SOBRE LOBOS E ÁGUIAS
7 Capítulo 7
Sem pensar muito, Sandra digitou uma mensagem a Luís naquela tarde.
"Oi, Luis, tudo bem? Vou sair mais cedo hoje do trabalho e pensei se você não gostaria de ir a um lugar comigo. Tem uma cafeteria que gosto muito. Se você estiver disponível, me fala, tá bom
Sandra enviou a mensagem antes que pudesse mudar de ideia. Era a coisa mais ousada que fizera em relação a Luís desde que o conhecera. Não demorou muito para que o celular vibrasse com a resposta.
"Claro que posso. Me passa hora e endereço, e estarei lá."
Ela enviou as informações sentindo satisfação e nervosismo. Combinados, marcaram o encontro para o fim da tarde.
_*_
A Livros & Café era um lugar acolhedor, com móveis de madeira rústica e uma iluminação suave que criava um ambiente intimista. Luís chegou primeiro, sentou-se em uma mesa no fundo, próxima à vidraça, onde se podia ver o movimento tranquilo da rua. Quando Sandra entrou, com o cabelo preso em um coque simples e um sorriso contido, ele sentiu uma estranha familiaridade, como se aquele momento já tivesse acontecido antes.
— Que interessante. Você se sentou justamente na “minha mesa”. — Sandra se aproximou sorrindo.
— Bonito aqui. Tem a sua cara. — disse, ele, se levantando para cumprimentá-la.
— É o meu refúgio. — Colocou a bolsa na cadeira ao lado — Sempre venho aqui quando preciso organizar os pensamentos.
Após pedirem café e algo para comer, começaram uma conversa casual e, pela primeira vez, Luís viu Sandra diferente do foco profissional que sempre exibia.
— Sabe, eu gosto de momentos como esse... longe da correria, só conversando casualidades. — Ele comentou, erguendo uma xícara de café, quebrando o silêncio que pairava entre uma troca de olhares.
— Eu também aprecio isso. Não acontece muito na minha vida, então tento aproveitar o máximo possível — revelou, mexendo o café com a colher. Ele se inclinou para frente, interessado.
— E por que não? Você realmente parece alguém que adora momentos assim.
— A vida atarefada e cronometrada, e o controle de tudo ao redor. Esqueço de aproveitar o que é simples. — Sandra deu de ombros, com um ar de leve autocrítica.
— Isso parece cansativo. — Mordeu um biscoito. — Eu gosto muito de explorar, aprender, conhecer gente nova, lugares... é como se isso me renovasse, sabe.
Sandra sentiu a empolgação dele.
— Isso é ótimo, mas... nem todo mundo consegue viver assim, com essa energia. Para algumas pessoas, a estabilidade já é uma grande conquista.
Luís pousou a xícara no pires.
— Estabilidade é importante, mas é a liberdade de buscar um propósito que permite que conquistemos a estabilidade. Não acha? A estabilidade por si só, parece mais uma prisão disfarçada.
Ela riu baixo, balançando a cabeça.
— Filosofia de cafeteria? Acho que gostei.
Luís arqueou uma sobrancelha, um sorriso brincando nos lábios.
— Pode chamar assim, mas tem um fundo de verdade, confessa. — Instigou, apoiando os antebraços na mesa.
Sandra girou uma colher dentro de sua xícara, observando o movimento circular do café.
—Talvez. Mas o que você chama de prisão, eu chamo de segurança. Nem todo mundo vive de impulsos ou movidos por uma liberdade arrebatadora. Eu, por exemplo, preciso de um chão firme, para não me perder.
Luís a olhou atentamente, os olhos brilhando com uma mistura de curiosidade e compreensão.
— Entendo. Mas será que esse chão firme não é um pouco limitante? Às vezes, nos apegamos tanto ao que é seguro que perdemos a chance de viver algo mais. — Olhou-a, desafiador.
Sandra o encarou, sem se intimidar, e soltou um leve suspiro.
— Tem fundamento o que pensa, mas eu não sou uma mulher capaz de correr esses riscos. Não sem saber aonde vão me levar.
Luís rebateu imediatamente:
— Ninguém sabe, Sandra. E é aí que está a beleza. É como voar: você não tem certeza pra onde o vento vai te levar, mas ainda assim, abre as asas.
Ela riu, balançando a cabeça novamente.
— Você faz parecer tão fácil.
Ele deu de ombros, bebericando o café.
— Fácil não é, mas vale muito a pena.
Sandra apoiou, com cuidado, a colher na borda do pires, tomando a xícara nas mãos antes de bebericar.
— Sabe, Luís, é fácil falar isso sendo um homem. Para vocês, viver intensamente ou buscar aventuras parece simples. Vocês têm mais liberdade para fazer o que querem, sem pensar tanto nas consequências. As mulheres, em geral, não têm esse luxo. Somos mais guiadas pelas emoções e, muitas vezes, pressionadas pelas consequências.
Luís arqueou uma sobrancelha, claramente intrigado.
— E você acha que nós, homens, não temos emoções ou responsabilidades? Que tudo é só razão e momentos pra nós? Tenho que discordar de você, Sandra…
Ela deu um pequeno sorriso irônico, mas não maldoso.
— Vocês têm sim, lógico. Só lidam com isso de um jeito... diferente. Para nós, cada escolha tem um peso maior. É como se o mundo estivesse sempre esperando um deslize. E quando o cometemos, o julgamento é muito mais severo — bebeu mais do seu café.
Ele se inclinou para trás na cadeira, cruzando os braços enquanto observava a maneira firme com que expressava seus conceitos.
— Você é muito dura consigo mesma. Eu entendo o que quer dizer, mas ainda digo: as responsabilidades podem ser diferentes, sim, mas todo mundo sente o peso delas. Eu, por exemplo... — Ele fez uma pausa, escolhendo as palavras. — Eu amo minha família, mas isso não significa que não carrego expectativas, pressões. E, sinceramente, essas aventuras, como você chamou, são a única forma de fugir disso tudo por um instante. Não é porque somos homens que não sentimos o peso das escolhas.
Sandra respirou fundo.
— Pode ser. Mas não negue que a sociedade sempre foi muito mais permissiva com os erros ou os desejos dos homens. Para nós, cada passo fora da linha é uma mancha, algo que nunca conseguimos apagar.
Luís inclinou-se para frente novamente, o olhar mais sério.
— Concordo que vocês enfrentam dificuldades que nós nunca vamos entender completamente. Só que, talvez, a gente esteja falando de coisas diferentes aqui.
Sandra o encarou por um momento, os olhos buscando algo no rosto dele. Finalmente, ela soltou um suspiro e deu um leve sorriso.
— Talvez estejamos confiantes demais em nossas convicções… No fim, todos estamos apenas tentando sobreviver às nossas próprias realidades.
Ele assentiu, com um sorriso de canto.
— Isso eu concordo. Mas, para mim, sobreviver não basta. Eu quero viver, de verdade. E acho que todo mundo merece isso, inclusive você.
Sandra desviou o olhar, rindo levemente.
— Ah, Luís… você é um grande aventureiro.
— Sou. — Respondeu com um tom mais suave. — E quero te ensinar a voar um pouco, se me permitir.
Ela não respondeu de imediato, apenas olhou para fora da janela, onde a tarde começava a dar lugar a um céu tingido de laranja.
— Não sei se sou tão corajosa quanto você acha que sou. — E voltou-se para ele. — Só se você me deixar te ensinar a ponderar certas coisas.
— Temos um acordo. — Sorriu para ela, pegando a xícara e erguendo-a como um brinde simbólico. Ela riu junto, levantando a xícara também.
Luís percebeu a inquietação de Sandra, como se estivesse reunindo coragem para perguntar ou compartilhar algo com ele. Então disse com uma voz compreensiva, como se já soubesse:
— Pode perguntar, Sandra…
Ela levantou os olhos para encará-lo. Seus lábios se entreabriram, mas a hesitação ainda pesava.
— Como é o seu casamento com a Larissa?
Luís soltou um pequeno sorriso e descansou as costas no encosto da cadeira, cruzando os braços de forma pensativa.
— Larissa é uma mulher incrível. — Começou, escolhendo as palavras com cuidado. — Dedicada, paciente, uma mãe maravilhosa. Ela tem um coração que parece não ter limites, sempre pronta para ajudar a quem precisa.
Sandra concordou levemente, absorvendo as palavras e Luís soltou um suspiro, olhando para o café em sua xícara.
— E, às vezes, eu sinto que…— ele continuou — ela não pode me enxergar completamente, não da forma como eu gostaria. É como se houvesse uma parte de mim que ela tenta alcançar, mas não consegue. Não por falta de esforço, mas porque... Não sei o porquê.
Sandra manteve o olhar nele, notando a sinceridade nas palavras. Ela o entendia quando dizia não saber explicar certas coisas. Se sentiu encorajada pela abertura dele.
— Eu sei o que você quer dizer — disse ela, com a voz quase confessional. — Com o Mauro, às vezes, eu também sinto isso. Quer dizer, no começo era diferente. A gente se conheceu na faculdade, e ele era o cara que parecia perfeito para construir uma vida juntos. Inteligente, seguro, focado. Pensei que tínhamos os mesmos sonhos, as mesmas ambições.
— O que mudou? — Perguntou com um tom gentil, mas interessado. Ela manteve o semblante melancólico, quando respondeu.
— Com o tempo, percebi que ele era mais acomodado do que parecia. Os sonhos que tínhamos ficaram pelo caminho. Ele está bem onde está, enquanto eu... sinto que continuo andando, tentando encontrar algo, mesmo que não saiba o que é. E ele… — suspirou de leve. — Ele simplesmente estacionou.
Luís não conseguia deixar de contemplá-la. Sua força, apesar de tudo, era admirável.
— Isso deve ser difícil. Sentir que você está sozinho, mesmo estando com alguém.
— É, sim. — Admitiu.
— Sandra, ninguém deveria viver assim, se sentindo desconectado de tudo o que importa. Eu sinto muito que seja assim para você.
Ela desviou o olhar para a janela novamente, disfarçando a vulnerabilidade que sentia.
— Eu também… mas estávamos falando de você — riu, nervosa. — Larissa parece ser uma pessoa muito boa. Talvez, mesmo sem te entender completamente, ela te ama o suficiente para tentar.
— Eu sei, e sou grato por isso. Mas… algumas coisas são difíceis de compartilhar quando a outra pessoa não consegue ver o que você vê. Sabe, quando você sente algo aqui… — bateu levemente no peito. — Algo que você não consegue explicar, mas sabe que está lá. Você quer falar, gritar e tentar fazê-lo te compreender, mas no fim, a pessoa não consegue.
Sandra meneou a cabeça.
— Sei exatamente como se sente, mas me pergunto: como podem nos compreender, se nem nós mesmos conseguimos nos entender?
A conversa parecia ter mudado algo entre eles, como se ambos vissem suas defesas caírem, ainda que por um momento.
— Mas a gente se entende, mesmo nos conhecendo tão pouco e parecemos estar na mesma busca. Você não sente o mesmo?
Sandra não respondeu. Apenas se perdeu na pergunta dele e nos seus olhos cheios de dúvidas quanto certezas. Assim como os dela.
— Vamos dar uma volta? — Luís a convidou, quebrando o clima com um sorriso, tentando aliviar a tensão.
— Caminhar? Com certeza.
_*_
Do lado de fora, o ar fresco da tarde começou a esfriar. A rua tranquila, com árvores ao longo da calçada, parecia o cenário perfeito para uma conversa mais íntima.
— Viajar mais... é isso que eu quero. Expandir meus horizontes, sabe? — Luís falava sonhador, com as mãos nos bolsos enquanto caminhava ao lado dela. — Eu só quero acordar todos os dias com a sensação de que estou vivendo, e não só existindo.
Sandra refletia sobre as palavras dele.
— Isso parece bom. Porém, eu estou mais habituada à constância. Andar em um terreno desconhecido me deixa… perdida. Eu tenho pavor dessa sensação.
Ele parou, olhando-a com um meio sorriso.
— Talvez seja por isso que a gente se complementa. Eu posso te mostrar a beleza do caos, e você pode me ensinar a importância da estabilidade.
Ela parou também.
— Não sei se sou boa em ensinar algo assim. A verdade é que sinto que estou aqui apenas para manter tudo funcionando, sabe. Como se eu fosse o pilar que não pode quebrar, mesmo que eu esteja me desgastando.
Luís franziu o cenho, seu tom mudando para algo mais sério.
— Isso é tão solitário.
Sandra deu um sorriso triste.
— Um pouco. Mas tenho dado conta até aqui.
Os dois andaram em silêncio mais um pouco, pensando em suas diferenças evidentes, mas estranhamente reconfortantes. Quando chegaram novamente ao estacionamento da cafeteria, Luís parou e se virou para ela.
— Obrigado por me mostrar esse lugar. Faz sentido ser o seu refúgio, vou fazer dele o meu também. Se você deixar. — Levantou um dedo, divertido.
Sandra riu.
— Claro que deixo. E obrigada por vir e se prestar a me ouvir. Ainda assim, faz sentido que você seja tão caótico.
Ambos riram, mas o riso logo se dissipou, dando lugar a um olhar que parecia carregar muito mais do que as palavras poderiam dizer.
— Foi um prazer. Até mais, Sandra.
— Até mais.
E, com isso, eles seguiram caminhos opostos. Cada um levando um pouco do outro dentro de si.
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O som suave do aquário borbulhando no canto da sala, dava um ar de tranquilidade. Sandra estava sentada no sofá, com as pernas dobradas sob si e a bússola que Luís lhe dera apoiada na palma de sua mão. A luz do abajur refletia na tampa de metal, destacando o intrincado desenho do lobo.
Ela passou o dedo pela superfície, traçando as linhas com delicadeza, como se pudesse absorver o significado por trás do objeto. Seus pensamentos estavam longe, voltando para a conversa no encontro daquela tarde.
"Ele voa sem medo de cair... como alguém consegue viver assim?" — pensou, sua mente revisitando as palavras de Luís sobre liberdade e a beleza da vida. — "Ele é como uma força da natureza, sempre se movendo, explorando, expandindo. Eu nunca conseguiria ser assim, mas... é inspirador."
Sandra olhou para a bússola, lembrando do que dissera quando ele a deu. — "você é o lobo…"
Ela suspirou, fechando os olhos por um momento, tentando enganar a tempestade de emoções que parecia sempre despertar quando pensava nele.
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Na varanda de sua casa, Luís segurava o chaveiro de madeira com uma águia esculpida. O objeto pequeno descansava em sua palma aberta. Também estava perdido em pensamentos.
"Sandra é tão diferente de mim. Metódica, cautelosa... ela vê o mundo com os pés firmes no chão…" — refletiu, observando o céu noturno. — "Mas é isso que me fascina... ela me faz querer parar e refletir."
Luís inclinou-se contra o parapeito, sentindo o vento fresco da noite tocar seu rosto enquanto a lua, ao longe, parecia o observar.
Enquanto Sandra analisava a bússola, e Luís segurava o chaveiro, ambos se perguntavam como alguém tão diferente poderia fazer sentido em suas vidas. E, em meio à solidão de suas reflexões, a sensação de que um ensinava ao outro, mesmo à distância, era quase palpável.
Eles não sabiam, mas o mesmo pensamento cruzava suas mentes: "Talvez, só talvez, ele/ela seja o equilíbrio que me falta."
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