Safe
2 Reaping
Maggie, nossa mestre cerimonial dos Jogos Vorazes, precisou dar centenas de passos para atravessar o curto espaço que havia entre a porta do Edifício da Justiça até o microfone. Seu calçado se igualava as sapatilhas das bailarinas de nosso distrito, fazendo-a andar na ponta dos dedos. Sua roupa era feita da imitação da pelagem de urso polar pintada. Rosa. Do mais vibrante para o mais fraco, tudo era rosa. Nunca estive envolta em um vestido com tanto pelo, mas parecia apropriado para o frio que se estendia sobre o nosso distrito.
– Bem-vindos! – Ela tamborilou sobre o microfone. Sorriu ao constatar o barulho que seus dedos fizeram. – Bem-vindos, bem-vindos.
Sua boca fora cirurgicamente moldada para parecer um coração e sua fala ainda sentia o efeito. Me perguntava se algum dia ela voltaria a falar de forma limpa e coesa. As feições dos tributos, tanto femininos, quanto masculinos, demonstravam que o embolar de suas palavras não fazia sentido para ninguém. A banca, onde se sentavam o prefeito, a primeira dama e os 9 vitoriosos de nosso distrito, estava perplexa.
– Feliz Jogos Vorazes! – finalizou sua breve locução.
O prefeito se levantou. Royce King I era alto, de meia idade, e começava a ficar grisalho e barrigudo, típico fenótipo dos homens de sua idade. Ele foi pacificador antes de ser prefeito, e pode ter certeza que os anos sentado atrás daquela mesa o detonaram. Sua voz, um pouco rouca, cortou o ar com uma forma quase robótica para explicar o motivo da criação dos jogos.
– Guerra. – suspirou antes de prosseguir – A terrível guerra. O levante que trouxe para a nossa terra viúvas, órfãos e mortes de todas as formas dolorosas que se pode imaginar. Os 13 distritos se rebelaram contra o país que os alimentava, amava e protegia. Irmãos contra irmãos, até não sobrar nada. E então veio a paz, da luta difícil, de vitória lenta. As pessoas ressurgiram das cinzas e uma nova era começou. Mas a liberdade tinha um preço. Quando os traidores foram derrotados, o tratado de traição foi criado. Nele, foi decretado que todos os anos os distritos de Panem ofereceriam como tributo um jovem e uma jovem para lutar até a morte por sua honra, coragem e sacrifício.
Sua voz ricocheteava nos meus ouvidos, mas, por algum motivo, eu não conseguia mais escuta-lo. Meus olhos se prenderam na esfera de cristal lotada de pequenos papéis simetricamente dobrados. Não tinha mais idéia de quantas vezes meu nome se repetia naquela urna.
Por mas que houvesse mais milhares de nomes na mesma situação, eu ainda podia sentir o frio subindo por dentro de mim. Era uma sensação congelante, como um cala frio pelo corpo todo. O ar gélido cortou minha pele me fazendo arrepiar.
A pigarreada de nossa cerimonialista me tirou dos devaneios. Ela murmurou algumas palavras que julguei ser “Que as chances estejam sempre ao seu favor!” e depois seguiu para a grande esfera feminina.
– Agora chegou a hora de selecionarmos nossos jovens corajosos que terão a honra de representar o Distrito 01 na 60ª Edição Anual dos Jogos Vorazes. Como sempre, primeiro as Damas. – informou o Prefeito antes de retornar ao seu lugar.
Uma longa pausa se fez. Maggie olhou para a ala feminina como se esperasse algum pronunciamento. O que não ocorreu. Balançou os ombros diversas vezes, e levantou ainda mais o queixo. Lentamente enfiou a mão na esfera. Retirou um pequeno papel, o girou entre os dedos e quase o deixou cair. De volta à frente do microfone quebrou o detalhado lacre de cera dourada. Tentou dar um sorriso e falar o nome e sobrenome selecionado, mas sua boca não a auxiliou.
Após algumas tentativas, Emmett McCarty se levantou. O urso, como era conhecido, caminhou a longos passos até a minúscula Maggie. Tomou o papel de suas mãos e se inclinou sobre o microfone. Era quase imperceptível sua testa franzida, mas eu vi. Poderia ser apenas cisma minha, mas jurava que ele estava perplexo. Sem nenhum cumprimento ou brincadeira, o que era de se estranhar, ele pronunciou o nome de forma seca.
– Rosalie Hale.
Eu choquei. Congelei, para ser mais exata. Alguns garotos e garotas procuravam o rosto da tal Rosalie Hale no meio da multidão. Eu não era conhecida, mas ninguém teve dificuldades em me encontrar. Talvez a cara de espanto estivesse engraçada, porém ninguém riu.
Não conseguia me mover. Por mais que eu quisesse sair correndo dali e me esconder onde ninguém nunca me encontraria, eu não consegui. Um dos pacificadores praticamente me puxou para fora da multidão e me guiou, se posso chamar de guiar, até o palco. Minha visão estava turva e jurava que poderia desmaiar a qualquer momento. Minha boca seca não conseguia pronunciar nem se quer um murmuro. Emmett estendeu para mim o pequeno papel onde estava escrito meu nome. Não consegui segurá-lo.
– Não quer? – ele murmurou antes de apertá-lo em uma bolinha e jogá-lo sobre o ombro. Meu sangue ferveu. A vontade de partir a cara do meu provável mentor me tomou.
Puxei meu braço da mão do pacificador e muitos outros apareceram no meu campo de visão. Estariam prontos para me abater, no mínimo desacordar, caso fosse preciso. Tentei me controlar e respirei o mais fundo que consegui. Meu braço queimava por debaixo das mangas do uniforme que vestia. Estava claro para todos que não existia alguém para se importar com a minha morte, todos poderiam ver que eu era uma orfã. Emmett não se importou com meu movimento brusco.
– Há algum voluntário masculino? – perguntou enquanto encarava descaradamente Raoul. Talvez ele quisesse que o homem, tão musculoso quanto ele, se indicasse. Mas o dono dos lisos cabelos negros fingiu que não entendeu o olhar lhe lançado. – Ótimo – ele sussurrou nervoso e seguiu até a urna masculina. Não fez drama para pegar o nome, somente puxou um que já estava em cima. Não teve cerimonia para abrir o lacre e arregalou os olhos quando viu o nome.
Provavelmente a Capital estaria rindo da lastimável apresentação dos tributos do Distrito 01. Emmett abaixou a mão e encarou brevemente o prefeito. Ele não precisava ler o nome escrito para qualquer pessoa entender quem era. A primeira dama espalmou a mão sobre a bancada e se posicionou de pé.
– Royce King II – ele informou com a voz pausada. Não deu as costas para a multidão, mas também não tirou os olhos da banca de vitoriosos.
Meu corpo se virou procurando um rosto que não estivesse perplexo. A esposa do prefeito estava suspensa nos braços de alguém que não consegui identificar, ela estava em pânico. Royce I não sabia se a acolhia ou procurava o filho na multidão. Meus olhos se fixaram no chão, onde, um pouco depois, surgiram um par de botas masculinas de primeira linha. Tinha certeza que ninguém mediria esforços para o trazer de volta, vivo.
Eu definitivamente estava morta.
We're under pressure
Estamos sob pressão
Seven billion people in the world
Sete bilhões de pessoas no mundo
Trying to fit in
Tentando se encaixar
Keep it together
Mantenha-se unida
Smile on your face
Sorriso em seu rosto
Even though your heart is frowning
Apesar do seu coração estar apertado
As Long As You Love Me – Justin Bieber feat. Big Sean
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