O meu corpo estava envolto de luxúria, mas, mesmo assim, a sensação de desolação não passava. Acariciei com a ponta dos dedos o suave veludo do sofá aonde estava sentada. Com muito custo me movi. Pensei, por um momento, em dois ou três bebês que deixaria para trás. Abracei o meu esquio corpo e encarei o borrão no que o Distrito 1 se transformava. Eu estava certa que nunca mais voltaria para encarar as pobres crianças abandonadas ou os esnobes homens e mulheres que possuíam mais renda que a maioria.

Apesar de viver no Distrito mais rico de Panem, nossa cultura era pobre. As pessoas eram tratadas como objeto, e uma vez abandonada não poderia pertencer a mais ninguém. Sem um futuro aconchegante, sem um lugar para chamar de lar. Éramos como impuros, deixados à deriva da morte. Nenhum outro homem ou mulher poderia adotar uma criança abandonada, não existiam maridos ou esposas que os acolhessem e só existia a esperança que um dia, por sorte, um ou outro órfão se dedicaria à eles. Eu seria uma dessas pessoas.

Agora eu não poderia mais ajudar. Meu sonho se finalizava.

Senti uma lágrima cortar minha face, não pela morte, mas pela incerteza de um futuro. Eu poderia lutar contra os patrocinadores e contra os organizadores para tentar sobreviver. Mas eu realmente gostaria de tentar a sorte naquela roleta russa que seria os jogos? Talvez devesse simplesmente desistir de lutar. Não me mover da plataforma ou me mover fora do tempo, que diferença faria? No final eu teria o mesmo resultado: a morte.

– Hora do lanche da tarde! — a voz meu mentor cortou meus pensamentos.

– Não estou com fome! – resmunguei enxugando meus olhos.

– Você precisa engordar uns quilos se não quiser morrer de fome.

– É um ótimo fim!

– Que ótimo! — ele rezingou — Mal chegou na arena e já quer desistir. Você deveria tratar de honrar nossa glória.

Por um momento a raiva me tomou. Me aproximei com passadas rápidas e fixei meu olhar no dele. O azul transmitia serenidade, uma serenidade deslocada naquele rosto másculo e totalmente vil. Abaixei a cabeça analisando seus músculos, decidindo se realmente gostaria de participar daquela briga. Meus dentes rangeram tentando sanar a minha fúria.

– Acha que você é muita coisa não é? Uma pessoa sem coração que só pensa em músculos e mortes! – as palavras saíram de minha boca mesmo sem autorização. – Oh glória! Acha mesmo glorioso matar alguém que não merece morrer? Acha mesmo que uma criança chorando no meio da noite merece ter seu corpo devolvido em um caixão de madeira? Porque eu não acho isso glorioso, pelo contrário, acho covardia. E a pergunta é: será que quero fazer parte disso?

– É matar ou morrer! – ele deu de ombros. Se virou e sentou exatamente aonde estava a dois segundos atrás. – Você é ingênua!

– Eu prefiro morrer a ser como você!

– Você é ingênua mesmo. – se lamentou – Por quatro anos eu te observei. Eu sei de cada movimento que você deu até hoje. Eu conheço sua personalidade, e sei que a maioria dos outros vitoriosos também. E acha realmente que alguém alguma vez ligou para sua opinião? Todos eles se atentavam ao fato de que o quanto mais pisavam no seu calo mais forte você ficava.

– Isso é mentira!

– Não, não é mentira! – ele se moveu, voltando a ficar centímetros de mim. Seus dedos se entrelaçaram no meu cabelo e eu me afastei. – A dois segundos atrás qualquer pessoa poderia te matar com facilidade. Mas agora a briga se tornaria mais difícil, você está irritada.

– Você não sabe o que está falando.

– Eu sei muito bem o que estou falando. Você tem determinação, quando motivada. Poderia matar dez homens maiores e mais fortes do que eu e nem precisaria piscar. Porém está decidida a defender seu ponto de vista, e isto pode te levar a ruina.

– Eu nunca mataria uma criança. – minha voz saiu rouca. A ideia de matar alguém me assustava, mas a sua descrição me deixava apavorada.

– Não precisa, outros farão isso por você... — ele deu de ombros – Chegaremos à Capital em 3 horas.

Ele permaneceu me encarando. Me forcei a relaxar. Resmunguei baixo deixando que meu mentor desse as ordens. Estava certa que preferiria morrer à matar alguém. Mas precisava que Emmett e todos os outros achassem que havia desistido do meu plano.

Após o breve e farto lanche a nossa mestre cerimonial nos apresentou um homem de aproximadamente 1,80 metros. Ele tinha pelagem espalhada por toda a sua face e ela era de um marrom acinzentado, quase grafite. Seu nariz fora geneticamente modificado e ele era a encarnação de um lobisomem, uma lenda dos dias escuros.

Ele se moveu nos analisando, quase farejando. Se endireitou e encarou Emmett que o olhava avidamente. Consertou o paletó e voltou para o lado de sua amiga. Olhou rapidamente para a janela e depois se apresentou. Seu nome? Brady!

No piscar de olhos seguintes ele estava nos encaminhando para um dos vagões e pronunciando algo sobre estar apresentável para a capital. Ele não fazia o tipo de estilista ou alguma coisa do tipo, porém apreciava tanto a beleza quando nossa cerimonial.

Maggie permaneceu sentada em uma poltrona com formato de gaiola dourada enquanto seu amigo procurava alguma roupa no guarda-roupa do vagão. Ambos mantinham uma conversa muito animada, apesar de ainda não saber como eles se entendiam. Eu estava sentada assistindo toda a cena, não porque queria estar ali, mas porque não existia outra opção.

Por fim ele se virou. Ajeitou seu bigode acinzentado e sorriu pronunciando algo. Maggie se animou mais, deu um pulo de onde estava e correu em sua direção. Brady retirou um vestido dourado do fundo do guarda-roupa.

No segundo seguinte eu estava arrumada. Com um coque bem preso e o vestido reluzindo contra a fraca luz do pôr do sol. Logo anoiteceria e nosso trem pararia na estação mais cara de toda Panem. Royce vestia um paletó cinza com abotoaduras de diamante. Ajeitou seu cabelo e sorriu imaginando sua glória.

Não pude deixar de reparar o olhar de Emmett sobre mim. Ele estava sentado em um canto e mexia lentamente o conteúdo de um copo. Apoiou os cotovelos sobre suas pernas e abaixou a cabeça quando seus olhos encontraram os meus.

Me aproximei, tirei o copo de sua mão e tomei de uma única vez. Ele me encarou e pronunciou alguma coisa sobre menores de idade e álcool. Rapidamente retirou o recipiente de minha mão e afastou meu corpo do bar do vagão. Eu havia tido um lapso de surto.

A bebida ainda queimava minha garganta quando os imensos prédios em tonalidades cinzas ou rodeadas de vidros fumê começavam a tomar uma forma mais definida no horizonte. A Capital era imensa e sobre isso ninguém nunca mentiu. Suspeitei que o trem poderia cair ao cruzar a hidroelétrica, mas a construção da ferrovia era friamente calculada para que nenhum acidente acontecesse. O Distrito 6 cuidava de cada detalhe quando o assunto era transporte.

Os moradores apareceram no meu campo de visão e eles eram mil vezes mais excêntricos do que os imitadores de nosso distritos. Eu podia observar de tudo: roupas de alta costura, penteados estranhos, sapatos que machucavam os pés, cirurgias plásticas que não conseguia identificar se eram propositais ou um erro do cirurgião e animais geneticamente tingidos. Aquilo sim era de outro mundo.

O trem parou próximo ao monumento Stefan Vladimir, erguido em homenagem primeiro vitorioso do Jogos Vorazes. Podia ver, na grandiosa estação, uma quantidade incontável de pessoas preparadas para nós recepcionar. E, para minha surpresa, existiam pessoas, mesmo que discretas, torcendo por mim.

Por mim, não por Royce ou por qualquer outro.

Born and raised by those who praise

Nascido e criado por aqueles que veneram

Control of population

O controle de população

Everybody's been there

Todo mundo esteve lá

And I don't mean on vacation

E eu não disse de férias

Californication – Red Hot Chili Peppers