Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
40 As vezes devemos ficar quietos
O banquete daquela noite transcorria sob uma calmaria aparente, mas a tensão entre Caelum e Catarina ainda vibrava como uma corda de alaúde esticada ao máximo. Gaspar, Richard e Claire conversavam em tons baixos, enquanto Katrina observava o filho com um olhar carregado de expectativa e orgulho.
Caelum parecia ter seguido os conselhos do tio. Ele estava mais contido, com uma postura de príncipe que aceitara o desafio de agir em vez de apenas rosnar.
Julian, percebendo que era o momento de intervir, levantou-se e pigarreou, chamando a atenção de todos.
— Como chefe da casa de Valória e irmão de Catarina — começou Julian, com um brilho cúmplice nos olhos — decidi dar ouvidos a um pedido formal. Hoje, concedi a um novo cavaleiro o direito de cortejá-la. Um homem que, finalmente, provou que sua intenção é tão firme quanto sua linhagem.
Catarina arqueou a sobrancelha, deixando o talher de prata de lado com um sorriso sarcástico.
— Um novo cavaleiro? — ela riu. — E quem seria o corajoso desta vez? O pobre Stefan Drake finalmente criou coragem ou você achou algum outro nobre desesperado em Astúria?
Julian sorriu e apontou para a cabeceira oposta.
— O Príncipe Herdeiro, Caelum.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pela gargalhada cristalina e cortante de Catarina. Ela jogou a cabeça para trás, rindo com um desdém que ecoou pelas paredes de pedra do salão.
— Caelum? — ela perguntou, recuperando o fôlego, mas mantendo o tom de deboche. — O Duque das Sombras agora quer ser um cavaleiro andante? Por favor, Julian! Ele não sabe nem ser gentil em um café da manhã, quem dirá sustentar um cortejo. Ele só está fazendo isso por orgulho ferido, para não perder para o Drake. É patético.
Caelum sentiu cada palavra como um golpe físico. O rosto dele empalideceu, perdendo a cor avermelhada do ciúme e dando lugar a uma expressão de profunda mágoa. Ele olhou para Catarina, esperando ver um rastro de brincadeira, mas só encontrou o desdém que ela usava como armadura.
Lentamente, Caelum levantou-se. Ele não gritou, nem bateu na mesa. Sua voz saiu baixa e fria, carregada de uma dignidade ferida que silenciou até a risada dela.
— Julian — disse Caelum, olhando para o amigo. — Eu agradeço a honra. Mas, diante de tamanha clareza... eu retiro oficialmente o meu pedido de cortejo. Não há sentido em oferecer o que não é valorizado.
O salão mergulhou em um silêncio sepulcral. Caelum fez uma reverência curta aos reis e, antes que alguém pudesse protestar, saiu do salão com passos firmes, deixando para trás um rastro de gelo.
Katrina, que até então assistia a tudo calada, sentiu o coração de mãe apertar. Ela levantou-se com uma elegância letal, os olhos fixos em Catarina com uma severidade que fez a jovem de Valória perder o sorriso.
— Você deveria se sentir totalmente lisonjeada, Catarina — começou Katrina, a voz tremendo de indignação contida. — Meu filho nunca, em toda a sua vida, pediu para cortejar alguém. Ele sempre colocou o dever e este reino acima de seus próprios desejos. O que ele ofereceu a você hoje foi a maior prova de vulnerabilidade que ele já demonstrou.
Ela deu um passo à frente, ignorando o olhar de surpresa de Gaspar.
— Mas você preferiu o deboche. Um deboche ridículo e infantil. Talvez, Catarina, você tenha acabado de perder o único homem que seria capaz de atravessar o inferno para te proteger, tudo por causa desse seu orgulho que você chama de rebeldia.
Katrina olhou para Richard, sinalizando que também se retiraria. Catarina ficou estática, a taça de vinho parada na mão, enquanto a realidade das palavras começava a pesar sobre seus ombros como o chumbo das nuvens do Norte.
Fale com o autor