SOBRE LOBOS E ÁGUIAS
8 Capítulo 8
Sandra mexia distraidamente a comida em seu prato, enquanto Paula a observava e esperava o que ela queria lhe dizer.
— Se não quer falar agora não tem problema. Tenho todo o tempo do mundo — disse, mordendo um pedaço de pão, em seguida.
Sandra soltou um suspiro pesado e largou o garfo no prato.
— Eu não sei nem por onde começar. É… complicado.
— Complicado é meu segundo nome, vai. — Paula era direta, mas sempre gentil. — O que aconteceu?
Sandra pensou por um momento, mas queria falar com Paula sobre isso. Desabafar sobre tudo isso que lhe acontecia.
— Alguns dias atrás… Luís me deu uma carona para buscar meu carro na oficina mecânica. Até aí, tudo bem… — riu sem graça, mexendo a bebida com o canudo.
— Certo. E depois? — Paula incentivou, com calma.
— Ele me deu um presente. Uma bússola com o símbolo de um lobo. Foi… bonito, sabe? Muito significativo.
Paula, que até então demonstrava ser apenas uma ouvinte solidária aos dilemas da amiga, congelou por um breve instante. Um lampejo passou por seus olhos, numa mistura de surpresa e identificação silenciosa.
— Uma bússola com um lobo? — repetiu ela, a voz deliberadamente calma, mas com uma leve hesitação que Sandra não notou. — É, de fato, muito simbólico. E o que você sentiu ao receber o presente?
Sandra abaixou os olhos.
— Eu senti… vontade de beijá-lo. Mas eu não o fiz! — Justificou rapidamente. — Sinto que tudo estivesse nos empurrando para isso, sabe? Mas o mais intrigante de tudo foi que, enquanto conversávamos, citamos uma frase do livro, juntos, ao mesmo momento. Isso não é esquisito?
Paula a olhou, enigmática.
— Eu conheço a lenda. Digo... o livro da lenda. E essa história de vocês, Sandra, não é só sobre o que está acontecendo agora, é algo que vem de muito antes.
Sandra cruzou os braços, desconfortável.
— Antes? Do quê? Você acha mesmo que…?
— Calma, eu não estou dizendo que você é reencarnação de alguém. Mas as pessoas carregam histórias que elas nem sabem que estão vivendo. Quando você fala dele, no fundo, sente como se já o conhecesse há muito tempo. E pelo que está me dizendo, ele sente o mesmo.
— Mas você sabe que isso é impossível, né?
— É? Então por que vocês falam juntos frases que estão no livro? Por que tudo ao redor de vocês é sobre o lobo e a águia? Se dão presentes que reforçam isso? O universo nos dá sinais, Sandra. Você não precisa acreditar cegamente neles, mas também não pode ignorá-los.
Sandra ficou em silêncio, digerindo as palavras. Paula pegou um pedaço de fruta do prato e falou de forma mais leve.
— Quando você estiver pronta, vou te mostrar algo. Às vezes, pode ajudar a organizar os pensamentos, especialmente quando parecem conflituosos demais para lidar sozinha.
Sandra olhou-a, curiosa. Era como se a amiga a entendesse muito mais do que ela estava disposta a admitir.
— E o que é?
— Eu disse, depois. — Fingiu firmeza. — Agora come seu almoço. Não quero carregar você desmaiada de fraqueza por aí.
As duas riram, e Sandra sentiu um pouco do peso sair de seus ombros, mesmo que temporariamente.
_*_
Tarde da noite e Luís com o seu notebook no sofá da sala, conferia alguns e-mails. Larissa apareceu na porta, observando-o por um instante antes de se aproximar e sentar ao lado dele.
— Você anda diferente, sabia? — Disse ela, com um tom suave, mas curioso.
Luís fechou o aparelho lentamente, virando-se para encará-la.
— Diferente como?
— Distraído... distante. Até as crianças perceberam. Igor me perguntou hoje se você está bravo com ele.
— Não! Claro que não. — Respondeu, alarmado. — Eu jamais ficaria bravo com ele.
— Eu sei disso. Mas alguma coisa está te incomodando, e você não fala comigo sobre isso.
Luís hesitou, olhando para as próprias mãos.
— É só o trabalho, Larissa. Os projetos, as metas, a fusão... Tudo isso tem me consumido mais do que deveria.
Larissa inclinou a cabeça, avaliando-o.
— Você sempre trabalhou muito, amor, mas nunca deixou isso te afetar assim. Tem algo mais, não tem?
Ele soltou um suspiro longo, passando as mãos pelo rosto.
— Talvez eu esteja me pressionando demais. É uma fase importante. Estou tentando dar o meu melhor, me sinto inseguro... às vezes me perco no meio de tanta coisa.
Ela colocou uma mão sobre a dele, apertando levemente.
— Amor, você não precisa carregar tudo sozinho. Estamos aqui, lembra? Eu e os meninos. Mas você precisa estar presente também. Sinto falta do Luís que conversava comigo antes de dormir, que fazia piadas no jantar ou se empolgava com as ideias malucas dos nossos filhos.
Ele sentiu um aperto no peito ao ouvir aquilo. Larissa não estava reclamando, ela estava tentando alcançá-lo, como sempre fazia. E isso o deixou ainda mais consciente do quanto ele estava se distanciando dela, e do porquê.
— Você tem razão, amor. E eu me sinto culpado porque não tenho sido justo com você, nem com os meninos… — ajeitou a franja do cabelo dela que caía levemente nos olhos.
— Não é sobre culpa, Luís. É sobre o que está te afastando. Seja o que for, espero que você consiga resolver. Não quero que isso nos consuma.
Ela se inclinou e deu um beijo suave nos lábios dele antes de se levantar.
— Vou dormir. Tenta descansar um pouco, tá?
Luís ficou sozinho na sala, encarando o vazio. As palavras da esposa ecoavam em sua mente, e ele sabia que precisava tomar uma decisão. Mas como poderia resolver algo que nem ele entendia completamente?
Fechou os olhos, mas, em vez de encontrar respostas, tudo o que vinha à sua mente era Sandra. Seu sorriso, seu jeito, e a sensação avassaladora de que ela era o pedaço que lhe faltava, mas que nunca deveria ter encontrado.
_*_
A mesa de jantar estava posta com simplicidade e havia um clima acolhedor no ar. O aroma da comida caseira preenchia a sala de jantar, e a voz animada de Caio dominava a conversa, como naturalmente acontecia durante as refeições.
— Mamãe, você sabia que os peixes podem respirar debaixo d'água porque têm brânquias? — Caio falou e os olhos brilhavam de curiosidade enquanto enfiava uma colherada de arroz na boca.
Sandra intencionalmente, ofereceu um pouco mais de suco no copo dele.
— É mesmo? E você sabia que as baleias precisam subir para respirar porque não têm brânquias?
Caio arregalou os olhos, pensativo. — Então elas são tipo... metade peixe, metade gente?
Mauro riu, pegando a travessa de salada. — Não é bem assim, campeão. Elas são mamíferos, como nós, e têm pulmões, mas vivem na água. Meio complicado, não é?
Caio concordou, ainda processando a informação, mas logo desviou o assunto, como toda criança.
— Pai, na sua fábrica tem máquina que faz coisas tipo um robô gigante?
— Não exatamente, mas as máquinas lá fazem aço, que depois vira várias coisas como prédios, carros, até pontes. É um trabalho bem importante.
— Legal! Você pode me levar lá um dia?
— Podemos pensar nisso — respondeu o pai, carinhoso.
Sandra observou os dois, com uma expressão de leveza no rosto, mas foi interrompida quando Mauro se inclinou suavemente na direção dela.
— Ah, lembrei de uma coisa... — começou, com um tom casual. — Você pode me emprestar o seu carro amanhã? O meu entrou em manutenção e a empresa não liberou outro a tempo.
— Claro, sem problemas — respondeu prontamente. — Amanhã eu pego um táxi.
— Não precisa. Eu te deixo na agência de manhã, e, se der tempo, passo para te buscar à tarde, pode ser?
— Fica tranquilo. Se não der, eu dou meu jeito. — disse, sorrindo para ele.
Mauro concordou, mas havia algo no tom dele que indicava que estava pensando em mais coisas. Depois de uma pausa, ele comentou:
— Sabe, eu estava pensando hoje… talvez as coisas possam melhorar bastante para a gente em breve — revelou, com um brilho de esperança no olhar.
Sandra levantou as sobrancelhas.
— Mesmo? Como assim? Alguma novidade no trabalho?
Mauro deu de ombros, mas um sorriso discreto escapou.
— Existe uma possibilidade. Uma promoção que estou esperando há tempos pode estar nos planos. Se rola, as coisas mudam. E para melhor.
— Uma promoção? — Sandra disse, tentando esconder a mistura de esperança e preocupação que começava a surgir em seu coração.
Antes que Mauro pudesse responder, Caio entrou na conversa.
— Se o papai ganhar uma promoção, a gente vai ficar rico?
Os dois riram, e Mauro bagunçou o cabelo do filho com carinho.
— Vamos com calma, campeão. Não é sobre ficar rico, mas pode abrir muitas portas. Talvez até... mudar de cidade, dependendo de onde a vaga for.
Caio parou, a boca entreaberta. — Mudar de cidade? Mas é a escola? E meus amigos? E a hora do futebol?
— Calminha aí. Tudo é uma questão de planejamento, certo? Às vezes, as mudanças são boas, filho. Abrem novos caminhos. — Disse, olhando para Sandra com suavidade.
Sandra, porém, sentiu o coração apertar. Tentou disfarçar, mas não conseguiu evitar a pergunta que escapou, suave, mas cheia de receio.
— Por que você está dizendo isso? Existe alguma possibilidade concreta?
Mauro balançou a cabeça, tranquilo.
— Ainda não. Só pensei nisso hoje. Quem sabe, não é?
— É... quem sabe. — Sandra concordou, forçando um sorriso.
Enquanto Caio fazia novas perguntas ao pai, Sandra desviou o olhar para o prato, perdida em seus pensamentos. As palavras de Mauro ecoavam em sua mente, trazendo uma mistura de expectativa e um pressentimento estranho.
Naquele momento, ela entendeu que algumas mudanças já estavam em andamento.
_*_
Sandra seguia Paula pelos corredores soturnos do pequeno museu etnográfico. As paredes eram adornadas com artefatos indígenas, ferramentas de pedra, cerâmicas e trajes rituais. O ar estava impregnado com um aroma amadeirado, como se o tempo tivesse deixado sua marca ali. Paula caminhava à frente, seus passos suaves ecoando no piso de madeira.
— Estamos quase lá — disse Paula, virando-se para ela com um sorriso.
Sandra ajeitou a bolsa no ombro, tentando ignorar o peso crescente de sua curiosidade. Quando Paula parou diante de uma vitrine discreta, isolada no canto mais reservado do museu, Sandra sentiu uma estranha expectativa no ar.
— Aqui está. — Paula indicou o conteúdo da vitrine com um gesto sutil, mas reverente.
Dentro, havia dois objetos que pareciam pertencer a um mundo diferente. Um deles era um cordão com um círculo de madeira escura na extremidade, onde se via talhado, com detalhes impressionantes, uma águia segurando uma chave em suas garras. Ao lado, uma bússola antiga, desgastada pelo tempo, mas ainda legível. Gravada em seu exterior havia a figura de um lobo, segurando na boca, o que parecia ser um mapa rudimentar.
Sandra prendeu a respiração enquanto seus olhos absorviam cada detalhe.
— Isso… são apenas objetos antigos, certo? — perguntou, mais para si mesma, sem tirar os olhos da vitrine.
Paula sorriu, cruzando os braços.
— São. Mas o que torna esses objetos especiais não é apenas como eles foram feitos, mas a história que os acompanha. — Ela apontou para o lado, onde havia um pequeno pergaminho emoldurado, com inscrições traduzidas ao lado. — Esse pergaminho foi encontrado junto a eles, nos restos de uma aldeia Kaaporu destruída em 1865. A tradução diz: ‘Com o lobo está a direção, e nas mãos da águia, a chave da redenção.’
Sandra se aproximou mais, quase encostando o rosto no vidro. Seu coração batia descompassado. Era impossível não notar a semelhança entre os objetos e os presentes que ela e Luís haviam trocado.
— Isso não pode ser real… — murmurou.
— E por que não? — perguntou, a voz cheia de leveza, mas com um tom de mistério. — Talvez você esteja vendo exatamente o que precisa ver agora.
— Não consigo entender... — Sandra esfregou as têmporas, tentando organizar os pensamentos.
Paula tinha um estranho brilho nos olhos.
— O lobo com o mapa. A águia com a chave. Não acha curioso que, sem saber disso, vocês tenham dado presentes tão semelhantes?
Sandra olhou para ela, a incredulidade em sua expressão.
— Você acha que isso é... destino? — Sua voz quase tremia.
— Talvez destino seja só uma palavra bonita para as escolhas que fizemos lá atrás... — Paula deu de ombros, voltando com um tom descontraído. — Ou talvez vocês podem ser, de fato, o lobo e a águia.
Sandra balançava a cabeça, incrédula. Paula percebendo que a amiga estava cheia de interrogações, falou:
— Olha… posso dizer o que penso sobre isso até agora? — Sandra apenas assentiu. — O mapa aponta o caminho. Ele dá a direção, os passos a serem seguidos, e ajuda a entender qual é o destino. A chave, por outro lado, é o que permite acessar o objetivo final que o mapa aponta. Representa abrir novas possibilidades ou encerrar ciclos. Assim, como os personagens, precisam encontrar o caminho e ter acesso à redenção. Mas só conseguirão fazer isso se fizerem as escolhas certas, no tempo certo.
— Isso é loucura, meu Deus… o que isso tem a ver comigo e com Luís?
— Sandra, você parece ser mais sensata do que o Luís. Vai chegar um momento em que serão levados a fazerem uma escolha, mas será você a pessoa que dará o rumo certo para que as coisas não saiam do equilíbrio… novamente. Pode ser que Luís não tenha a coragem suficiente para fechar um ciclo de forma correta, mais uma vez.
Sandra a olhou alarmada: — mais uma vez? Novamente? Eu não compreendo…
Paula suspirou e respondeu:
— Sim, nesse tempo em que estão vivendo agora.
Sandra riu sem humor.
— O que você é, Paula? Uma espécie de vidente, algo assim?
Paula retribuiu o sorriso, transmitindo calmaria, mas ao mesmo tempo, mistério.
— Vidente? Não, Sandra. Eu sou apenas alguém que gosta de histórias antigas e de observar como elas têm uma forma peculiar de se repetirem…
— Mas você fala como se soubesse mais do que está me contando.
— Algumas histórias nos tocam porque, no fundo, já fomos parte delas. — Deu uma breve pausa. — Eu só espero que desta vez vocês façam a escolha certa. Bom, vou deixar você pensar sobre isso. Precisando, sabe onde me encontrar.
Paula se afastou, com os seus passos firmes, para fora do lugar. Sandra permaneceu ali, atônita, com tudo o que acabara de saber.
_*_
O motor do carro estava desligado, e a chuva fina tamborilava suavemente no para-brisa, criando uma atmosfera íntima e tranquila. Luís e Sandra estavam sentados lado a lado, em silêncio por alguns momentos, como se estivessem reunindo coragem para falar o que estava em suas mentes. As ruas estavam quase desertas, e o brilho dos postes refletia nas gotas de chuva acumuladas no vidro.
Luís quebrou o silêncio, sua voz baixa e ponderada:
— Você anda sonhando também?
Sandra olhou para ele de relance, hesitando antes de responder.
— Sim... e tem sido estranho. São sempre os mesmos cenários, as mesmas sensações. E você?
— É como se fossem... fragmentos. — Ele passou a mão pelo volante, pensativo. — Uma montanha, a lua cheia, um lobo e uma águia... E sempre há essa sensação de que estou buscando algo ou alguém.
Sandra abraçou os próprios braços como se estivesse tentando se proteger de algo invisível.
— O que me deixa intrigada é como tudo parece tão... familiar. Eu tento não pensar muito sobre isso, mas as coincidências no dia a dia... — ela hesitou, procurando as palavras certas.
— Tentam nos dizer alguma coisa? — completou Luís, com um sorriso cético.
— Talvez. Não sei. Seria loucura acreditar nisso, certo? É só um livro, caramba! Só que…
— Só que… — ele a incentivou.
— Paula me levou a um museu outro dia. Ela queria me mostrar algo relacionado à lenda.
— Um museu? — Perguntou, semicerrando os olhos. — Essa sua colega me parece um pouco… estranha. Você não acha?
— Ela é exótica. Mas o que ela me mostrou foi muito interessante.
— Me conta.
— Era sobre a tribo Kaaporu, a mesma da lenda. Ela me mostrou objetos antigos: um cordão com uma águia talhada e uma bússola com um lobo gravado. Disse que foram encontrados numa aldeia destruída em 1865. — Sandra fez uma pausa, observando a expressão de Luís. — Segundo as fontes, havia um pergaminho junto a eles que dizia algo como: “Com o lobo está a direção, e nas mãos da águia, a chave da redenção.”
Luís ficou mudo por um momento, processando o que acabara de ouvir. Finalmente, ele falou, com um tom misto de ceticismo e curiosidade:
— E o que isso tem a ver conosco? Então, agora somos parte de uma história antiga? Somos o lobo e a águia, é isso?
— Paula parece acreditar que esses objetos não são apenas relíquias. E, além disso, demos um ao outro, presentes bem parecidos.
Luís soltou uma risada curta, sem humor.
— Mas é claro que sim. Essa lenda parece ser bem popular por aqui e é óbvio que o comércio pensaria em ganhar com isso.
— Pode ser… — Sandra desviou o olhar para as próprias mãos, brincando com os dedos nervosamente.
Luís inclinou-se ligeiramente em sua direção, sua expressão séria: — Sandra, você acredita em outras vidas?
Ela o olhou diretamente. Seus olhos carregados de dúvidas e emoções conflitantes.
— Eu nunca pensei muito sobre isso, mas... — Ela mordeu o lábio, relutante em continuar — mas, se eu acreditasse... talvez explicasse essa sensação de que nos conhecemos de algum lugar. De outra vida, talvez. — Sua voz falhou no final, como se confessar isso fosse algo perigoso.
Luís demorou-se nela, e depois desviou o olhar para a janela, observando as gotas de chuva escorrendo pelo vidro.
— Eu não acredito nisso, mas não posso negar que… eu sinto como se você sempre estivesse ali, em algum lugar, esperando para aparecer na minha vida.
Sandra sentiu as lágrimas ameaçando cair, mas as segurou firmemente.
— Eu tenho me perguntado tantas coisas assim, ultimamente. Ao mesmo tempo, somos adultos, Luís. Não somos guiados por histórias ou destinos.
Ele soltou um suspiro longo, passando a mão pelos cabelos.
— Eu sei. E mesmo assim, aqui estamos nós, falando sobre sonhos, lendas e outras vidas. — Ele riu, mas não havia humor em sua risada.
Sandra virou-se para ele, sua expressão firme.
— Se… acreditássemos nisso, você acha que seria possível que já nos conhecemos… de um outro lugar, outro tempo?
Luís encontrou os olhos dela. Sua voz mudou o tom, para mais sensível:
— Se acreditássemos... sim. Acho que seria possível.
Luís estendeu a mão e segurou a dela, seus dedos entrelaçando-se com os dela de maneira natural, como se fossem peças de um quebra-cabeça que finalmente se encaixavam.
— Isso não muda nada, Luís — lamentou, sua voz traindo a firmeza que ela queria transmitir.
— Ou talvez… mude tudo.
Ele se aproximou devagar, seus rostos tão próximos que podiam sentir a respiração um do outro. Por um instante, suas testas se encostaram, um gesto tão íntimo quanto um beijo, mas carregado de um significado ainda mais profundo.
Sandra fechou os olhos, sentindo o calor dele e o peso daquele momento. Ali, apenas os dois, envoltos na tensão e na conexão que se recusavam a nomear. Luís suspirou suavemente, e o som foi suficiente para ela abrir os olhos, encontrando os dele tão perto, tão intensos.
Sem dizer nada, eles se abraçaram; seus corpos se encontrando em uma necessidade mútua de conforto e compreensão. O abraço era apertado, como se ambos estivessem tentando se ancorar em algo real, algo que fizesse sentido em meio ao caos interno que sentiam.
Por um momento, nada mais importava. O som da chuva, o brilho da lua, o conflito dentro deles. Tudo se dissolveu na intensidade daquele instante compartilhado. Quando finalmente se separaram, o silêncio permaneceu, mas agora carregado de algo novo: uma compreensão tácita de que, embora não quisessem crer, algo os unia de uma maneira que desafiava qualquer explicação lógica.
Luís tocou suavemente o rosto de Sandra antes de recuar completamente, sua voz suave e cheia de emoção: — Eu te levo para casa.
Sandra apenas assentiu. Eles sabiam que, apesar do que tinham acabado de compartilhar, o peso do mundo real os esperava do lado de fora daquele carro.
_*_
Sandra entrou em casa exausta, fechando a porta atrás de si com cuidado, como se não quisesse fazer barulho. Passou os dedos pelos cabelos, ainda úmidos da garoa que recebera ao descer do carro de Luís, mas o turbilhão de pensamentos não a deixou perceber a presença de Mauro, que estava sentado no sofá, à espera.
— Eu fui te buscar na agência. — Ele disse, a voz cortante como uma lâmina. Sandra deu um pulo, virando-se para ele, surpresa.
— O quê?
Mauro se levantou lentamente, cruzando os braços.
— Fui até lá, para te buscar, mas você não estava.
Ela engoliu seco, o coração acelerando.
— Eu... eu imaginei que não conseguiria ir, então peguei um táxi.
Os olhos de Mauro se estreitaram, como se analisasse cada palavra dela. Ele deu um passo à frente.
— Não precisa mentir pra mim, Sandra. Eu sei que o Luís te trouxe.
Sandra ficou paralisada, com o rosto queimando de vergonha e desconforto. — Não é o que você está pensando... — começou, mas Mauro a interrompeu:
— Não é?! — Perguntou friamente. — Porque, sinceramente, parece exatamente isso. Você some com esse cara, chega tarde em casa... — se alterou. — Eu já te disse antes, Sandra, e vou repetir: ele não me engana. Mas agora... agora você está me enganando também?
— Eu não estou enganando ninguém. — Sandra respondeu, a voz trêmula — Luís só me deu uma carona, Mauro. É só isso.
Mauro balançou a cabeça, descrente.
— Só vou te dizer uma coisa: — disse tentando manter a calma — eu sempre te respeitei, Sandra. Mesmo com as nossas diferenças, as nossas dificuldades, eu sempre respeitei você! Então, só te peço que faça o mesmo.
As palavras dele foram como um golpe. Sandra tentou responder, mas nenhuma palavra saiu. Ela apenas sentiu as lágrimas começarem a descer. Mauro passou por ela e sumiu casa adentro. Ficou parada ali na sala, com lágrimas caindo sem controle. Não era apenas a culpa que a consumia, mas também uma confusão dentro de si. Tinha vontade de gritar. Ela não queria sentir nada por Luís, mas a verdade era cruel: ela sentia.
Passou no quarto de Caio e o viu dormindo. Deu-lhe um beijo e demorou-se ali, olhando para ele. Entrou no banheiro e deixou a água quente escorrer pelo seu corpo, mas não era suficiente para aliviar o peso em seu peito. O choro se misturava com a água do chuveiro. Quando finalmente saiu, encontrou o quarto vazio. Faltava um travesseiro e percebeu que Mauro não dormiria ali.
Por um momento, ficou escorada na porta, olhando para o espaço vazio ao lado da cama. O impulso de ir até ele e pedir desculpas passou pela sua mente, mas não o fez. Ao invés disso, sentou-se na beira da cama, abraçando os joelhos.
Pela primeira vez na sua vida, estava sentindo as coisas fugindo do seu controle. Ela, que parecia sempre inabalável, com tudo ao seu alcance, agora se via perdida em um emaranhado de emoções que não conseguia decifrar. Sentia-se vulnerável, exposta de uma forma que a incomodava profundamente, e odiava essa sensação que não conseguia dominar.
Naquela noite, Sandra mal conseguiu dormir. E, mesmo no sono, os olhos de Luís e as palavras de Mauro continuaram a assombrá-la.
_*_
Mais um dia de trabalho pesado na Arctos, e o relógio já marcava mais de dez da noite. Arnaldo, Luís e Fabrício estiveram o dia todo treinando equipes, preparando-as para ocupar as funções na nova unidade na cidade. A expansão da empresa trazia desafios grandiosos, e as mudanças estruturais exigiam atenção em cada detalhe.
O cansaço era evidente, mas o comprometimento com o sucesso da empresa os mantinha ali, discutindo os últimos ajustes antes de encerrar o dia. O escritório, geralmente cheio de energia e movimento, agora estava silencioso, exceto pelo som abafado do ar-condicionado. Arnaldo passou pela porta, devagar, carregando duas xícaras de café.
— Trouxe um reforço. — E colocou uma das xícaras na frente de Luís. — E aí, como você está?
A pergunta parecia simples, mas o tom de Arnaldo carregava muito significado e Luís sabia disso. Ele suspirou, pegando a xícara, dando um gole.
— Não sei, Arnaldo. Não sei mesmo. — Começou, a voz baixa.
Arnaldo afastou uma cadeira e sentou-se, observando o amigo com atenção.
— Não é verdade. Você sabe. Só não quer dizer em voz alta — respondeu, prontamente, mas com cuidado.
Luís soltou um suspiro ruidoso e colocou a xícara de lado.
— Larissa me disse ontem... — hesitou, travando uma luta interna — que eu estou distante.
— O que você respondeu?
— Nada. Só disse que estava estressado com o trabalho. Ela acreditou. Ou quis acreditar. — Luís fechou os olhos por um momento. — Ela foi tão amável, tão compreensiva... e isso só piorou a culpa que eu sinto.
Arnaldo o estudava, com as mãos entrelaçadas sobre a mesa.
— Luís... você está envolvido, não está?
Houve uma longa pausa antes de Luís finalmente responder, como se admitisse que isso em voz alta fosse o ponto sem retorno.
— Estou. Mais do que eu gostaria de estar.
Arnaldo respirou fundo.
— E Sandra? Ela sente o mesmo?
— Ela não disse claramente, mas acredito que sim. Mas isso não importa. O que importa é que eu estou ficando louco, Arnaldo. Ela toma conta de cada pensamento meu. E quanto mais eu tento me afastar, mais forte isso fica.
Arnaldo balançou a cabeça lentamente, ponderando suas próximas palavras.
— Luís, você sabe que sou seu amigo e, por isso, preciso ser franco com você. Cara, você precisa se afastar da Sandra, urgentemente.
Luís riu sem humor, esfregando o rosto com as mãos.
— Você acha que eu já não tentei? Arnaldo, se fosse fácil, eu já teria feito isso.
Arnaldo inclinou-se para frente, o tom mais firme: — Não estou dizendo que é fácil. Estou dizendo que é necessário. Você tem uma família, Luís. Você vai arriscar tudo por algo que talvez nem seja real?
E foi aí que Luís o surpreendeu. Ele se virou para o amigo, e olhando firme, disse sem titubear.
— Se eu tivesse que escolher hoje, Arnaldo... eu largaria tudo. — A sinceridade na voz dele era avassaladora. — Tudo. Por um grande amor. Por algo que me faz sentir vivo de verdade.
Arnaldo piscou, pasmo, uma preocupação evidente em seu rosto.
— Você não está falando sério.
— Mais sério do que nunca estive.
O amigo emudeceu, processando aquelas palavras. Ajeitou os óculos, respirou fundo antes de falar novamente, com o tom mais grave.
— Ok, mas me diz, Luís... e o amor que você já tem? E Larissa? Você já não vive um grande amor? Quando disse “sim” naquele dia no altar, não foi isso que você escolheu?
Aquelas palavras bateram em Luís como um soco. Ele desviou o olhar, incapaz de responder imediatamente.
— Talvez... talvez eu tenha achado que sim, na época. Mas agora... não sei mais.
Arnaldo não queria perder a paciência com Luís, então tentava manter a calma diante daquela confissão.
— O que você sente por Sandra pode ser intenso, avassalador até. Mas, às vezes, o que parece um grande amor é só o reflexo do que está faltando dentro de nós. Isso significa que você precisa avaliar o que de fato você está abrindo mão antes de tomar qualquer decisão, para depois não se arrepender.
Luís, de cabeça baixa, sabia que Arnaldo estava tentando ajudá-lo, ainda que fosse difícil para ele aceitar.
— Pense nisso, amigo. Não estou dizendo que você não deve ouvir seu coração. Só estou dizendo que decisões tomadas no calor do momento podem trazer consequências que você talvez não esteja pronto para enfrentar.
Luís assentiu, ainda sem olhar para ele.
— Obrigado, Arnaldo. Eu sei que você está certo…
Arnaldo colocou uma mão no ombro do amigo, apertando-o levemente. — Você consegue. Eu sei que consegue.
A conversa terminou, mas as palavras de Arnaldo ecoaram na mente de Luís muito depois de ele sair da sala.
Já em casa, após um banho relaxante, Luís encontrou Larissa dormindo profundamente na cama, um livro entreaberto em suas mãos. Ela provavelmente havia tentado esperar por ele. Cuidadosamente, ele retirou o livro de suas mãos, marcando a página antes de fechá-lo, e desligou a luminária.
Deitou-se ao lado dela, envolvendo-a em um abraço gentil por trás. Depositou um beijo suave em seu ombro exposto, sentindo o calor reconfortante de sua pele. Em seguida, moveu o cobertor para cobri-la melhor, aconchegando-se contra ela. Apesar do turbilhão de coisas que o acompanhava o dia todo, sabia que o conforto de sua presença o acalmaria, mais uma vez.
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