O porto de Astúria estava sob uma névoa fina quando o navio de Valória atracou. A tensão dos dias anteriores ainda pairava sobre a família real como uma nuvem carregada, mas a chegada do novo "escudo" trazia uma distração necessária, embora amarga para Caelum.


​Um jovem saltou da passarela com uma leveza que contrastava com a armadura de couro batido e o manto cinza-azulado que ostentava o brasão do norte. Ele tinha cabelos claros, quase platinados, e olhos verdes que pareciam analisar cada centímetro do porto com uma curiosidade inteligente.

​Caelum deu um passo à frente. O reencontro entre os amigos foi selado com um aperto de mãos firme, um choque de antebraços que denunciava a irmandade forjada no gelo da Academia.

​— Você demorou, Julian — disse Caelum, a voz rouca, tentando esconder o aperto no peito por estar entregando seu posto.

​— As tempestades do norte não respeitam convites reais, meu amigo — Julian respondeu com um sorriso de canto, antes de se curvar diante de Gaspar e Richard. — Majestades. É uma honra servir à casa Heraldrick.

​Após as apresentações formais aos pais, a multidão se abriu. Aria aproximou-se, vestindo um traje de montaria em veludo escuro que realçava seu porte altivo. Ela estava preparada para ser fria, para mostrar a Caelum que qualquer um poderia substituí-lo.

​Mas, ao bater os olhos em Julian, o ar faltou nos pulmões da princesa.

​Julian não era apenas um soldado; ele exalava um charme magnético, uma beleza solar que era o oposto da aura sombria e atormentada de Caelum. Ele se ajoelhou diante dela, pegando sua mão com uma delicadeza que Aria não esperava.

​— Princesa Aria — ele disse, a voz melodiosa mas firme. — Ouvi dizer que Astúria tinha a joia mais radiante do continente, mas vejo que os boatos foram modestos. A partir de hoje, minha espada e minha vida pertencem à senhora.

​Aria sentiu o rosto esquentar sob o olhar atento de Julian — e sob o olhar furioso de Caelum, que observava a cena a poucos passos.

​— Seja bem-vindo, Conde Julian — Aria respondeu, recuperando a voz e lançando um olhar de soslaio para o primo, apenas para ver a mandíbula dele travada. — Espero que esteja pronto. O cargo de meu escudo exige... muita resistência. Especialmente contra traições.

​Julian levantou-se, mantendo o sorriso charmoso.

— Venho do gelo eterno, Alteza. A resistência é a minha especialidade. E a lealdade é o meu único norte.

​Caelum deu um passo à frente, interrompendo o momento.

— Julian precisa descansar da viagem, Aria. Eu o levarei aos seus aposentos e farei o relatório sobre a segurança.

​— O Conde Julian responderá diretamente a mim, Duque — Aria cortou, a voz gélida. — Você já cumpriu sua parte indicando-o. Agora, pode voltar para seus planos de noivado. Julian, venha comigo. Quero mostrar pessoalmente os limites do jardim onde você deverá vigiar.

​Julian olhou de um para o outro, percebendo a eletricidade perigosa no ar. Ele ofereceu o braço para Aria com uma elegância impecável.

— Será um prazer, minha senhora.

​Enquanto eles se afastavam, Caelum permaneceu no cais, as mãos fechadas em punhos tão apertados que as unhas feriam as palmas. Ele indicara Julian porque confiava nele, mas ver a admiração nos olhos de Aria e o charme natural do amigo o fez perceber que acabara de colocar um lobo jovem e sedutor dentro do seu próprio coração ferido.

​Gaspar e Richard trocaram olhares preocupados ao fundo. A estratégia para separar os primos estava funcionando, mas o novo elemento no tabuleiro prometia um jogo que ninguém ali sabia como controlar.