SOBRE LOBOS E ÁGUIAS
4 Capítulo 4
— Olha só que coincidência! — Sandra comenta ao se deparar com Luís sentado no sofá de sua sala.
— Vocês se conhecem? — perguntou Mauro, desconfiado.
— Ela faz parte da agência que tem prestado serviços para a nova filial e a grande realizadora dos últimos projetos incríveis da Arctos. De fato, um brilhante trabalho. — Respondeu, empolgado.
— Fico lisonjeada, mas é importante lembrar que foi um esforço de equipe. O mérito não é só meu.
— Isso é indiscutível — rebateu, sorrindo para ela.
— Ela fala assim, mas é a melhor no que faz. Tem um jeito único de enxergar as coisas, quase como se soubesse o que vai funcionar antes de acontecer — interrompeu o marido, pegando-a de surpresa. Ele raramente fazia esse tipo de comentário.
— Pela forma como ela tem se apresentado tenho certeza de que é muito competente. Tem um feeling incrível para identificar tendências. — Luís a olhou enigmático e Sandra emendou, rapidamente.
— Mas que mundo pequeno, não é? Quem diria que o pai do Igor, e o tio Luís que Caio tanto fala, era você.
— Verdade. Inclusive, Mauro, falei para Sandra que eu a conheço de algum lugar, mas não me lembro de onde. Ela teve a mesma sensação, não é mesmo, Sandra?
Mauro olhou para a esposa esperando uma resposta. Isso não estava indo nada bem. Ela conhecia Mauro e tinha uma leve impressão de que Luís estava alfinetando ou criando uma espécie de competição nas entrelinhas daquela conversa, aparentemente, amistosa.
— Pois é…
— Mamãe, pede o tio Luís ‘pro Igor dormir aqui? — Caio cortou a fala da mãe.
— Filho, primeiro, não interrompemos a conversa dos outros, já falamos sobre isso — se bem que estava agradecida —, e segundo, não foi esse o combinado, certo? Mas o Igor é bem-vindo sempre, para brincar com você.
O filho balançou a cabeça concordando, meio chateado.
— É verdade, Caio. Dormir não, mas você também é bem-vindo lá em casa para jogar com o Igor, tá bom. É só combinar com a sua mãe e ela me fala — sorriu para Sandra.
— Legal! E eu vou querer jogar Guardiões da Floresta com você, tio.
— Combinado. Bem, precisamos ir. Se despede do pessoal, Igor. E obrigado, Mauro, pela gentileza. — Estendeu a mão com um sorriso amigável, mas desafiador.
Mauro apertou a mão dele com uma expressão séria.
— Não foi nada.
— Foi um prazer revê-la, Sandra — apertou sua mão também, e bagunçou o cabelo de Caio. — Tchau, amigão.
Ao fechar a porta, Mauro se virou questionando na mesma hora:
— Qual é a desse cara, Sandra?
— Do que você está falando?
— Ficou praticamente flertando com você na minha cara e me ignorou totalmente depois que você chegou. Muito estranho, não acha?
— Não, não acho. E fala baixo que o Caio não precisa escutar essas suas bobagens.
— Bobagens. Não sou idiota, Sandra. Mas ok, vou relevar porque eu confio em você. Mas não abuse.
Sandra passou a mão pelo rosto em sinal de cansaço, e respirou fundo.
— Vamos jantar? Quero dormir mais cedo hoje, estou muito cansada.
— Claro. Inclusive, dormir é a única coisa que temos feito, não é?
E saiu rumo à cozinha.
O jantar foi silencioso, com poucas falas de Caio. O clima entre eles já não estava bom há algum tempo. Ela sabia que precisava agir, ou seu casamento desmoronaria. Não queria Caio crescendo num lar assim.
No quarto, já deitados, Mauro olhava para o teto. Sandra tentou uma conversa.
— Mauro… você consegue ver para onde está indo o nosso casamento? — Ele permaneceu em silêncio. — Precisamos conversar abertamente sobre isso, se quisermos que ele dê certo.
— E o que você me sugere?
— O que eu acabei de dizer. Conversar sobre. Mas você está sempre fugindo ou fingindo que está tudo bem. E não está. Entramos numa rotina fria e sem cumplicidade. Praticamente damos bom dia e boa noite um ao outro. Não há conversa, Mauro. Não mais. Eu quero entender o que se passa com você.
— E o que se passa com você, Sandra? A culpa não é só minha. Você também anda distante. Age como se não precisasse de mim para nada. Está sempre nervosa, inquieta, como se esperasse algo de mim que eu simplesmente não posso oferecer. Nós nos tornamos dois completos estranhos.
E virou-se de costas, ajeitando o travesseiro com um suspiro frustrado antes de apagar a luminária ao seu lado.
Sandra, emudecida, fez o mesmo com sua luz. Agora, era ela quem encarava o teto, mergulhada em pensamentos. No fundo, ele tinha razão. Ela sempre buscou algo a mais, das pessoas, das coisas, da vida. Mas a realidade a mantinha com os pés no chão. Ela precisava da segurança, da estabilidade. Não podia se dar ao luxo de grandes mudanças ou surpresas.
Caio ainda era uma criança. Ela ainda não tinha alcançado tudo o que planejava, havia muito a construir. Sua prioridade era trabalhar, não apenas para deixar bens e estudos para o filho, mas deixar um legado de determinação e de propósito de vida.
Mauro sempre fora mais acomodado. Para ele, tudo parecia estar bom, sem necessidade de mudanças ou melhorias. Era como se eles andassem em direções opostas. Embora ele sempre demonstrasse apoio às ideias e projetos de Sandra, faltava-lhe entusiasmo e ânimo para fazer parte da construção. Isso a frustrava profundamente.
Sentia-se sozinha, como se somente ela carregasse o peso dos sonhos e responsabilidades. Uma sensação sufocante de vazio que a envolvia cada vez mais.
Lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto. Chorou em silêncio, reprimindo o som de sua dor, até que o cansaço finalmente a levou ao sono.
_*_
“Oi, Sandra, tudo bem? Pensei numa ideia para o evento de lançamento da fusão e estou te enviando para ver o que acha. É um rascunho inicial. Sei lá, sinto que falta algo, e sei que você sempre tem ótimas ideias. Que tal conversarmos pessoalmente sobre isso?"
Sandra visualiza a mensagem e responde:
“Oi! Estou bem, obrigada. Claro que dou uma olhada. Você precisa para quando?”
“Que tal almoçarmos hoje?”
Pensou um pouco antes de digitar:
“Pode ser... Algum lugar de preferência?”
“Tem um restaurante muito bom e discreto. Te envio a localização. Podemos fechar às 11h?”
“Fechado.” E completou com um emoji de carinha sorrindo, e ele respondeu com uma carinha piscando.
Antes de sair para o almoço, Sandra confirmou com o marido se ele levaria Caio à escola. Ficou combinado de ela buscá-lo. Aproveitou o trajeto para comprar uma caixa de lápis de cor, lápis 6b e um caderno de desenhos para o filho, que a escola havia pedido para as aulas de artes.
Mandou uma mensagem para Luís dizendo que estava chegando. Ele respondeu com um: “Claro que está, senão vou te buscar kkk”.
— Me desculpe, Luís. Eu não consegui sair por causa de uma demanda do trabalho e ainda tive que passar numa papelaria para comprar umas coisas — Se justificou, ao chegar, e ele se levantou para cumprimentá-la.
— O importante é que você veio — E sorriu com o seu jeito encantador de sempre.
— Dei uma olhada no seu rascunho e preciso dizer: sua ideia é genial! Mas, como você me deu carta branca, vou dar meus pitacos.
Luís riu, visivelmente satisfeito.
— É exatamente disso que eu preciso. Sou todo ouvidos. Vamos dar uma olhada no cardápio?
Fizeram os seus pedidos e enquanto almoçavam, a conversa fluía animada e cheia de empolgação sobre os projetos da fusão da Arctos Lupine.
— Fico me perguntando onde você esteve esse tempo todo. Ninguém entende minhas ideias como você — comentou, com um sorriso que parecia sincero.
— Eu digo o mesmo — respondeu Sandra, reticente.
— Mas me parece que seu marido a admira muito, pelo jeito que ele falou de você naquele dia.
— Pois é, ele podia fazer isso mais vezes, e não só na frente dos outros. — A frase escapou antes que pudesse se conter. — Me desculpe, não devia ter dito isso.
— Não há o que desculpar. — Luís hesitou, como se quisesse dizer mais, mas se conteve. Ele sabia que não podia cruzar aquela linha. — Enfim, o Igor quer muito que o Caio vá lá em casa jogar. Não fala de outra coisa.
— O Caio também, só fala do jogo dos guardiões das galáxias.
— Floresta. — Corrigiu ele, rindo. — Acredita que não achei que fosse gostar tanto? Comecei por causa do Igor, mas agora tô viciado.
— Sério? Eu nunca fui muito de jogar, mas às vezes também me arrisco pelo Caio. E claro, sempre perco. — Riram.
— Aliás, tem uma personagem indígena, Aira, que me lembra muito você. — Luis comentou.
— Eu? Por quê?
— O jeito de ser. Ela é determinada, sempre quer fazer o que é certo, tem uma forma mais cautelosa de lidar com as coisas. Só ataca se for absolutamente necessário. Além disso, ela parece carregar um peso maior, como se estivesse protegendo não só a floresta, mas todo o equilíbrio ao redor dela.
— Interessante... nunca tinha me visto dessa forma, mas gostei da comparação. Acho que você percebe coisas sobre mim que nem eu mesma noto.
— Sou apenas um bom observador — falou, com um sorriso tranquilo, como se fosse óbvio.
— Sei. E o que mais essa personagem faz?
— Ela é a força da floresta. Controla o vento, as árvores... mas o que me chama a atenção é como ela lidera. É como se fosse parte viva daquele mundo. Bem... como você, que tem esse jeito de conectar tudo ao seu redor.
Ela se pegou sorrindo ao ouvir sobre Aira, mas logo se sentiu estranhamente desconfortável. Luís falava de uma forma que a desarmava, e isso a inquietava. Desviou o olhar por um instante, meio desconcertada.
— Agora você me deixou curiosa. Acho que vou precisar jogar pra entender melhor essa tal Aira.
— Conte comigo pra te ensinar. Mas já aviso que o jogo é viciante... igual as nossas conversas.
Ele fez de novo, pensou ela.
— Também gosto muito de conversar com você, Luís. É bom saber que há alguém que me entenda, ao menos um pouco, pra variar. Bom, preciso ir, estamos aqui… há quase duas horas. Meu Deus! — Se assustou vendo a hora.
— Não me diga que sofrerá represálias por minha culpa. Me desculpe, é que a conversa estava tão boa que nem me atentei.
— Fique tranquilo, não foi culpa sua. Eu é que deveria ter ficado mais atenta. Quer dizer, eu tenho um banco de horas infinito, mas não significa que posso fazer o que quiser. Ainda tenho responsabilidades e pessoas a quem preciso prestar contas.
— Com certeza. Não esperava menos de você — abriu aquele sorriso enigmático que só ele podia oferecer.
— Está rindo de mim? — brincou.
— Estou te admirando. Não fique cismada. — E fez um sinal com o dedo para pedir a conta.
Lá fora, antes de se despedirem, Sandra agradeceu:
— Obrigada, Luís. Foi realmente muito bom.
— Eu é quem agradeço por ter aceitado o convite. Será que vou ter a sorte de roubar mais do seu tempo no futuro?
— Mal acabou o primeiro encontro e já está planejando o próximo? — Ironizou, e ele soltou um riso divertido.
— Estou, sim. — O olhar dele era intenso, quase desconcertante para ela. — E, para minha defesa, já tenho uma ótima desculpa para o próximo 'encontro'. — Fez um gesto com os dedos simulando aspas na palavra encontro. — Comprei o livro e quero discutir a história com você.
— Você comprou mesmo?? Eu não acredito! — Estava mais feliz do que pensava que ficaria com isso.
— Claro que sim. O que te fez pensar que eu estava brincando?
— Obrigada... é bom poder falar sobre coisas simples, quase bobas. Isso significa muito pra mim. — A voz dela carregava um tom melancólico, quase como se revelasse algo mais profundo.
— Estou aqui pra isso também, Sandra. — disse, com firmeza, olhando-a como se quisesse que ela realmente acreditasse.
Houve um breve silêncio, carregado de algo que não sabiam nomear. As palavras dele pareciam ecoar em sua mente, encontrando um lugar que Sandra há muito evitava visitar. Por um instante, sentiu como se Luís a visse de uma forma que ninguém mais via, onde nem ela mesma sabia se estava pronta para reconhecer.
— Eu não sei o que dizer…
Ele se inclinou e, num gesto quase inconsciente, depositou um beijo leve em seu rosto. Muda, Sandra entrou no carro, evitando olhar para trás, enquanto Luís permaneceu parado, com um nó na garganta difícil de explicar.
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