Sabor de Sangue

15 Capítulo 12


Notas iniciais
Espero surpreender vocês, mas não fiquem tão animadinhas, Ok? Não vai durar muito.

Hyden não estava em lugar nenhum do Montgomery High School.

Erin contava pacientemente em sua cabeça de um a cem e voltava em ordem decrescente, porque contar de um a dez seria muito pouco para que sua paciência – que parecia terrivelmente escassa essa manhã – se firmasse. Ela sentia que o comprimido para dor de cabeça que tinha tomado na enfermaria mais cedo, antes de retornar ao escritório do pai de Gabriel, já tinha perdido seu efeito a uns bons dez minutos. Suas mãos se abriam e fechavam ao lado do corpo, impacientes, inquietas. Ela queria bater em alguém. Ela queria saber porque diabos tinha aceitado seguir Gabriel de maneira tão amigável e repetia para si mesma que não era pelo fato de ele parecer alguém confiável e sim porque se eles realmente encontrassem Hyden ela poderia consertar sua fraca atitude de mais cedo perante a ele.

Ela odiava parecer fraca. E odiava mais ainda que ele pudesse tê-la afetado com palavras que ditas por qualquer outro poderiam fazê-la rir com simples desdém e no máximo deixá-la curiosa. Se fosse em outras circunstâncias ela poderia tê-lo matado sem culpa, mas tudo que aconteceu, a maneira como os fatos se desenrolaram tiveram o poder de desarmá-la de forma vergonhosa.

Erin interrompeu a contagem mental e olhou de esguelha para Gabriel. Ele folheava seu diário com evidente curiosidade. Ela sabia que não deveria ter deixado que ele violasse sua privacidade assim, até porque, mesmo que não tivesse feito uma confissão detalhada de tudo pelo que tinha passado nos últimos anos, tinha escrito coisas importantes lá. Mas Gabriel parecia tão… verdadeiro. E confiável, embora ele negasse para si mesma que acreditava nisso. Confiança não é algo que deve ser dado a alguém que nem mesmo se conhece no que realmente interessava.

– Você sabe – ela disse assim que a porta do elevador se abriu. –, eu vou te matar se isso for uma cilada.

E nem precisaria do par de punhais que estava dentro da sua mochila para isso.

Como não tinham encontrado Hyden em lugar algum e ele tinha feito questão de não atender o celular em nenhuma das trinta e sete vezes que Gabriel ligou, o garoto teve por fim a ideia de procurá-lo no apartamento em que moravam. E convidou Erin para ir junto. Desde que saíram sem qualquer impedimento do colégio, Erin estava tentando defini-lo como sendo ou burro demais, ou confiante em excesso. Quem leva um inimigo em potencial para sua própria casa? A não ser, claro, que aquilo fosse realmente uma cilada.

– Sim, eu sei. – disse ele ao entrar no elevador, fechando seu diário. Ela o seguiu. – Você fez questão de deixar isso bem claro no curto caminho do colégio até aqui.

Ele parecia se divertir com aquilo. Qual era o problema daqueles dois irmãos?

– Só estou querendo deixar claro.

– Além disso – continuou Gabriel como se ela não tivesse dito nada. –, eu não quero arriscar ter a ira do príncipe Unselie virada contra mim. Só vou fazer alguma coisa contra você se me sentir ameaçado, então fica tranquila.

– Eu não estou nervosa. – contradisse ela. E não estava realmente. Só estava… confusa. E com raiva. E impaciente. – Como sabe sobre Kaz? Já leu alguma parte do diário falando sobre ele?

– Erin, foi ele que te matriculou no colégio do meu pai. É lógico que eu já sabia antes de te conhecer que ele tinha uma ligação com Katherine Madden, só não fazia ideia de que ela fosse você. Agora, é só somar dois e dois e eu nem preciso do seu diário para isso. Desde quando o filho de Mab se preocupa com qualquer coisa que não esteja diretamente interligada aos interesses dele?

A garota se limitou a erguer uma sobrancelha e sair do elevador assim que este voltou a se abrir. O toque do seu celular se alastrou no corredor assim que ela pôs os pés para fora daquela caixa de metal. Pegou o aparelho com certo receio. Podia imaginar muito bem quem estava ligando, por isso não ficou muito surpresa ao constatar que era Elora, ligando pelo telefone da nova casa. Encerrou a ligação sem atender, não podia falar com ela naquele momento. Não se passaram nem três segundos para que o celular começasse a tocar novamente e ela voltou a encerrar.

– Ela não podia ter deixado para ligar em pior hora. – resmungou olhando para Gabriel.

Naquele momento a única porta em todo o corredor se abriu e apenas para confirmar o que ela tinha dito, Hyden saiu por ela, com os olhos brilhando de raiva, postura rígida e a mandíbula cerrada, como se estivesse se esforçando para manter o controle, o que é claro, ele estava.

– Porque você a trouxe aqui? – perguntou entredentes, encarando seu irmão.

– Sentiu a presença dela de dentro do apartamento, irmão? – indagou Gabriel, sem fazer menção de que responderia a pergunta. – Pensei que estivesse tão consumido pela raiva que sente pelo seu pai que Erin teria que aparecer na sua frente para que a percebesse aqui.

Erin franziu a testa. O que o pai de Hyden poderia ter haver com aquilo?

– Gabriel, ela é perigosa.

– Ele tem razão. – ela disse se virando novamente para o irmão mais novo. – Eu sou.

Ele lhe lançou um olhar como se dissesse “você não está ajudando” e ela deu de ombros.

– Hyden, você está agindo com criança. Honre os dezessete anos que tem e converse com Erin como um adulto. Pelo amor de Deus, eu nem estou mandando pedi-la em casamento, apenas que seja amigável e conte a verdade!

– Eu não tenho nada para falar, Gabriel e nem você. O passado deve ser deixado para trás. Agora sugiro que tire essa garota daqui, nós não fazemos bem um ao outro.

Os lábios de Erin se curvaram em um meio sorriso irônico, porém ele logo desapareceu quando seu celular voltou a tocar. E ele tocou durante bastante tempo antes que parasse sozinho. Ela não queria sequer imaginar como estava sua mãe agora. Mas e se fosse algo sério? Se tivesse acontecido alguma coisa grave? E se Elora soubesse de alguma forma o que estava acontecendo ali? Não, ela não poderia.

– Erin, você poderia entrar enquanto eu converso um pouco com meu irmão? – Gabriel perguntou gentilmente, contrastando fortemente com o tom de Hyden.

Ela deu de ombros. Já estava enterrada naquilo até o pescoço mesmo.

Só não contava com Hyden bloqueando a porta quando tentou passar por ela.

– Você está inegavelmente me deixando entediada. – disse ela.

Hyden suspirou.

– Vai embora. – dessa vez não parecia um ordem, mas um pedido. Ele parecia até mais suave.

Esse fato quase melhorou um pouco o temperamento de Erin, mas ela não queria que ele melhorasse.

– Idiota. – murmurou e rapidamente o corpo dele foi atirado para trás. Um barulho oco pode ser ouvido quando ele se chocou contra o sofá na sala. – Nem se deve irritar uma especialista em telecinese. – acrescentou, recostando-se no portal da entrada.

Hyden se levantou, novamente com fúria em seus olhos e ela deixou que ele avançasse em sua direção. Erin não reagiu quando Hyden a pegou pelo pescoço empurrando-a contra a parede do corredor ou quando um pouco do ar escapou de seus pulmões. Apenas quando seu corpo começou a escorregar até o chão, ela riu. Era quase irônico considerando que não a muito tempo atrás ela tinha estado em Nova Iorque e lutado contra um vampiro que havia tentado derrotá-la de maneira similar. Erin o tinha matado e não sentia particularmente nada sobre isso. Ela não sabia se poderia repetir o ato com Hyden naquele momento.

Desfazendo o sorriso inoportuno golpeou o estômago de Hyden duas vezes com o joelho. Ergueu um dos braços para acertar o cotovelo no rosto dele, até que paralisou, vendo que ele não estava sequer tentando revidar. Aquele tipo de luta não a interessava. Não era nem mesmo uma luta, pois Hyden não mais a segurava com brutalidade e nem tentava atingi-la de alguma forma. Ele apenas continuava parado, segurando seu pescoço com uma das mãos, agora de maneira gentil e mantendo o olhar fixo em sua nuca.

– Você foi mordida. – disse ele, quase curiosamente. – E nem faz tanto tempo assim, apesar de que você parece ter uma capacidade regenerativa impressionante. O que aconteceu?

Certamente ela tinha sido mordida, porém a cicatriz em seu em sua nuca sequer poderia ser vista sem que realmente prestassem atenção. Mas Hyden prestara, mesmo em meio ao que parecia uma luta unilateral da parte dela.

– As vezes eu preciso de algum estimulo para lutar de forma decente. – falou Erin e revirou os olhos. – Aquele vampiro desgraçado fez o favor de me dar várias opções diferentes na qual eu pudesse descontar minha frustração. Me chamou de um monte de nomes impróprios e me bateu, além de me provocar mais do que era inteligente de se fazer. Nesse momento ele provavelmente deve estar queimando no fogo de inferno.

Ele mudou a direção de seu olhar e finalmente fitou os olhos dela, sem dizer nada. Uma expressão pensativa já tinha tomado sua face enquanto ele se afastava um pouco.

– É isso aí, crianças – disse Gabriel se fazendo presente de novo. Recostado contra a parede ele os encarava com interesse e diversão óbvios. – Vocês evoluíram muito nesse último minuto. Agora vocês praticamente já discutiram, já se bateram e quase fizeram as pazes. Vamos entrar e tomar chá como bons ingleses decentes para acalmar os nervos. Ainda temos uma longa conversa pela frente. – fez menção de entrar no apartamento, mas se voltou novamente para o irmão. – E Hyden, você não tem escolha sobre isso.

Notas finais
Kkkk, quem diria que Erin e Hyden iam brigar assim? Bem, talvez agora ele fique mais suave com ela. (Cruzando os dedos). Beijos!