Notas iniciais
Oi, oi. Espero que gostem do capítulo. Esse ficou um pouquinho maior :) Ótima leitura ^^

— E o que eu ganho em troca? — Indaguei, intimando-a.

Uma criança como ela não teria nada a me oferecer, num mundo como aquele. Sendo assim, desistiria de me perturbar e, também, daquele plano tão inútil.

— Paz interior? — Sugeriu, estendendo-me a mão. — Não era isso que buscava? Uma forma de ser útil?

Por um vago momento, eu a vi como sendo o sinal que havia implorado para Deus. Um sinal em forma de decência e pureza, no qual eu deveria proteger com todo cuidado possível. O Senhor havia me enviado um anjo para salvar a minha vida e agora… agora eu provaria ser capaz de defendê-lo com unhas e dentes.

— O que quer encontrar nesse lugar? — Coloquei-me de pé, recusando o aperto de mãos.

— Não tem tanta importância assim… — Deu-me as costas. — Você me leva até lá e cumpre com o seu dever! Todo mundo sairá ganhando.

— Você parece ser uma garotinha muito petulante! — Retruquei, acompanhando-a.

— Antes isso que se lamentar até o último suspiro, não acha? — Olhou-me sorrindo.

Claro! Eu nunca imaginaria ser calado por uma “garotinha petulante”! De tantas vidas que tirei, de tantas mulheres com quem saí, de tantas famílias que pagaram pelos meus erros, justo uma garotinha para testar a minha vivacidade! De duas, uma: ou Deus estava manipulando aquela jovem para me dar uma lição, ou ela me manipulava para testar o meu controle mental.

Eu estava cansado, com fome, com sede, com dor nos calcanhares e nas costas, com algumas queimaduras leves do sol e uma raiva incontrolável por saber que o local descrito pela pirralha, levaria três dias andando para chegar. E, para piorar, o fato dela falar como papagaio, não era tão pior quanto me jogar na frente de um morto.

Estava me arrependendo de ter me levantado!

— Quantos anos você tem? — Ela puxou assunto, saltitante.

— Trinta e nove — respondi, sem dar a mínima, enquanto analisava o mapa.

— Eu tenho treze.

— Você já me disse isso — lembrei-a.

— Eu sei, mas não custa repetir, não é? Um dia você contará de mim para alguém e tem que saber de algo ao meu respeito! Sem falar que você nem estava ouvindo!

— Primeiro que você deve ficar tranquila! — Sorri, afagando-lhe os cabelos. — Eu não contarei de você para alguém… E segundo, que se eu não ouvisse, não saberia que você repetiu.

Ela embirrou, corada e brilhante a luz do pôr do sol. Aquele seu semblante de garota madura e infantil, fazia-me lembrar de várias pessoas boas que passaram na minha vida e que hoje me deixavam apenas saudades e lembranças felizes.

— Hei, Matt! — Exclamou, correndo à frente. — Você não sente?

— Sinto o quê? — Desviei os olhos do mapa e a encarei, correndo rapidamente ao seu encontro, acreditando ser algo de importância e perigoso.

— A brisa que toca nossos corpos como se fosse um véu invisível de uma vida fácil — respondeu divertida, fechando os olhos e cochichando uma canção. — Olhe para esta linda imagem, Matt. — apontou para onde haviam poças d´água, carros abandonados, grama alta e, de fundo, prédios em ruínas. — Minha mãe sempre disse que eu era o raio de sol dela! — Orgulhou-se.

— E aonde ela está agora?

A garota pareceu cogitar a ideia de pensar naquilo, então deu de ombros e riu.

— No céu, com meu pai e minha irmãzinha — respondeu.

— Ah! — Exclamei, ressentido.

Aquela não era uma pergunta que eu mostrava interesse em fazer, embora houvesse saído sem intenção. Tocar naquele assunto doía tanto em mim quanto nela. Não me sentiria bem se alguém me rebatesse a mesma situação, até porquê, eu estava dentro de uma dura realidade. Emocionalmente abalado, o que diria de uma criança tão frágil como ela? Se Deus fosse justo, livrar-nos-ia daquele julgamento impiedoso, onde uma família era dizimada ainda pela lei da sobrevivência, tornando-se obrigada a aguentar as pontas…

Mas, o que eu sabia daquilo tudo? Separei tantas famílias, fazendo uso de algumas balas e meu próprio orgulho, que não me tornava ninguém para especular as ações de Deus.

— Você já amou alguém? — Ela me perguntou, visivelmente curiosa.

Aquela pergunta… doía mais se houvesse citado a morte dos meus pais.

— Uma vez, — comecei. — Uma vez amei uma mulher. Ela era tão linda… Tão… espontânea. Assim você é. Era uma aventureira, estável, sensível, competitiva e teimosa! Muito teimosa! Ela fazia dos meus dias o motivo de viver, me tirava a paz e a me dava novamente, como naqueles brinquedos em que vamos às alturas tão rápido que quando menos imaginamos, atingimos a calmaria novamente. Ela era o meu sonho…

— Mas? — Insistiu.

— Mas… — Suspirei fundo, vomitando as palavras que há tempos estavam engasgadas. — Mas me tiraram ela. Fomos assaltados e ela morreu… Ela morreu no dia em que descobri que seria pai.

Quando eu parei para encará-la, ela estava alguns passos atrás de mim. Imóvel e vulnerável. Parecia ofegante, enquanto fechava os punhos e se mantinha cabisbaixa. Quando me aproximei, permaneci desacreditado, encontrando uma doce menina chorosa, aos soluços, muito mais triste que eu.

Fui surpreendido por um abraço que chegou de supetão, sem pedir permissão, envolvendo minha cintura com seus braços magricelas.

— Eu sinto muito, Matt — gaguejou. — Mas não seja cruel consigo mesmo — pediu, levantando os olhos para me encarar.

Nela, vi o mesmo olhar que tinha minha amada. Aqueles olhos que brilhavam intensos e expressivos, recheado de compaixão e fé.

— Ela nunca te abandonou e, se por algum motivo você está vivo, ajudando-me a trilhar este caminho, é porque ela está te amparando com segurança.

Uma agulhada me atravessou o peito. Era mais que um choque de realidade, era uma visão que eu me recusava a desenvolver, porque, diabos, eu estava numa pior e Évy havia partido sem mim. Eu estava indefeso e com uma casca de aço a me rodear, cegando-me, fazendo com que eu mentisse para mim mesmo. Que acreditasse naquele discurso idiota de que eu estava bem, emaranhado de sonhos que teci no decorrer de toda aquela desgraça.

Évyllin, querida, você precisou me enviar uma criança, para me fazer perceber o quão errado eu estive nestes últimos anos?

Notas finais
Espero que tenham gostado :) Por favor, me deixem suas opiniões. É bastante incentivadora e me deixará pulando de alegria. aushuashuas Beijinhos e até o próximo o/