Sacrifício

8 Dores e Conflitos


Notas iniciais
Olá, pessoas! Só para avisar que estou passando por um procedimento que está me deixando muito cansada. Levo alguns dias para me recuperar e começarem tudo de novo. Mas sinto que vou conseguir continuar escrevendo. Obrigada pelo apoio! Boa leitura.

Sentiu seu corpo levemente aquecido, e sua capa de seu traje a deixava desconfortável por estar deitada em algo fofo. Abriu os olhos se deparando com o teto do quarto de Estelar. O reconhecera de imediato pelas cores vibrantes e o aroma doce do lugar. Respirou fundo aliviada, feliz por estar de volta e saber que seu corpo não havia sido retirado da Torre enquanto estava desacordada. Sentiu sua mão sendo segurada quando quis soltar a capa e logo viu Garfield cochilando em uma poltrona cor de rosa que estava praticamente grudada ao lado da cama. Ele roncava baixinho e estava escorrendo saliva de sua boca. Deu um sorriso torto pela cena. Apertou levemente a mão que a segurava, tentando acordá-lo. Sem sucesso.

— Gar, acorda. — Disse logo se arrependendo depois de sentir uma forte dor na cabeça, levando a mão ocupada até a testa, sentindo um curativo. Logo o retirou, vendo que ele estava completamente branco, sem nenhum resquício de sangue. Com o movimento ele acordou, logo se ajeitando e limpou a boca na manga do antebraço.

— Ei, estou aqui. Como está? — ele falou em tom de preocupação e depois de um longo bocejo, lançou o olhar para sua testa — Ah, já curou. Desta vez levou mais tempo. E a sua perna? — ele levantou o edredom até aparecer suas pernas alvas. Ela inda estava com o traje que deixava elas à mostra.

Ao sentir o ar gelado, logo direcionou seu olhar para a grande ferida que fora fechada em pontos por uma das médicas que já estava fora da Torre. Estava doendo bastante. Ficou confusa, isso nunca havia lhe ocorrido. Olhou para Mutano pedindo explicações. Ele deu de ombros.

— Eu não sou a pessoa mais inteligente para te dar alguma resposta. Acredito que tenha a ver com o campo de força. Não sei o limite de poderes que aquela Zatanna tem, mas o que ela fez com certeza te machucou de verdade e para você ter noção Rachel, já é — pegou seu celular que estava no bolso e reclamou pelo brilho no máximo do dispositivo, já que ligou a tela no escuro — já é três e pouca da manhã. Ela fez aquilo com você depois do almoço gatinha.

Ela deu seus fios de cabelo para aquela mulher. Obviamente isso lhe tiraria a invulnerabilidade, porém estava surpresa pelo resultado. Não se abalou pela ação da mulher que a chutara, pois não esperava algo menos baixo do que aquilo de Zatanna. Ela poderia ter feito algo pior. Por mais que desejasse a morte dela desde anos atrás, graças ao que ela fez conseguiu ver a situação de Azarath e agora pode aperfeiçoar mais o seu plano.

— Rachel? Está me ouvindo? — Gar chamou sua atenção, que ainda observava os pontos em sua perna. Estava pensando se ali ficaria alguma cicatriz — a médica disse que era melhor deixar pegando um ar, por isso tiramos o curativo já que você sara rápido. Mas ainda está inchado... Estranho, não é?

Concordou com a cabeça, logo explicando o porquê de ainda não ter sarado. Estava tentando demonstrar tranquilidade perante a situação mesmo contando o que acontecera enquanto dormia escolhendo as palavras certas. Queria também explicar para ele o que pretendia fazer, mas não havia lhe esquecido o que Batman disse, sobre não ter que compartilhar o assunto com ninguém. Mas Garfield era especial, e não queria magoá-lo no último instante, precisava contar para ele mais tarde.

— Obrigada por ficar comigo até essa hora da noite. Eu estou bem, pode ir descansar agora. Deve estar com dor no corpo por causa desta poltrona.

— Eu com dor? Você caiu de cara no chão do terraço da Torre e eu que devo estar com dor? — ele aumentou o tom de voz, logo levando a mão na nuca encabulado — Não é que você tem razão? Poltrona desconfortável, minha coluna dói — confessou enquanto levantava e se jogou na cama ao lado dela — Não se importa de eu ficar aqui né? Dois enfermos querendo descansar.

— Eu estou mais do que descansada — Rachel se levantou da cama mesmo com o puxão que sua perna deu ao apoiá-la no chão — Vou para o meu quarto me arrumar. Preciso de um banho e tirar essas roupas.

— Então eu vou com você — ouviu a voz dele em suas costas, o olhou com a sobrancelha arqueada se perguntando se aquele beijo que trocaram fez com que ele perdesse as estribeiras.

— Não vai não. Fique aí e durma. O seu quarto está todo quebrado como tinha dito mais cedo. Aproveite o da Kori, que é mais organizado que o seu.

Ele ignorou tudo o que ela disse e se pôs ao seu lado, logo abrindo a porta para que pudesse passar.

— Eu sempre respeitei seu espaço e privacidade Rachel. Vou continuar fazendo isso — o homem verde lhe disse ao pegá-la de surpresa no colo, recebendo um olhar fulminante vindo da mulher machucada — mas já que está vulnerável, incluindo o seu pai e a sua perna que não curou, vou abandonar a parte do espaço, e deixar só a privacidade por enquanto.

— Perdeu a cabeça? Me solta agora! — disse se debatendo, fazendo com que os dois quase caíssem no corredor. A dor na perna e cabeça voltaram com o movimento, fez uma careta. E de repente sentiu uma agulhada nas costelas, e se lembrou no seu momento em Azarath. Decidiu não se mexer mais.

— Eu sei que detesta isso, mas eu peço que entenda que estou te ajudando, como desde o início eu falei. Já estou ficando cansado de repetir, que mulher teimosa.

Como o seu quarto ficava no mesmo andar do de Kori, não demoraram muito a chegar. Garfield no caminho continuou lhe dando sermões, e perguntou se o quarto ainda estava enfeitiçado para ver se conseguiria entrar sem problemas no cômodo. Logo que chegaram ele delicadamente a colocou de pé em frente à porta. A morena lançou o olhar para grandes caixas ao seu lado, vendo que eram seus móveis novos.

— Por que não mandou montarem? Depois era só eu colocar no quarto e ajeitar as coisas. — perguntou enquanto direcionava os olhos para os do Gar.

— Como conversávamos antes com Victor sobre você estar em uma prisão, achei que montar os móveis seria um bom passatempo. Me desculpe.

A morena pousou sua mão no rosto verde. Realmente estava sendo o centro das atenções, com todos preocupados com ela. Ele lhe fitava com um pequeno sorriso, talvez esperando um movimento a mais. Uma iniciativa.

— Já disse para não pedir desculpas — murmurou ao abrir a porta, ainda com os olhos nele — montamos eles amanhã.

— Se você estiver recuperada.

Acenou com a cabeça concordando, não conseguindo tirar seus olhos dos dele. Como não percebera isso antes? Suas longas meditações que estavam ocultando esse sentimento que tinha por ele? Não existia a possibilidade de sentir atração de repente. Isso ela deve ter acumulado durante os anos que passaram juntos. E inconscientemente escondeu o amor dentro de si.

Lentamente se aproximou de Gar, que sem pressa a esperava fazer algum movimento. Ela envolveu seus braços no pescoço do metamorfo e se aproximou para um beijo que ele prontamente correspondeu. Ele passou as mãos novamente pelo seu corpo com as mãos por baixo de sua capa meio solta, passeando em suas costas e logo a segurou na cintura. Intensificaram o beijo, com a sua língua acariciando a da morena, que abriu a porta do quarto o puxando para dentro.

Gar levou seus lábios ao seu maxilar indo até o pescoço de Rachel, que com a respiração quente dele sentiu um arrepio na espinha. Puxou seus cabelos para voltar a beijá-lo, mas quando ele apertou sua cintura deu um pequeno gemido, logo fazendo uma careta. Garfield a amparou delicadamente, vendo que aquela era uma expressão de dor. Os dois estavam os corações acelerados, porém o dele acabou dando um aperto pela preocupação.

— Está machucada nas costelas? Como não viram isso nos exames? — começou com perguntas intermináveis, quase não dando a oportunidade de a morena responder. Ele a ajudou sentar-se na cama.

— Eu caí em Azarath e acredito que quebraram, não esperava por isso, mas vai passar — respondeu enquanto pousava a mão sobre a de Mutano — Amanhã vai estar tudo bem, agora vou tomar um banho, pode passar a noite aqui?

Ele demorou alguns segundos para concordar com a cabeça, respondendo em silêncio. Ela lhe deu um selinho e se levantou com um pouco de dificuldade, indo até o closet sem portas. Depois com roupas nas mãos ainda mancando se dirigiu ao banheiro.

— Eu estou sonhando? — perguntou para si mesmo enquanto aprontava a cama para Raven se deitar sem mais esforço. Enquanto a esperava passeou pelo quarto, meio confuso pelo comportamento dela. Para ele estava sendo um sonho se realizando, mas também não seria tolo o bastante. “Talvez ela esteja carente”, ele pensara. Entretanto torcia para que não fosse só isso. Garfield a amava, e não sabia o que faria caso ela o afastasse de vez depois disso.

Enquanto Raven ainda estava no banheiro, se aproximou da montanha de livros que estava no sofá em que ele pretendia dormir e pegou um que era distinto dos demais. A capa era branca e havia ornamentos em prata em sua borda. Tentou abri-lo com a curiosidade de ver mais ilustrações de alguns monstros em que ele pensava ser o que Rachel havia visto enquanto estava em Azarath, porém o livro estava enfeitiçado. Ficou um pouco confuso porque ele mesmo havia colocado os livros no sofá e com certeza aquele não estava ali antes. Se assustou quando a morena abriu a porta bruscamente, logo indo em sua direção e arrancar o objeto de suas mãos.

— Como você...? Você consegue vê-lo? Não pode sair encostando no que pode te matar, Garfield — ela o alertou com o tom de voz elevado — Este livro não deveria ser visto pelos olhos de todos, só do meu. O que você fez?

— Eu não fiz nada! Só achei diferente por ele ser branco — defendeu-se colocando as mãos pra cima em sinal de rendição — Eu sei que sou enxerido, desculpe. Não vou pegar mais nenhum, você os coloca na estante, essa vai ser sua parte do trabalho amanhã.

— Conseguiu abri-lo? — perguntou já aflita, aquele era o livro mais importante e perigoso que tinha. Assim que sentiu alguém o tocando ficou em alerta.

— Não! Tá trancado que nem o seu diário.

O alerta diminuíra, sua respiração acalmou-se e logo ajeitou a postura. Sussurrou umas palavras em um idioma que ele não entendeu e o livro desapareceu de suas mãos. Ele olhou surpreso para aquele “truque de mágica”. Nesse momento percebeu que ainda estava de toalha por ter saído às pressas. Gar a observou com um leve sorriso malicioso, como resposta deixou um breve beijo em seus lábios e ele permitiu que se retirasse para vestir-se. Ela sorriu com as bochechas vermelhas logo fechando a porta.

Após colocar um casaco pelo frio e um short para não cobrir a ferida, que estranhamente ainda estava vermelha e inchada dando contraste em sua pele alva, ela secou os cabelos e se dirigiu a cama deitando-se onde Garfield havia ajeitado o cobertor e os travesseiros. Ele observava a ferida que mesmo no escuro chamada a atenção. Depois de se ajeitar o chamou com o olhar, para deitar-se ao lado dela, que prontamente o fez, já se esquecendo do sofá.

— Tem certeza de que vai cicatrizar totalmente amanhã? — sussurrou se referindo a todos os machucados. Ele a olhou preocupado, com ela já de olhos fechados. Rachel havia dito que estava completamente descansada, mas o banho quente a deixou sonolenta novamente.

— Sinceramente, agora tenho minhas dúvidas. Eu realmente estou com dor e não pretendo usar meus poderes de cura depois do que houve — confessou, lançando seus olhos violetas para os dele — Gar, eu preciso dizer uma coisa que não vai gostar. É sobre minha conversa com o Batman. Eu preciso que você não conte para mais ninguém.

Ele ficou de lado na cama e a olhou com atenção, estava curioso, mas Dick foi vago perante o assunto quando havia lhe perguntado. Odiava quando faziam isso com ele, era quase sempre o último a saber. Ele sorriu para quebrar aquele clima pesado.

— Pode contar gatinha, vai ter o meu apoio no que precisar — disse logo ouvindo um riso anasalado vindo dela, que com o movimento acabou colocando as mãos na costela.

— Faz anos que estou procurando uma maneira de derrotar meu pai permanentemente, ou seja, matá-lo. E descobri que existe uma grande chance de dar certo. Vou fazer um sacrifício assim que tiver o máximo de informações do livro, para que não haja contratempos.

— Claro, do que precisa? — ele começou animado para participar — Velas você tem de sobra, e se necessitar de algum animal eu vou ficar meio desconfortável, sabe como é. Mas te ajudo no que precisar.

Ela suspirou pesadamente e desviou o olhar para o teto, não queria dizer aquilo. Mas é melhor ele saber para que não interfira no último momento.

— Eu preciso morrer para isso dar certo. Existe uma chance de...

— De jeito nenhum! — ele gritou já se sentando bruscamente na cama — Você não vai morrer pelo crápula do seu pai. Nós não vamos deixar isso acontecer. Eu não vou deixar que faça isso.

— Não existe outra maneira. É isso ou ele destruirá Azarath e virá para Terra, especificamente onde eu moro — continuou no mesmo tom de voz e posição enquanto ele já passava as mãos no cabelo os puxando e bufava de raiva. Ela quis tirar aquilo dele para conversarem melhor, mas internamente ela estava gostando do que via. Ele ficava bonito quando irritado.

— Sempre existe outra maneira, Rachel. Não me venha com essa de se matar.

— Não é suicídio, é sacrifício. Não disse agora mesmo que iria me apoiar no que eu precisar? — finalmente olhou para ele com um pequeno sorriso, que parou de gesticular para o nada.

— Retiro o que disse. Sempre lutei tanto em batalhas quanto aqui no nosso lugar de descanso para te proteger, te manter viva. Não vou te apoiar nessa merda. O que farei é diferente, vou ficar com você o tempo inteiro para que não faça nenhuma bobagem — já falava com a voz embargada, sabia que por mais que dissesse isso, ela iria o impedir de qualquer forma. Sentiu a mão dela na sua, o que causou certo formigamento.

— Trigon destruiu mundos intermináveis, o nosso pode ser o próximo. Não vou deixar que nenhum de vocês me impeça. Batman está de acordo e vai me...

— É claro que ele está de acordo! — a interrompeu, com lágrimas em seus olhos que ele sequer tentou impedir — Ele não se importa com ninguém. Você só está facilitando um problema que a Liga quer resolver. Por favor, Rachel. Não faça isso, fique por nós. Fique por mim — disse lhe envolvendo em um abraço enquanto soluçava — Se você se importa, fique por mim. Eu te amo mulher. Que merda.

Correspondeu ao abraço mesmo estando dolorida, ele chorava em seu ombro enquanto ela acariciava sua cabeça. Um gosto amargo em sua boca surgiu e seu estômago revirou conforme ela digeria as palavras dele. Não queria partir, mas precisava. Ou talvez precisasse. Com o livro branco ela poderia encontrar outra alternativa, porém com consequências que possivelmente seriam catastróficas. Precisava pesquisar. Não conseguindo mais ver o sofrimento de Mutano, ela retirou parte daquela amargura e aflição que ele estava sentindo o deixando mais relaxado.

— Eu... Eu vou pesquisar mais. Confesso que não procurei outra maneira menos abrupta — o afastou para o fitar os olhos verdes, logo colocava o rosto entre suas mãos — Eu prometo que vou me esforçar e você pode ficar aqui e observar o que eu fizer. Mas de nenhuma maneira interfira em meus feitiços. Pode morrer, compreende?

A morena selou seus lábios em um beijo terno e delicado, mas Gar logo o aprofundou com ânsia, procurando o conforto e expressando todas as emoções que lhe atingiam naquele momento. Entrelaçando os dedos nos fios arroxeados da morena quis aproximar ainda mais seu corpo com o dela, mas o gemido de dor logo o fez despertar e com cuidado posicionou seus corpos de uma maneira em que Rachel ficasse confortável e com seu rosto virado para si.

— Se promete mesmo, eu confio em você — sussurrou contra os lábios da morena — Obrigado por me contar.

Garfield sabia que o que ela fez fora muito difícil. Tomar uma decisão dessas e contar para alguém não era do seu feitio, sempre lidou com tudo sozinha. Seu coração doía, entretanto, ficaria com Rachel até o fim do objetivo, não importa o que aconteça. Depois de alguns minutos em silêncio e mais calmo, lhe surgiu uma dúvida.

— Raven? — sussurrou, despertando a morena que quase dormia.

— Hum.

— O que nós somos agora? — finalmente perguntou o que tanto ansiava para uma resposta.

— Solteiros é que não somos — disse rouca, logo encerrando o assunto, afundando o rosto em seu pescoço encontrando o cheiro que gostava.

Gar sorriu com a resposta e satisfeito, foi dormir.

Notas finais
E aí?