Ela queria aceitar a ajuda, só que não sabia como dizer. Nunca aceitou de bom grado algo desse tipo, porque nunca se deixou levar. Nunca confiou 100% em alguém antes.

Mas sentia que Garfield e seus companheiros de time eram confiáveis. Principalmente ele e Estelar. Os seus dois amigos mais chegados, que eram totalmente o contrário dela. Mais falantes, felizes, animados. Ainda não acreditava como não havia os matado, ou o por quê de ter dado atenção àqueles dois. Poderia ter se aproximado mais de Dick, que talvez por ter crescido junto ao Batman tenha ficado mais maduro e silencioso que os outros, mas ainda sim ele não expressava muita confiança para ela, já que ele obedece mais o seu tutor do que as regras das missões.

Porém Garfield, esse garoto em especial com a sua irritante teimosia mesmo sem perceber, sempre conseguiu o que queria. Até com ela. Só que nessa questão, ela nunca diria sim, por mais que quisesse confessar o contrário.

— Garfield, não quero ninguém machucado por minha causa — sussurrou, ouvindo um suspiro em desagrado — Vi a expressão de terror em vocês quando me normalizei. Saiba que o que viram não foi nem a metade do que eu realmente presenciei — a morena levantou às pressas, disposta a voltar para o seu quarto, mas antes olhou de relance para trás — E ao ouvir que você quer ficar e participar desse horror que estou vivendo, um problema pessoal tão sério e perigoso faz com que eu pense que você não tem noção do que está falando. Eu agradeço a sua ajuda, desde o início Garfield. Mas agora você não pode fazer nada.

Quando elas moveu suas mãos, prestes a levitar e voltar para o seu quarto, o garoto verde segurou o seu pulso delicadamente, a olhando com preocupação. Ele queria tentar explicar o que sentia, mas as palavras ficaram entaladas em sua garganta. Rachel o olhou indiferente, mas sentindo uma leve pontada de decepção em seu peito, e se teletransportou para o seu quarto, assim evitando mais um olhar suplicante de Mutano para cima de si.

Garfield sentiu-se ainda mais decepcionado que ela, por não tido uma argumentação melhor em mente. Ele sabia, tinha certeza que ela precisava de um amigo, de alguém para lhe ouvir e entender. O que ele menos queria era que sua bela amiga retornasse às trevas que tanto lhe perseguiam.

Ravena jogou-se na cama com brusquidão, sentindo o seu peito voltar a doer, só que muito pior do que antes. Parecia que tudo o que tinha progredido durante o dia em apenas uma conversa tudo havia evaporado, a deixando confusa e sem saída. Havia em seu interior uma mistura de tristeza e ódio.

Ela, que levou vidas para controlar seus poderes, aprimorando feitiços e aperfeiçoando sua mente ainda era derrotada pelo pai, que a manipulava a ponto de esquecer-se de que ela era mais poderosa, não só por estar livre, mas por ter adquirido experiência fora daquele inferno que provavelmente ele chamasse de casa.

Trigon, novamente quis se libertar, e ela ainda ingênua, quase caiu em sua armadilha. Mas jamais admitiria isso de novo, porque ainda tinha orgulho dentro de si.

Nunca soube o que é realmente ser amada, o que é ter uma família que os humanos achavam normal. E agora, que segundo Dick ela tem uma família, não sabe como reagir a isso pelos tantos erros que cometera com ele, por tantas vezes que os colocou em perigo sem ter intenção. Como se sentia culpada, e sabia que esse sentimento nunca iria passar. Seria assim por toda a eternidade.

Não percebeu que seu rosto já estava lavado em lágrimas, e alguns dos seus móveis e objetos estavam quebrados e jogados pelo seu quarto, que era sempre muito organizado. Soluçava alto, e não conseguia se acalmar. Precisava se acalmar!

Quer ser como ele? Quer se transformar agora?

— Nunca! — gritou, para o nada. Quase descontrolada. Sentia o seu coração bater forte em seu peito, e seus olhos queimavam, como se pegassem fogo.

— Ravena, liberte-me...

Você será livre do peso que sempre lhe afligiu...

As vozes estavam voltando para a sua cabeça. Tentava pensar no que fazer para se acalmar um pouco, mas não conseguia, seus poderes eram inúteis nessa situação. A pedra vermelha em sua testa, seu chakra estava sendo inútil, precisava parar agora.

— Parem! Parem agora! — gritava para o nada, suplicando. Batidas na porta interromperam o seu quase raciocínio, não queria ninguém perto. Não queria machucar ninguém — Me deixe sozinha! Vá embora...

As batidas pararam. Conseguiu controlar levemente a sua respiração. Puxou o ar para os pulmões, tentando cessar os soluços, sem sucesso. Agora pode sentir que era o homem verde que batia na porta, mas provavelmente já teria ido embora. Pelo menos uma vez, desde que se conheceram, ele respeitou seu silêncio. Quase silêncio.

Apertou seu travesseiro com força, sentindo ainda mais a tristeza novamente tentando dominar seu coração. Queria saber a sensação de ser abraçada quando sentia-se triste, mas seu orgulho não permitia. Queria saber o que os humanos sentiam quando recebiam aquela espécie de carinho e amor. Ela estava precisando.

Forçou seus olhos, ainda fechados, tentando se livrar da queimação e lágrimas que ainda escorriam de seus olhos. Dormir resolveria tudo temporariamente. Sentiu o seu lençol se mexendo em suas pernas, moveu seu olhar reparando em um pequeno macaco verde sentado em sua cama. Sua expressão era de medo e preocupação. Talvez as duas coisas. A morena imediatamente sentiu a vergonha e a raiva se apossando de si por ter sua privacidade invadida, provavelmente deixando suas maçãs do rosto mais vermelhas do que já estavam, por causa do choro. Ele provavelmente estava com medo de ser jogado contra uma parede, ou cortado ao meio, mas ela não fez nada. Nem se mexeu. Agora que ele já viu seu estado humilhantemente deplorável, não havia muito o que se fazer, já que apagando a memória dele não iria impedi-lo de ser um idiota insistente.

Desviou o olhar do dele enquanto o via se aproximar devagar. Tentou pegar o travesseiro para cobrir o rosto, mas a mão já humana de Mutano a impediu de fazer. Ele sutilmente segurou a sua mão, e aproximou a outra para afagar os cabelos da morena, que se assustou com o gesto, sem expressão reação alguma por fora. Rachel achava estranho aquele gesto carinhoso vindo dele, mas estava gostando. Pensou rapidamente em sua mãe. Será que se tivesse tido mais contato com ela na infância, teria recebido esse carinho?

Garfield a olhou ainda preocupado, mas com a expressão mais calma, vendo-a parar de soluçar e chorar. Talvez ela tenha conseguido parar para não mostrar fraqueza, não que isso tenha funcionado. Ele a puxou, ajudando-a a sentar-se na cama, e deu-lhe um abraço reconfortante, cobrindo praticamente todo o pequeno corpo da morena, que se acolheu em seu peito. Enquanto o jovem estava surpreso por ela não ter mandado ele embora ou o atacado, a morena estava meio desconfortável, mas curiosa para sentir o que mais viria com aqueles gestos que não chegou a conhecer totalmente.

Ela sentia o coração de Mutano bater rápido, e pensou que talvez ele estivesse nervoso por causa dela. Compreendeu automaticamente, já que quase sempre o tratou com indiferença e ignorância. Sentiu-se mal por isso, mais uma vez, ainda sentindo um aperto no peito.

— Rachel... me desculpe, mas preciso dizer — sussurrou enquanto afagava os cabelos curtos da garota — eu realmente preciso que me ajude a entender o que está acontecendo para eu poder te ajudar — terminou, enquanto se afastava para procurar o rosto da garota, encontrando-a inexpressiva — se você não quiser, prometo não insistir mais, com a condição de eu poder ficar aqui para te fazer companhia, ou chamar a Kori para ficar contigo.

Rachel acenou levemente a cabeça, quase imperceptível, concordando. Aquilo fez com que Mutano sentisse uma ponta de alegria dentro de si.

Do jeito que é, não pediu licença para deitar-se na cama dela, e a puxar levemente para repousar em seu peito. Minutos depois ele percebeu o erro e pediu desculpas, fazendo Rachel bufar e soluçar ao mesmo tempo. Suspirou preocupado, olhando para a escuridão pensando se Ravena já dormia. Ele nunca a tinha visto descansar, então não sabia o que fazer nesse tempo em que ficaria ali. Isso fez com que um leve toque de ansiedade e nervosismo o invadisse. Desviou o olhar rapidamente quando percebeu que no teto havia possíveis palavras e desenhos aterrorizantes de rituais ou feitiços que a garota fazia no cômodo, os móveis quebrados, o vidro do espelho espalhado no chão. Tudo aquilo o deixava amedrontado, mas nada disso o impediria de ficar com a mulher que ele sempre admirou pela sua força e valentia. A mulher mais forte que já conheceu.

O silêncio que já durava uma hora, que deixava a morena confortável, mas torturava Garfield que estava louco para fazer perguntas à ela. Queria entender o mais rápido possível para acabar com o sofrimento dela.

— Sei que quer fazer perguntas — Rachel disse com o seu tom de voz habitual, fazendo Garfield dar um pequeno pulo de susto — não me importo se quiser falar.

Se remexeu, inquietamente desconfortável com a situação. Olhou-a nos olhos prestes a começar a falar o que tinha ensaiado antes de chegar ali, mas novamente tudo escapou de sua boca. Então começou a falar sem pensar.

— Não consigo pensar em algo para dizer além do que... quero que você saiba. Sempre estarei ao seu lado para te ouvir, te impedir de fazer besteira e também de te fazer companhia quando achar necessário — murmurou, soltando o ar que prendia — A única coisa que vou continuar pegando no seu pé é o fato de você continuar guardando os suas piores emoções para si. Rachel, pelo o que você nos avisou anos atrás, sobre o seu controle de sentimentos, tem que querer conversar com alguém para retirar esses pensamentos ruins que estão na sua cabeça. Se não for eu, pode ser alguém que confie.

Mas ele sabia que ela não confiava totalmente em ninguém.

A morena levantou da cama, e a passos trôpegos enquanto desviava de cacos de vidro alcançou a estante quebrada que ficava logo em frente. Estava bagunçada, como todo o seu quarto graças ao seu ataque de pânico. Tirou de lá um livro preto antigo amassado e com muitas marcas de uso. Voltou para a cama e sentou-se ao lado do seu amigo. Deu um longo suspiro enquanto o entregava ainda receosa, pensando se o que estava fazendo era o certo.

— Não via necessidade de falar com alguém porque tinha esse... Essa espécie de diário comigo — disse baixo, em dúvida se essa era a palavra correta para o objeto, já que ali também havia alguns feitiços — sempre escrevi o que sentia por anos, e isso realmente melhorava a minha situação, junto da minha meditação diária — falou enquanto abria o livro que estava fechado com uma tranca enfeitiçada, uma luz vermelha brilhava nos olhos de Garfield — mas agora isso não é o suficiente, não está adiantando. Sinto que algo está para acontecer no futuro... mas por mais que tente prever se é bom ou ruim, não consigo descobrir — lamentou, vendo o amigo a olhar preocupado — preciso descobrir para me preparar para o baque.

Mutano observou o objeto, que tinha folhas rasgadas, palavras sem sentido, idiomas que não conhecia, vários desenhos que ele julgara horríveis por tanta destruição, monstros e mortandade nas imagens. Colocou o livro sutilmente sobre a cama ao lado dela.

— E por mais que eu tente pensar positivo, falar que é algo bom o que está por vir, eu percebo que o bom nunca chegou, por mais que eu lute, que eu me esforce, sempre ele volta para me aterrorizar e me destruir. Não quero mais fazer isso com vocês. Tenho vontade de ir embora daqui. — comentou baixo, tentando iludir-se que isso adiantaria.

Olhou chorosa para ao homem verde ao seu lado. Ele estava com o cenho franzido, pensando no que dizer.

— Rachel, acredito que como nós somos heróis, temos o dever de dar esperança às pessoas. Porém, não adianta lutar, dar a mensagem para os nossos inimigos e salvar os sobreviventes de cada luta... e não acreditar em um futuro melhor — disse coçando a nuca enquanto largava o livro sobre a cama bagunçada — Nunca vou saber o que você realmente sente, e é meio óbvio que não é fácil mudar da noite pro dia ainda mais com todos esses problemas, não é fácil dar o primeiro passo para começar a mudança da sua vida. Mas acredite em si mesma, não pense que só porque a guerra não acabou temos que nos isolar, lamentando sobre o que houve e sermos pessimistas sobre o que vai ou não acontecer — aumentou o tom de voz, em determinação — e é óbvio que essa guerra entre o bem e o mal nunca vai acabar. Enquanto o bem existir, o mal sempre tentará tomar o lugar e nós, juntos, temos o dever de impedir que isso aconteça — deu um meio sorriso, mostrando os caninos que ela gostava e segurou as mãos da morena, passando-lhe confiança — e vê se coloca na sua cabeça que eu disse nós, não disse “Ravena”. Os Jovens Titãs juntos que vencem qualquer batalha, então na vez em que for lutar em outra dimensão contra os seus parentes esquisitos, saiba que estaremos aqui, lutando e torcendo por você, e que nunca vamos te abandonar. Nunca.

Ele estava certo em partes, ela concluiu. Mas não queria rebater nada, estava cansada e sem argumentos no momento para dizer alguma coisa.

A morena lentamente se reaproximou do homem verde ao seu lado e o abraçou, escondendo o rosto rubro em seu pescoço. Garfield ficou surpreso com o ato, mas a abraçou de volta, acariciando suas costas e sentindo o aroma suave de sua pele. Isso o deixou ainda mais surpreso e confuso, é a primeira vez que ela tomava esta atitude, e agora não sabia se isso era uma resposta para o seu discurso.

Mas por enquanto ele deixou pra lá, o importante no momento era consolar a mulher que ele amava incondicionalmente, e deixá-la descansar.

Notas finais
E aí, gostaram?