Luís estava sentado em sua mesa na Arctos, quando ouviu as batidas na porta, soube que era ela.

— Entre.

Paula entrou com passos firmes, mas um olhar cuidadoso. Luís se levantou, ajeitando o paletó, como se aquilo o ajudasse a mascarar o desconforto.

— Obrigado por ter vindo. — Ele disse, apertando sua mão.

— Você sabe que não precisa me agradecer. — Paula respondeu, sentando-se na cadeira à sua frente.

Paula sabia o porquê de estar ali, mas esperou que ele falasse.

Luís respirou fundo e disse:

— Eu sei que não devia perguntar isso, ao menos mencionar qualquer coisa nesse sentido… mas preciso te fazer um último pedido.

Paula inclinou a cabeça levemente, como se ponderasse antes de responder.

— Eu sei.

Luís fechou os olhos por um instante, como se estivesse tentando absorver aquela verdade.

— Será definitiva? A ida dela?

— Pelo menos por um tempo. — Paula suspirou. — Caio está com o pai agora, e Sandra vai passar uns tempos lá também.

Ele franziu o cenho, tentando compreender.

— As coisas entre eles… melhoraram um pouco. Não sei exatamente em que sentido, mas Mauro pediu para ela passar uns dias com eles.

Luís ficou em silêncio, apenas balançando a cabeça lentamente.

Paula observou a forma como ele apertava a mandíbula, como se estivesse digerindo algo que não queria engolir.

— Eu gostaria de me despedir dela — Finalmente pediu, a voz soando mais oscilante do que pretendia.

Paula parecia ponderar. Ele percebeu.

— Paula, eu só quero me despedir dela. Vê-la pela última vez. Nada mais.

Ela o encarou por um instante, avaliando se realmente era só isso. Mas, no fim, apenas assentiu.

— Ela embarca amanhã, à tarde. Mas precisarei ver o horário certinho, te passo todas as informações por mensagem, pode ser?

Luís soltou um longo suspiro, assentindo.

Paula se levantou, mas antes de sair, ele a chamou:

— Paula…

Ela se virou, vendo a expressão séria dele.

— Você acredita que um dia... nós ainda vamos ficar juntos?

A pergunta pairou no ar. Ele não estava apenas falando dele e de Sandra. Estava falando da lenda. Daquilo que ele sempre tentou ignorar, mas que, de alguma forma, nunca o abandonou completamente.

Paula sorriu de leve. Não um sorriso de pena, nem de certeza absoluta. Apenas um sorriso cheio de significados.

— Eu acredito que algumas almas sempre se procuram, Luís.

Ele arqueou a sobrancelha, esperando mais.

Paula inclinou a cabeça e acrescentou:

— O lobo corre tanto quanto a águia voa... desesperados para se encontrarem. Um dia, eles acabam se encontrando. No momento certo.

Então, sem dizer mais nada, ela saiu da sala, deixando Luís sozinho com seus pensamentos.

Ele passou a mão pelo rosto, soltando o ar lentamente, pensando:

"Mas será que ainda nessa vida?"

Ele não sabia. Mas, pela primeira vez, ele queria acreditar em alguma coisa.

_*_



O som dos alto-falantes anunciando voos misturava-se ao burburinho das despedidas, das chegadas, dos passos apressados no piso brilhante. Sandra estava ali, parada, segurando sua passagem, enquanto sua mente vagava por tudo o que a trouxe até aquele momento.

Ela estava prestes a embarcar para uma nova cidade, um novo recomeço. Mauro e Caio já estavam lá, esperando por ela.

Respirou fundo, os dedos apertando a alça da bolsa. Olhava ao redor como se buscasse algo. Ou alguém. Mesmo sabendo que não encontraria.

Ele não estaria ali. Ele havia seguido sua vida. Assim como ela, como todos.

Mas então, sentiu uma presença em suas costas, como se algo invisível a puxasse de volta.

E quando se virou, ele estava lá.

Luís.

Parado a alguns metros de distância, com as mãos nos bolsos, os olhos carregados de algo que ela reconhecia.

Por um instante, nenhum dos dois se moveu.

O tempo parou como acontecia sempre que estavam juntos, tornando aquele momento uma despedida que não precisava ser dita.

Ele então caminhou até ela, parando a poucos passos de distância.

— Eu precisava vê-la uma última vez antes de partir. — A voz dele era firme, mas havia uma suavidade ali. — Só para dizer que… apesar de tudo, sou grato por ter te conhecido.

O peito de Sandra apertou. Ela sorriu, mas era um sorriso melancólico, definindo tudo o que foi e nunca poderia ser.

— Eu também sou grata, Luís. — Ela deu um passo à frente, hesitante. — Obrigada por vir se despedir.

Ele assentiu, sem desviar o olhar.

— Eu não poderia deixar você ir sem um adeus.

Sandra sentiu os olhos marejarem. Ele sempre esteve ali, mesmo quando não estava. E sempre estaria.

Os dois se olharam por um longo momento antes de Luís abrir os braços. O gesto foi natural, quase um instinto. Sandra aceitou o abraço, se afundando nele por um instante que pareceu durar uma eternidade.

O cheiro dele, o calor, tudo nele era tão familiar.

Quando se afastaram, as palavras finais vieram baixas, mas repletas de um significado maior do que qualquer promessa quebrada.

— Até a próxima vida, Luís… — ela sussurrou, com a voz embargada.

Ele piscou algumas vezes, como se aquele pensamento o atingisse no peito.

— Até a próxima... vida. — A última palavra custou a sair, como se admitir aquilo fosse o mesmo que aceitar o destino que sempre os separaria. — Eu sempre a amarei, Sandra.

— Eu também, por todas as vidas. — Ela sorriu uma última vez e se virou, caminhando em direção à sala de embarque.

Luís ficou ali, imóvel, observando-a partir, sentindo um misto de tristeza e aceitação imposta.

Ela se afastava, mas nunca desapareceria completamente de sua vida.

Antes de cruzar a porta, ela parou e olhou para trás. Seus olhos se encontraram pela última vez. Luís levou a mão ao bolso e apertou o chaveiro de águia entre os dedos.

E, num sussurro que era mais para si mesmo do que para ela, murmurou:

— Eu ainda vou te ver de novo.

Ele não viu, mas do outro lado do aeroporto, Sandra sussurrou a mesma coisa, apertando sua bússola de lobo.

_*_



Os anos passavam, levando consigo parte das dores, mas não todas as cicatrizes.

Sandra se mudou para a mesma cidade onde Mauro e Caio estavam. Não por ele, mas pelo filho. Queria estar por perto, acompanhar o crescimento de Caio sem precisar contar os dias até o próximo reencontro. A relação entre ela e Mauro se tornou mais leve, quase natural. Saíam juntos às vezes, riam, compartilhavam momentos casuais como se fossem apenas velhos amigos.

Mas havia algo ali que nenhum dos dois nomeava.

Mauro ainda a ama. Disso, Sandra tem certeza. Ele demonstra nos pequenos gestos, nos olhares que ele lança quando acha que ela não está vendo. Mas também está no que ele não faz. Ele nunca toca no passado. Nunca diz o que quer dizer. Ele se joga no trabalho, evitando qualquer conversa emocional profunda e parece se agarrar à estabilidade que conseguiu reconstruir. Sandra não força nada. Não pede. Eles estão bem assim. Ou, pelo menos, é isso que fingem acreditar.

Luís, por sua vez, vive em um estado constante de prova. Ele conseguiu manter Larissa ao seu lado, mas a confiança nunca voltou completamente. Larissa, sempre gentil e amorosa, esforça-se para perdoar e seguir em frente. Luís faz tudo o que pode para mostrar que mudou, está mais presente em casa, nos pequenos detalhes da rotina, no apoio emocional aos filhos e na atenção redobrada ao que ela precisa. Mas no fundo, ele sabe que a mancha da traição sempre estará ali. O amor deles continua, não sem cicatrizes. Mas há noites em que ele acorda e sente falta de Sandra, como um fantasma que nunca parte.

Larissa, apesar de tudo, permanece como o eixo da família que tenta se reerguer. Ela escolheu amar Luís, mesmo com o passado imperfeito, mas também escolheu nunca esquecer. Ela aprendeu a guardar para si os momentos de dor, porque acredita que amar é também aceitar que as pessoas erram. A relação deles é diferente agora. Mais silenciosa, mais cuidadosa, mas ainda de pé.

Sandra e Luís nunca mais se falaram desde a última despedida no aeroporto. Ambos cumpriram a promessa de seguir caminhos separados, mas o vínculo que tiveram nunca foi completamente quebrado.

Às vezes, em noites solitárias, especialmente aquelas em que a lua cheia está presente, ambos olham para o céu e se perguntam como teria sido se tivessem escolhido o caminho mais difícil.

Contudo, seguem suas vidas, cada um carregando o peso de suas escolhas.

E assim, o lobo retornou ao seu território, e a águia para o seu ninho. A terra sente falta de suas pegadas, e o vento ainda espera pelo bater das asas. Mas talvez, em outra vida, o lobo e a águia finalmente encontrem um caminho onde possam viver lado a lado.

Até lá, céu e terra seguirão separados, ligados apenas pelos ecos de um amor que nunca se apagou — apenas pela espera do tempo certo para se reencontrarem.


Notas finais
Ainda teremos o epílogo, meus caros. Gostaria muito que deixassem os seus comentários. Este livro, em breve, será retirado da plataforma, para revisão e publicação digital e física. Mas a opinião de cada um é muito importante mesmo. Obrigada por acompanharem mais esse projeto. Abraços!