Sabor de Sangue
14 Capítulo 11
Notas iniciais
– O que você quer? – perguntou Elora.
Ela tinha acabado de voltar de uma rápida visita a divisão Hunter na qual trabalharia pelas próximas semanas. Havia ido lá para se apresentar como Hunter, saber quando poderia iniciar seu trabalho – que seria naquela mesma noite, sem problemas – e se um novo parceiro já havia sido designado para ela. A resposta era sim e havia sido novamente um humano. Ela o conheceria em breve. Em suas mãos haviam vários documentos que lhe ofereciam dados sobre seu parceiro. Pela breve olhada que dera antes tinha percebido que não eram suficientemente esclarecedores, mas já eram um bom começo. Não lhe agradava a ideia de trabalhar com um completo desconhecido. Tinha que saber ao menos um pouco sobre ele.
Antes mesmo de entrar em sua nova casa, sentiu a presença do príncipe fae, que folgadamente, estava deitado em seu sofá. Sim, ele sempre a ajudou muito. Sim, devia muito a ele – e a mãe dele – por isso. Mas, sim, ele a irritava mais do que ninguém e sua paciência era bastante limitada.
– Talvez a promessa de que vou conseguir sair daqui vivo quando disser o que preciso te dizer. – Kaz respondeu se sentando.
– Kaz, só o fato de você continuar me fazendo perder tempo, tem uma enorme influência em me deixar de mau humor, então, tente ser claro, mesmo que isso seja um pouco difícil para os fae.
– Nós podemos ser bastante claros quando queremos. – ele discordou.
– Exatamente. Apenas quando querem.
Elora se sentou na poltrona de frente a ele com o olhar fixo no príncipe de Winter e se perguntou, não pela primeira vez na última hora, como Erin devia estar se saindo no novo colégio.
– Bem, vamos começar do começo. Você sabe que pedimos para que viessem para Londres porque acreditamos que já está na hora de Erin conhecer, ao menos superficialmente, um pouco do inimigo e de tudo que anda acontecendo, certo?
Elora assentiu.
– E sei que não concordo muito com isso.
– Mas a trouxe mesmo assim. Não poderá protegê-la para sempre, Elora. Temos que testar os limites de Erin.
– Tenho medo que o que Letha disse se concretize.
– Basta apenas que a controlemos. Não a deixe tomar sangue em hipótese alguma ou ela vai acabar descobrindo o que sabemos em algum momento. E a sede de poder poderá vir. Mas também precisamos ter um pouco de fé na nossa garota.
– Eu tenho. Mas também há um mal pressentimento sobre Londres. Kaz, todos eles estão aqui. Henrique. Eleanor…
– Angela também está. Seria bom que Erin encontrasse a irmã.
– Eu não sei. É tudo arriscado demais. – a bruxa se inclinou para frente em seu assento, envolvendo-se com os braços e deixou seu olhar se perder em um ponto qualquer da sala.
Por um momento quis esquecer que já era adulta. Deitar na cama e se enrolar em posição fetal parecia uma boa ideia, exceto que com certeza Kaz faria uma de suas gracinhas.
– Mas um dia Erin descobrirá tudo. E está na hora de isso começar a acontecer. Eu já dei o empurrão inicial.
– Você fez o que? – os olhos dela voltaram-se para ele novamente, ferozes, e ela se empertigou na poltrona, segurando os braços do móvel com força, impedindo-se de se atirar em cima dele e fazer o príncipe em pedacinhos. Ela devia ter entendido errado.
– Fique calma. – ele disse, sem qualquer vestígio de medo na voz.
– Ekazh Nirh, eu ordeno que me diga a verdade. – disse ela com firmeza, falando o nome verdadeiro do príncipe, assim obrigando-o a seguir suas ordens.
Haviam várias regras no mundo fae, uma delas não podia ser considerada exatamente como oficial, mas era seguida por aqueles que eram espertos o suficiente: Um fae nunca deve dizer seu nome verdadeiro a ninguém, caso contrário estará sujeito as ordens que esse alguém impor, sendo necessário apenas que a pessoa em questão diga seu nome. Claro, os faes são espertos e podem manipular a ordem ao seu favor, dando o significado que bem entenderem a ordem recebida. Caso qualquer ser queira ordenar-lhes algo, terá que ser tão inteligente quanto e falar claramente de modo que suas palavras não possam ter os significados manipulados.
Kaz podia muito bem passar por cima de tudo que Elora havia dito e ela descobriu disso mais rápido do que gostaria.
– A verdade? Sobre o que exatamente, minha querida Elora, o meu amor secreto e eterno por você? – ele perguntou ironicamente pela tentativa dela não ter dado certo. – Não se preocupe, amo-a como uma amiga a quem gosto de irritar, é apenas isso.
Estava apertando os braços da poltrona com tal intensidade que acreditava estar a ponto de romper o couro com suas unhas.
– Não se faça de desentendido, Kaz. – o tom frio de sua voz estava quase transparecendo seu nervosismo. – Quero que me diga o que fez. Está querendo por Erin em perigo de propósito?
– Obviamente não, mas usar meu nome verdadeiro foi jogo sujo Elora, faz com que eu me arrependa um pouco de ter te contado ele, principalmente porque você não sabe usá-lo direito.
– Você precisava me contar, caso contrário eu não lhe daria confiança.
– Confiança que você desperdiçou com quem não deveria, como por exemplo a sua paixão adolescente. – ele disse, desviando do assunto principal e irritando-a ainda mais.
– Cale-se.
– Você estava mesmo apaixonada por Henrique, não estava?
– Ekazh Nihr, cale a droga dessa boca até segunda ordem. – disse ela com os dentes cerrados. Não havia como ele contornar algo tão simples, ela sabia, e como previsto, ele apenas a fitou, calado. – Agora, diga-me: O que você, possivelmente com a intromissão de Mab, andou armando? O que está escondendo de mim que tenha relação com Erin? Que decisão você tomou pelas minhas costas acreditando que a está ajudando a descobrir o que não deve? Diga-me.
Com tantas perguntas em torno de um só tema seria mais difícil que ele contornasse. Talvez pela tática dela ter dado certo, ou simplesmente pela boa vontade do príncipe, que lhe ofereceu um pequeno sorriso – cínico, na opinião de Elora. –, ele resolver responder:
– Você sabe que já faz algumas semanas que eu vinha resolvendo no meu tempo livre, assuntos sobre a transferência de Erin para o novo colégio aqui em Londres. Eu já havia resolvido quase tudo, quando, a duas semanas atrás, ele se transferiu para lá. Comecei a pensar comigo mesmo se era uma boa ideia deixar ele e Erin dividirem o mesmo espaço e decidi que sim. Minha mãe concorda que já está na hora.
Elora sentiu o sangue correr de seu rosto e tinha certeza que tinha ficado uns dois tons mais pálida do que já era.
– Quem é ele?
– Bem, posso me referir a ele de vários modos. Sangue de anjo, esquentadinho, bom garoto, ou até mesmo como o filho da sua paixão adolescente.
Seu queixo caiu levemente e várias teorias percorreram sua mente que divagava sobre a possibilidade de sua filha e ele já terem se encontrado.
– Você teve a audácia de deixar minha filha estudar no mesmo lugar que Hyden Morgan?! – no momento apenas sua preocupação era maior que a raiva.
Diga que eu estou enganada.
– Você acabou de concordar mesmo que Henrique era sua paixão adolesc…?
– Maldição! – Elora o interrompeu, levantando-se depressa e pegando rapidamente telefone sobre uma mesinha próxima.
– Elora – Kaz segurou sua mão interrompendo a discagem. Ela nem o havia percebido se levantar e ele estava sério dessa vez. – Hyden é um bom garoto. Eu o conheço, sei do que estou falando. Nunca iria deixar que Erin se aproximasse dele se acreditasse que não está segura. Mab também não.
O calor aumentava gradativamente nas mãos de Elora e ela tinha que se controlar para que elas não fossem consumidas por chamas. Não queria estragar o telefone.
Puxou sua mão da dele e voltou a discar o número da filha. Tinha que esquecer a mágoa do passado e se focar apenas em sua preocupação. Tinha sido uma má ideia se mudarem para Londres naquele momento.
– Eu entendo que você e sua mãe podem ter tido uma boa intenção – ela disse, fazendo o máximo para manter sua voz controlada. –, mas você acabou de dizer que Hyden Morgan é um bom garoto. Lembre-se: Henrique também era.
– Você está julgando o filho pelo que sabe sobre as ações do pai.
– Só estou querendo proteger a minha filha. Você deveria entender isso.
Kaz suspirou e voltou a se sentar sobre o sofá.
– Tudo bem, faça o que quiser. Mas não deve se iludir acreditando que Erin passará toda a vida obedecendo cada uma de suas ordens. Ela é mais forte que isso.
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