SOBRE LOBOS E ÁGUIAS
19 Epílogo
EPÍLOGO
A Maldição do Tempo
Iaraque, a águia de asas vastas e imponentes, pairava no alto, suas penas douradas cintilando sob a luz da lua. Eles se entreolharam, presos em uma conexão que nem a vastidão do céu nem a densidade da floresta poderiam romper.
"Ainda não podemos estar juntos," pensou Aiyana, os olhos ardendo de dor, "mas você é parte de mim."
Ele deu um giro no céu, suas asas cortando o vento com elegância e tristeza. Mergulhou mais uma vez, quase tocando o solo, mas parou. Ele sabia que, se atravessasse o limite, tudo se perderia. O equilíbrio que juraram proteger seria destruído.
"Eu nunca deixarei de te procurar" ele sussurrou, o vento levando suas palavras até o lobo.
Aiyana uivou, um som longo e carregado de dor, ecoando pelas montanhas como um lamento ancestral. O destino era implacável, mantendo-os separados, mesmo quando seus corações insistiam em se buscar.
Ergueu a cabeça, observando a águia ganhar altitude novamente. Uma lágrima solitária escorreu, caindo. A águia voou até desaparecer na vastidão do céu, enquanto o lobo se voltou para a floresta, caminhando lentamente para o lugar que chamava de lar, mas que sempre pareceria vazio.
E assim, a terra e o céu continuaram a existir, separados, mas eternamente conectados por um amor que desafiava o tempo, mesmo que nunca pudesse vencê-lo.
O Vale dos Destinos Cruzados
A névoa subia suavemente do vale, envolvendo as árvores em um manto prateado, enquanto a lua cheia brilhava como um farol distante. Aiyana, o lobo de olhos luminosos, estava parada no limite da floresta, onde a terra se quebrava em penhascos íngremes.
O vento sussurrava pelas montanhas, como se carregasse segredos antigos de tempos distantes. Selene, a deusa mãe, observava do alto de seu vale eterno, o olhar sereno, mas carregado de séculos de sabedoria. A lua cheia brilhava sobre a floresta adormecida, iluminando as trilhas deixadas pelo lobo e as correntes de ar onde a águia um dia voou.
As palavras de Selene ecoaram pelo vale, carregadas pelo vento como um canto antigo que atravessa eras. Sua voz não era de condenação, mas de sabedoria, refletindo o ciclo infinito das almas e o peso das escolhas.
"Aiyana e Iaraque, vocês que desafiaram o equilíbrio sagrado, não foram punidos, mas destinados a aprender. O amor que os uniu era forte, mas o dever que carregavam era maior. Sua promessa não foi quebrada pelo castigo, mas pelo desejo de possuir algo que deveria ser protegido, não reivindicado. Agora, enquanto o lobo uiva para a lua e a águia corta os céus, vocês devem percorrer vidas e vidas, não para encontrar um ao outro, mas para encontrar a si mesmos."
As palavras de Selene eram entrelaçadas com imagens que se desdobravam em uma Roda do Tempo que girava incessantemente, suas engrenagens feitas de encontros e despedidas.
Uma civilização egípcia, ele é um escriba, destinado a registrar a história, mas não a vivê-la . Ela é uma sacerdotisa dedicada aos deuses, jurada ao celibato.
Um gladiador e uma nobre romana se apaixonam, mas ele é forçado a lutar até a morte enquanto ela assiste das arquibancadas.
Dois guerreiros de clãs rivais no Japão Feudal. Eles se encontram durante uma batalha e hesitam em lutar um contra o outro. Um deles morre antes de poder mudar seu destino.
Um revolucionário francês e uma aristocrata antes da Queda da Bastilha. Eles tentam fugir, mas um deles é executado na guilhotina.
Durante a Guerra, um soldado e uma enfermeira se apaixonam. Ele volta da guerra, mas descobre que ela morreu cuidando dos feridos.
Selene continuou, sua voz entrelaçando-se às imagens.
"Em cada vida, as escolhas erradas os afastaram mais do que os uniram. Não porque foram condenados, mas porque ainda não compreenderam a verdade do amor: ele não é prisão, nem fuga, mas equilíbrio. O destino os concedeu encontros e despedidas, ciclos que se repetem como as marés, não para puni-los, mas para ensiná-los que amar não é segurar com força, mas aprender a deixar ir, quando necessário."
O tempo girou mais uma vez.
Em terras inglesas, um viajante chega à cidade e se enamora por uma jovem, mas ela já está prometida a um homem influente. Ele a vê casar-se com outro, sem poder lutar contra isso.
Uma vila à beira-mar. Um pescador e sua amada se abraçam antes que ele desapareça na tempestade.
Um casal apaixonado antes da construção do Muro de Berlim. Um deles consegue escapar, o outro fica preso do outro lado da cidade.
Uma mulher afro-americana e um homem branco nos EUA dos anos 1960. Um amor proibido pela segregação racial.
Duas jovens, um amor proibido durante um internato para meninas. São separadas pelo preconceito que o tempo e a sociedade impuseram.
Uma publicitária e um empresário se conhecem em um evento profissional. Eles se amam, mas ambos já estão comprometidos nesta vida. Se despedem no aeroporto antes de partirem para lados opostos.
A Roda do Tempo, então, girou novamente e parou, e o cenário mudou. Agora, mostrava o corredor de uma escola, com risos vibrantes e conversas. Dois jovens, cruzaram os olhares e um fio invisível pareceu conectá-los instantaneamente. A sensação familiar de volta.
Selene sussurrou, sua voz carregada de esperança:
"E agora, mais uma chance lhes é dada. A roda do tempo gira sem pressa, pois o universo não se apressa. Ele apenas observa, esperando o momento em que finalmente compreenderão. Quando isso acontecer, Aiyana e Iaraque não serão apenas memórias de uma lenda, mas os arquitetos de um amor que não desafia o tempo, mas o atravessa, completo, sem correntes, sem medos. Então, e somente então, céu e terra finalmente se encontrarão."
O vento cessou. E sob a luz da lua cheia, o lobo e a águia, eram, agora duas silhuetas que se encararam à distância. O mundo ao redor ficou em silêncio, como se o próprio tempo estivesse aguardando sua próxima escolha.
_*_
O Recomeço
O som de risadas preencheu o ar. Um breve som reverberou no ar e o corredor logo se encheu de estudantes caminhando entre as aulas.
Entre eles, uma garota de longos cabelos cacheados, caminhava distraidamente olhando o seu aparelho digital. Seus olhos tinham algo de sereno, mas também de inquieto. Como se estivesse sempre esperando algo acontecer.
Do outro lado do pátio, um garoto alto, de cabelos levemente bagunçados, se apoiava contra uma cerca. Seu olhar vagava pelo ambiente, atento a tudo e a todos.
Quando os seus olhares se cruzaram, o mundo fez em silêncio.
A garota parou abruptamente, o coração acelerando sem motivo aparente.
Ele também sentiu algo que não conseguia explicar.
Hesitou por um instante, mas então começou a caminhar em direção a ela.
Ayla fez o mesmo, mas cautelosa.
Iago sentiu o chão desaparecer sob seus pés a cada passo.
Quando finalmente pararam um diante do outro, o silêncio não pareceu desconfortável, como se não precisassem dizer nada, porque já sabiam.
Mas, ainda assim, ele quebrou o silêncio.
— Oi… a gente já se conhece? — Perguntou, com leve divertimento.
Ela deu um sorriso, pensando a mesma coisa.
— Eu acho que sim… mas não é daqui, pois eu cheguei hoje.
Os dois ficaram ali, apenas se olhando.
— Me chamo Ayla... e você?
— Iago.
— Iago… Ok, a gente se vê por aí?
Ele apenas assentiu, ainda com aquela estranha sensação de déja vù. E foram para as suas respectivas aulas.
Parecia coincidência.
Talvez fosse destino.
Mas o universo acabara de lhes dar mais uma chance.
E dessa vez, talvez finalmente estivessem prontos.
Fale com o autor