SOMBRAS - A Armadilha da Rainha
9 Capítulo 8 - A primeira profecia
Três senhoras adentraram o salão, logo após a previsão de Reinald. Eram sombrias, com capuz cobrindo-lhes os olhos. Suas peles eram ressacadas e enrugadas. Quase esqueléticas. Seus cabelos, brancos como velas e tão ressecados quanto palha. Suas vestimentas estavam em farrapos, sujas e rasgadas. Eram emendas de várias cores, mas todas escuras, misturadas e emaranhadas, sem exceção.
— Olá, Reinald. – A senhora do meio cumprimentou, com uma voz estridente, rouca e apavorante. Ela era a mais alta e magra dentre as três, mesmo com sua pequena corcunda. — Eu quero o olho, Átropos. – Ela pediu, estendendo a mão para a mulher à sua direita.
Com um movimento, que causou horror aos cinco jovens que as observavam, a senhora a direita deles, ergueu seu gorro escuro, revelando um típico rosto de uma idosa, mas ao invés de dois olhos, tinha apenas um, o qual a mesma arrancou, com naturalidade, entregando-o para a mesma que o solicitou. Átropos não parecia muito contente com o ato, mas o fez.
No momento, as três já estavam sem os gorros. Deixando a vista seus rostos tão incomuns.
— Agora, Cloto está satisfeita, não é mesmo irmã? – A mulher, a esquerda, disse, referindo-se a mais alta. Com um aceno de cabeça, a irmã concordou. – Então, creio que podemos continuar.
— Láchesis. – Reinald chamou. – A que devemos a sua visita?
— Temos uma mensagem importante para vocês. – A senhora prosseguiu. — Um conselho, para seus novos integrantes. – Uma pausa. O suficiente para deixar a tensão em seu ápice. Andrew estava a ponto de explodir e perguntar que diabos ela queria dizer, quando a mesma retomou seu raciocínio. – Nós vimos você. – Láchesis disse, mas fora Átropos quem apontou na direção de Andrew, com seu dedo ossudo, calejado e retorcido.
— Eu? – Ele questionou, aos demais e para si mesmo. — O que isso quer dizer?
— Se não estou enganada, Reinald disse ‘Moiras’. Elas são as irmãs que representam o Destino. Elas traçam os destinos, profecias. Com o tear da fortuna, elas tecem os fios da vida. É como se elas tivessem controle sobre todos nós. Quando estamos prestes a morrer, elas cortam nosso fio, como a decisão final.
— Está correta, Alexandra. – Katrina parabenizou, mesmo mantendo o olhar de preocupação de antes. Em uma situação normal, seus irmãos estariam perguntando a Alex, como ela tinha descoberto aquilo.
— Muito esperta. – Cloto debochou.
Mesmo não enxergando, Alex a fuzilou com o olhar.
— O que vocês têm a dizer ao garoto? – Reinald trouxe as atenções para si.
O único olho que elas possuíam se fixou no fundo da sala, enquanto Láchesis tomou as rédeas da conversa. Sua voz se transformou num vozeirão, preenchendo todo o salão.
“Quando a Terra estiver a ponto de entrar no caos
O poder dos grandes não será suficiente
E os portais logo errarão alvos, o que fará
O primogênito o peso das mortes carregar”.
O eco continuou pela sala, mesmo depois que ela já tinha encerrado seu presságio.
O peso daquelas palavras atingiu Andrew como um soco no estômago. Sua realidade já fora revirada, literalmente posta de cabeça para baixo, e ele definitivamente não precisava de mais aquilo para entrar em pânico. Prendeu sua respiração por um breve momento, cerrando o maxilar com força. Não perderia sua sanidade por conta de tudo que estava sendo lançado em sua direção.
— Tirem-nos daqui. – Dominic ordenou. – Agora. – Ele gritou, quando ninguém se mexeu.
Um turbilhão começou. Adolescentes tentavam sair às pressas, os mais velhos tentavam manter o controle, mas o problema era que as Moiras bloqueavam a saída principal.
— Vocês devem sair. – Selina advertiu as três irmãs.
— Não adianta evitar o inevitável. – Cloto disse, já se afastando. – Já ouviram falar de algo chamado Destino?
As Moiras, então, deram as costas, afastando-se ao gargalhar, deixando para trás toda uma multidão atordoada.
— Você sabe do que estamos falando, Reinald. Não adianta se fingir de cego... – Foi o último comentário de Láchesis, antes que elas subitamente sumissem em sua própria risada.
Não havia mais nenhum movimento no grande corredor. Era como se elas simplesmente tivessem evaporado.
As pessoas dentro do salão, por outro lado, estavam em torpor. Esperavam por mais ordens, mas até mesmo os Representantes, pareciam sem reação. Aquilo era algo que definitivamente não estava presente no cronograma do dia.
— Levem os cinco para o auditório e em seguida para as instalações temporárias. – Niron, Representante de Sagitário, o ruivo de antes, anunciou. – Agora. – Disse com mais convicção, quando ninguém agiu.
Reinald concordou com a cabeça. Puxou Katrina pelo braço, para sussurrar em seu ouvido. Quando terminou, ela chamou a atenção dos cinco. – Vocês devem me acompanhar. – Katrina indicou a porta principal atrás de si. Ela começou a andar, esperando que os Daddrien a seguissem. — Enquanto o resto de vocês, já sabem o que fazer. – Ela gritou para os demais atrás.
— Usem os pins de transporte para voltarem à Casa Marcada. – Katharine continuou. — Vão direto para suas instalações. Suas aulas serão retomadas pela manhã.
Foi a última coisa que os irmãos ouviram, após adentrarem os corredores. Porque depois que o fizeram, as grandes portas foram fechadas.
Em pouco tempo, os Representantes teriam muito a discutir, na Corte ou em Afira. O ocorrido daquela cerimônia, trouxe à tona, muitos problemas do passado, uma vez encobertos, ou resolvidos. Haveria muitas especulações. A profecia deveria ser mantida em segredo, após o próprio Dominic ter concertado por si só, um dos maiores causadores da mesma.
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