Sad but true
2 Parte dois
Acordei com uma enxaqueca dos infernos e o mais estranho era que eu já estava em casa. Eu estava deitado, na minha cama de cueca. Meu celular, minha carteira e meus chicletes estavam exatamente enfileirados na mesa de canto da cama. Aquilo era estranho. Talvez eu fosse meio organizado quando ficava bêbado. As cortinas do quarto estavam fechadas e eu nunca deixava elas assim. Eu me revirei na cama a procura se eu havia dormido com alguém, mas não tinha vestígios de roupa ou algo assim.
Ouvi barulho no banheiro, então alguém estava comigo. Eu me levantei e me aproximei do banheiro na ponta dos pés. Não queria acender as luzes mas meu quarto estava bem escuro mesmo sendo dez da manhã.
Meu quarto não era muito grande. A casa em si não era grande, era uma casa comum. Dois quartos, um sendo suíte, um banheiro na parte de baixo, cozinha e sala. Meu quarto tinha o tom pastel com piso de madeira escura. Uma cama king no meio do quarto e armário logo na frente. Uma grande janela branca com um banco para sentar.
Eu abri a porta do banheiro com tudo na esperança de ver alguma mulher e então vi Gordon usando meu banheiro.
– Que merda Gordon, o que você está fazendo na minha casa? – Eu falei saindo do banheiro furioso e querendo esquecer a cena que vi.
Ele saiu do banheiro correndo erguendo as calças e rindo descaradamente.
– Cara, eu dormi aqui. – Ele falou abotoando a calça. – Aliás eu vim pra cá depois que você sumiu e acabei apagando no sofá.
– Lave a merda das mãos Gordon, pelo amor de Deus. – Eu falei revirando os olhos e pondo uma calça de moletom que estava jogado em uma das cadeiras.
– Cara você sumiu. – Ele falou indo em direção ao banheiro. – Que merda de sabonete de rosas é esse. – Ele falou espirrando ao cheirar.
– Era da Kimberly. – Eu falei bufando lembrando da minha falecida namorada a menos de um ano. – Por favor não passe de baixo do braço e traga sua própria escova de dente. Nojento. – Eu falei ouvindo ele escovar o dente com as minha escova, DE NOVO.
– Minha baba é a sua baba. – Ele falou secando a boca na minha toalha de corpo.
Eu comecei a procurar meu tênis de caminhada. Eu correria até o café do posto e tomaria algo para passar a ressaca. Depois comeria um donuts tamanho família e iria para o parque fazer mais exercícios.
Essa era minha rotina desde que Kimberly havia falecido. Tínhamos uma ótima relação. Nós conhecemos na faculdade, ela fez enfermagem e quando se formou veio morar comigo. Também não tinha pais nem família presente, e não gostava muito de falar sobre isso.
Ela era linda, tinha cabelos loiros e lisos até o ombro. Uma pele levemente bronzeada com lindas bochechas naturalmente rosadas. Seus dedos eram tão finos assim como a magreza de seu corpo. Seu queixo era levemente quadrado e seu sorriso era enorme. Ela amava pessoas e gostava de ajudar, por isso escolheu ser enfermeira. Era sempre atenciosa com todos e dedicada. Passava horas naquele hospital.
Loira e linda, isso me lembrou da menina alta de ontem. Ou será que a menina foi fruto da minha imaginação?
Eu balancei a cabeça e bufei alto.
– Gordon, alguém dormiu comigo? – Eu perguntou pondo o moletom cinza.
– Não, mas aposto que pegou aquela menina loira de ontem. – Ele falou se jogando na minha cama.
– Saía da cama. – Eu falei jogando a almofada nele. – Eu não me lembro.
Tudo que eu lembrava era dela sair da minha frente e do nada desaparecer, depois outro apagão e eu amanheci em casa. Era como se todas aquelas horas estivessem sido apagas da minha cabeça.
Aquela menina de cabelo tão loiro, tão magra e alta. Tinha uma voz tão aveludada, meio rouca. Seus olhos eram tão diferentes e grandes assim como seus lábios. Ah sim, eu lembrava exatamente de como ela era.
Eu havia me decidido, eu iria caminhar em um lugar diferente, eu precisava ter contato com algo novo e ar fresco. Eu iria correr na reserva, que apesar de estar bem frio era um lugar decente aonde eu poderia correr sem interrupções ou mensagens de telefone.
– Gordon, faça o que quiser, desde que limpe depois. – Eu falei descendo as escadas e ouvindo ele me seguir logo atrás. – Vou dar um jeito da minha ressaca passar. Por favor, não suje nada. – Eu falei fechando a porta logo atrás dele.
A reserva não era muito longe da minha casa. Ela era enorme e logo depois seguia de grandes fazendas e casas enormes. Tinha arvores gigantescas de todos os tipos, era quase impossível se enxergar o sol daqui. Havia musgo cobrindo toda parte. Cidade do interior. Bem do fundo mesmo.
O ar gelado batia nas minhas bochechas e eu já estava começando a senti-las corar. Eu vesti o capuz e continuei a caminhar, eu estava me esforçando para subir cada vez mais e aquilo estava me mantendo longe de pensamentos ruins.
De repente eu vi uma moça loira correndo do outro lado. Ela logo menos iria se cruzar comigo então eu apertei o passo, eu queria ver o rosto dela. Eu comecei a correr em direção a ela e quando cheguei mais perto ela passou, sem eu conseguir ver seu rosto direito, como se fosse um flash na minha cabeça.
Eu parei um pouco, estava com falta de ar e muito ofegante. Tossi varias vezes na esperança da minha respiração voltar. Maldita asma. Me sentei em um tronco e baixei a cabeça. Estava tudo girando e cada vez mais eu ficava com falta de ar. Senti meu pulmão ficar cada vez menor.
A ponta dos meus dedos estavam roxa de frio e meus lábios também. Eu precisava ir embora logo.
– Você está bem? – Uma mão gelada encostou no meu ombro. A voz aveludada arrepiou meu braço.
Eu me virei e então vi a tal moça loira. Ela vestia uma calça jeans escura bem grudada nas enormes pernas magra, uma blusa fina e um colar enorme com uma pedra esculpida em forma de lua. Ela também usava botas enormes e altas. Eu me perguntei como ela não estava com frio daquela forma.
– Estou bem. – Eu falei ofegante tentando não encara-la, afinal das contas ela me deixou ontem.
– Posso te levar embora. – Ela disse me estendendo a mão de dedos finos e unhas compridas pintadas de preto. A loira me abriu um sorriso malicioso mas de forma como se ela fosse me devorar.
– Não acho que seja necessário. – Eu falei tentando ser cavaleiro e fingindo ser forte.
Eu me coloquei de pé e observei que eu era pouco mais alto que ela, mas eu era tão grande que em um abraço eu poderia esmaga-la.
– Seus lábios, estão bem roxo. – Ela disse me tirando toda atenção para observar os lábios carnudos dela.
– Eu tenho asma. – Eu falei caminhando logo a frente dela e ela começou a me acompanhar. – Eu não te vi ontem? – Eu falei não querendo ser indelicado.
– Sim. – Ela demorou um pouco para responder – você estava bem bêbado. – Ela fez uma careta e riu logo em seguida mas ainda falava extremamente sério. – Eu te coloquei no chão da enfermaria para você descansar. – Ela falou engasgando na ultima palavra.
Eu não me lembrava de nada disso. Ela parecia não acreditar no que estava falando, mas eu também não me lembrava de nada que eu havia feito ontem, então eu deveria acreditar nela porque pelo menos eu sabia da parte da bebida.
Foquei em seu rosto, tão delicado e aveludado. Poderia ser tão branco quanto a neve e não estava nem um pouco corado com o frio. Ela não desviou o olhar do meu. Não ficamos nem um pouco envergonhados.
Eu poderia olha-la para sempre. Dormindo então ela deveria ser quase angelical, exceto pelo fato de que ela parecia ser extremamente assustadora e guardar algo muito ruim consigo. Ao mesmo tempo que ela tinha um ar de leveza, ela também trazia algo como morte dentro dela.
De repente começou a nevar. Foi algo quase impossível mas estava realmente caindo pedacinhos de gelo do céu. O vento começou a soprar mais rápido e desviamos o olhar.
A neve caia sobre seu cabelo e sua pele nua, eu estava sendo um perfeito idiota em não oferecer a ela um casaco, mas ela não estava parecendo se importar com o frio.
– Me desculpe. – Eu falei tirando o casaco. – Vista.
– Não se preocupe. – Ela falou avançando dois passos para longe de mim. – Eu vou andando.
– Mas está nevando. – Eu falei insistindo tentando me aproximar dela.
Ela mudou de comportamento e agora estava mais séria, mais fria. Eu tentei me aproximar dela de novo mas ela se afastou novamente, então eu senti que deveria manter distancia.
– Você vai ficar bem? – Eu perguntei observando ela entrar no meio da floresta.
– Eu fui criada aqui. – Ela falou sem virar para mim e seguindo mais para dentro.
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