de protocolo ou pelo perigo da coroa; era a raiva pura e simples de um homem que via o seu mundo sendo ocupado por outro, enquanto ele mesmo se condenara ao papel de espectador silencioso nas sombras.
Aria, sentindo-se observada, olhou rapidamente para o castelo. Ela não viu Caelum, mas sentiu o peso do olhar dele. Em resposta, ela se aproximou um pouco mais de Julian, tocando levemente o braço do Conde enquanto faziam o caminho de volta, deixando claro para quem estivesse olhando que o "escudo" estava cumprindo seu papel com perfeição — e que a princesa estava disposta a seguir o conselho de sua mãe, custasse o que custasse ao seu próprio coração.
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