Sabor de Sangue

16 Capítulo 13


Notas iniciais
Voltando do Hiatos. Desculpem pela demora. Boa leitura.

— Ou Erin realmente bate muito forte e você resolveu que é mais seguro não ir contra ela, ou você teve um surto de consciência e começou a perceber que estava agindo como um babaca e quer se redimir agora – Gabriel disse sem sutileza alguma enquanto servia uma xícara de chá a Erin.

Para a surpresa de Hyden, ele não estava brincando quando comentou sobre o chá antes. Sentada no sofá confortavelmente, Erin levou a xícara aos lábios, provando o líquido de forte sabor. Olhando-a, Hyden pensava no quanto ela parecia a vontade e pensativa ao mesmo tempo. Quase não dava para perceber o grande aborrecimento que pairava sobre ela. De repente, ele se viu aborrecido consigo mesmo. Porque de um instante para outro ele estava se permitindo lê-la? Observá-la? Dentre as duas opções que seu irmão havia citado, Hyden não via nenhuma delas se encaixando na situação. A verdade é que, sem querer, ele tinha passado a enxergar Erin como uma menina vulnerável, não como uma garota perigosa como tinha se forçado a imaginar. Agora, em sua mente, ela não era mais igual a pessoa a quem ele a tinha associado. Queria se bater por ter perdido todos seus argumentos contra ela no momento em que viu que ela tinha sido mordida recentemente.

Porque o tom indiferente que ela havia usado para descrever o que tinha acontecido lhe parecera tão vazio? Isso tinha mesmo que lhe afetar o ponto de sequer conseguir organizar seus pensamentos corretamente? Mesmo algumas das coisas que ela tinha dito o faziam pensar se eram realmente tão diferentes assim. Havia alguma possibilidade de que ela verdadeiramente não soubesse de nada? De que não estivesse conscientemente dentro de um joguinho de Mikaela? Apenas brincando com ele?

— Será que pode me explicar logo o motivo de tanta antipatia? – Erin por fim perguntou, olhando diretamente para ele. Hyden não gostou de ser confrontado por aqueles olhos prateados. De algum modo, olhar para Erin fazia-o sentir agora como se ela pudesse dobrá-lo a sua vontade.

O que aquela garota tinha feito afinal? Será mesmo que fizera algo?

Levou as mãos a cabeça, enterrando os dedos nos cabelos negros. Tantas perguntas, tanto questionamento interno, estavam o deixando terrivelmente estressado.

— Hyden! – Gabriel estalou os dedos, impaciente, procurando chamar sua atenção. – Responda. Eu já disse que se você não contar eu conto.

Hyden mal lhe poupou um olhar em branco antes de se sentar no chão, apoiando as costas na poltrona da sala. Cruzou os braços e olhou de um para o outro como se pela primeira vez tivesse se dado conta de que estava sendo encarado.

— Faça o que quiser – disse, mostrando o máximo de indiferença que pode reunir.

Gabriel estreitou os olhos, não com raiva, mas como se procurasse nele qualquer sinal de que não queria ter dito aquilo. Como se indagasse se Hyden não se importava mais.

— Não tem mais diferença se ela for ou não uma peça de Mikaela, Gabe. Acabe logo com isso.

— Se tem tanta pressa, diga você – disse seu irmão.

— Não quero – rejeitou, sem qualquer cerimônia.

— Quem é Mikaela? – a pergunta de Erin pairou no ar por alguns segundos enquanto os dois irmãos tornavam a fitá-la. Embora tivesse cedido um pouco a garota de olhos claros, algo em Erin fazia com que ele tivesse a certeza de que ela poderia ser uma ótima mentirosa. Seria apenas atuação? – Gabriel, devolva o meu diário – ordenou, com o tom ligeiramente rude.

Diário?

— Não – falou seu irmão, rapidamente. – Ainda não.

— Eu praticamente te entreguei uma arma contra mim, sabe-se lá Deus porque, então tenha a decência de responder minhas perguntas, se o seu irmão idiota não pode fazê-lo – retrucou ela.

Hyden arqueou uma sobrancelha, ainda a encarando e Gabriel suspirou.

— Você concorda que um filho não deve ser julgado pelos atos de seus pais, certo? – perguntou a ela.

Deixando o que sobrara de seu chá na mesinha de centro, Erin se fez mais confortável no sofá, apoiou o queixo em uma das mãos e agarrou o celular que deixara em seu colo com a outra. Quanto tempo até ele voltar a tocar novamente?

— É óbvio – concordou tediosamente.

— Então não tem porque enrolar. Escute bem porque vai ser rápido e fácil – Gabriel se inclinou próximo a ela, com um braço em cada lado de seu corpo, as mãos dele apoiadas no encosto do sofá atrás dela. Sua face, de frente a de Erin, estava séria como Hyden tinha visto poucas vezes antes. – O verdadeiro pai de Hyden é Henrique Morgan. E mais! Você, minha querida, é a adorável noivinha dele. Que tal tomarmos o sorvete que eu estou te devendo para comemorarmos sua nova descoberta, cunhadinha?

♥♥♥

— Você deixou minha filha sair do colégio?! – Elora gritou ao telefone. Kaz não pode deixar de sentir pena de Patrick, o diretor do Montgomery High School, que estava do outro lado da linha. – Escute aqui seu irresponsável! Eu não lembro de ter matriculado a Katherine para que ela saísse para sabe-se lá onde! Eu não me importo se ela está com o seu filho, sequer o conheço! Porque, afinal, a deixou sair?!

O súbito silêncio formado enquanto Elora ouvia as palavras de Patrick, lançaram vários pensamentos na mente de Kaz e ele se permitiu sentir-se um pouco preocupado com Erin. Não fisicamente, ela sabia se cuidar, mas psicologicamente. As coisas estavam indo muito mais rápido do que ele tinha esperado. Era satisfatório, mas também preocupante.

— Hyden… – Elora murmurou. – Katherine foi atrás de Hyden.

Quando ela olhou para Kaz, seus olhos queimavam de ódio.

— Com certeza mais rápido – resmungou consigo mesmo.

— Seu desgraçado! – Elora bateu o telefone com força, encerrando a ligação. Kaz teve mais do que uma pequena impressão de que fora ele, e não Patrick, que tinha sido xingado. – Seja o que for que acontecer, a culpa é sua!

— Calminha, querida. Não tem porque gritar ou se preocupar.

— Ligue pra ela – disse Elora, cerrando os dentes.

— Erin não está atendendo. Ah, espere! – disse com ar de espertinho. – Acho que você já descobriu isso.

— Ela vai atender você – admitiu derrotada, mas ainda com um ódio puro. – Não me faça usar o seu nome de novo.

Ele sorriu para ela.

— Você sabe que vai usar.

♥♥♥

Era como se tudo estivesse se tornando um borrão.

Ignorando as gracinhas de Gabriel, Erin deixou que ele explicasse o que ela não sabia, ouvindo atentamente, tentando entender os fatos. Tentando não surtar.

Ouvir o nome de Henrique era o suficiente para fazer o seu sangue ferver. Saber que o filho dele estava a menos de dois metros de distância deixava o seu corpo tenso, como se antecipando algo, perigo talvez. E o que Gabriel dizia sobre ela, fazia com que se perguntasse o que mais Elora tinha escondido dela. Descobrir que seu pai queria que ela se casasse com um Morgan não era um problema, mas em sua consciência, ela sabia que tinha algo mais. Informações que só Elora poderia lhe dar. Porque ela tinha se preocupado em esconder aquilo?

— O que mais? – sussurrou para si mesma e no mesmo instante ouviu o silêncio. Gabriel tinha parado de falar. Os dois irmãos a olhavam com cautela e talvez um pouco de receio, porque provavelmente sentiam seu estado de espírito.

— O que você quer dizer? – o tom de Hyden demonstrava tanto interesse quanto hostilidade.

Gabriel tinha explicado vagamente o porquê de Hyden estar com tanto mau humor sobre serem “prometidos um ao outro desde a infância” e francamente, ela não se importava no momento. Entendia, mas, de repente, tudo parecia demais para assimilar. Mesmo para ela.

Contenha-se!

— Acho que a minha tia vem me fazendo de idiota durante quinze anos – respondeu com frieza. Sua máscara estava voltando ao lugar, finalmente. Conhecer Hyden não tinha feito nada bem ao seu emocional até aquele momento. – Apenas isso.

Aja como a princesa que você é. Graciosa, altiva. Esconda os seus sentimentos.

— Nada te garante que ele esteja falando a verdade – prosseguiu Hyden, olhando-a agora com desafio. – Podemos estar brincando com você, nada mais que isso.

Ela retornou seu olhar com sarcasmo.

— Oh, querido, acredite, se fosse você quem estivesse falando, eu tenho certeza de que poderia cogitar a ideia de que tudo era mentira. Você provavelmente é um ótimo mentiroso, certo? – ele estreitou os olhos e inclinou a cabeça um pouco, olhando-a de um modo estranho. – Mas Gabriel tem algo que me faz confiar nele e isso é um porre.

Ela não perdeu a troca de olhares entre os irmãos.

— O que foi? – ela perguntou. – O que vocês são, afinal?

Gabriel começou a dizer algo, mas Hyden o cortou.

— Nada.

O modo como ele falou aumentou ainda mais sua irritação, mas antes que ela pudesse retrucar seu celular voltou a tocar. Pela enésima vez. Encerrava as ligações sem nem mesmo olhar quem estava ligando, só não desligava o aparelho porque isso pioraria ainda mais as coisas com Elora. Aquela altura, sequer estava com vontade de dizer que a bateria tinha acabado. Iria confrontar a tia, não via motivos para acrescentar mentiras aquela situação.

Ficou ligeiramente surpresa ao ver que era Kaz quem estava ligando e que ele já vinha fazendo aquilo a algum tempo. Vencida pelo ódio e cansaço, atendeu:

— Erin, onde você está? – foi o que ele perguntou primeiro.

Ela ainda tinha certeza de que Kaz sabia de tudo que Elora tinha escondido. Ele sempre sabia. E mesmo sem querer, a mentira saiu de seus lábios mais facilmente que o normal.

Ela riu.

— Na escola, Kaz. Que tipo de pergunta é essa?

— Estou com Elora, querida e nós já sabemos que você saiu do colégio. Ela usou meu nome e você sabe que tenho que obedecê-la por isso, então pode me fazer o favor de dizer onde está?

Ficou em silêncio e olhou de Gabriel para Hyden.

— Você está bem? – Kaz prosseguiu. – Erin, o que você…

A voz dele foi cortada abruptamente e antes que Erin pudesse pensar no que poderia ter acontecido, Elora falou:

— Eu não me importo com o que você possa ter descoberto. Volte pra casa agora.

— Não se importa? – percebeu que naquele momento o ódio transparecia em sua voz. – Você tem escondido coisas de mim durante anos e não se importa? Além de um desejo do meu pai, o que mais você não me disse, Elora?

— Não lhe interessa.

— Uma droga que não me interessa! – gritou se levantando. – Você é a pessoa em que eu mais confiei a minha vida inteira e agora eu descubro que tem escondido coisas de mim? O que mais, Elora?

— Volte pra casa.

— Não!

— Rosellyn Ellyne, volte pra casa agora – Elora ordenou, parecendo não se importar com seus gritos. Seu tom era baixo e direto. Ela não queria ser questionada, era um fato.

De repente, Erin teve a plena certeza de que tinham muito mais coisas das quais ela deveria ter sabido. Cresceu tendo o conhecimento de que eu seu corpo haviam três tipos diferentes de sangue que a tornavam uma mestiça: Sangue humano, bruxo e vampírico. Nenhum deles eram o motivo de o seu corpo estar querendo se mover em direção a porta naquele momento. Nenhum deles faziam seus outros pensamentos se nublarem ao ponto de que tudo mais parecesse desimportante, exceto obedecer aquela ordem.

Apenas uma raça tem uma fraqueza que os dobra à vontade dos outros. Repentinamente, Erin soube que também tinha aquela fraqueza. Um nome. Um nome fae.