Saga Herdeiros de Astúria Livro 2

6 Uma atração avassaladora crescente


O vento açoitava o rosto de Aria, desfazendo o penteado impecável que as aias levaram horas para construir. Ela não se importava. A fúria que sentia contra as conveniências da corte precisava de espaço, e o galope desenfreado de seu cavalo era a única coisa capaz de abafar as vozes de seu pai e do Bispo em sua mente.

​A grama alta do descampado parecia um mar verde sob as patas do animal, até que um som rítmico e pesado começou a segui-la. Outro cavaleiro se aproximava com uma perícia assustadora.

​— Aria, pare! — A voz de Caelum ecoou como um comando de general, firme e impossível de ignorar.

​Ela puxou as rédeas com força, fazendo o cavalo relinchar. Aria saltou da sela antes mesmo do animal parar completamente, caminhando a passos largos até a única árvore retorcida que resistia solitária no horizonte. Com mãos trêmulas de raiva, ela amarrou a rédea ao tronco.

​Caelum desmontou com a calma de quem já enfrentou tempestades piores. Ele caminhou até ela, mantendo uma distância segura, mas sua presença parecia ocupar todo o espaço aberto.

​— Você vai se matar se continuar cavalgando desse jeito — ele disse, a voz agora mais baixa, mas ainda carregada daquela nova autoridade.

​— Talvez fosse melhor assim! — Aria virou-se para ele, os olhos faiscando. — Pelo menos morta eu não teria que ouvir meu pai e o seu oferecendo nossos nomes como se fôssemos gado em uma feira de domingo! Você não se importa? Você chega ontem e hoje já estão decidindo quem será a sua duquesa!

​Caelum deu um passo à frente, aproximando-se o suficiente para que Aria sentisse o calor que emanava dele. Ele soltou um suspiro pesado e um meio sorriso surgiu em seus lábios, suavizando a dureza de suas cicatrizes.

​— Aria, olhe para mim — ele pediu. Quando ela finalmente o encarou, ele continuou: — Eu passei oito anos sendo moldado pelo ferro e pelo gelo para ser o seu escudo, não o fantoche de algum conde ambicioso. Eu não tenho a menor intenção de me casar com ninguém daquela corte.

​Aria sentiu a respiração falhar, mas manteve o queixo erguido. — Eles vão pressionar você, Caelum. Você viu como aquelas jovens olhavam para você ontem.

​— Deixe que olhem — ele respondeu, dando mais um passo, encurtando o espaço entre eles até que Aria pudesse ver o reflexo das nuvens nos olhos azuis dele. — Nada mudou, pequena princesa. Eu ainda sou o seu servo preferido, lembra? O seu escudo. Você não vai me perder para nenhum contrato de casamento ou festa de aniversário. Eu estou aqui por você.

​Aria sentiu o coração desacelerar, a raiva sendo substituída por algo muito mais perturbador: a proximidade dele.

​— Meu servo preferido? — ela repetiu, tentando recuperar o tom irônico, embora sua voz tenha saído quase como um sussurro.

​— O mais leal de todos — ele confirmou, com o olhar fixo nos lábios dela por um segundo a mais do que o necessário. — Então, por favor, pare de tentar fugir de mim. Eu acabei de voltar para casa.

​O silêncio do campo foi preenchido apenas pelo som do vento nas folhas da árvore. Aria percebeu que, embora Caelum dissesse que nada mudara, tudo estava irremediavelmente diferente. O menino que a seguia agora era o homem que a fazia querer ficar exatamente onde estava.