A manhã em Astúria nasceu banhada por uma luz pálida e serena, refletindo a nova realidade que se assentava sobre o reino. No pequeno salão de café da manhã, longe das formalidades do Grande Salão, a mesa estava posta para a família real e os conselheiros mais próximos. O som da louça e o aroma de pães frescos preenchiam o ar, mas o silêncio era interrompido apenas pelo anúncio que mudaria o curso da história.

​O Novo Herdeiro

​Gaspar pousou sua xícara de porcelana e olhou diretamente para Caelum, que sentava-se à sua direita. O rei parecia ter tirado um peso enorme dos ombros, mas seus olhos carregavam a seriedade de quem rediz o destino.

​— O destino de Aria agora está traçado em outras terras — começou Gaspar, sua voz firme ecoando no ambiente. — Ela será rainha, sim, mas do Norte. O lugar dela agora é ao lado de Julian, unindo dois povos. Mas Astúria não pode ficar sem um coração.

​Ele fez uma pausa, olhando de relance para Richard, que assentiu brevemente.

​— A partir de hoje, Caelum, você assume oficialmente o título de Príncipe Herdeiro de Astúria. Se qualquer coisa acontecer a mim, ou se os tempos exigirem, o trono será seu por direito e dever. Você não é mais apenas o escudo; você é o herdeiro.

​Um suspiro de alívio e orgulho escapou de Katrina. Ela tocou a mão do filho, os olhos brilhando de emoção. Claire sorriu, aceitando que a sucessão de sua filha estava em mãos em que ela confiava plenamente.

​A Forja de um Príncipe

​A partir daquele anúncio, a vida de Caelum transformou-se em uma rotina exaustiva de preparação. Ele não treinava mais apenas com a espada, mas com as palavras e a mente.

​Com Richard: Caelum passava horas em salas de mapas e registros. Richard, com sua disciplina impecável, ensinava ao filho as nuances da diplomacia, a gestão das leis e como manter a lealdade dos barões locais. Era o pai moldando o filho para o ápice da nobreza.

​Com Gaspar: O rei levava Caelum para as audiências públicas. Ensinava-o a ouvir o povo, a distinguir a verdade da adulação e a tomar decisões difíceis sob pressão.

​Com Katrina: Sua mãe garantia que ele nunca perdesse a sensibilidade. Orgulhosa, ela o via vestir as túnicas com o brasão real, sentindo que o destino finalmente fizera justiça à linhagem de sua família.

​O Horizonte e a Saudade

​No entanto, quando as lições terminavam e o castelo mergulhava no silêncio da noite, Caelum buscava refúgio na sacada de seus novos aposentos ou na torre mais alta.

​Ele observava o horizonte, exatamente na direção em que o navio de Valória havia desaparecido. Ele pensava em Aria com o carinho de um irmão, mas, para sua própria surpresa, era uma outra imagem que teimava em invadir seus pensamentos.

​Ele se pegava lembrando do brilho insolente nos olhos de Catarina, do toque do livro de poesias contra seu peito e do modo como ela o chamava de "Vossa Amargura" com um sorriso debochado. O príncipe herdeiro, agora cercado por deveres e coroas, sentia que o castelo estava vazio demais sem as provocações daquela jovem nortista.

​— Três anos... — ele sussurrava para o vento frio da noite.

​Ele fechava os olhos e, por um breve momento, não era o peso do trono que sentia, mas a saudade de uma certa jovem que o ensinara que, para ser um rei, ele primeiro precisava aprender a viver fora das sombras.