Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
15 O Lobo de Valória
O porto de Astúria estava sob uma névoa fina quando o navio de Valória atracou. A tensão dos dias anteriores ainda pairava sobre a família real como uma nuvem carregada, mas a chegada do novo "escudo" trazia uma distração necessária, embora amarga para Caelum.
Um jovem saltou da passarela com uma leveza que contrastava com a armadura de couro batido e o manto cinza-azulado que ostentava o brasão do norte. Ele tinha cabelos claros, quase platinados, e olhos verdes que pareciam analisar cada centímetro do porto com uma curiosidade inteligente.
Caelum deu um passo à frente. O reencontro entre os amigos foi selado com um aperto de mãos firme, um choque de antebraços que denunciava a irmandade forjada no gelo da Academia.
— Você demorou, Julian — disse Caelum, a voz rouca, tentando esconder o aperto no peito por estar entregando seu posto.
— As tempestades do norte não respeitam convites reais, meu amigo — Julian respondeu com um sorriso de canto, antes de se curvar diante de Gaspar e Richard. — Majestades. É uma honra servir à casa Heraldrick.
Após as apresentações formais aos pais, a multidão se abriu. Aria aproximou-se, vestindo um traje de montaria em veludo escuro que realçava seu porte altivo. Ela estava preparada para ser fria, para mostrar a Caelum que qualquer um poderia substituí-lo.
Mas, ao bater os olhos em Julian, o ar faltou nos pulmões da princesa.
Julian não era apenas um soldado; ele exalava um charme magnético, uma beleza solar que era o oposto da aura sombria e atormentada de Caelum. Ele se ajoelhou diante dela, pegando sua mão com uma delicadeza que Aria não esperava.
— Princesa Aria — ele disse, a voz melodiosa mas firme. — Ouvi dizer que Astúria tinha a joia mais radiante do continente, mas vejo que os boatos foram modestos. A partir de hoje, minha espada e minha vida pertencem à senhora.
Aria sentiu o rosto esquentar sob o olhar atento de Julian — e sob o olhar furioso de Caelum, que observava a cena a poucos passos.
— Seja bem-vindo, Conde Julian — Aria respondeu, recuperando a voz e lançando um olhar de soslaio para o primo, apenas para ver a mandíbula dele travada. — Espero que esteja pronto. O cargo de meu escudo exige... muita resistência. Especialmente contra traições.
Julian levantou-se, mantendo o sorriso charmoso.
— Venho do gelo eterno, Alteza. A resistência é a minha especialidade. E a lealdade é o meu único norte.
Caelum deu um passo à frente, interrompendo o momento.
— Julian precisa descansar da viagem, Aria. Eu o levarei aos seus aposentos e farei o relatório sobre a segurança.
— O Conde Julian responderá diretamente a mim, Duque — Aria cortou, a voz gélida. — Você já cumpriu sua parte indicando-o. Agora, pode voltar para seus planos de noivado. Julian, venha comigo. Quero mostrar pessoalmente os limites do jardim onde você deverá vigiar.
Julian olhou de um para o outro, percebendo a eletricidade perigosa no ar. Ele ofereceu o braço para Aria com uma elegância impecável.
— Será um prazer, minha senhora.
Enquanto eles se afastavam, Caelum permaneceu no cais, as mãos fechadas em punhos tão apertados que as unhas feriam as palmas. Ele indicara Julian porque confiava nele, mas ver a admiração nos olhos de Aria e o charme natural do amigo o fez perceber que acabara de colocar um lobo jovem e sedutor dentro do seu próprio coração ferido.
Gaspar e Richard trocaram olhares preocupados ao fundo. A estratégia para separar os primos estava funcionando, mas o novo elemento no tabuleiro prometia um jogo que ninguém ali sabia como controlar.
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