SOMBRAS - A Armadilha da Rainha
10 Capítulo 9 - A espera pelo amanhã
Saindo pelas grandes portas, Katrina e Katharine guiaram os cinco, até chegarem ao elevador principal, levando-os para o penúltimo andar do prédio. Assim que as portas se abriram, eles já estavam praticamente dentro do auditório referido por Niron. As gêmeas não deixaram o elevador.
O auditório era como um céu. No sentido literal da palavra, por mais que eles não quisessem acreditar. Repleto de nuvens, em todas as direções. Com exceção do grande telão à frente deles. Na tela antes branca, uma legenda negra surgiu, orientando-os para que se acomodassem e aproveitassem a orientação do canal olimpiano, gravado em última mão pelo estupendo deus do trovão.
Eles obedeceram, tomando cada um, um lugar no chão de nuvens.
Logo a tela ganhou cor, e o restante da sala escureceu. Era como se fosse noite, com o céu repleto de estrelas acima de suas cabeças. Um homem de cabelos longos e loiro, logo surgiu, arrumando-se para a câmera. Quando percebeu que estava sendo filmado arrumou a postura. Usava uma regata azul escura, e tinha um raio, tatuado em dourado no bíceps. Isso era tudo que conseguiam ver, pelo enquadramento da filmagem.
— Olá, e bem-vindos ao canal olimpiano, sua única fonte de notícias concretas. Meu nome é Zeus, o deus do trovão, filho de Cronos e rei do Olimpo. – Ele deu um sorriso cativante para a câmera, e continuou. – Acomodem-se, para ouvir a história de como tudo começou...
A milênios atrás existia apenas o Caos, uma gigantesca fonte de energia e massa na qual estavam todas as sementes para o Universo. Dele surgiram Gaia, a terra, o chão do mundo; Eros, o amor, impulso primordial do universo; Nix, o universo, a noite; Ébero, a escuridão; e Tártaro, o mundo inferior, a prisão nas profundezas do mundo.
Gaia, por si só, gerou Urano, a personificação dos céus. E juntos deram origem a quatro grupos de descendentes divinos: Titãs, sendo seis; Titânidas, também seis; Ciclopes sendo três; e Hekatonkhires também três.
Mas o necessário para seu entendimento no momento, é que, a partir dos primeiros seis titãs, os demais surgiram. Dentre eles, aquele que se destacou para que o mundo fosse um dia regido por seus amados deuses, foi Cronos, o titã do tempo.
Cronos, juntamente com sua irmã Réia, gerou os seis deuses. Dentre eles, a excelência que vos fala.
A era dos titãs foi de grande prosperidade durante anos, conhecida como Era de Ouro, mas chegou o momento em que Cronos se tornou mais preocupado com a maldição de seu pai do que com qualquer outra coisa. Urano praguejou que um dia, um de seus filhos o destronaria. E com isso em mente, Cronos devorou todos os seus.
Entretanto, Réia, minha mãe, foi até Gaia pedindo por ajuda, e ela lhe entregou uma pedra, para que meu pai devorasse em meu lugar.
Fui criado em uma caverna. E depois de muitos anos, envenenei meu pai, para que ele vomitasse meus irmãos, ainda crescendo em seu estômago, graças à sua imortalidade. Depois disso, a guerra dos titãs, a Titanomaquia teve seu início.
O Monte Olimpo foi o abrigo e fortaleza dos deuses, e o Monte Ótris, dos titãs. Aliados de guerra vêm e vão, mas há um entre todos estes que foi de suma importância para que vocês estivessem aqui hoje.
Durante os dez anos que se seguiu a guerra, a terra se encontrou em seus piores dias. Depois de oito anos, o Vale Elementar começou a ser verdadeiramente afetado, e foi aí que as fadas, essências da natureza, criadas junto com o início dos tempos, ofereceram sua ajuda em nome de todo o seu povo. Glasting, a fada da bondade, juntou nossos sangues e o primeiro Representante enfim, nasceu. Metade fada, metade deus, os Representantes foram uma força muito importante, para que junto aos ciclopes, hecatonquiros e demais deuses, a era dos titãs chegasse ao seu fim.
Tem-se então a Era de Cristais, regida por nós.
Raios e trovões tomaram conta da filmagem, deixando a narrativa e focando novamente em Zeus sentado em seu trono dourado, com os demais deuses ao seu redor.
— Posso lhes dizer então, bem-vindos ao sonho que se tornou realidade. Havia muito o que reparar após a guerra. E foi um decreto divino que nenhum deus poderia intervir nas escolhas dos mortais. Logo, eles precisavam de proteção, assim como precisam até hoje. Foi quando os filhos dos Representantes conheceram sua verdadeira missão. Cada um com seu poder de proteção, mantendo a Dimensão em seu devido equilíbrio.
Uma breve interrupção e a câmera chacoalhou, antes de todos os doze deuses exclamarem. – Bem-vindos ao seu destino. – E a escuridão veio. A tela preta tornou toda as nuvens escuras, como se uma tempestade estivesse prestes a cair.
A porta do elevador se abriu; Katrina e Katharine esperavam pelos cinco, para que entrassem para que pudessem prosseguir.
— A profecia não foi inteira revelada. – Reinald tentava acalmar os nervos do Representante enraivecido a sua frente. – Mas devo advertir, que meu conselho anterior foi não intervir. Minhas visões já haviam mostrado coisas assim acontecendo.
— O que você não está me contando? – Dominic não disfarçava sua raiva. Conseguia sentir aquela situação escapar por entre seus dedos.
— Não se pode brincar com as Moiras. Nem mesmo Zeus pode desafia-las sem alterar o curso do Universo. – Ele continuou. – Os Véus são finos, Dominic...
No fundo do salão, Katrina e Katharine tentavam ignorar a estranheza e seriedade do momento. Já haviam visto discussões como aquelas a alguns anos atrás, mas não conseguiam entender o porquê de voltarem ao mesmo tópico novamente.
— Não fui com a cara daquelas gêmeas. – Katharine comentou, em um sussurro. – Tem alguma coisa de errado com elas. Principalmente a Impura.
Katrina fingiu não ouvir a irmã. Sua atenção estava voltada para a conversa que acontecia a alguns metros de onde estavam.
— Agora aqueles irmãos.... Pelos deuses. – Katharine continuou, indiferente a indiferença de sua gêmea. – Há décadas que não apareciam garotos como aqueles. Um desperdício eu diria. Um Impuro, e um Sub. Mas o Aliado, com certeza vale meu tempo.
— Katharine, ele mal olhou para você. – Katrina respondeu, com esperanças de que o assunto chegasse a um fim. — Suas chances estavam com Matthew, o Impuro. – Ela esclareceu, quando a irmã pareceu confusa. – Mas você deu azar, já que ele vai para os Lugares Salvos, em dois dias.
— Minha querida e doce irmã. – Ela zombou. – Quarenta e oito horas, ainda são quarenta e oito horas.
Ignorando novamente as graças de Katharine, Katrina apenas voltou sua atenção aos gritos, que Dominic direcionava para seu mestre. — Não podemos deixar que a profecia se cumpra. – Dominic esbravejou, trazendo para o salão o som de bufadas como as de um touro. — Temos que achar uma solução, caso não, será um dominó desmoronando. – Ele se tornou pensativo.
Foi quando uma batida na porta o fez voltar a sua postura confiante e casual.
— Estamos prontos para voltar, Dominic. – Selina apareceu dentro da sala. – Os outros nos esperam no Portal Pri-ma. – Quando ele parecia indiferente, ela completou. — Os deuses nos esperam em Afira.
— Perfeito. – Ele disse irônico, em resposta. – Reinald, o senhor e suas aprendizes acompanhem o progresso dos Daddrien, mantendo-nos informado. Passe a noite na Corte, esperando até que os impuros saiam. Depois siga viagem para à Casa. Mantenha, contudo, certa atenção nos Impuros, nos Lugares Salvos. Alguma coisa naquela Impura em especifico, me preocupa.
O Oráculo concordou, fazendo sinal para que suas duas companheiras se aproximassem. – Tenho permissão para dar-lhes explicações?
— Apenas o que é dado a todos os outros aliados. Nada mais do que isso. Deixe claro que o incidente de ontem não é nada para com que se preocupar.
— Sinto interromper, Dominic. – Silene se entrepôs. Adentrando a sala e encostando as portas por detrás de si. – Mas não é algo que possamos ignorar. Foi uma aparição significante. Ambos sabemos que as Moiras não deixam seu esconderijo só para um passeio. Ainda mais levando em consideração, que, o Oráculo, não havia nos informado sobre tal profecia.
Reinald sentiu a represália nas entre linhas, e se defenderia, mas as ordens vieram de um Representante de forma direta. Dominic especificara seu silêncio, então estava em uma encruzilhada. Não havia nada que pudesse fazer. Foi quando Dominic o interrompeu. – Reinald não havia previsto tal profecia.
O senhor apenas se calou, assim como as gêmeas ao seu lado. Selina não parecia satisfeita, mas prosseguiu com a linha de raciocínio. – Discutiremos em Afira. — Ele concordou a contragosto. Acompanhando Selina, porta a fora. Reinald apenas suspirou.
— Mestre, o que está havendo? – Katrina perguntou, acompanhando o passo do Oráculo.
— A pergunta certa, não é o que está acontecendo, querida, mas sim o que aconteceu; e o que está prestes a acontecer.
Aquilo não respondia a sua pergunta, mas Katrina sabia que não deveria insistir quando Reinald dava tais respostas.
— Onde será que estamos? – Izzie perguntou, sentando na cama.
— Se eu soubesse não estaria batendo nessa porta a mais de meia hora. – Andrew respondeu, virando-se de costas para a parede, que até então, socava.
Depois da confusão no grande salão, os cinco foram levados por diversos corredores, entrando em um elevador após perderem a conta de quantas esquerdas e direitas haviam virado. Descendo até o primeiro subsolo, foram guiados até um quarto.
A porta, nada mais era que uma de aço, semelhante às de garagem. Abrindo de baixo para cima. O quarto, possivelmente, já fora um galpão ou algo do gênero.
Katrina os orientou a entrarem e esperarem por novas instruções. Eles se sentiram em um jogo ou simulação. Nenhum deles estava muito confortável em entrar, e a situação só piorou, quando ao passarem todos, a porta foi fechada com um baque estridente, no contato com o chão.
Estavam trancafiados. Um quarto escuro, sem janelas, apenas com a luz das lâmpadas espalhadas pelo cômodo. Algum tempo depois, analisando o local, Alex o classificou como um alojamento.
Havia oito camas encostadas na parede à direita e outras oito, à esquerda.
De acordo com as contas de Andrew, estavam ali a aproximadamente quarenta minutos.
— O que acha que estão fazendo? – Matthew perguntou. – Quero dizer, não podem apenas nos trancar aqui, certo?
— Devem estar preocupados que se ficarmos soltos pela Corte vamos fugir. – Alex caçoou.
— Pelo o que parece, o histórico da nossa mãe não é dos melhores. Devem realmente estar preocupados em nos deixar zanzando por aí. – Dylan disse finalmente.
— Como vocês acham que ela fez isso? – Izzie mudou o tom de voz. Estava curiosa e intrigada, de uma forma estonteante. – Quero dizer, eles disseram que ela tinha dotes para feitiçaria? Como isso é possível?
— Sinceramente, eu não dou a mínima de como ela fez. Ela não tinha o direito de nos esconder. Tomar essa decisão por nós. – Andrew respondeu, seco. Depois disso, virou-se novamente para a porta de aço. – Ei, tem alguém aí? Queremos sair daqui.
— Desista, Andie. – Alex encorajou, deixando-se cair de costas em uma das camas, mais próximas. – Se fosse para alguém aparecer, não acha que já teria acontecido?
Andrew não era o tipo que xingava pelos cantos, então quando sua irmã o repreendeu, ele apenas se virou e deslizou até o chão, encostando-se na porta. De certa forma, ele sabia que ela tinha razão. Não adiantava desperdiçar energia.
— Aliados, sub-alido e impuros. – Uma voz soou pelo local, como um alto falante. Todos os cinco ficaram atentos, sabendo que alguma importância aquela comunicação teria. — Gostaríamos de pedir desculpas pela falta de cordialidade, mas vocês não são o que chamamos de, nossos integrantes rotineiros. – Uma pausa se seguiu, como se a pessoa que discursava tentasse achar as melhores palavras para se dirigir a eles. – Então, com esse anúncio, espero esclarecer possíveis dúvidas. Vocês estão em nossos alojamentos. Todos que passam pela cerimônia de sangue são escoltados até eles, para passarem a noite na Corte e ter momentos juntos para possíveis despedidas. Amanhã, vocês passarão pelo Portal Pri-ma e seguirão para A Casa Marcada e para os Lugares Salvos. – Mais uma pausa. – Tenham uma boa noite.
— Ótimo. – Izzie disse. – E é assim que passaremos nossa última noite juntos.
— Quem precisa de diversão, não é mesmo? – Matt completou sarcástico. Mas Izzie foi a única que concordou.
— Você é inacreditável. – Andrew resmungou, remexendo-se no chão. Alex não queria ver o que se seguiria.
— E você é um idiota. – Matthew retrucou de prontidão. — Nem em momentos como esse você consegue deixar esse seu humor de lado. Mais parece um idoso.
Foi o necessário para que outra discussão tivesse início. No meio de tudo aquilo, aquele alojamento estava mais para uma sala de confinamento. Dylan girava em uma das camas, cobrindo seu rosto com o travesseiro, tentando diferentes posições. Conseguia sentir a impaciência crescendo dentro de si. Alex e Izzie já estavam envolvidas também, o que piorou a situação, com quatro pessoas tentando gritar, uma mais alta do que a outra.
Normalmente, Dylan não se deixava envolver, mantinha a cabeça em outra coisa. Por ser o mais novo e com menos relevância a ressaltar, na perspectiva dos outros. No entanto, naquele momento, conforme os gritos aumentavam sua paciência se esvaia.
Ele pressionou o máximo possível, o travesseiro contra seus ouvidos, até que explodiu. – Vocês querem calar a maldita boca. – Dylan gritou, com todo o ar de seus pulmões. Jogando o travesseiro longe. Os outros ficarem quietos, surpresos em como o irmão subitamente reagiu. – Vocês não conseguem ficar cinco minutos juntos sem começar a droga de uma discussão. Não sei se vocês notaram, mas não estamos mais em casa. Não estamos mais em Connecticut. Nossas vidas estão de pernas para o ar e para melhorar tudo, essa é a última maldita noite em que todos nós estaremos juntos. Dois de vocês vão para um lugar que não sabemos onde fica, e talvez nunca mais voltemos para o mesmo lugar, assim como outros dois vão aprender a lutar e sabe se lá o que mais, para arriscar a vida por aí. Enquanto eu, o menos importante, vou fazer alguma coisa estúpido em algum estúpido lugar. – Ele parou de gritar por um momento, recuperando o fôlego. Enquanto os seus irmãos observavam, sem acreditar em toda aquela enxurrada de verdades. Depois de dar grandes lufadas de ar, ele voltou a gritar. – Então, será que por favor, vocês podem sentar o trazeiro de vocês, calar a boca e fingir que estão tão abalados quanto eu nessa porcaria de situação?
O choque não deveria ter durado tanto. Houvera momentos em que Dylan perdia a linha com muita frequência, quando não tinham acertado a dosagem de seu remédio. Mas isso tinha sido a muito tempo.
— Sinto muito, D. – Izzie foi a primeira a falar, depois que a maior parte do espanto se dissipou. – Você tem razão. – Ela estava com as mãos levantadas à frente do corpo, para acalma-lo. — Não deveríamos estar brigando, quando as nossas últimas horas estão passando.
— Você está certo. – Andrew disse, tentando fazer pouco caso.
Todos olharam em sua direção, incluindo o caçula. Não era todo dia que ele admitia que alguém estava certo, porque na maioria das vezes ele tinha as melhores soluções. — Não me olhem assim.
— Desculpa, D. – Alex também disse. – Mas o que podemos fazer?
— Qualquer coisa que não envolva gritar. – Ele respondeu, com uma risada forçada, fechando as mãos trêmulas. Os demais olharam para suas mãos fechadas. — Vou ficar bem. – Dylan assegurou, finalizando.
As coisas se acalmaram, mas não era como se o assunto fluísse bem entre os cinco. Mesmo morando na mesma casa, eles não passavam muito mais tempo juntos. Sem noção alguma do que acontecia no mundo ao seu redor. Os cinco apenas deitaram, alguns apoiados em outros e de tempos em tempos, alguém soltava um comentário.
— Não devíamos tentar dormir? – Andrew sugeriu.
Com murmúrios, os outros concordaram. Deduziram que um dos lados deveria ser o das meninas e o outro dos meninos, já que era pouco provável que deixassem os dois dormirem entre si. Os garotos, então, deitaram-se cada um em uma cama, do lado direito, enquanto as meninas juntaram duas, no lado esquerdo, para que pudessem dormir juntas como quando crianças.
Depois de deitados, encarando o teto. Não estavam com sono, principalmente depois de todas as complicações do dia. Mesmo com a inquietação estar acompanhando a todos, o mais atormentado era Andrew. Ele não parava de repassar o acontecimento. As Moiras, a profecia, os signos, Representantes, as novas marcas em seu corpo. Isso era um pensamento que não o deixava se tranquilizar, era como se as duas marcas ainda formigassem. Ele via o rosto de sua mãe, pai, Lucas e até mesmo Elena. Nunca mais os veria de novo?
Alexandra e Isabel cochichavam entre si, até que inesperadamente se levantaram, aproximando-se das camas de seus irmãos. Com um movimento, as duas fizeram Dylan se levantar para ajudá-las.
Eles juntaram as camas de Dylan, com a de Andrew, que estava no meio. Passando em seguida para a cama de Matthew, que enquanto reclamava, foi arrastado também. Depois de feito, Dylan se deitou novamente, com Izzie se esgueirando entre ele e Andrew. Alexandra fez o mesmo, deitando-se entre ele e Matthew.
— O que é isso? – Matthew questionou, um pouco sonolento.
— Estamos relembrando. – Alex respondeu. Izzie então completou seu pensamento. – Quando éramos pequenas e tínhamos pesadelos, íamos para o quarto de vocês. – Alex logo retomou. – E como essa é a última noite que teremos essa chance, resolvemos fazer valer a pena. Podia ser infantilidade, mas naquele momento, não faria diferença.
Andrew deixou um riso escapar. Apertando suas irmãs, contra o peito para um abraço. Pelo menos, seria uma noite com algo a mais para se lembrar, sem dúvida.
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