A fila daquela boate parecia interminável. Era a única boate que funcionaria no natal e por incrível que pareça estava lotada, eu imagino que de ateus ou coisas do tipo. Eu já estava ficando irritado com o casal se pegando na minha frente, porque a cada milagrosos cinco minutos eu cutucava para eles andarem. O cara erguia a saia dela descaradamente e apertava sua bunda como se isso fosse normal e o mais estranho era a tatuagem de coração em uma de suas nadegas.

Estava bem frio, mas era dezembro então eu não poderia esperar nada menos que isso, porém não nevaria esse natal, a previsão do aquecimento global era bem drástica e estragaria milhões de criancinhas que estavam esperando fazer bonecos de neve e anjinhos esse ano.

Bom, eu não tinha família, peru ou torta de abobora então o máximo que eu poderia fazer era aceitar o desejo de Gordon de vir a boate hoje “azarar” as meninas, mas se bem que eu estava me sentindo um velho hoje, por mim eu pedia comida chinesa e ficava vendo friends, mas ele insistia que precisávamos fazer algo de interessante além de ficar naquele cubículo da empresa.

Eu desejaria mil vezes estar no meu cubículo, quieto, fazendo a contabilidade de alguma coisa que meu querido e amável chefe mandasse fazer, porque ele não entendia que eu era recém formado em direito e não em administração.

Eu olhei para Gordon enquanto ele falava no ouvido de uma das garotas vestida de lantejoulas dourada, fiz uma cara de desaprovado, ela fedia vodka e sua amiga estava perto demais de mim e de minhas partes intimas.

Não eu não sou gay, eu apenas não era um cara do qual me aproveitava de garotas bêbadas e provavelmente menores de idades, com vestidos tao curtos que eu duvido que seus pais deixassem sair de casa dessa forma.

- Gordon eu acho que vou embora. – Eu falei tentando segurando a mão da menina que tentava levantar minha camiseta.

- William, faltam três pessoas, pelo amor de Deus se contenha, é natal. – Ele falou lambendo a orelha da menina.

Eu não me conformava com aquela cena. Ele estava mesmo lambendo a orelha daquela menina?

A ânsia bateu na minha boca e eu tentei me conter, mas a garota não parava de tentar erguer a minha blusa!

O segurança assentiu com a cabeça para eu entrar e imediatamente mostrei meu RG puxando Gordon para dentro, eu sabia que as meninas ficariam um bom tempo ali com os documentos falsos até elas conseguirem entrar.

A boate estava bem decorada, nada de natal ou coisas do tipo, mas havia muitas pessoas e muitas meninas.

- Vamos beber algo para começar a noite. – Gordon disse se apoiando no bar.

Uma menina de cabelo preto preso em um rabo de cavalo e tatuagens no corpo inteiro nos atendeu. A tatuagem dela começava no pescoço e parecia que percorria todo seu corpo em uma só, até sua mão. Era uma tribal enorme. Ela era bem branca e magra, mas não era muito alta e tinha um piercing no nariz. Usava uma regata preta justa e calça jeans escura.

- Duas doses de tequila por favor. – Gordon disse dando um sorriso de paquera para a bartender.

Ela ignorou ele passando o olhar reto para longe, na verdade ela parecia estar encarando algo. Gordon não desistiu e tentou falar mais alguma coisa mas eu não prestei atenção. Eu segui o olhar da bartender até o final da boate em uma porta vermelha escrito “ acesso restrito”.

Lá estava ela, uma menina extremamente alta, uma mulher. Ela era branca, mais branca que a lua. Tinha cabelo loiro enrolado até a cintura. Eu podia jurar que ela tinha quase dois metros, mas o salto alto ajudava. Ela vestia um vestido preto, parecia mais uma capa, que aparecia apenas seus seios na frente e ela não usava sutiã e isso me deixou um bobão por alguns segundos. Ela era muito magra, mas tinha um grande volume legal nos peitos.

Eu esperei a bartender se retirar para eu poder falar com Gordon.

- Cara, eu acho que ela é lesbica. – Eu falei rindo para Gordon apontando a menina alta que ela secava. Ela ainda estava parada na frente da porta, esperando algo ou alguém acontecer, mas ela não tinha nenhuma expressão nos olhos.

- O que? – Gordon disse chateado. – Cara ela é uma gata. – Ele disse se reposicionando e observando “minha garota”.

- Não, não, sem esse olhar de “vou pegar”. – Eu falei batendo na cabeça dele. – Você escolheu a bartender lésbica.

A bartender apareceu segundos depois com as tequilas. Eu agradeci por ela não ter me ouvido falar que ela era lésbica, porque eu não queria apanhar de uma menina tão bonita como ela.

- Pela heterossexualidade. – Ele falou erguendo o copinho de vodka.

- Como você é idiota.

Eu chupei o limão e na mesma hora fiz uma careta por conta do gosto azedo e quando me virei, a garota da porta me observava, mas era tarde demais, ela tinha visto minha cara feia. Ela ergueu uma sobrancelha enquanto mordia o lábio.

- Eu sou idiota? Beba logo isso. – Gordon disse me dando um tapa no peito. Ele tinha visto a cena com a menina da porta.

Eu virei a tequila, me esquecendo até do sal. Fiz outra careta mas dessa vez tentei me conter com uma careta de bêbado ao invés de uma de nojo.

A tequila me deu calor rapidamente. Eu era extremamente fraco para bebidas mas não a esse ponto.

Eu senti minha cabeça girar e girar. Meu estomago fez um barulho estranho. Eu acho que vou vomitar.

- Cara, a menina esta te encarando...

- Gordon, vou vomitar. – Eu falei correndo para o banheiro.

Atropelei e pisei em mil pés a minha volta até eu entrar em uma porta e então um apagão.

Eu acordei deitado em uma sala escura, apenas iluminado com a luz da lua. Minha cabeça doía mas eu tinha certeza que não tinha apanhado. Eu bati minha mão pelo corpo para ver se não havia nada quebrado ou sangrando, por sorte não havia nada de errado.

A loira alta se aproximou de mim. Eu havia dado perda total na frente dela? Sério?

Minha visão estava embaçada, mas eu consegui vê-la bem. Seus olhos eram de um cinza profundo mas metade de um deles era verde.

Ela se abaixou e conferiu meu pulso com as mãos frias.

- Aquela vaca. – Um homem disse saindo das sombras. – Ela sabia que você estava de olho nesse e o dopou primeiro, na tentativa de tirá-lo daqui.

O grande homem de cabelo preto como a noite surgiu. Ele usava calça preta e camiseta social azul escura. Ele tinha uma barba grande e também era grande, magro e extremamente branco.

- Ela sabe como é difícil interromper uma caça. Ela queria usar ele como isca. – A voz aveludada da mulher loira nos meus ouvidos me deixou ainda mais atentado, mas do que estavam falando?

Eu era isca de que? Isso era um assalto? Estávamos brincando de policia e ladrão por acaso?

- Temos que ir. – A loira falou se levantando.

- O que? Você o achou primeiro que ela. Termine com ele. – O cara grande falou indignado.

- Não. – Ela disse se afastando. – Estou satisfeita.