Sabor de Sangue
20 Capítulo 16
Estou ferrado, foi um dos inúmeros pensamentos que se assentaram na mente de Hyden durante os poucos minutos que se passaram desde que havia entrado na casa de Erin e deitado-a no sofá. Incrivelmente ferrado.
Depois de tudo que ouvira, ele seria louco se tratasse tudo aquilo com indiferença. Onde seus pais estavam com a cabeça para insistir que seu suposto noivado com aquela garota continuasse? Eles sequer sabiam o que ela era? O que estavam planejando, não sabia, mas achava que podiam estar rindo dele naquela exato momento.
De pé perante uma Erin adormecida, com os braços cruzados e a testa levemente franzida, Hyden deixou sua mente correr, tentando compreender aqueles que ignorara desde a infância, quando ouviu uma voz em sua mente que não o pertencia.
"Sua preocupação com sua noiva é realmente adorável. Além disso, devo dizer que a performance romântica que executaram lá fora também foi admirável. Parecia que não queria deixá-la ir de modo algum, irmão. Esse foi um grande passo".
Hyden ignorou o tom sarcástico de seu irmão, sem nem mesmo se virar para onde ele estava sentado, no parapeito da janela e passou a língua nos dentes, sentido a irritação aumentar mais um pouquinho. O lado vampírico que havia despertado nele enquanto sugava a energia de Erin ainda não tinha se suprimido e suas presas não queriam se retrair de maneira alguma. Podia sentir o poder dela fluindo dentro de si. Sombrio, violento, até mesmo maligno. Mas havia um lado lutando contra estes, dizendo que Erin não era essencialmente destruição.
Depois de sentir tudo aquilo, ficou surpreso por ela não perder o controle tão regularmente.
Agora que sua mente estava em modo hiperativo e seu corpo repleto de uma energia que não lhe pertencia, ele se perguntou quando conseguiria dormir novamente. E quando ela acordaria.
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Hyden estava o ignorando descaradamente e isso deixava Gabriel inquieto. Porque mesmo que normalmente pudesse lê-lo tão bem, naquele momento parecia impossível dizer o que o irmão estava pensando tão profundamente.
Um vinco parecia ter se tornado permanente entre suas sobrancelhas e uma aura estranha tinha se apoderado de seu corpo desde que se alimentara da energia de Erin. Ao menos Hyden tinha finalmente se cansado de ficar em pé e havia sentado numa poltrona ao lado de onde tinha deixado Erin. Mas o olhar, perdido em um ponto qualquer da sala, parecia nublado e isso não era muito melhor.
— Cara, isso é tão deprê — murmurou Gabriel para si, suspirando.
Olhou para o caderno de Erin, no qual ele havia lido o que a garota tinha escrito nervosa e apressadamente enquanto se dirigiam aquele lugar, preso no aperto de suas mãos. Sim, era abertamente um caso de invasão de privacidade e ele não se importava nem um pouco. Queria, cada vez mais, entender e saber o que se passava na mente daquela garota. O que tinha acontecido no tempo em que se pensara que ela estava morta.
Era tão interessante, principalmente agora, que ele não podia se conter.
Não estava com medo de Erin e nem no quão profundamente se envolveria naquilo. Era perigoso, divertido e interessante.
Mas seu interesse em tudo aquilo era diferente do que sua mãe, Mikaela, apresentava. Ainda que sua personalidade não fosse sempre das melhores, Gabriel não estava tratando aquilo tão extremamente como um jogo, uma brincadeira. Ele estava preocupado, mesmo quando colocava um sorriso de criança na cara e brincava como se o que estivesse ouvindo não fosse nada demais. Talvez, se os outros se irritassem o suficiente com ele, esqueceriam ao menos um pouco o quanto estavam preocupadas, e quem sabe ele não poderia enganar a si mesmo também? Havia momentos em que ele simplesmente desligava as emoções que seriam esperadas para dado momento, deixando seu lado humano totalmente de fora. Ontem havia sido um dia normal. Hoje, era um dia peculiar. E era a isso que se baseava sua personalidade. Dependendo do que a situação pedia, ele facilmente poderia se recriar. Era, as vezes, reconfortante…
Mas aquele silêncio estava tornando tudo tão deprimente que mais parecia que alguém tinha morrido. E foi por isso, que sem se conter, Gabriel se posicionou melhor no parapeito da janela, se virando para Hyden e atirou o caderno em sua cabeça. Ou tentou.
— Que sem graça — comentou. Hyden tinha pego o caderno no ar antes que esse atingisse o seu rosto.
Ele abriu um sorriso ameaçador, intensificado pelas presas que pareciam que não iam sumir tão cedo.
— O que diabos você pensa que está fazendo?
— Olhe o caderno — disse Gabriel. — Ignorando o senso artístico, sua Erin tem um julgamento impressionantemente correto.
— Ela não é "minha Erin" — retrucou, mas olhou o caderno mesmo assim. O vinco entre suas sobrancelhas tinha desaparecido por um instante, mas agora voltava a medida que ele seus olhos se estreitavam.
— Isso é um insulto? — questionou indignado.
Gabriel riu. Ele sabia muito bem por que o irmão tivera tal reação. Tinha olhado para aquela folha por tempo o suficiente para lembrar bem o que tinha ali.
No topo da página havia um boneco palito desenhado em linhas tremidas e medidas desproporcionais. O mesmo desenho se repetia em baixo. Ao lado de cada um dos bonecos, ela tinha escrito, numa letra muito pequena e em frases amontoadas, algo semelhante a uma ficha, reunindo as informações que tinha descoberto de ambos. Ele se perguntou se escrever sobre potenciais aliados/inimigos, era a ideia dela de como aliviar o estresse.
♥♥♥
Hyden continuou olhando para a folha inofensiva como se quisesse lhe furar buracos com os olhos. Os dados diziam:
Analisando imbecis (possíveis inimigos/aliados):
Irmão 1:
Nome: Hyden-imbecil-Morgan.
Qualidades: Tem uma aparência agradável.
Defeitos: Quando abre a boca, a qualidade acima logo é ignorada/anulada. Ele se torna um imbecil que nem mesmo a beleza pode salvar.
Tipos sanguíneos: 1. Vampírico; 2. Humano; 3. Desconhecido.
Taxa de perigo: 40%
Obs.: Depois de ir ao apartamento dele e descobrir que tenho coisas mais importantes com que me preocupar, decidi que cão que ladra não morde. Além disso, ele parece tão desesperado para se livrar de mim que talvez eu não deva ter medo ou ser tão cautelosa assim.
Irmão 2:
Nome: Gabriel Montgomery.
Qualidades: Acho que ele é confiável.
Defeitos: Ele sabe que tipo de impressão incitar as pessoas a terem sobre ele — o que provavelmente o torna meio manipulador — e pode mentir sem escrúpulos. O defeito desse irmão também anula a qualidade. Não o compreendo e nem gosto muito de confiar nele.
Tipos sanguíneos: 1. Metamorfo; 2. Desconhecido.
(Da um tempo… O que diabos esses dois irmãos tem no sangue?!)
Taxa de perigo: 75%
Obs.: O fato de ele parecer confiável não me deixa tão tranquila quanto deveria. Afinal, não sou idiota. O quão facilmente alguém como ele poderia manipular e enganar alguém?
Hyden fez menção de arrancar a folha de papel, mas se conteve quando olhou de relance para Erin. Sua idade, seu corpo pequeno, os curtos cabelos negros jogados sobre a face adormecida expressando paz e desordem... tudo lhe dava um ar de delicadeza.
Ela ainda é uma criança, meu Deus.
— Eu me pergunto — disse tanto para o irmão quanto para si mesmo — quanto tempo irá se passar até que o pecado a corrompa por completo.
♥♥♥
O dia terminou. E Erin não acordou mesmo assim.
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