Notas iniciais
Olá, boa leitura!

A morena mágica surgiu em um piscar de olhos, seus lábios vermelho escarlate com um sorriso maroto e seus lindos olhos azuis bem delineados a fitaram. Desfilou pela sala, como se estivesse se apresentando em um dos seus shows de mágica de antigamente se aproximando da equipe. Victor a observava com a boca aberta, hipnotizado com a sua beleza.

Talvez ela teria o hipnotizado, Ravena pensou.

— Rachel Roth, minha querida! Há quanto tempo — disse ainda sorrindo cinicamente enquanto a olhava de cima a baixo — Vejo que cresceu bastante, já é uma mulher. De novo.

Ravena cruzou os braços na defensiva, achava a mulher insuportável e fazia questão de deixar bem claro em sua mente, para que Zatanna soubesse quanto tentasse a analisar, como fazia com todos o tempo inteiro. O restante da equipe sentiu o clima pesado, e com o olhar Rachel já indicou a saída de todos para poderem conversarem em privacidade.

— Sete anos — respondeu secamente. A mágica deu duas piscadas, repousando a mão na cintura.

— Exatamente! Como o tempo passa, não é? — continuou provocando Rachel. Queria saber o quanto estava seu controle. Pretendia tirar o dia para convencer os integrantes da Liga de que estavam cometendo um erro deixando-a livre — Sabe o que vim fazer, para a segurança de todos, menos da sua equipe é claro, já que irão querer ficar com você. Mas não se preocupe. Eu só preciso de algo seu para deixá-los livres do campo de força, impedindo só você de passear por aí.

— Eu não passeio para lugar algum.

— Ah! Primeira mentira! — deu uma pequena risada, apontando o dedo em direção à morena com capuz sobre a cabeça — esses dias saiu para almoçar em um restaurante meia boca.

— Foi só uma vez, sua mocréia! — Garfield apareceu na porta, insultando a mulher que se divertia com a situação, mas logo foi puxado por Cyborg.

— O seu namoradinho é uma figura. Ele tem que ser muito paciente para te aturar, eu aposto.

— Você é insuportável. Vamos logo com isso — disse arrancando dois fios de cabelo e os estendeu para a morena de olhos azuis.

Zatanna a olhou com a sobrancelha arqueada. Rachel estava crescida, um pouco mais madura, mas ainda se irritava facilmente. Enquanto pegava os fios curtos arroxeados pensava em uma maneira de tirá-la do sério. Estava tão entretida com aquilo que não percebera que com o crescimento de Ravena também ampliou seus poderes, que então conseguia ouvir cada palavra que passava na mente daquela mulher desprezível.

— Olha, eu quero mesmo criar este campo de força agora. Mas acho que deveria lhe fazer algumas perguntas antes. Vai que talvez a gente possa ir para um lugar melhor pra você, não é?

As duas se olhavam de uma maneira inexplicável. Zatanna queria continuar cutucando, mas isso não causaria efeito algum, já que Batman havia dado a ordem e ela deveria apenas colocar o campo de força na Torre e ir embora. Rachel continuava calma por isso.

— Não te devo resposta alguma. O que sei já foi dado à Liga, e se você ainda não sabe é porque não lhe diz respeito — disse em alto e bom som, intimidando levemente a mais velha — então eu peço para que faça o seu dever e se retire.

Zatanna recuou um pouco, surpresa pela quantidade de palavras que saíram da boca de Rachel. E a audácia. Estava prestes a retrucar, mas Robin apareceu com seu traje chamando a atenção das duas.

Bom dia, Zatanna. Vejo que Rachel já lhe entregou o que queria — disse com o olhar nas mãos da morena — temos uma missão a cumprir, então eu peço que a senhorita crie o campo de força para podermos sair e deixar Rachel aqui na Torre, em segurança.

Os olhos azuis lhe fitaram com dúvida, mas não desmanchou o sorriso.

— Não esperava que tivessem sido liberados tão recentemente devido ao... acontecimento de ontem.

— A Liga nos deu o dever de encontrar o corpo de Slade. O quanto antes, melhor. — respondeu, ignorando as tentativas de Zatanna se infiltrar na Torre.

— Slade não está morto — alertou convicta — Tenham cuidado, meninos. Enfim, acho que enquanto vocês procuram, eu vou ficar de babá dessa aí.

Rachel deslizou mostrando a cara de descontentamento, escondendo logo depois. A mágica percebeu e riu baixo, debochada. Quando já estava pronta para soltar mais uma frase, Robin a interrompeu chamando Garfield, que logo surgiu carrancudo para com a morena, ficando ao lado do amigo.

— Vocês ainda não devem se conhecer, então vou brevemente apresentá-los — disse colocando a mão sobre o ombro do colega — Este é o Mutano. Ele se feriu ontem e já está bem, mas para garantir é melhor ficar na Torre com a Ravena. Não existem motivos para “ficar de babá” de uma a mulher de vinte e três anos.

Rachel o fitou e acenou, em forma de agradecimento. Zatanna bufou, o cumprimentando contrariada, mas não deixou de dar mais uma alfinetada.

— Este é o seu namorado, Rachel? Não acha ele muito verde para você? — murmurou enquanto aproximava a mão até o rosto do jovem, que ficou estático — Eu posso te dar um bronzeado se quiser, para deixar amadurecido.

— Não é necessário, obrigado — Garfield respondeu constrangido, desviando a mão da morena de seu rosto.

Rachel respirou fundo, estava tentando ao máximo não ser agressiva com Zatanna, que sabia ludibriar. Estava por um fio, teria que ficar quieta e ouvir a conversa dos três em silêncio, mesmo afirmando que poderia resolver aquilo sozinha agradeceu aos amigos mentalmente por terem chegado para distrair a megera. Ficou levemente incomodada por Zatanna falar de Mutano daquela maneira, mas para não atrair conflitos a ignorou.

— Certo... — a morena desviou o olhar para Rachel desta vez séria. Estava lamentando por não conseguir o que queria — Levem-me até o terraço.

Dentro do elevador estavam os quatro, e surpresa pela infantilidade da mulher que nem sequer disfarçar roçava seu corpo no de Garfield que tentava se afastar encabulado, Rachel acabou segurando o braço fino dela, que estava coberto por uma blusa preta com tecido macio e cintilante fazendo-a encarar. Zatanna sorriu, se virando para ela.

— Oh! O que houve, precisa de alguma coisa? — disse inocentemente, piscando os olhos duas vezes enquanto sorria.

— Dá para agir como uma mulher adulta por cinco minutos? — murmurou, demonstrando indignação.

— Mas eu não fiz nada. Fiz? — disse com um sorriso ainda maior e com a sobrancelha arqueada.

Paciência.

— Deixa pra lá, Raven. Vamos terminar logo com isso, está bem? — Mutano disse tentando apaziguar a situação. Ela a soltou.

— Chegamos — Robin se pronunciou pela primeira vez. Talvez estivesse focado demais tentando fazer com que a mulher não lesse os seus pensamentos, já que mentiu sobre a missão deles.

Saíram do elevador, seguindo por um curto corredor e subiram as escadas. Zatanna foi na frente, logo dizendo algumas palavras ao contrário e levantando suas mãos. O campo de força estava se formando ao redor da Torre. Os olhos de Mutano brilhavam encantados com o brilho que saíam das mãos da morena, que logo depois as abaixou, terminando o feitiço. Os fios dos cabelos de Rachel desapareceram. A morena virou-se para eles sorridente, colocando luvas brancas que guardava no bolso da blusa.

— Pronto! Como está frio aqui fora... Ah é! Só tenho que confirmar uma coisa! Temos que ter certeza de que está funcionando, certo? — Olhou para Ravena e deu um forte chute no estomago, fazendo-a voar para fora da torre. Surpresa pelo golpe ela acabou indo de encontro ao campo de força, que cintilava na cor magenta. Este se intensificou quando Rachel o tocou, fazendo com que seu corpo recebesse fortes ondas de choque. Ficou assim por alguns segundos enquanto Mutano pulou para a segurar como pterodáctilo, mas o seu corpo era intocável, como um fantasma.

— O que você está fazendo sua maluca? Solta ela agora! — Dick gritou com a morena, furioso. Esta sorriu e estalou os dedos, isso fez com que Ravena se separasse do campo de força e caísse com tudo no chão — Meu Deus, Rachel!

Garfield planou até alcançá-la desmaiada, estava com um pequeno ferimento que sangrava na cabeça e um grande na coxa, nada mais. Ele a colocou em seus braços e sacudiu levemente, a chamando baixinho, porém ela não acordava. Zatanna desceu como uma pluma do terraço da Torre até ir de encontro aos dois. Dick logo desceu também, que correu até a jovem desacordada.

— Bem. Agora sabemos que ele funciona — a morena disse com um imenso sorriso nos lábios — Enfim, chegou a minha hora de retirada. Vejo vocês daqui a uma semana ou menos.

O jovem verde passou a amiga gentilmente para os braços de Robin partiu para cima de Zatanna que estava de costas, mas desviou facilmente, como se soubesse que ele faria aquilo.

— O que você fez? Quando ela vai acordar? — perguntou aflito, vendo a mulher dar de ombros.

— Talvez daqui a uma hora ou duas. Não sei. Nunca fiz isso com essa... espécie de demônio — falou com desdém, enquanto se afastava — Bem, terminamos por aqui. Até mais tarde! — se despediu mandando um beijo no ar e desaparecendo sobre os olhos dos dois.

Os dois se entreolharam, chocados com a audácia. Robin ajeitou Ravena e caminhou para dentro da Torre com ela em seus braços. Pelo comunicador ele avisou o restante enquanto carregava a morena até a enfermaria. Olhá-la naquele estado o deixou cheio de raiva, depois que a colocou na maca partiu direto para a sala de controle para contatar Batman, deixando Garfield com ela.

— Você vai ficar bem — Mutano disse ao segurar a mão gélida da morena — Eu acredito.

—

Alguns minutos se passaram e o restante da equipe se juntou para discutir sobre o ocorrido. Estelar ficou com Rachel enquanto faziam alguns exames. Depois de contatar a Liga, infelizmente foi Superman quem respondeu. Ele é um homem bom demais para ver maldade nas pessoas. Fez questão de dizer que tudo foi um mal-entendido, e que caso Raven não acordasse, eles iriam tomar providências. Resumidamente eles não farão nada, pois ela faz parte da Liga da Justiça Sombria e não queriam entrar em mais problemas.

Garfield estava fulo, havia ficado muito animado por ter saído e comprado alguns móveis para ele e Ravena com a ajuda de Victor, e agora as caixas estavam fora dos quartos e perdeu toda a vontade que tinha de montar. Os móveis antigos de Rachel eram todos em um marrom escuro, móveis antigos de madeira maciça. Obviamente ele não encontrou nada assim, mas fez o que pode com algo mais moderno e totalmente preto. Também havia comprado portas novas para o closet que estava destruído e um espelho maior do que ela tinha, que achou parecido com o antigo. Muito caro, mas foda-se. Já pra ele comprou qualquer coisa, não ligava para os móveis. Só ficou desesperado por uma televisão nova, já que Trigon jogou a anterior na cara dele.

Nunca tinha visto Zatanna, mas por ela já ter atuado junto com os Melhores do Mundo já a admirava. Agora estava desapontado. Uma lágrima solitária caiu em sua calça, fazendo-o se levantar e procurar Estelar para saber se a morena havia melhorado. Nada ainda depois de quatro horas, onde ele já havia substituído a amiga que durante esse tempo ficara em silêncio. Levaram a garota para o quarto da ruiva e a cobriram com grande edredom roxo, já que ela não usava com frequência o cômodo por estar com Dick. Victor estava no dilema de permanecer ali sem saber se quem acordaria seria a amiga ou o seu pai. Dick teve a ideia de retirar todos poucos funcionários que ficavam nos andares perto do térreo, apenas os Titãs ficariam no recinto. Estelar apareceu na sala, onde Cyborg e o namorado estavam esperando algum sinal de mudança. Ela apoiou a cabeça no ombro do moreno e soltou o choro que segurava, recebendo um abraço reconfortante.

— O que faremos? — Kori olhava para a televisão desligada — Ela estava tão bem... Era realmente necessário testar o campo de força dessa maneira? — ela perguntou ingenuamente, ainda tentando entender o porquê daquela mulher que ela achara tão bela e divertida fazer aquilo com sua amiga.

— Provavelmente está em conflito interno — Robin lamentou, enquanto passava as mãos nos cabelos de Kori, que já começava a soluçar — Fique calma, ela vai sair dessa.

— É — Victor murmurou com as mãos na cabeça — Ela vai.

—

Rachel não estava mais em Jump City. O corredor em que acordara não era o que levava ao seu quarto. O chão negro e paredes vermelhas a levaram a uma porta banhada em sangue fresco. O cheiro de enxofre dominava o local e ouvia asas batendo e gritos de criaturas malignas perto dali. De alguma forma Zatanna a enviou para onde seu pai se encontrava. O plano de se sacrificar naquela dimensão talvez teria que ser colocado em prática mais rápido do que pensara.

Após passar pela porta, se deparou com o que via em seus sonhos. Corpos esquartejados com animais brigando pela carne em meio a ruínas do lugar que em suas poucas lembranças um dia foi lindo. Trigon havia se libertado e lentamente destruía Azarath, o lugar onde crescera. Ainda era possível ver o restante do reino intacto no horizonte, mas sabia que era questão de tempo para que tudo virasse pó. Porém ela fora posta ali de propósito e novamente não tinha reflexos, e mal conseguia andar. Precisava encontrar uma fenda que a levasse de volta a realidade.

Lentamente, para não chamar atenção das criaturas que estavam de costas para si, ela deu passos para trás com a intenção de encontrar a porta que tinha acabado de fechar. Não ficou surpresa quando viu que a mesma não estava mais ali. Mas conhecia o lugar, só precisava descer as escadas. Moveu seu olhar para a esquerda, onde encontrou uma escada com degraus altos em que ela teria muita dificuldade em descer. Mas não havia escolha. Assim que desceu o primeiro degrau, um dos demônios a ouviu, e gritou chamando a atenção dos outros. Pela primeira vez ela se sentiu incapaz. Não estava pronta para ser levada por essas criaturas até seu pai. Precisava de tempo.

Com esforço conseguiu se jogar, rolando sobre os degraus com rochas que arranhavam todo o seu corpo. Percebeu que ali se tornara mais vulnerável que o normal. Sentia alguns ossos das costelas se partirem, e cuspia sangue enquanto ainda caía. Depois de finalmente chegar no fim dos degraus, o mais rápido que pôde se arrastou para a esquerda, tentando limpar a boca que escorria sangue. Como esperava, a porta havia apenas mudado de lugar. Estava ali, tão perto... Aproximou-se esperançosa até ter seu braço agarrado e perfurado por uma das criaturas que havia a alcançado, era negra com olhos vermelhos, fedia a podridão quando abria sua boca, mostrando seus dentes enormes. Gritou de dor e raiva.

Raiva, o que ela a tanto tempo continha. Se permitiu senti-la, já que isso fez com que seus poderes voltassem com tudo. Gritou furiosa enquanto se apoderava da escuridão, soltando o demônio de seu braço e apenas com a intenção de esmagá-lo em seus pensamentos, a criatura se partiu, restando apenas entranhas. E assim fez com o restante sem ao menos mexer um músculo. Destruiu todos os demônios que se aproximaram. Sua ira estava aumentando conforme assistia mais morte e sangue pelo chão causada por ela, não pelo seu pai. Sorriu com a possibilidade de fazer o mesmo com ele, mas não seria tola. Por este breve momento se permitiu extrair parte da raiva que guardava dentro de si enquanto se aproximava da porta, pretendendo voltar mais relaxada para se concentrar em seu plano. Respirou fundo enquanto passava pela porta e caminhando até luz vindo do fim do corredor.

Estava voltando para casa.

Notas finais
O que acharam? Me desculpem, mas nunca curti a abençoada da Zatanna! kkkkk