Notas iniciais
Olá pessoas.

O Cavaleiro das Trevas estava sentado com as mãos entrelaçadas sobre a mesa, com o seu traje sombrio que deixava a maioria dos seus inimigos em pânico. Ele olhava para os jovens adultos indiferente, mas com certo descontentamento pelo garoto verde que estava apoiado na mesa quase dormindo de tédio.

— Boa noite. Como já sabem, vim falar sobre o que aconteceu no dia treze de outubro, domingo passado, onde Rachel Roth perdeu o controle de seus poderes, causando a morte de vinte e quatro pessoas — sua voz firme e grave acordou Garfield — Também quero anunciar a saída temporária de um de vocês. — Disse enquanto assistia eles se entreolharem confusos.

Os Jovens Titãs estavam sentados junto de Batman em uma mesa redonda, no centro da sala de reuniões. Um cômodo que era pouco usado, já que na maioria das vezes usava-se a sala de controle. Só usavam essa sala quando um membro da Liga da Justiça os visitava para ditar regras.

Rachel não estava nervosa, mas também não estava calma. O que viria a seguir era uma série de perguntas que ela não seria capaz de responder, pois não tinha total conhecimento sobre a dimensão onde seu pai Trigon estava.

— Tudo está filmado, porém preciso do relato de Ravena. Esperamos um pouco para que pudesse se recuperar — a voz grave de Bruce Wayne continuou — Você não será punida, — ouviu-se um suspiro alto de alívio vindo de alguns deles — somente afastada por uns dias das futuras missões dos Jovens Titãs. Nós da Liga da Justiça compreendemos o seu problema, porém temos que ter certeza de que isso não voltará a acontecer, e se acontecer, precisamos estar preparados para o pior — explicou, vendo Rachel concordar — e sobre o outro assunto, vim comunicar a saída de Terra.

Neste momento, todos direcionaram o olhar para a loira, que não esboçou reação.

— A Tara? Por quê? — Dick perguntou, confuso.

— Tenho uma missão digamos, especial — a loira respondeu, animada — Por tempo indeterminado. Partirei amanhã.

— E nenhum de nós participa? — Victor pergunta, levemente frustrado.

— Vocês também terão o que fazer, mas eu não vim aqui para enviar missões a vocês — Batman os interrompeu, irritadiço — Agora peço que se retirem, com exceção de Ravena.

Gar e Kori que estavam em seu lado, lhe desejaram boa sorte enquanto o restante do grupo calmamente de retirava da sala.

— Respire fundo amiga, você pode tudo — Kori sussurrou em seu ouvido, depois de lançando um lindo e cativante sorriso.

— Lembre-se de que eu estou aqui para o que precisar, Rachel. Estarei no corredor — o garoto verde sussurra no outro lado.

Levantaram-se e saíram apressados. Bruce Wayne estava impaciente, pois detestava ficar com a tarefa de falar com os mais jovens, estava ali porque sabia que com sua presença havia menos chances de Dick Grayson desobedecer a ordens. Quase ninguém da Liga gostava de ir ali. Só iam quando era extremamente necessário.

Aproximou-se lentamente da morena, que estava sentada no outro lado da mesa olhando fixamente para ele.

— Conte-me o que aconteceu aquela noite — disse enquanto se sentava ao seu lado.

Rachel demorou para responder. Não estava gostando daquela aproximação que Batman estava usando de propósito para a intimidação. Sabia que qualquer palavra errada poderia fazer com que ela fosse banida dos Jovens Titãs, ou pior. Ela não lembrava de muita coisa e estar ali falando sozinha com aquele homem significava que os outros talvez também seriam interrogados depois. Ela só estava sendo a primeira.

— De alguma forma que ainda desconheço, Slade conseguiu chegar ao meu pai, e invocou demônios em alguns pontos da cidade. Mutano estava no centro impedindo um roubo à banco e Robin o acompanhava. Não estávamos sabendo de nada até Terra nos alertar pelo comunicador. Pelo pouco tempo que tinha tentei impedi-lo junto de Estelar, mas Trigon usando o corpo de Slade, conseguiu me provocar... Não me lembro de muita coisa... Só gritos, clemência, choro... Morte — explicou, com as emoções já a dominando por dentro sem que ela quisesse. Estava confusa sobre o que sentir, mas tentava a todo custo permanecer calma — Ele conseguiu me controlar por alguns segundos, estes que não lembro de nada. Acredito que agora ele ainda esteja preso em Azarath.

— Os seus “segundos” na verdade foram mais de uma hora — o moreno comentou a permitindo continuar, atordoada.

— Enfim, desde o dia que acordei estou procurando uma maneira de voltar para a dimensão e acabar com isso. Só vejo uma alternativa que daria certo, — comentou, já sabendo que Batman estava ciente do plano dela — com muita sorte — disse baixo, torcendo para que Garfield não tenha a ouvido por trás da porta.

— E podemos participar de alguma forma? Pode nos levar até lá? — O moreno perguntou, interessado no esquema da jovem.

— Estou estudando as possibilidades, mas é muito arriscado para humanos. Talvez eu encontre algum feitiço que facilite, os protegendo — comentou já lembrando da montanha de papéis soltos que existe em seu quarto.

Batman a observava sério, vendo que a garota falava a verdade.

— E Slade está morto?

— Não encontraram o corpo — a garota respondeu ainda pensando nos livros — acredito que deva estar em Azarath junto dos demônios que também sumiram. Se estiver, ele não vai sobreviver muito tempo lá.

— Certo... e quanto aos seus poderes, Ravena? Sei que as mortes não foram sua culpa, porém sou obrigado a perguntar. Você está controlando bem as suas emoções? — Batman perguntou, enquanto a via encolher as mãos para baixo da mesa — Ou preciso deixar alguém de olho em você por enquanto?

Rachel estava nervosa agora, não sabia o que responder. Normalmente ninguém chega nela para fazer perguntas sobre a sua vida, e se chega ela dá um jeito de se livrar. Porém ali era um integrante da Liga da Justiça, um dos líderes. O primeiro lugar onde ela foi pedir ajuda e foi recusada por ser filha de seu pai. Ela devia ser sincera, já que ali na frente dela era só um, e depois lidar com as consequências.

— Eu estou evitando usar magia por enquanto, — confessou desviando o olhar, escondendo o que ocorrera noite passada — acredito que até semana que vem já vou ter voltado ao normal.

Bruce a analisou antes de ver a hora e se levantar. No passado Rachel Roth não era assim, ela amadureceu. Deu um meio sorriso com o pensamento.

— Certo. Acredito que devemos conversar novamente semana que vem, mas não presencialmente. Por enquanto você não irá participar das missões e de preferência fique longe da mídia — avisou, levantando-se — não saia da cidade sem avisar e nem fique sozinha.

— Eu estou bem, não preciso de babá — Rachel respondeu autoritária, incomodada com a situação.

— Não está, mas vai ficar — Bruce afirmou antes de sair do cômodo incomodado por querer tirar mais informações e não ter sucesso, deixando Rachel sozinha.

Se sentiu levemente aliviada. Pensava que seria muito pior, mas ela esqueceu que aquele era o Batman. Ele não gostava de enrolar, ainda mais com jovens perturbados. Estava desconfortável com a situação, porém sabia que aos poucos voltaria ao normal. Deixou a sala, encontrando Mutano escorado na parede, à sua espera. Ele estava sério e visivelmente preocupado. O garoto a fitou, com as sobrancelhas arqueadas esperando ela dizer alguma coisa.

— Não vai acontecer nada, vou ficar trancada na Torre por uns dias — revirou os olhos, fingindo indignação, como se eu quisesse sair daqui — Ele foi compreensivo. Estou bem, só preciso descansar. Obrigada por me esperar — encerrou a conversa antes mesmo dele dizer alguma coisa, deixando um garoto frustrado no corredor.

Entrou no seu quarto rapidamente e olhou a hora, 18h58. Já estava cansada e nem viveu o dia direito, talvez um despertador a acordasse mais cedo na próxima vez. Depois de ir ao banheiro e tomar um banho, pretendeu ir direto deitar-se. Ela se sentia melhor agora, só precisava descansar. Fechou os olhos pensando em como tinha lidado com as pessoas aquele dia, e como isso afeta a sua personalidade. Não queria deixar de ser ela mesma para ter uma conversa “amigável” com Batman ou os Titãs. Na verdade, ela não sabe quem é agora. Por isso está confusa. Ela não sabe o que pode ser.

Pensou em Garfield, na maneira em que ele a tratou durante o dia. Foi compreensivo, fez com que ela se distraísse e mal tocou no assunto que ela evita. A ajudou no seu quarto, e nem havia percebido quantas vezes o gorila entrou e saiu para jogar a destruição fora. Teve cuidado com as páginas de seus livros, dando risadas quando via uma imagem de alguma criatura em que ele pensava se poderia se transformar. Não fez perguntas, só a deixou no seu próprio silêncio, respeitando o seu espaço. Quando pensava nele, o coração aquecia, e isso fez com que ela se aconchegasse no travesseiro para descansar.

O início da noite estava tranquilo, quando acordou sendo puxada da cama com violência. Ela bateu a cabeça no chão de seu quarto. Imediatamente levantou sua visão afim de enxergar quem havia feito aquela brincadeira sem graça, e encontrou dois pares de olhos vermelhos a encarando. Levou um chute no rosto, e depois outro enquanto tentava se defender e levantar do chão. Garfield cheio de raiva bagunçava o seu quarto jogando objetos e roupas que recém organizara em sua direção enquanto mal conseguia se levantar. E por mais que Rachel estivesse vendo o rosto verde de seu amigo, também estava explícito que a alma dele não estava no controle de seu corpo. Ele estava possuído.

Ravena estranhamente estava tendo muita dificuldade em cessar os golpes de Garfield. Seu corpo estava pesando e a sua cabeça estava uma confusão por tantas perguntas. Como isso está acontecendo? Será que ele leu algo em meio aos seus livros? Como poderá trazê-lo de volta se não consegue bloquear um soco? O restante da equipe está a salvo?

— Você vai me libertar, Rachel — uma voz grave maligna, vinda de Garfield a assustou — nem que seja com a ajuda desses seus amiguinhos imbecis — terminou transformando-se em um tigre.

Apertou suas unhas lentamente na pele de Ravena, fazendo com que sangue quente escorresse de sua perna. Ela arfou com a dor e aos poucos tentava controlar sua respiração. Não estava entendendo o que estava acontecendo, mas a primeira coisa que deveria fazer era se acalmar. Era óbvio que Trigon achou um meio de provocá-la pegando um de seus companheiros de equipe. O companheiro de equipe em que ela estava se aproximando mais. Só não estava entendo como ela não consegue se mover. Seu corpo pesa e seus poderes não respondem. Era como se estivesse...

Dormindo.

Dormindo! Por isso ela não estava tento controle sobre si mesma, e Garfield estava naquele estado, rasgando suas pernas com as grandes garras de um felino. Não havia como ele ser possuído sem ter entrado em contato com ninguém. Sentiu-se grata por aquilo só ser coisa da sua cabeça. Quase que imediatamente tranquilizou-se, e as dores de seus machucados imediatamente cessaram. Ela conseguiu empurrá-lo com violência e devagar se levantou. Ajeitou sua roupa que estava rasgada e andou lentamente até ele, que já transformado sorria diabolicamente. Ali não era o seu amigo, era um demônio em seu lugar.

— Você vai sair dele agora — avisou furiosa, enquanto se aproximava — e aguardará por sua morte naquele lugar detestável que chama de casa.

Ele gargalhava, com sangue escorrendo em sua boca. Ravena conjurou magia em uma de suas mãos, e com ela apertava no pescoço do garoto, fazendo com que Trigon risse mais ainda.

— Nos encontraremos em breve... E será a última vez — advertiu antes de ouvir o pescoço de Garfield estalar, fazendo com que uma névoa negra se espalhasse pelo cômodo, cobrindo a sua visão.

Terminado aquilo, sentiu-se mais viva. Uma vitória para ela enfim aconteceu, e agora via todo o terror que estava vivendo era também psicológico. Ela estava disposta a treinar e a estudar mais maneiras de poder destruir a vida daquele ser que tanto a atormenta.

Com a névoa dissipando-se, Rachel sentiu sua mão formigar e olhos arderem. Sua visão ficou turva e percebeu que estava acordando. Ela começou a ouvir gritos, e alguém estava a segurando. Ou ela estava segurando alguém?

— Rachel, solte ele agora! Você está matando-o! — Dick suplicava, tentando fazer com que as mãos de Rachel soltassem o pescoço do garoto verde, mas ele não tinha força o suficiente e só podia assistir o jovem desacordado sem poder respirar.

Assim que percebeu o que estava fazendo, Rachel o soltou, e deu um salto para trás, batendo no peito de Batman que havia acabado de chegar no cômodo. Todos estavam no quarto de Mutano depois de ouvirem objetos sendo quebrados e gritos de ajuda vindo do jovem.

— Eu não... o que aconteceu? — perguntava para si mesma, enquanto assistia Dick verificar os sinais vitais do companheiro de equipe. Kori pousou as mãos pequenas em seus ombros, e a olhava aflita.

— Querida tente respirar, todos nós estamos nervosos — aconselhou enquanto a tirava do quarto — Não vimos o que aconteceu, ele te fez alguma coisa? Por que você o atacou? — enquanto Kori tentava descobrir o que aconteceu, Tara estava em prantos no quarto de Garfield perguntando o porquê de a bruxa ter feito aquilo.

Victor pegou o amigo no colo e o levou às pressas para a enfermaria. Dick e Batman foram logo atrás para ajudá-lo. O garoto estava desacordado e não estava respirando.

O aperto em seu peito retornou.