Notas iniciais
Boa leitura!

Já era manhã quando Victor e Garfield jogavam videogame enquanto Kori os observava tentando entendê-los. Ela não gostava muito de participar dessas coisas pois Victor era competitivo e normalmente se estressava quando alguém ganhava dele mais de uma vez. Era o que estava acontecendo no momento...

— Na próxima vez você pode tentar esquivar para a direita. Você está morrendo toda hora porque na hora que a Valquíria vai atacar tu só vai pra esquerda — Garfield aconselhou o homem que já estava a mais de vinte minutos tentando passar de fase e nunca conseguia derrotar a personagem na tela da televisão, que planava com as grandes asas, e não recebia muito dano pois as usava como escudo.

— Eu estou tentando, merda! — Victor gritou, irritado — Ela é praticamente a rainha das Valquírias, não é simples assim! Estou com vontade de entrar na televisão e destruir ela na porrada com as minhas mãos, não nas mãos do Kratos!

Kori e Garfield gargalharam enquanto o Cyborg frustrado apertava o botão RESTART do controle. Por ele ser meio-robô achavam isso mais engraçado.

O barulho chamou a atenção de Dick, que entrou no cômodo já se jogando no grande sofá vermelho no meio deles. Olhando para a televisão, ele deu um meio sorriso.

— Ah, derrotei essa aí de primeira. Fácil. — comentou se gabando cheio de orgulho fazendo com que Victor perdesse a concentração e levasse alguns golpes — Você está fazendo errado, tem que conseguir uma armadura melhor primeiro para ficar mais forte e depois voltar aí. Isso é perda de tempo. Nunca vai conseguir só com o machado. Segue a história para liberar as Lâminas do Caos.

— Lâminas do Caos? Kratos ainda tem as Lâminas do Caos? Você acabou de me mandar um spoiler? — berrou indignado pelo amigo ter contado parte da história do jogo que ele tinha acabado de começar. Dick soltou uma risada baixa.

O Cyborg pausou o jogo e olhou para os três colegas que olhavam a sua desgraça na tv e riram mais ainda. Largou o controle no colo de Garfield e soltou um “desisto”. O jovem verde tentou continuar, mas fracassou.

— Vamos nos preparar para uma breve reunião hoje à noite. Batman virá se pronunciar — Dick soltou um comunicado seriamente ainda jogado no sofá, Estelar o fazia um cafuné — como sempre ele não disse muitos detalhes. Então é melhor estarem prontos por volta das 18h.

Nisso houve um silêncio desconfortável. Porque todos pensaram a mesma coisa ao mesmo tempo. E a Ravena?

— E quanto à Rav.. — Victor foi interrompido por Dick que gentilmente saía das mãos da namorada e ficava de pé, pronto para sair do local.

— Espero que ela tenha escolha. Não vejo problema se ela quiser ficar aqui se for alguma missão, até prefiro que fique para não sobrecarregar. Ela mal descansou... Porém a Liga viu o que aconteceu e eles tem uma opinião quanto a isso, por mais que eu queira, não tenho o poder de decisão — comentou frustrado, já prevendo o pior — Mas se eles não vieram aqui antes para conversar com ela sobre o acidente, quer dizer que eles compreenderam a situação. Vamos pensar positivo. — E saiu para comunicar os que não estavam presentes.

Garfield não ficou animado como era de seu feitio. Detestava a visita do homem morcego, por mais que fosse um grande fã, se assustava quando ele estava perto. A preocupação agora estava o dominando, pois muito provavelmente Batman não viria aqui por alguma missão... ele viria conversar com Rachel. E ele sabia que ela não estava completamente pronta para ter uma conversa com uma pessoa com o temperamento daquele homem. Eles eram parecidos em alguns traços, talvez por isso ela não se sentiria muito confortável com o que viria a acontecer.

—

Rachel acordou com batidas na porta. Estava sozinha no meio da bagunça do quarto, e com um leve cansaço. Não queria levantar-se, mas vendo que Dick não ia desistir acabou abrindo a porta. Ele estava com a roupa de dormir ainda, raramente saia de seu quarto assim, e vendo a cena era levemente cômico.

— Bom dia, Rachel — O moreno cumprimentou com uma voz suave e a encarou com o a sobrancelha arqueada — Que cara é essa?

— Gostei do seu pijama. — A mulher comentou, irônica.

Dick vestia uma calça velha rasgada de abrigo e o moletom com um morcego do Batman estampado na frente. Aquele casaco era do Garfield, ele pegou emprestado sem pedir, digamos assim.

— Ah, obrigado — agradeceu depois de uma risada sem graça — Zoando o meu pijama! E eu nem posso criticar o seu! Está sempre estilosa, toda gótica. De qualquer forma, deve saber por que eu estou aqui.

— Eu não sei.

— Não sabe!? Você estava dormindo? — perguntou em espanto. Normalmente Rachel sempre estar a par de tudo, e Dick a encontrava apenas para fazer alguns comentários em particular.

— Sim.

Depois de pedir desculpas por acordá-la, Dick a avisou da reunião que aconteceria e quais seriam os possíveis assuntos. Como sempre, Rachel não esboçou reação e já esperava a saída do moreno que ficou parado na frente dela em silêncio, esperando uma resposta.

Rachel não tinha o que dizer. Ela já sabia que teria que enfrentar um interrogatório de alguém da Liga mais cedo ou mais tarde, não havia muito o que se fazer. Então a única coisa que saiu de sua boca foi um "Eu estarei pronta" para que enfim ele a deixasse sozinha e ela pudesse arrumar toda aquela bagunça.

Ravena não estava com muito ânimo para arrumar seu quarto, ainda mais com tantos objetos quebrados. E ela ainda estava levemente temerosa em usar seu poder para o que quer que seja.

Ela primeiro parou para analisar a situação. Todas as três estantes estavam quebradas, a cômoda destruída e os espelhos decorados com ornamentos estavam espalhados em cacos por todo o cômodo, junto com muitos papéis jogados no chão. Mas a cama estava intacta, com só um lado bagunçado.

Foi então que ela lembrou do restante da noite passada, quando estranhamente Garfield deixou de ser irritante e ficou em silêncio com ela, acariciando seus cabelos e esperando adormecer. Ele respeitou o seu silêncio, e ficou com ela a noite inteira. O sono foi tão profundo que nem ouviu ele sair. Ruborizou levemente com esta recordação.

Ela não podia esquecer de agradecer a ele por isso mais tarde.

Deixando de lado os poderes com exceção de sua força, ela começou a arrastar os móveis destruídos para fora de seu quarto com facilidade, os colocando no meio do corredor, deixando marcas profundas no carpete escuro. Os livros e outros objetos ela os empilhava em um canto para quando as novas estantes chegarem iria os reorganizar. Rachel estava vendo aquilo como uma terapia, já que de alguma forma estava ajudando a se concentrar no presente e não no que acontecera aquela noite. Trigon havia arrebentado uma de suas correntes.

A meditação não deu muito certo e por mais que ela não quisesse admitir, não queria repetir. Estava com medo de entrar em transe com pensamentos no seu pai. O tempo curava, então esperaria mais uns dias para tentar de novo.

Com esse pensamento, Ravena começou a imaginar como seria a conversa com Batman essa noite, e fazendo o que todos os seus amigos pediram, tentou ser positiva ao esperar que ele fosse rápido e direto no que tiver para dizer, pois a Liga, ou uma pessoa em especial sabia que era uma bomba relógio e é só uma questão de tempo para aquele acidente acontecer de novo. Trigon pode achar uma outra forma de se comunicar com ela ou fugir e fazer da sua cabeça um prêmio a qualquer momento.

— O que está acontecendo aqui? — uma voz surgiu no corredor. Rachel olhou para a porta aberta e um homem verde colocou a cabeça para dentro do cômodo, depois de ver a bagunça bateu seu olhar com o dela — Ah! Tinha esquecido disso... Quer ajuda?

Ravena estava pronta pra dizer não e mandá-lo embora, mas Garfield saiu caminhando calmamente e a deixou sozinha. Estranhou o comportamento, mas ignorou o ocorrido e voltou a juntar os papéis no chão, desviando os dedos dos cacos de vidro. Alguns minutos se passaram quando se ouviu um som alto de madeira partindo no corredor. Com pressa foi checar o que era e não se surpreendeu com um gorila verde quebrando ainda mais as estantes com socos e colocando dentro de grandes sacos de lixo. Ele parou com o movimento e a olhou sorrindo, recebendo um bufar irritado como resposta.

— Tente ser silencioso, por favor. Ou saia daqui — ordenou, seca recebendo um sinal positivo como resposta.

Os dois trabalharam juntos em silêncio por quase uma hora. Depois que acabou de jogar tudo no lixo, Garfield a ajudou com os papéis dentro do quarto e a varrer os objetos cortantes. Realmente eram muitos papéis, pois alguns livros também foram destruídos e estes deviam ser separados na hora de guardar. No fim, tudo ficou organizado um pouco depois da hora do almoço, e quando eles foram para a cozinha, os outros Titãs já haviam comido tudo e não limparam nada.

— A gente poderia pedir alguma coisa, ou comer aqui perto — o garoto sugeriu.

Rachel não sabia o que responder, pois não estava com fome e também não queria ficar na Torre até Batman chegar. Então concordou em sair.

Antes mesmo de Garfield perguntar, Rachel já pensava onde gostaria de ir para não transparecer que não tinha certeza de alguma coisa. Ela não fazia ideia de que lugares seriam bons ali, já que sempre ficava na Torre fazendo sua própria comida. Isso quando comia. Estava quase tentada a encontrar na mente do homem ao seu lado alguma referência do que poderia ser bom pra ela, por mais que tenha total certeza de que a maioria das coisas que Garfield gosta ela não gosta, já que ele é vegetariano.

— E então, já sabe pra onde ir? — o garoto perguntou, animado — sabe se você quiser posso te levar em um lugar que fazem uma pizza maravilhosa é impossível que você não goste — completou, com sua boca se enchendo de saliva pela fome.

— Não acredito que seja uma boa ideia comer pizza a essa hora — respondeu um pouco pensativa — acho que uma refeição completa seria melhor na minha situação. Faz dias em que só tomo chá e café, hoje nem isso.

Garfield a observou boquiaberto, não acreditando que não havia notado isso ainda. Até agora ele estava animado por ter feito Rachel sair da Torre para pegar um ar, e também é claro passar um tempo sozinho com ela para ver se eles se aproximam mais. E ele realmente não se lembrou da última vez em que os Titãs partilharam de uma refeição. Com Rachel. Ela nunca estava presente. Nesse momento ele teve uma ideia de que formularia melhor mais tarde.

Sobre o comentário da má alimentação da amiga, ele preferiu não criticá-la. Já foi um milagre tê-la feito sair, ele não queria estragar tudo falando demais.

— Err..., certo então. Eu conheço um restaurante aqui perto. Você pode me seguir, ou eu sigo você, tanto faz.

Nisso, Garfield transformou-se em um corvo — talvez para provocar Raven — e do topo da Torre voou até o restaurante que ficava a uns quatro minutos de distância. Conforme ia se aproximando conseguia ver alguns trabalhadores se esforçando para reconstruir a parte da cidade em que houve o ocorrido com a amiga. Era só mais um bandido correndo na avenida que acabou e transformando em mortes e ferimentos graves em várias pessoas. Talvez não deveria ter vindo por este lado da cidade. Ele olhava para atrás várias vezes para ter certeza de que estava sendo seguido por Rachel, ele não podia ignorar tamanha beleza escondida naquelas vestes negras voando atrás de si.

A garota quase sempre estava de preto, e com umas roupas que ele diria serem exóticas, porém hoje ela estava simples, com uma calça justa preta junto com o casaco longo de inverno e o par de botas de couro que ele gostava. Uma vez ele disse isso e ela não usou as botas por meses.

Avistando o prédio, Garfield enfim desceu, pousando em frente à porta do restaurante, assustando algumas pessoas que passavam pelo local. Rachel veio logo atrás, ajeitando a roupa.

— Discreto... — murmurou enquanto entrava no restaurante, sendo seguida pelo garoto.

— Eu sou verde, nunca serei discreto.

O local estava quase vazio por estar fora do horário de almoço, então para o alívio de Rachel, eles não chamaram muita atenção. Logo foram atendidos pelo garçom, e não demorou muito para receberem a comida. Rachel pediu um prato com grãos e bife, e Garfield indeciso acabou pedindo massa com molho. Eles comeram em silêncio, novamente isso sendo uma tortura para o garoto, enquanto Rachel se sentia confortável assim. Entretanto após a refeição e saírem do local, Garfield não resistiu e começou a fazer perguntas.

— Você está melhor agora? — perguntou em um tom meio baixo, se referindo a recém refeição deles.

Rachel caminhando ao lado dele na calçada olhava para o chão. Estava procurando as melhores palavras em sua mente. Pensou a manhã inteira nas melhores frases para dizer a Garfield. Ela não era boa em agradecer.

— Eu estou. Não ficaria se não fosse por você — confessou quase sussurrando. O garoto quase não ouviu — Não sei o que poderia ter acontecido de você não tivesse invadido meu quarto.

O garoto abriu um sorriso, meio envergonhado. Ela também estava, mas o cabelo e capuz cobriam seu rosto.

— Certo, acho que isso foi um obrigado... — disse enquanto se sentava em um banco na calçada, com Rachel ao seu lado — normalmente a gente faz isso com quem nos importamos, então se você permitir, vai me ter na sua vida pra isso mais vezes. Até você voltar ao normal.

A jovem mulher o olhou com a sobrancelha arqueada, em dúvida sobre o que o amigo acabara de dizer. O que era o meu normal?

Nesse momento analisou-se. Ela sabe que sempre esteve mais afastada do grupo, até porque criar laços nunca fora o seu objetivo. No início, quase dez anos atrás não se importava com nenhum deles, mas aos poucos, quando Kori e Garfield com seus berros a forçavam a participar de algumas noites de jogos de tabuleiro, filmes e outras bobagens, e ela ia só por educação acabou percebendo que quando ela estava presente não agiam como se ela fosse a esquisita, ou algo parecido. Era tudo exatamente igual, uma bagunça. O mais diferente é que ela entrava no assunto, mesmo não querendo. Ali se viu parte do grupo. E em meio as batalhas também, quando eles a protegeram e também confiaram nela. Quando ela percebeu que Dick só a olhava em batalha para conferir que ela estava bem, e não para checar se iria ser atacado. E com a Tara Markov foi a mesma coisa. Ela que ainda desconfiava da garota, enquanto todos ali já haviam incluído ela no grupo.

Depois do acidente com seu pai, Rachel está mais afastada pois quer proteger o grupo de qualquer ameaça que ela pode causar. Para não ter que abandonar a equipe, ela prefere manter a distância por esse tempo para poder se fortalecer emocionalmente novamente. O problema é que as pessoas que não compreendem não são pacientes.

— O que é o meu normal? — perguntou, curiosa. Garfield colocou os braços nas costas do banco e olhou para o céu nublado, pensativo.

— Ah, você fica na sua, então não tem muito o que dizer. O que eu penso não é muito diferente dos outros eu acho — murmurou, tentando não aprofundar muito o assunto — Normalmente você lê fora do quarto, medita no terraço. Cozinha de madrugada... essas coisas. Agora faz mais de uma semana que não te vemos fora do quarto. Certo que na maioria desses dias você estava dormindo. Mas de qualquer forma, está diferente. Mas todo mundo tem seu tempo de voltar de algum trauma, não estou te obrigando a fazer nada.

Ele lançou seu olhar a ela, que já estava perdida em pensamentos, novamente. Rachel não havia percebido que era observada dessa forma por Garfield. Essa era a desvantagem de ignorá-los.

— Eu vi e ouvi coisas que nunca vou esquecer — ela começou com a voz firme, com um aperto no peito — Trigon tentar me usar para voltar e... a maneira que estou levando para impedi-lo é ridícula — riu em ironia — Crescer guardando os meus sentimentos, minhas emoções para que ele não se liberte... eu não aguento mais isso. Preciso dar um basta. Eu vou dar um basta.

Levantou-se do banco, determinada a achar um jeito de dar um fim nisso. Garfield se levantou também, vendo que faltavam alguns minutos para as 18h.

Eles voltaram da mesma forma que foram para o restaurante. Rachel como os outros aprontou-se com o seu traje de luta e foi para a sala de reuniões à espera do homem morcego.

Notas finais
e então?