Sabor de Sangue
6 Capítulo 5
Notas iniciais
Gabriel encarava a noite fora de seu apartamento, apreensivo.
Ele era um caçador nato, sendo metade anjo e metade metamorfo e até mesmo já pensara em se juntar a Aliança, mas o fato de Hyden ser uma das principais presas deles não o atraía.
Tudo porque Hyden é muito teimoso, pensou e riu.
Aquela era a melhor qualidade de seu irmão.
Poucos instantes antes tinha sentido uma súbita explosão de poder e teve ciência do que estava verdadeiramente acontecendo no quarto de Hyden. Ele não teria liberado as asas por conta própria, o que leva Gabriel a crer que Mikaela o obrigou a fazê-lo.
Teimoso, teimoso. Se deixasse as coisas serem como deve ser, tudo ficaria tão mais fácil.
Debatia consigo mesmo se deveria entrar no quarto de Hyden, estava preocupado, mas sabia o quanto ele era orgulhoso e de que não gostaria de parecer debilitado em frente a ele. A presença de Mikaela se escondia aos poucos, com cuidado, como se ela estivesse se distanciando, ou apenas cansada de querer aparecer.
Provavelmente a segunda opção.
Com um suspiro se dirigiu ao quarto de Hyden. A porta estava aberta e ele entrou sem bater.
– Olá, filho. – Mikaela o cumprimentou com naturalidade sem dar-se ao trabalho de olhá-lo.
O corpo de Hyden estava estendido no chão e mesmo inconsciente, sua respiração saía pesada. Duas asas negras brotavam de suas omoplatas, queimando em um constante fogo azul. Aquele detalhe demonstrava sua parcial falta de controle. E o sangue… sangue esse que não deveria ter sido derramado. Se Hyden estivesse acostumado, nada como aquilo teria acontecido.
– Oi, mãe. – respondeu encarando-a.
Mikaela estava ajoelhada ao lado de Hyden com o braço estendido a sua frente. Em seu pulso se abria um talho e dele caia sangue dourado sobre a camisa detonada e as costas de Hyden. Mesmo não sendo mais um Anjo Celestial, o sangue de Mikaela ainda possuía propriedades curativas. Ainda que o sangue angélico presente no corpo de Hyden já fosse o suficiente, o dela aceleraria o processo.
Aos poucos a chama azul se apagou e as asas de Hyden assumiram um tom luminescente, desaparecendo em centenas de fragmentos brilhantes. Os ferimentos nas costas passaram a se fechar e Mikaela se ergueu com um pequeno sorriso, como se aquilo fosse um fato corriqueiro ao qual já estivesse acostumada. Talvez realmente estivesse, afinal fora ela que treinara Hyden quanto ele ainda era uma criança que estava começando a aprender a dominar seus poderes.
– Você devia dar uns conselhos ao seu irmão. – ela comentou franzindo os lábios. – Aparentemente ele adora se fazer de difícil.
– Você sabe tão bem quanto eu que ele não iria querer me ouvir. Além do que, nunca sei quando devo confiar em você. Isso tudo era mesmo preciso?
– Vou fingir que você não fez essa pergunta óbvia, querido, porque, você sabe, eu não perderia meu tempo se acreditasse que nada disso seja necessário.
Não era exatamente o que ele esperava ouvir. Uma explicação concreta teria sido um bom começo. Ele decidiu mudar a abordagem.
– Erin Rosalia está mesmo viva?
Mikaela olhou para as unhas, claramente começando a ficar entediada por persistir naquele assunto por tanto tempo. Hyden deve ter dado um certo trabalho.
– Bem – disse enfim. –, ela nunca esteve morta para começar, então a resposta é sim. Chegou em Londres faz pouco tempo.
– E como sabe disso?
– Eu sempre soube. Sempre a observei. Decidi contar a Hyden porque sei que eles vão se conhecer em breve e ela mudará a vida “normal” dele de cabeça para baixo. As coisas finalmente estão começando a ficar interessantes.
Claro, pensou Gabriel. Isso é tudo que importa para você. Um pouco de diversão para afastar o peso da solidão de uma vida eterna.
Não que ele acreditasse que Mikaela se sentisse sozinha ou algo do tipo, mas estava consciente de que para ela tudo era como um jogo. Arrisque a vida dos outros, observe cada movimento executado, e lembre-se: Quanto mais interessante e perigoso o jogo se tornar, mas peões você irá perder. Certifique-se de encontrar outros para assumirem seus lugares.
E ela cumpria essa regra sem nem mesmo pestanejar.
– Viu algum fragmento do futuro? – indagou ele, acreditando que apenas dessa maneira ela poderia saber tanto com tamanha precisão.
Ela sorriu.
– Não. Apenas precisei conversar com as pessoas certas.
Gabriel estreitou os olhos meditando sobre o que poderia significar aquilo. Antes que pudesse perguntar algo mais, Mikaela deu-lhe as costas e caminhou em direção a sacada.
– Boa sorte em limpar o sangue do carpete. – falou enquanto liberava suas asas.
Desviando o olhar para Hyden, ainda no chão, Gabriel a sentiu partir.
♥♥♥
– Francamente, não sei como Kaz consegue organizar tudo tão rápido. – Erin disse, saindo do carro. Estavam na garagem da casa que ela poderia chamar de lar pelos próximos meses. Ou semanas. Ela nunca sabia.
Elora, que pegava os pertences de ambas no porta-malas, sorriu.
– Os poderes fae ajudam, querida.
– Não era a isso que eu estava me referindo. Eu quis dizer a paciência. Tudo era mais fácil para ele quando morávamos em Winter, agora, toda vez que nos mudamos, ele é quem tem que cuidar da bagunça.
– Tudo isso já está pronto a algum tempo. Kaz gosta de cuidar de você.
– De nós, você quer dizer.
Ajudou Elora com as malas e as duas caminharam em direção a porta que era anexa a porte interna da casa. A abriram, passaram pela cozinha. Um sorriso se abriu no rosto de Erin assim que entraram na sala.
– Kaz! – gritou sorrindo como uma criança e, largando as malas, se jogou nos braços dele.
Era como se o único pai que conheceu estivesse de volta depois de muito tempo.
– Ei, Rosa. – ele a apertou forte. – Também senti saudades.
– Não tanto quanto eu. – se afastou. – Cansado de ser príncipe?
– Talvez um pouco. – olhou além dela, para Elora, um sorrisinho irônico surgindo no rosto. Como sempre. – Já acertei as coisas com a organização Hunter, querida. Eles estão apenas esperando por você.
Elora revirou os olhos e sentou no sofá.
– Obrigada, Kaz, mas se tem algo que eu não preciso é de seu cinismo.
– Está vendo, Rosa? – ele ergueu uma sobrancelha. – Eu faço tudo por essa mulher e em troca ela pisa no meu coração.
– As vezes você merece, Kaz. – Erin sentou ao lado de sua mãe e esperou até que ele se fizesse mais confortável. – Como Mab está? Também tenho saudades dela.
– Com vontade de te ver. As coisas tem andado um pouco tensas entre Winter e Summer, mas isso não é nenhuma novidade. Posso te levar lá da próxima vez que vier te visitar.
– Então, por favor, não demore meses para voltar aqui novamente.
– Prometo que virei, assim que eu tiver tempo livre. – aquela não era uma boa promessa. – Além disso, você também estará bastante ocupada nos próximos dias.
– Claro. – concordou. – A escola.
– Já mandei cuidarem da papelada para mim. Esteja pronta para começar a encenar. Qual é o nome da vez?
– Katherine Madden. – respondeu e voltou a sorrir.
Sempre teve o melhor dos dois mundos, humano e sobrenatural. Essa era uma nova cidade e agora estava tão perto de sua irmã como nunca esteve. Queria encontrá-la em breve, não podia negar. Estava ansiosa para aquilo.
♥♥♥
Hyden gemeu levantando do chão. Não porque ainda estava ferido, mas porque a posição em que se encontrava era realmente desconfortável.
– É ótimo vê-lo retornar dos mortos, irmão. – ouviu a voz de Gabriel dizer e cerrou o maxilar ao recordar de tudo que tinha acontecido.
O sangue em suas costas e braços e camisa era pegajoso e se misturava em cores de vermelho e dourado, fazendo-o recordar de sua infância. Aquelas lembranças aumentavam ainda mais sua raiva, mas ele tinha que admitir que parte da culpa era dele. Se tivesse procurado se acostumar com suas asas, Mikaela não teria lhe “visitado” e forçado e mostrá-las.
– Onde ela está? – perguntou, encarando o irmão que estava sentado na cama o observando.
– Foi embora a um tempinho. – Gabriel disse, simplesmente.
Hyden suspirou. Aquilo era bom. Apenas em uma noite tinha tido presença o suficiente de Mikaela para uma vida inteira.
– Aliás, você está péssimo. – completou apontando para ele. – Espero que tenha tomado uma decisão decente por si mesmo, porque, você sabe, se voltar a desistir de suas assas, a mamãe vai fazer uma visitinha novamente e não creio que você esteja querendo isso.
– Claro – bufou. – Não se preocupe, irmãozinho, vou treinar por mim mesmo. Mas não por medo ou por não ter escolhas em seguir as ordens dela. Apenas não quero voltar a ver a cara de Mikaela novamente.
Dando-lhe as costas seguiu em direção ao banheiro. Puxou a camisa pela cabeça e a descartou, jogando-a no cesto. Estava inutilizada.
Terminou de se despir e suspirou aliviado quando, pouco depois, sentiu os jatos de água quente o atingirem aliviando a tensão. Muitos pensamentos rondavam em sua mente: Erin, Henrique, Erin, Mikaela, Erin, Santiago.
Maldito acordo! Ele não conseguia tirá-la da cabeça, mesmo que em sua mente ela parecesse uma entidade sem rosto.
Negando a si mesmo o conhecimento de que sabia que tudo que Mikaela disse era verdade, Hyden balançou a cabeça, fechando os olhos com força.
Onde Quer que esteja, Erin, saiba que se depender de mim, você não entrará em minha vida. Você não vai me afetar. Eu a proíbo.
Minha vida não será regida pelas vontades de uma pirralha mimada.
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