SOBRE LOBOS E ÁGUIAS
5 Capítulo 5
“Iaraque passava a maior parte de seus dias nas montanhas, onde o ar era puro e o vento carregava os segredos do céu. Ao seu lado, sempre estava Alerion, sua águia de estimação, um animal majestoso com penas douradas que reluziam sob o sol. Alerion era mais do que uma companheira; ela era seus olhos no horizonte. Com sua visão aguçada, a águia conseguia detectar movimentos imperceptíveis ao olho humano, avisando Iaraque de qualquer anomalia no firmamento. Juntos, eles eram guardiões do céu, protegendo as estrelas e garantindo que o equilíbrio cósmico permanecesse intocado.
Na floresta abaixo, Aiyana seguia os trilhos sinuosos da natureza, seus passos silenciosos ressoando como um sussurro entre as árvores. Ao seu lado caminhava Kael, um lobo cinzento de olhar profundo e instinto infalível. Kael era mais do que um protetor; ele era uma extensão da própria essência de Aiyana. Com seu faro aguçado, ele detectava mudanças sutis no ambiente: um vento estranho, o cheiro de algo desconhecido, a presença de uma ameaça invisível. A presença do lobo dava a ela a confiança de que, mesmo diante do perigo, nunca estaria sozinha.
Enquanto Iaraque, no alto, contemplava o mundo de cima com Alerion, Aiyana sentia a pulsação da terra através de Kael. Ambos eram parte de seus respectivos reinos, guardiões designados pela Mãe Natureza. Mas o destino, caprichoso como o vento, começava a mover suas peças.
Havia noites em que Alerion voava para além das montanhas, e Kael, inquieto, levantava as orelhas, como se ouvisse algo distante. Eram sinais, talvez. Ou presságios. Mas nem Iaraque, nem Aiyana sabiam que, mesmo separados por céus e florestas, suas jornadas estavam destinadas a se cruzar.”
— O que está lendo? — Larissa perguntou, sentando-se ao lado do marido e aconchegando-se a ele, no sofá .
— Um livro sobre uma lenda que me recomendaram.
— Não sabia que gostava desse tipo de leitura.
— Eu também não, até começar a ler esse. — Luís tirou os olhos do livro e sorriu para a esposa.
— E do que fala essa lenda?
— É sobre uma tribo indígena e seus guardiões da natureza. Basicamente, eles tinham uma regra: não podiam se relacionar entre si. Mas dois deles quebraram essa lei e foram condenados a viver como animais em habitats totalmente diferentes, tentando se reencontrar ao longo dos tempos.
— Interessante... gostei! — Larissa comentou, enquanto ele lhe dava um beijo na testa. — E você acredita em outras vidas?
— Não, claro que não. Isso é totalmente fantasioso.
— Eu diria que não podemos duvidar de nada nesse mundo. Fico com Shakespeare quando diz que há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia.
— Você está sugerindo que algumas pessoas estão destinadas a se reencontrarem numa eterna roda do tempo? Para quê? Isso não faz sentido, seria até um pouco cruel de se imaginar.
— Por que acha isso?
— Ora, se existissem outras vidas, por que ninguém se lembra delas? — Luís respondeu, inclinando-se para a esposa. — A ideia de viver e morrer já é difícil o suficiente. Imaginar que isso se repete infinitamente soa mais como um castigo do que qualquer outra coisa.
— Ou talvez seja uma oportunidade — Larissa retrucou com um sorriso suave. — Uma chance de consertar os erros, de aprender com o que não conseguimos na primeira vez.
— Isso parece bonito na teoria, mas se houvesse tantas segundas chances assim, não deveríamos estar melhores? Acredito que é mais provável que as coisas sejam como são: uma vida, e só. — balançou a cabeça.
— Talvez não seja sobre o mundo, amor, e sim sobre cada pessoa. — Larissa se ajeitou no sofá, pensativa. — Quem sabe não é uma questão de buscar algo individual, mesmo que a gente não se lembre das vidas anteriores. E, quem sabe, algumas almas não voltam a se encontrar para concluir algo inacabado?
— Você realmente acredita nisso? — Ele arqueou uma sobrancelha, intrigado.
— Não sei se "acreditar" é a palavra certa, mas gosto de pensar que o universo tem uma forma de nos guiar, mesmo que a gente não entenda.
— Muito poético — desdenhou.
— E se, um dia, algo acontecer que faça você questionar isso? — Larissa perguntou com curiosidade genuína.
— Não vai acontecer — respondeu com um meio sorriso. — Essas coisas sempre parecem interessantes em livros, mas na vida real, são só coincidências.
Larissa o observou por um momento, percebendo sua resistência, mas preferiu não insistir. Apenas apoiou a cabeça no ombro dele e comentou, com leveza:
— Às vezes, as coincidências são o jeito do universo nos cutucar.
Luís riu, fechando o livro, desistindo dele e daquela conversa.
— E às vezes, são só... coincidências mesmo.
_*_
Sandra notou que Luís não a contactava há alguns dias e ficou refletindo o porquê disso tomar seus pensamentos quando tinha tantas coisas para pensar. Lembrou-se de ligar para o marido para dizer que faria hora extra outra vez, e que ele precisava buscar Caio na escola.
“Oi Mauro… você pode buscar o Caio hoje? Vou ter que fazer hora extra de novo…”
“Ok, eu busco. Mas eu tenho que deixá-lo na sua mãe, porque eu também vou trabalhar até mais tarde.”
“Certo, eu pego ele lá quando eu sair daqui, então. É até bom porque assim eu fico um pouquinho com ela. Tem dias que não a vejo e ela fica me cobrando, com razão…”
Ele nada disse. O clima ainda estava tenso entre os dois. Ela, então, terminou.
“Enfim, até mais tarde.”
“Até mais.”
Enquanto digitava no notebook, sua mente parecia um turbilhão de pensamentos incessantes. Sua vida era como um caminhão desgovernado, e ela estava sempre tentando segurar o volante, evitar que tudo saísse ainda mais dos trilhos. Mas o cansaço era esmagador. Ela amava o que fazia, sim, mas ultimamente o trabalho se tornara mais um refúgio do que uma paixão. Era sua desculpa perfeita para fugir das coisas que não queria encarar.
Sandra precisava ver que havia vida lá fora, além das telas, planilhas e projetos. Sabia que precisava fazer mais por si mesma. Mas também sabia que era mais fácil se perder nas demandas do dia a dia do que olhar para os próprios problemas de frente. Contudo, havia algo que a impelia a continuar: Caio. Por ele, precisava encontrar força. Não pelo marido, nem por ela mesma, mas por aquele pequeno que ainda dependia de seu exemplo para entender o que era coragem, mesmo em meio ao caos.
_*_
Luís tamborilava os dedos na mesa, o olhar fixo no rascunho. Ele sabia exatamente o que queria, mas a insegurança começava a corroer sua confiança. As reações das pessoas a quem apresentou o projeto eram sempre mornas, sem entusiasmo ou críticas construtivas. Era frustrante.
— Bem, não é a minha área, mas me parece que essa sugestão é muito boa. Acredito que a diretoria vai aprovar — disse Arnaldo, tentando colaborar.
Luís soltou um suspiro e pegou o celular.
— Vou ligar para Sandra. Ela vai me dizer exatamente o que preciso ouvir.
Arnaldo arqueou as sobrancelhas.
— Sandra? A da agência de publicidade? Mas ela está trabalhando nesse projeto também?
— Não, mas ela sempre tem boas ideias. Me ajuda quando preciso.
O amigo cruzou os braços, encostando-se na mesa, um sorriso de canto no rosto.
— Ah, tá bom. E desde quando vocês são tão próximos assim?
— Não é isso. A gente só se entende bem quando o assunto é trabalho. É bom ter alguém que acompanhe minhas ideias sem me achar um louco.
Arnaldo soltou uma risada breve, mas o tom ficou mais sério.
— Olha, Luís, você sabe que eu não costumo me meter na sua vida, mas… você não acha que está ficando próximo demais dessa mulher? Ultimamente, você não para de falar nela.
Luís piscou, surpreso com a observação, e tentou disfarçar.
— Não é nada disso, Arnaldo. É só… trabalho. — Não conseguiu ser tão convincente.
Arnaldo inclinou-se para frente, com o olhar firme.
— Cara, você está se ouvindo? Não estou dizendo que você fez algo errado, mas não acha que está pisando em território perigoso? Larissa é uma boa mulher. Vocês têm um casamento sólido. Não estrague isso.
— Você fala como se eu a estivesse traindo. E não estou! — Luís rebateu, a voz mais firme do que pretendia.
Arnaldo ergueu as mãos em sinal de calma, mas não recuou.
— Ainda não. Só estou dizendo para você prestar atenção. Não é justo com a Larissa. Nem com você. Pense nisso.
Sem esperar resposta, Arnaldo pegou sua pasta e saiu, deixando Luís sozinho com seus pensamentos. Ele passou as mãos pelos cabelos, tentando afastar a culpa que começava a se instalar. As palavras de Arnaldo ecoando em sua mente, trazendo à tona algo que ele tentava evitar: a linha tênue que separava a admiração de algo mais perigoso.
_*_
Sandra estava em sua mesa, na Prisma, conversando com Luís por vídeo chamada. Suas palavras eram cheias de entusiasmo sobre o evento de lançamento.
— Luís, como eu te disse, eu gostei da ideia de associar o evento aos conceitos de céu e terra, para representar a fusão, mas acho que você precisa torná-lo mais tangível para o público. Você falou sobre criar uma experiência imersiva, mas como exatamente pretende fazer isso? — perguntou, interessada.
Luís sorriu, animado, e começou a explicar com gestos amplos:
— Pensei em criar um espaço dividido em dois ambientes: um que represente o céu, com projeções holográficas, iluminação que simula o movimento das nuvens, sons do vento e até aromas leves. O outro seria uma representação da terra, com texturas naturais, árvores, e um aroma que remete à floresta. Seria uma experiência sensorial para reforçar o conceito da fusão.
Sandra assentiu lentamente, impressionada.
— Ambicioso... Você realmente pensa grande, Luís.
Ele sorriu, confiante.
Sandra cruzou os braços, ainda analisando.
— Mas, e o orçamento? Hologramas não são baratos.
Ele suspirou, chateado.
— Essa é a questão. Não sei se a diretoria financeira vai ter a visão suficiente para entender o impacto que esse evento pode ter e, assim, aprovar o orçamento.
— Entendi. — Ficou pensativa, mordendo o canto do lábio, até que seus olhos brilharam — E se… — começou, animada — você substituir os hologramas por projeções convencionais e usar materiais reciclados para a decoração da parte "terra"? Sustentabilidade é um dos pilares da fusão, então faria total sentido refletir isso no evento.
Luís abriu um largo sorriso.
— Você é genial. Por isso adoro conversar com você. Sempre pensa nos detalhes que eu normalmente deixaria passar.
— Força do hábito — Sandra deu de ombros. — Eu tenho medo de me frustrar quando aposto em algo, então prefiro analisar bem antes de dar um passo.
— É por isso que te admiro tanto.
O silêncio se fez entre eles, por um momento, e seus olhares se cruzaram, como se quisessem dizer algo que ambos sentiam, mas não ousavam verbalizar. Finalmente, Luís quebrou a tensão:
— Você gosta de pensar antes de agir.
— E você parece agir antes de pensar. — rebateu, Sandra.
Ele riu.
— Talvez seja por isso que combinamos tão bem. O que acha? — disse, com um brilho curioso nos olhos.
Sandra desviou o olhar, mas algo na forma como ele disse aquilo a fez lembrar de um trecho do livro sobre a lenda: "A águia viu no lobo o equilíbrio que sempre lhe faltou."
— Acho que isso explica muita coisa — respondeu, sem se comprometer.
_*_
Caio saiu correndo alguns passos à frente, enquanto sua mãe empurrava o carrinho de compras pelo corredor de cereais. Ele insistia que queria um cereal com um personagem na embalagem.
— Filho, você já tem dois tipos de cereal em casa. Vamos escolher algo mais saudável dessa vez, ok? — disse ela, tentando soar firme.
— Mas, mãe... olha, tem um brinde! — retrucou ele, apontando para a caixa.
Antes que Sandra pudesse responder, ouviu uma voz familiar vindo do corredor ao lado.
— Cereal com brinde? Eu acho que sei quem vai ganhar essa discussão. — Luis apareceu, empurrando um carrinho, com Larissa ao lado, e dois meninos atrás deles.
— Luís! Que surpresa.
— Pois é. Parece que até no mercado a gente se encontra. — Ele riu, olhando para Caio. — E aí, amigão?
Larissa a cumprimentou, sorrindo calorosamente.
— Oi, Sandra, como está?
— Estou bem, obrigada. Na correria de sempre. E aí, conseguiu acabar com as caixas da mudança?
— Que nada! Quando penso que acabou, aparece mais uma do nada. — Caio, não vai dar oi? — Larissa perguntou gentilmente, olhando para o menino que ainda segurava o cereal com o brinde.
— Oi, tia Larissa — disse ele, meio tímido. Em seguida, olhou para o menino mais alto que estava ao lado dela.
— Esse é o Lucca, nosso mais velho — apresentou Larissa.
Lucca acenou para Sandra e Caio, enquanto Igor correu até o amigo.
— Caio, olha só, esse é o meu irmão. Ele é grandão, mas joga bem mal. — Igor disse, provocando o irmão, e todos riram.
— Ei, isso não é verdade! Eu só jogo no modo mais difícil, é diferente! — respondeu Lucca, fingindo indignação.
Sandra riu, sentindo-se surpreendentemente confortável naquela interação descontraída.
— Espero que o Igor não esteja perturbando muito quando vai brincar com o Caio. — Larissa falou à Sandra.
— Nada disso. Eles se dão super bem. Aliás, o Caio só fala de quando Igor poderá ir de novo.
Igor puxou o braço da mãe.
— Mãe, deixa eu convidar o Caio para ir lá em casa no sábado! Pra gente jogar!
Larissa sorriu e olhou para Sandra.
— O que acha? Seria ótimo. Eles se divertem tanto juntos.
Ela hesitou por um momento, mas acabou concordando.
— Tudo bem, podemos combinar. Caio vai adorar.
— Ótimo! Assim já aproveito para terminar de organizar o que preciso enquanto o Luís cuida dos meninos. — E cutuca o marido com o cotovelo.
— Claro. Vou acabar jogando com eles de qualquer forma — riu, bagunçando o cabelo de Igor.
Sandra olhou curiosa para Luís.
— Então, você joga mesmo?
— Sempre que posso, pra ficar um tempo com os garotos. E, claro, eu aproveito para me divertir também.
— Isso é verdade. Ele é a criança mais velha da casa — a esposa afirmou.
— Pode deixar, Caio. Sábado eu também jogo com vocês. Mas só se prometerem não trapacear. — Luís piscou para o garoto, que riu.
Sandra continuou a conversa com Larissa, comentando sobre o mercado e sugerindo alguns produtos, enquanto Luís, Igor e Caio discutiam sobre jogos no corredor. Parecia tudo tão simples, mas sabia que não era.
Quando se despediram, Larissa tocou o seu braço, gentilmente:
— Foi ótimo te ver de novo, Sandra. A gente se fala sobre sábado.
— Combinado. Até mais.
Ela viu a família se afastar, com Luís andando ao lado dos filhos, conversando animadamente. Se sentia como se aquele encontro casual tivesse mexido com algo que ela não queria admitir.
Sandra olhou para Caio, que ainda estava animado com o convite para brincar com Igor, e sorriu. Mas enquanto empurrava o carrinho em direção ao caixa, uma parte de si sabia que aquele encontro casual não seria algo que esqueceria tão facilmente.
_*_
Dias depois…
A sala estava cheia de risadas e exclamações empolgadas. Caio e Igor estavam sentados no chão, concentrados nas telas, enquanto Luís, com o controle na mão, tentava acompanhar o ritmo frenético dos dois meninos.
— Pai, você vai perder de novo! — Igor falou, rindo.
— Calma, garoto, isso ainda não acabou!
Larissa observava da cozinha. Apesar de tentar manter o foco nas tarefas, ela não podia evitar de ouvir o som do jogo ecoando na sala.
Na tela, a personagem indígena Aira, controlada por Luís, estava em uma missão desafiadora: salvar a floresta de um ataque de criaturas sombrias. Ele estava tão imerso no jogo que quase não percebeu um detalhe que nunca havia notado antes. Em uma rápida cena, enquanto Aira se movia pela floresta, a câmera girou, revelando uma marca no braço esquerdo. Ali, claramente visível, em formato de espiral. Era delicada, mas carregava algo profundamente simbólico, quase ancestral.
Luís franziu o cenho. Aquela marca era estranhamente semelhante à uma que viu no ombro de Sandra, algo que ele só notara uma vez quando ela usou uma blusa de alças.
"É só uma coincidência", falou consigo, mas seu olhar permaneceu fixo na tela, analisando cada detalhe da marca da personagem. A familiaridade era inquietante, como se o jogo, o livro e a vida real começassem a se entrelaçar de formas inexplicáveis.
— Pai! Anda! Você vai perder de novo! — Igor o lembrou, mas Luís parecia perdido em seus próprios pensamentos.
A missão avançava, e um dos desafios exigia que os jogadores ativassem "totens de equilíbrio" na floresta para restaurar a harmonia entre as forças naturais. Quando Luís finalmente conseguiu ativar um dos totens, uma cena animada apareceu na tela: uma águia sobrevoando um lobo em uma clareira, exatamente como descrito em uma passagem do livro que ele lera naquela manhã.
Luís paralisou no sofá. Ele não podia acreditar no que estava vendo.
— Pai, você tá parado! — Igor exclamou, apertando freneticamente os botões para derrotar a criatura final. — Ganheeeei! Finalmente ganhei de você!
Mas Luís mal ouviu a comemoração. Ele estava estático, até um pouco assustado.
— Pai? — Igor chamou, cutucando o braço dele.
— Ah... sim, parabéns, campeão. — Luís respondeu distraidamente, tentando disfarçar. Ele olhou para Caio, que comemorava ao lado de Igor, e depois para Larissa, que acabava de entrar na sala com um prato de lanches.
Ela notou a expressão distante de Luís, mas decidiu não comentar nada na frente das crianças. Ele ficou perturbado com aquilo, mas sabia que não poderia falar com ninguém sem ser ridicularizado. Talvez Sandra o entendesse…
Enquanto os meninos voltavam ao jogo, Luís se levantou e foi até a varanda, olhando para o céu. Ele não sabia o que era pior: o fato de tudo parecer tão real ou o fato de sentir uma forte conexão com Sandra. Estava confuso.
_*_
Mauro parou o carro em frente à casa do amiguinho de Caio, mantendo o motor ligado. Ele não tinha intenção de descer. O último episódio com Luís ainda estava fresco em sua mente, e algo no jeito dele o deixava irritado. Ele buzinou duas vezes para apressar o filho.
Minutos depois, Caio saiu pelo portão, carregando a mochila. Mauro sorriu ao vê-lo, mas seu semblante endureceu quando, logo atrás do menino, Luís apareceu. Com as mãos nos bolsos da bermuda e aquele sorriso descontraído – ou debochado, como Mauro preferia pensar –, ele caminhou até o carro.
Caio entrou no banco de trás animado, começando a falar sobre o que tinha jogado, mas Mauro mal ouviu. Seus olhos estavam fixos em Luís, que parou junto à janela do motorista.
— Boa tarde, Mauro — inclinou-se levemente, apoiando a mão no teto do carro. — Não quis entrar para pegar o Caio? Estávamos todos na sala. Teria sido bom batermos um papo.
Mauro apertou o volante com força, mantendo o rosto impassível.
— Obrigado, mas estou com pressa.
— Entendo. — Luís expressou algo que parecia mais do que simples cortesia. — Sabe, Caio e Igor se dão muito bem. Acho ótimo eles terem essa amizade. Quem sabe você não aparece da próxima vez com a Sandra? As crianças adoram quando os pais se envolvem mais.
Mauro franziu o cenho, sentindo o sangue ferver. Não sabia se era o tom ou a escolha das palavras, mas aquilo parecia mais uma provocação do que um convite genuíno.
— Agradeço a preocupação com a minha família, mas posso cuidar disso sozinho.
O sorriso de Luís se ampliou, mas seus olhos brilharam com um desafio velado.
— Claro, claro. Só quis dizer que Caio é sempre bem-vindo aqui. Afinal, amigos importantes merecem atenção especial, não acha?
Antes que Mauro pudesse responder, Luís deu dois tapinhas no teto do carro.
— Tenha uma boa tarde. Até mais, Caio.
O menino acenou, sem perceber a tensão entre os dois homens. Mauro, por outro lado, não respondeu, apenas acelerou, afastando-se da casa.
Enquanto dirigia, sua mente fervilhava. Cada palavra de Luís parecia carregada de segundas intenções, e a maneira como ele o encarava o deixava ainda mais desconfortável. “Esse cara está me testando,” pensou, apertando a mandíbula.
No banco de trás, Caio tagarelava alegremente sobre o jogo, alheio ao turbilhão de emoções do pai.
_*_
Era tarde da noite, e Sandra estava no sofá, vendo TV, enquanto Caio dormia profundamente em seu colo, os braços pequenos e quentes envolvendo sua cintura, enquanto ela afagava seus cabelos distraidamente. A casa estava silenciosa, exceto pelo som baixo da TV e o leve borbulhar do aquário de peixes no canto da sala, cuja luz suave refletia nas paredes.
Um pouco mais cedo, Mauro havia chegado chateado depois de buscar Caio. Ele não quis falar muito, mas estava visivelmente incomodado. Ela notou sua expressão tensa enquanto ele guardava as chaves e ia direto para o banho. Alguma coisa lhe dizia que poderia ser algo relacionado a Luís.
O celular vibrou ao lado dela, interrompendo seus pensamentos. Ela esticou o braço com cuidado para não acordar Caio e olhou para a tela. Era uma mensagem de Luís.
"Oi, Sandra. Espero que esteja bem. Na segunda teremos um coffee break na Arctos, algo simples para a equipe e alguns parceiros. Achei que seria uma boa oportunidade para conversarmos mais. Sei que você prefere evitar reuniões presenciais, mas seria muito bom te ver lá "
Sandra encarou a mensagem dando um pequeno sorriso. Mesmo que não quisesse admitir, no fundo, esperava por uma mensagem dele, um sinal. Ainda assim, sua mente a lembrava de que era melhor manter distância. Ela suspirou, dividida entre a satisfação inesperada de ser lembrada e a resistência que tentava impor a si mesma. Luís tinha a habilidade quase irritante de ser direto e, ao mesmo tempo, testar os seus limites nas entrelinhas.
Sem querer prolongar o momento, digitou rapidamente:
"Oi, Luís. Obrigada pelo convite. Vou ver se consigo me organizar para ir, tá bom. Mas obrigada pela lembrança"
Hesitou ao enviar a mensagem, ponderando se deveria ser mais firme. Ele não respondeu imediatamente, mas sabia que ele estaria esperando por ela no coffee break.
Colocou o celular de lado e olhou para Caio, que ressonava suavemente. Deu um beijo nele e logo Mauro apareceu na sala.
— Mauro, coloca ele na cama pra mim?
O marido pegou o filho e o levou.
Ela se levantou, desligou a televisão para ir para a cama. Mas não antes de ler a mensagem:
"Você sabe que não tinha como me esquecer de você, né? Espero que venha. Fica mais fácil enfrentar essas reuniões quando você está por perto."
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