Sabor de Sangue

5 Capítulo 4


Notas iniciais
Oi, meus anjos! Desculpem a demora, mas ando tendo muitos problemas com a internet, só para variar, né? Não vou postar o bônus do diário hoje, mas espero que se divirtam com esse capítulo. Bj!

Hyden nunca conseguiu compreender sua mãe, mas tinha que admitir que nunca se esforçou o suficiente. Paciência não era o seu ponto forte e era hábito seu perder o interesse nas coisas rapidamente. Geralmente quase tudo lhe entediava. Ouvir as palavras de Mikaela foi algo semelhante a um banho de água fria, que o despertou por completo para aquele momento.

– Noiva? – ele se viu repetindo. A confusão era explicita em suas palavras. – Do que você está falando?

Mikaela deu um meio sorriso, balançando o dedo indicador de frente ao rosto dele.

– Tsc, tsc, tsc, querido. Não tão rápido. Isso não é algo que possa ser discutido em uma situação como essa e eu não posso manter o tempo parado por muito mais tempo.

Ele sabia disso. Parar o tempo não é exatamente natural, altera o conceito de equilíbrio, sem falar que consome muito aquele que praticou tal ato. Mikaela não parecia estar fazendo o menor esforço, no entanto aquilo era de fato arriscado.

– O que quer que eu faça? – questionou impaciente.

– Volte para casa. – disse ela, como se fosse bastante óbvio. – Nos encontraremos lá.

Não havia escolhas.

Dando-lhe as costas, Hyden disparou pela noite cinzenta e ainda assim, pode escutar o estalar de dedos de Mikaela alguns segundos depois. O som ecoou e o mundo voltou a suas cores normais.

Em meio a irritação por sua mãe não ter-lhe contado o que estava querendo dizer, um pensamento cruzou sua mente: Os irmãos Anderson não deveriam estar nada felizes. Eles perderam sua presa...

Mais uma vez.

♥♥♥

Os segundos pareciam se alongar a medida que o elevador subia para a cobertura.

Hyden estava impaciente. Mikaela parecia ter o dom de saber como deixá-lo em tal estado. Ele sabia que o que ela havia dito era ridículo, não poderia ser verdade… exceto por um detalhe: Mikaela nunca brincava.

Percebeu como estava tenso no instante em que saiu do elevador. Respirou profundamente, abriu a porta do apartamento e entrou com presa, recebendo um olhar breve de seu irmão, que estava sentado no sofá, aparentemente concentrado no mecanismo de uma balestra composta.

Embora o porte físico de ambos fosse bem parecido, a primeira vista seria praticamente impossível identificá-los como irmãos. Hyden tinha cabelos castanhos naturalmente bagunçados, olhos de um tom de azul-escuro e pele clara, ao passo que Gabriel tinha pele morena, cabelos pretos com o corte em estilo militar e olhos dourados. Olhos que o faziam lembrar de Mikaela o tempo inteiro.

– Noite ruim? – perguntou Gabriel, desviando sua atenção da balestra e olhando para ele.

Hyden parou a caminho de seu quarto e se virou de frente para seu irmão, soltando uma risada amarga.

– Os irmãos Anderson apareceram de novo.

– Mas isso não é nenhuma surpresa. Imagino que algumas pessoas estejam desesperadas para te ter na aliança.

– Eu sei, seria um golpe de mestre. – admitiu. – Infelizmente não foi apenas a tentativa fracassada deles. Mikaela apareceu e veio com uma conversa estranha de que minha noiva tinha acabado de chegar em Londres e…

– Noiva?! – Gabriel largou a balestra sobre a mesa de centro. O impacto dos dois objetos causou um som desagradável que provocou sua audição aguçada. – Que noiva?

Hyden suspirou.

– Eu já te contei sobre isso antes. No acordo que Henrique e Santiago fizeram antes do nascimento das gêmeas.

– Certo. – recordou seu irmão. – Você teria que casar com a filha mais velha e assumir o trono bruxo e vampírico ao lado dela, assim dando continuidade ao tratado de paz entre as raças. Mas que eu lembre e corrija-me se eu estiver errado, a garota está morta.

– O corpo nunca foi encontrado. – disse tanto para ele quanto para si mesmo.

– Hyden, o carro onde ela e a tia estavam caiu no mar. Seu pai viu tudo, é impossível que elas tenham sobrevivido e hipoteticamente se isso tivesse realmente acontecido, já teriam sido encontradas a anos.

Sim, pensou Hyden. Provavelmente meu pai já a teria encontrado e matado se tivesse essa oportunidade.

– Eu sei. – passou uma mão no cabelo castanho, bagunçando-o ainda mais. – Mas o que Mikaela ganharia mentindo?

– Diversão.

Hyden negou.

– Ela estava falando sério. Porque mentir sobre algo que pode ser descoberto com tanta facilidade?

– Pense direito, se fosse tão fácil assim, Erin NightShade teria sido encontrada há quinze anos atrás.

– Nossa mãe deu a entender que eu a encontraria em breve.

Gabriel sorriu torto.

– Nervoso porque vai encontrar sua noiva pela primeira vez na vida, irmão?

Não.

Sim.

Mas também com raiva. E ele ainda não acreditava totalmente que ela estava viva.

A expressão entediada começou a se moldar em seu rosto novamente, como uma máscara que colocava sempre que queria demonstrar desapego.

– Ela não é minha noiva. – afirmou. – Não deixarei minha vida ser regida por um acordo idiota. Eu era apenas uma criança e ela tinha acabado de nascer quando nossos pais decidiram isso por nós. Além do mais, o acordo não precisaria ser cumprido de qualquer forma. A paz acabou. Os clãs não estão mais unidos e Henrique já conseguiu controle suficiente sobre os vampiros sem minha ajuda. Quero apenas ficar longe de tudo isso e tentar viver como uma pessoa…

– Normal? – cortou-o. – Sinto muito irmão, mas no fundo você sabe que isso seria impossível.

Hyden cerrou o maxilar, mas uma parte dele sentia vontade de sorrir naquele momento. As vezes Gabriel era dolorosamente honesto.

– Odeio quando você está certo.

– Eu sempre estou certo. – Gabriel voltou a pegar a balestra, aparentemente encerrando a conversa, então estreitou os olhos. – Ela acabou de chegar.

Hyden também percebeu. O ar praticamente tremulava com tanto poder. Mikaela não tinha se preocupado em esconder sua presença dessa vez.

– Não importa o que aconteça, não nos interrompa. – alertou. – Esse assunto é só nosso.

A passos largos, fez seu caminho até seu quarto e abriu a porta. Mikaela apareceu em seu campo de visão, vindo da sacada. Suas asas estavam completamente exposta e das mesmas irradiava um brilho parcialmente dourado.

– Você não é nem um pouco sutil. – comentou Hyden, entrando no quarto. Fechou a porta atrás de si, mas não à chave.

Mikaela riu, se aproximando.

– Eu não preciso. – deu de ombros e caminhou ao redor dele. Hyden se manteve imóvel, seguindo-a apenas com o olhar. – Mas não é disso que devemos tratar. Sua noiva é um assunto mais interessante.

– Erin NightShade está morta. – afirmou tentando convencer também a si mesmo, apesar do que tinha dito a Gabriel.

– Não está. Ela não estava dentro do carro quando ele caiu no mar.

– Mas, Henrique disse a todos…

– Seu pai e alguns outros disseram – Mikaela lhe interrompeu. – que o carro despencou com elas dentro. Que não haviam possibilidade de que ninguém sobrevivesse a uma queda como aquela. E por um instante ele realmente pensou que elas morreriam. Até que se deu conta da verdade. Elas deram um jeito de sair daquele carro.

– Não é possível.

– É sim. Você mesmo poderá comprovar quando a vir.

Ele cerrou os punhos. Não queria pensar naquilo, não lhe importava. Mudar o foco da conversa deveria ser muito mais saudável aquele ponto.

– O que Henrique quer, afinal? – indagou com ódio. – Ele tem o trono vampírico. Poder. O trato que ele e Santiago selaram não teria eficacia alguma a esta altura do campeonato.

– Isso só o futuro poderá dizer, não acha? – ela arqueou uma sobrancelha. – Henrique só quer o melhor para você.

Ele riu sem humor.

– Você só pode estar brincando.

– Não estou, mas chega de falar do seu pai, também tenho assuntos de meu interesse para tratar com você.

– O que poderia ser?

– É simples – olhou diretamente em seus olhos. Azul contra dourado. –, quero que fique mais forte. Pare de negar sua natureza angélica, ela é sua principal fonte de poder.

– Essa é a única coisa que lhe importa. – ele afirmou. – Poder.

– Não tente mudar o foco dessa conversa para mim, filho. Estou falando sério. Acredite em mim, você precisa ficar mais forte.

– Por quê?

– Inimigos mais poderosos aparecerão em seu caminho com a chegada de Erin…

– Não quero ter nada a ver com essa garota! – cortou-a e falava sério. Não dava a mínima para o passado, para o que seu pai planejou.

– Bem, veremos. – Mikaela estreitou os olhos. – Vamos, diga-me. A quanto tempo seu lado anjo está adormecido?

Hyden ficou em silêncio. Durante a passagem dos anos, ele deixou de se importar com o que os pais queriam, ao seja, em conseguir mais e mais poder. Não queria se tornar tão ganancioso quanto Mikaela e Henrique, por isso suprimiu totalmente seu lado angélico e fez uso do mínimo possível de seus poderes vampíricos, agarrando-se ao máximo a parte humana que tinha dentro de si. Ele não queria a vida que os pais lhe ofereciam, num mundo de sangue e morte, queria apenas viver como um humano normal. Mas, como Gabriel fizera questão de lembrar, ele nunca poderia ser normal.

– Revele suas asas. – ordenou sua mãe.

Lembranças de quando ele era criança vieram-lhe em um flash. O treinamento ao qual Mikaela o incentivava a participar. O fogo celestial. A sensação de revelar suas asas. Ele não queria aquilo de novo.

– Não. – disse sem hesitar.

Ela riu.

– Bem, se é assim… – Fez um rápido gesto com a mão em sua direção e Hyden sentiu-se imobilizar. Girou em torno dele e tocou um ponto em suas costas, entre as omoplatas. – Eu não gosto de meninos teimosos. – ela acrescentou.

No mesmo instante os joelhos dele se dobraram, enviando-o ao chão. A dor que se espalhou por suas costas era tão escruciante quanto mil garras rasgando a pele continuamente. Fogo parecia se espalhar do ponto onde Mikaela tocara até o restante de seu corpo. Ele lembrava bem dessa dor, – embora naquele tempo, com maior frequência de treinamento, parecesse mais suportável. – e também lembrava de seus gritos. Gritos que pareciam ecoar o doloroso som que saia por seus dentes cerrados naquele momento. Tentava ao máximo não demostrar a Mikaela a dor que estava sentindo, mais era inútil. O suor aos poucos encobria seu corpo, acompanhado de uma fina camada de chamas azuis. Ouviu o som de sua camisa se rasgando, a medida que as asas se desprendiam da carne.

“Tem certeza de que não devo interferir?”

Por um pequeno instante, ao ouvir a voz em sua cabeça, perguntou-se se aquilo era real, mas logo a reconheceu. Gabriel.

“Deixe-me.”

Foi sua única resposta. Não queria que Gabriel o visse naquele estado. Frágil e debilitado, sofrendo em agonia com o desprender de cada pluma. Com a passagem de cada instante.

Segundos se transformaram em minutos e a dor se tornou mais suportável. Hyden se ergueu sobre os joelhos com dificuldade, sentindo o peso natural de suas asas, agora totalmente a mostra. Ao contrário das de Mikaela, as dele eram escuras, tão negras como a noite. E estavam cobertas de sangue. Ele não queria imaginar a situação de suas costas depois daquilo.

– Você as deixou presas por anos, não foi? – ela questionou, sentada em sua cama. – Já é maduro o suficiente para que elas sejam naturais para você, filho. Terá que se acostumar com elas novamente. Terá de fazer uso do que eu te ensinei, ao não vai durar muito.

– O que… você quer dizer? – perguntou e cada palavra proferida parecia fazer a dor ecoar em seu corpo.

– Nos expomos aos piores riscos quando queremos proteger algo, Hyden. – disse Mikaela, mas sua voz parecia distante agora. – Faça isso por si mesmo, liberte-as, ou terei que te forçar a liberá-las novamente.

Ele tentou falar mais. Quis dizer que ela não tinha direito de fazer suposições tão tolas quanto ao seu futuro e de forçá-lo a fazer o que ela quisesse. Que não era algo que ela e Henrique poderiam controlar. Mas a única coisa da qual teve ciência foi dos pontos pretos preenchendo sua visão e seu corpo desabando no carpete parcialmente coberto de sangue.