O clima no castelo havia se tornado um deserto de gelo. Aria não apenas evitava Caelum; ela agia como se ele fosse um fantasma incômodo nos corredores. A proximidade que antes era natural agora fora substituída por um abismo de mágoa e indiferença fingida.


​O almoço de domingo, que deveria ser um momento de união familiar, estava mais para uma reunião de estratégia militar. Aria, mantendo a postura ereta e o olhar fixo em um ponto vazio na parede, quebrou o silêncio sem olhar para o lado onde o primo estava sentado.

​— Papai — a voz de Aria soou clara e desprovida de qualquer emoção. — Gostaria de fazer um pedido formal.

​Gaspar levantou os olhos, atento. — Diga, minha filha.

​— Quero que providencie um novo escudo para mim. O Duque Caelum provou que seus interesses estão voltados para a política e para o seu futuro ducado, e eu não desejo mais os seus serviços. Mas faço uma exigência: quero que seja um nobre de longe, de terras estrangeiras, que não tenha ligações com as intrigas desta corte.

​Caelum apertou o garfo com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Uma veia pulsou em sua têmpora, e a fúria brilhou em seus olhos azuis por um segundo antes de ele forçar a calma. Ele queria gritar que ninguém a protegeria como ele, mas as palavras duras que dissera no lago ainda o acorrentavam.

​Gaspar olhou de Aria para Caelum, sentindo a eletricidade entre os dois.

— Se é esse o seu desejo para garantir a sua paz, Aria... eu acatarei. Vou procurar entre as casas nobres das fronteiras alguém que seja digno de tal cargo.

​Aria assentiu secamente, levantou-se e saiu do salão sem lançar um único olhar para o primo, deixando para trás um Caelum que exalava uma raiva silenciosa e perigosa.

​A Indicação Amarga

​Mais tarde naquele mesmo dia, o Rei estava em seu gabinete revisando mapas quando Caelum entrou. O jovem duque não pediu licença; sua presença era como uma sombra pesada que invadia o cômodo.

​— Majestade — Caelum disse, a voz mais rouca que o normal. — Soube que está procurando um substituto.

​Gaspar suspirou, largando a pena. — Aria foi enfática, Caelum. E, dadas as circunstâncias, talvez um rosto novo ajude a apagar esse incêndio entre vocês.

​Caelum engoliu o próprio orgulho, sentindo o gosto amargo da traição que ele mesmo planejara contra seu coração. Se ele não podia ser o escudo dela, que fosse alguém em quem ele pudesse confiar a vida da mulher que amava.

​— Se quer alguém de longe e destemido, há apenas um nome — disse Caelum, aproximando-se da mesa. — O Conde Julian de Valória. Ele foi meu único amigo na Academia de Ferro. Ele é um guerreiro formidável, um estrategista brilhante e, acima de tudo, um homem de honra inquestionável. Ele vem das terras do extremo norte, não tem alianças aqui e não se deixará levar por fofocas de salão.

​Gaspar arqueou uma sobrancelha. — O seu amigo? Você confia nele para proteger a futura Rainha?

​— Com a minha própria vida, senhor — Caelum respondeu, as palavras saindo com dificuldade. — Se eu não for o escudo dela, que seja o melhor homem que eu já conheci em campo de batalha.

​Gaspar assentiu, pegando um pergaminho para redigir o convite.

— Muito bem. Enviaremos o mensageiro ao amanhecer.

​Caelum saiu do gabinete sentindo o peso do mundo em seus ombros. Ele acabara de dar o lugar que sempre foi seu a outro homem. O plano de salvar Aria de si mesma estava em pleno vigor, mas ele não contava que a dor de ver outro protegendo-a seria o golpe mais cruel que já recebera.