O sol do meio-dia brilhava intensamente sobre o gabinete real, onde Caelum, agora um homem de postura ainda mais imponente e olhar temperado pela responsabilidade, assinava os últimos tratados de comércio da manhã. O som da pena no pergaminho era o único ruído, até que o som longo e profundo do apito de um navio cortou o ar, vindo da baía.

​A porta do gabinete abriu-se com pressa. Katrina entrou com o rosto radiante, as mãos unidas junto ao peito.

​— Eles chegaram, Caelum! — anunciou ela, com a voz embargada. — O navio de Valória acaba de atracar. Aria está de volta com Julian... e a irmã dele também os acompanha.

​Caelum largou a pena imediatamente. Um misto de ansiedade e uma alegria que ele não sentia há anos percorreu seu corpo. Ele não caminhou; ele correu pelos corredores do castelo até o porto.

​O Reencontro no Porto

​Ao chegar ao cais, o navio "Lobo do Norte" já estava firme na plataforma. A passarela foi descida e a primeira figura a surgir foi Aria. Ela estava radiante, com uma aura de serenidade que a tornava ainda mais bela. O vestido de viagem, ajustado, revelava uma barriga arredondada e nítida de alguns meses de gestação.

​Caelum rompeu o protocolo e correu em sua direção.

​— Aria! — ele exclamou, envolvendo-a em um abraço protetor e cuidadoso.

​— Devagar, Caelum! — ela riu, retribuindo o abraço com força. — Agora somos dois aqui dentro para você carregar.

​— Você está maravilhosa, prima — disse ele, afastando-se para olhar o rosto dela, antes de apertar a mão de Julian com sinceridade. — Bem-vindo de volta, meu amigo. Vejo que cuidou muito bem do tesouro de Astúria.

​— Eu prometi, não prometi? — Julian sorriu, abraçando o cunhado. — E agora trazemos reforços para a linhagem.

​Foi então que o olhar de Caelum desviou para a passarela novamente. Descendo logo atrás, estava Catarina. O tempo fora generoso com ela. O rosto mantinha os traços decididos, mas havia uma maturidade nova em seu caminhar. Os cabelos escuros estavam soltos, ondulando com o vento marítimo, e aquele ar rebelde e indomável ainda brilhava em seus olhos.

​Ela parou diante dele, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha, exatamente como ele se lembrava.

​— Três anos, Duque... ou devo dizer, Príncipe Herdeiro? — ela provocou, o tom de voz suave, mas carregado daquele deboche que ele tanto sentira falta. — Deixe-me ver... a coluna continua reta, mas os cabelos parecem que viram muitos papéis ultimamente. Senti cheiro de poeira de biblioteca daqui de cima.

​Caelum sentiu um sorriso involuntário, largo e genuíno, surgir em seu rosto. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço dela.

​— E você continua com a língua mais afiada que a espada do seu irmão, Catarina — ele rebateu, a voz baixando para um tom que só ela ouviu. — Devo admitir que o castelo estava insuportavelmente em paz sem você. Senti falta de ser insultado todos os dias.

​Catarina soltou uma risada cristalina, os olhos fixos nos dele.

— Bem, a paz acabou. Eu disse que voltaria para cobrar aquele encontro. E vejo que você cumpriu a promessa: parece bem menos "azedo" do que quando partiu.

​— Muita coisa mudou por aqui — Caelum disse, estendendo o braço para que ela se apoiasse. — Mas algumas sombras só podem ser dissipadas por uma certa tormenta do Norte.

​— Então prepare-se, Vossa Alteza — ela aceitou o braço dele, o toque enviando uma faísca familiar entre os dois. — Eu não vim apenas para visitar. Vim ver se este reino finalmente aprendeu a lidar com uma mulher que não se curva a coroas.

​Caelum riu, conduzindo-a em direção às carruagens sob o olhar atento e cúmplice de Aria e Julian.

— Se depender de mim, Catarina, você terá todo o trabalho do mundo para me manter na linha.

​Enquanto caminhavam, as famílias se uniam novamente. Gaspar e Richard abraçavam Julian e os pais, enquanto Katrina já planejava o berçário. Mas, no centro de tudo, o Príncipe de Astúria e a Dama de Valória trocavam olhares que deixavam claro: a verdadeira história entre eles estava apenas começando.