Sabor de Sangue

19 Capítulo 15


Kaz riu, ainda que não quisesse e lhe pareceu tão forçado quanto havia sido. Embora boa parte do ocorrido tenha estado dentro do planejado, ele não se sentia significativamente satisfeito. Porque, mesmo que seus pensamentos corressem a mil, tentando encontrar uma solução, ele tinha travado. Em dado momento, chegou a acreditar que tudo que vira no passado pudesse vir a se repetir. Mesmo ele, um príncipe fae, temia algo com tanta intensidade. Aquele medo, foi o que o inutilizou por completo. Adotar tantos riscos era loucura, ele sabia, mas se daquilo pudesse vir algo bom, não se importava de obedecer as ordens que recebera. O que não significava que aprovava completamente.

— É bem irônico, não acha? — perguntou a Hyden, assumindo um sorriso presunçoso. — Ouvir o príncipe do reino vampírico se auto declarar um plebeu.

Bastaram apenas essas palavras e Kaz pode ver a aura de ódio de Hyden se intensificar fortemente. Era fácil irritá-lo quando tinha um ponto fraco tão óbvio.

— Kaz, evidentemente alguém como você não está em posição de mudar de assunto tão facilmente — Hyden afirmou, sua expressão se tornando mais sombria. — Esse mundo é meu — abriu os braços, indicando tudo ao seu redor. A coloração cinzenta causada pela quebra de tempo parecia dar ainda mais força as suas palavras. — Você só sai daqui quando eu permitir e garanto que teria vantagem sobre você numa luta, então não tem porque enrolar.

— Belas palavras para quem poderá cair de joelhos a qualquer segundo. Alguém que passou tantos anos sem treinamento e decide parar o tempo como se fosse nada… Embora eu esteja feliz pelo seu atrevimento, não acho que seja algo bom para você.

— Não tente se fazer de preocupado. Vindo de você, isso é nojento.

Dessa vez o sorriso não foi forçado.

— Se você diz. Mas não pense que Erin vai deixar que tudo continue tão calmo e fácil. Ela vai tentar quebrar isso.

— Desde que parei o tempo, só eu posso interferir no fluxo temporal — Hyden disse seriamente e sem tom deixava bem claro seu desejo de que Kaz parasse de desviar de assunto. Tinha uma certa parcela de impaciência.

— Eu não teria tanta certeza — Kaz suspirou, desviando sua atenção para Gabriel. Este, mais silencioso do que o príncipe Unselie se lembrava, tinha os olhos voltados para o chão, fitando o caderno que Erin tinha deixado cair.

— Ei…

— Não se incomode comigo — interrompeu o moreno, abrindo um alegre sorriso. — Sou apenas um ouvinte intrometido.

Aí estava. Kaz nunca foi muito próximo de qualquer um deles, mas desde que os conhecia, havia momentos em que ele se perguntava quem diabos era Gabriel Montgomery. Comparado com o irmão, Hyden poderia ser considerado simples. Gabriel era mais parecido com a mãe do que poderia se imaginar, se não mais complicado. Uma incógnita a ser decifrada.

Repuxando os lábios num meio sorriso cansado, Kaz sentou nos degraus que levavam para dentro da casa e voltou a encarar Hyden.

— Eu não sei de tudo — começou — e não sou idiota de contar tudo que sei a vocês. — A expressão de Hyden só poderia ser descrita como uma mistura de deboche e tédio profundo. — Mas espero que estejam preparados para ouvir o que tenho a dizer, porque não é bonito. É desesperador. É algo que envolve coisas mais sombrias do que estão acostumados e que pode mudar a visão que vocês tem da família NightShade para sempre.

— Minha visão dessa família já não é boa faz tempo. Fale — foi tudo que Hyden disse.

Kaz pressionou os lábios por um momento.

— Ok. Se preparem para entrar em um jogo, onde podem facilmente ser descartados como meros peões. O preço da cura para o seu tédio, Hyden Morgan, pode ser muito maior que o custo da sua vida.

♥♥♥

Sim, sem dúvidas nada daquilo era tedioso. Era loucura. Mas, infelizmente, fazia todo o sentido.

— Estão com medo? — foi a primeira coisa que Kaz perguntou depois de lhes contar o que tinha a dizer sobre Erin. — Caso achem que isso é demais para vocês eu posso…

— Nem pense em manipular nossas memórias como fez com a mente dela — Hyden disse, afiado.

Uma gota de suor fez caminho pelo lado de seu rosto, contudo, ele permaneceu com a face impassível. A verdade é que ele estava cansado. Kaz estava certo ao declarar que ele poderia não aguentar muito, tendo passado tanto tempo sem utilizar aquele poder e que Erin lutaria contra. A sensação era de que ambos estivessem empurrando um contra o outro, um escudo invisível. E fazia em torno de dez minutos apenas, que ele tinha parado o tempo. Somando o que Kaz tinha contado, as perguntas que ele e seu irmão tinham feito no meio do caminho, na verdade eles tinham muito pouca informação e ainda assim… era insano. Mas real. Ele sentia o impacto mental que Erin vinha lhe impondo.

— Eu não diria de medo — falou Gabriel. — Temos chances de cinquenta por cento. Eu chamaria de razoável.

Hyden estreitou os olhos para ele.

— Não é hora de brincadeiras, Gabe, isso é muito mais sério do que eu pensava — passou as duas mãos pelos cabelos castanhos, nervoso. — Não tem como… eu me manter longe. Isso é uma droga.

— Obrigado — Kaz agradeceu, pelo que Hyden tinha deixado subtendido. — Agora que somos amiguinhos, você pode soltar a Elora?

— Não somos amiguinhos. E eu não conheço os benefícios de soltar alguém que está disposta a arrancar minha cabeça.

— Mas você está chegando ao limite. E eu preciso tirar Elora daqui. Ela e Erin, precisam ficar afastadas por alguns dias, não é a primeira vez que isso acontece, mas agora vai ser um pouco diferente — Hyden não gostou do que viu nos olhos de Kaz. — E por isso, peço que vocês cuidem dela. Não deixem que essa garota saia procurando encrenca por aí, essa explosão de raiva foi o suficiente por agora. Ela precisa se acalmar.

Hyden revirou os olhos, pensando no trabalho de babá que tinha agora, a obrigação de executar e ouviu seu irmão perguntar:

— E o que vai fazer com Elora?

— Levá-la para o palácio do inverno. Forçá-la deixar de lado esse instinto de proteção exagerado e convencê-la a não sacrificar o reino inteiro a procura de alguém que esteja desposto a trazê-la de volta.

Gabriel estreitou os olhos, como se não acreditasse minimamente de que seria tão simples quanto o que Kaz estava dizendo. Verdade seja dita, ele compartilhava a impressão do irmão. Ainda assim, seguiu até Elora, com o príncipe Unselie logo atrás de si. Assim que tocou o braço da bruxa, ela voltou ao normal e segurando-a sem qualquer delicadeza, empurrou-a na direção de Kaz. Elora se debateu, soltando um rugido de raiva, quando este a agarrou pela cintura e sorriu. Mas ela estava fraca pela quebra temporal e Kaz não a soltou.

— Adeusinho. Cuidem da minha Rosa — seu tom travesso foi quase um murmúrio quando ele olhou para Hyden, e, num flash de luz, desapareceu perante seus olhos.

Algo como um estalo soou na mente de Hyden, trazendo uma possível resposta para uma pergunta que o estava incomodando, no fundo de sua mente, desde que Mikaela dissera que Erin estava viva. Mas ele perguntaria a Erin depois, se ela tivesse disposta a responder. E se não estivesse, Hyden confrontaria Kaz da próxima vez que o visse, a procura de mais resposta. Embora isso fosse acontecer de qualquer jeito.

A imagem tremulou quando ele sentiu uma pontada irritante na cabeça. Um som semelhante ao de vidro quebrando preencheu seus ouvidos e por baixo disse ele ouviu seu irmão puxar o ar, surpreso. Então, Gabriel se aproximou de Erin e caminhou ao seu redor devagar.

— Isso foi ela? — seus olhos brilharam quando perguntou a Hyden.

— Se tínhamos qualquer motivo para duvidar de Kaz — falou, aproximando-se também — eles acabaram de ser reduzidos a ruínas.

As pontadas se intensificaram, trazendo-lhe uma breve vertigem. Soltando-o a ar entredentes, ele ergueu a mão no ar e num estalar de dedos o fluxo temporal voltou ao normal. Os joelhos de Erin cederam, mas ele a segurou antes que ela pudesse cair. Sem se permitir pensar realmente no que estava fazendo, Hyden ergueu o queixo dela com uma das mãos. Por um momento se deixou ver o brilho ligeiramente insano que permanecia naqueles olhos, enquanto ela empurrava seu peito, tentando afastá-lo. Mas quando Erin abriu a boca como se fosse falar — ou mais possivelmente, gritar — algo, ele selou os lábios dela com os seus.

Mesmo quando ela se debateu com toda a força que lhe restava, ele não a soltou. E quando ela, finalmente, desfaleceu em seus braços, ele a pegou no colo e se dirigiu para dentro da casa, sem nem mesmo olhar para Gabriel.

Não queria ver o sorriso zombeteiro em seu rosto.