SOBRE LOBOS E ÁGUIAS
13 Capítulo 13
Luís batia levemente com os dedos no volante, até ver Sandra sair do prédio onde trabalhava. Ela entrou no carro em silêncio, a tensão entre os dois sempre presente.
— Oi — disse ele, a voz baixa, carregada de emoções que ele não conseguia mais esconder.
Ela respondeu com um sorriso.
— Obrigado por vir. Eu precisava te ver — confessou ele. — Eu sinto que o tempo está fugindo da gente.
Antes que ela pudesse falar alguma coisa, ele ligou o carro levando-os para uma rua mais reservada. Quando ele desligou o motor. Ela se adiantou:
— Luís, vamos conversar...? — começou Sandra, mas foi interrompida por ele, que a puxou pela cintura.
Ela o olhou, seus olhos carregados de culpa e desejo, mas antes que pudesse continuar, Luís se inclinou e a beijou. O toque de seus lábios foi intenso, como se tentassem capturar em um momento tudo o que não poderiam ter. Ela retribuiu, deixando-se levar pela paixão e pelo calor do momento. Beijaram-se como se fosse o último dia.
Somente o som de suas respirações ofegantes e a batida acelerada de seus corações, podiam ser ouvidos. Quando se afastaram, ambos estavam ofegantes, mas Luís não perdeu tempo.
— Vem comigo. Vamos para um lugar só nosso — sugeriu ele, os olhos fixos nos dela, passando a mão pelo seu rosto.
Sandra balançou a cabeça, os olhos marejados.
— Não, Luís. Eu não posso. Não desse jeito.
Ele tentou protestar, mas ela ergueu a mão, interrompendo-o.
— Eu vou viajar na próxima semana. Vai ser bom para mim... pra gente. Para organizar as ideias, sabe? — disse ela, tentando manter a compostura. — Não é justo com Mauro. Nem com Larissa. Eles não merecem isso.
Luís suspirou profundamente, apoiando a cabeça no encosto do banco. Ele fechou os olhos por um momento antes de falar:
— Eu sei de tudo isso, Sandra... mas eu quero viver com você tudo o que nunca vivi. Temos esse direito. Não vou te perder. Se for preciso, eu deixo tudo... tudo para ficarmos juntos.
Ela se assustou com aquelas palavras. Era o que ela queria ouvir? Ou era o que mais a apavorava?
— Olha... não vamos decidir nada agora, certo? Depois da minha viagem, a gente fala sobre isso, tá? Por favor.
Ele olhou para ela por um longo momento antes de assentir.
— Tá bom. Mas saiba que eu estou disposto a fazer o que for preciso. Não vou abrir mão de você. — Ele se inclinou novamente, seus lábios encontrando os dela em um beijo ainda mais profundo, mais desesperado, como se quisesse guardar aquele momento para sempre.
Quando finalmente se afastaram, Sandra respirou fundo, tentando recobrar o controle de si mesma.
— Me deixa perto da agência. Preciso pegar meu carro.
Luís assentiu em silêncio, beijando-a mais uma vez, antes de ir. Durante o curto trajeto, nenhum dos dois disse uma palavra. Ao chegar, ela fez menção de abrir a porta, mas antes de sair, olhou para ele, e dessa vez, ela o beijou. Um beijo apaixonado.
— Volta logo. — Pediu ele.
Ela saiu do carro e seguiu em direção ao seu veículo. Luís a observou até ela desaparecer de vista com o carro, e seguiu o seu caminho também.
_*_
Mauro estacionou o carro no terminal do aeroporto enquanto Caio, no banco de trás, segurava a bolsa da mãe com uma expressão dividida entre animação e tristeza. Sandra virou-se para ele e deu um sorriso reconfortante.
— Vamos lá, campeão?
Mauro pegou a mala do porta-malas e eles caminharam juntos até o destino. O lugar estava movimentado, com anúncios de voos ecoando pelos alto-falantes. Sandra apertava a mão de Caio enquanto eles atravessavam o saguão.
Na área de embarque, Sandra ajoelhou-se para falar com Caio.
— Vou sentir sua falta, meu amor. Mas prometo que volto rapidinho — disse, acariciando o rosto do filho.
— Você promete mesmo, mãe? — Ele perguntou, os olhos brilhando com uma mistura de preocupação e esperança.
— Prometo, meu amor. E vou trazer um presente incrível para você, algo que vai adorar. — Deu-lhe um sorriso carinhoso.
Caio assentiu, abraçando-a com força.
— Eu te amo, meu anjo. — Beijou-o na testa.
— Também te amo.
Levantando-se, Sandra olhou para Mauro, que estava com as mãos nos bolsos, observando tudo com um semblante difícil de decifrar.
— Obrigada por cuidar de tudo enquanto eu estiver fora. — Falou, tentando encontrar seus olhos.
Mauro assentiu brevemente, respondendo com um tom neutro: — Não se preocupe. Ficaremos bem. Você se cuida.
Sandra deu um passo à frente, estendendo a mão para tocá-lo no braço antes de beijá-lo. Seus lábios tocaram os dele, mas ela sentiu a rigidez de seu corpo, a falta de entrega no gesto. Era um beijo breve, sem reciprocidade, o que fez seu coração se apertar.
Ela afastou-se um pouco, tentando manter a compostura, e ajeitou a alça da bolsa no ombro.
Sandra abaixou-se para abraçar Caio uma última vez, sentindo os pequenos braços ao redor do pescoço como um consolo. Quando ela se afastou, pegou sua mala e deu um último aceno antes de atravessar o portão de embarque.
Mauro ficou parado ao lado de Caio, ainda com as mãos nos bolsos, observando até que ela desaparecesse entre os outros passageiros. Ele sabia que as coisas estavam complicadas, mas não sabia como consertar aquilo; ou se ainda havia tempo.
_*_
O avião cortava as nuvens, e Sandra estava com o livro da lenda do lobo e da águia nas mãos. Seus dedos deslizavam pelas páginas gastas, marcadas com pequenas dobras. Parou em uma passagem específica e começou a ler:
"Aiyana fitou Iaraque sob a luz do luar. Havia um misto de amor e desespero em seus olhos.
— Iaraque, o que estamos fazendo? A Mãe confiou em nós para proteger nossa aldeia, o universo… E estamos traindo tudo o que juramos proteger.
Ele segurou suas mãos, seus olhos ardendo de determinação.
— Aiyana, eu faria qualquer coisa por você. Mesmo que a lei não permita. Mesmo que isso signifique desafiar os deuses."
Sandra fechou o livro, pressionando-o contra o colo. Sua respiração estava mais pesada, como se estivesse em constante cansaço.
Desceu a mão até a bolsa, buscando a bússola que Luís havia lhe dado. Tirou-a devagar e a observou. O lobo gravado no pequeno círculo parecia olhá-la de volta, como um lembrete silencioso da promessa não dita entre eles. Seus dedos alisaram a superfície lisa do objeto enquanto sua mente vagava.
Ao seu lado, uma senhora de cabelos brancos bem penteados e um lenço floral delicadamente amarrado no pescoço, olhou para ela com um sorriso sereno.
— É um objeto muito bonito. — Disse com sua voz calma. — Parece ser algo bem significativo para você.
Sandra virou-se para ela, surpresa pela interrupção, mas acabou sorrindo gentilmente.
— Sim, significa muito.
A senhora inclinou levemente a cabeça, observando a bússola com atenção.
— Sabe, escolhas são como bússolas. Elas apontam o caminho, mas é você quem decide se vai seguir por ele. Nem sempre a direção mais fácil é a certa. — seu tom parecia ter anos de experiência. — Às vezes, é preciso coragem para escolher o que é certo, mesmo quando dói.
Sandra piscou, surpresa pela profundidade das palavras da mulher. Algo na frase a fez se lembrar das passagens do livro da lenda que estava lendo. Curiosa, abriu o livro novamente, e folheou rapidamente até encontrar o trecho que ecoava o que a senhora acabara de dizer:
"A bússola aponta o caminho para o lobo, mas é ele quem escolhe se seguirá a trilha. Nem sempre o caminho certo é o mais fácil, mas é aquele que mantém o equilíbrio do coração e da terra."
Semelhantemente, também, ao que Paula dissera quando a levou ao museu para mostrar os objetos da antiga aldeia: “Com o lobo está a direção, e nas mãos da águia, a chave da redenção.” Paula, na ocasião, disse que o mapa aponta o caminho, dá a direção, os passos a serem seguidos, e ajuda a entender qual é o destino.
Sandra sentiu um arrepio. Se voltou imediatamente para falar com a senhora, mas ela já estava recostada em sua poltrona, com uma expressão serena, dormindo.
Por um momento, Sandra ficou sem palavras, o livro ainda aberto em suas mãos e a bússola descansando em seu colo. Olhou novamente para a senhora, mas algo dentro dela sabia que aquela troca não fora uma coincidência.
Guardou a bússola de volta na bolsa, fechou o livro e encostou a cabeça na sua poltrona. Havia uma clareza que não tinha sentido antes. Não importava o quão confusa ou dividida estivesse, sabia que essa viagem seria o marco para uma decisão final.
"Quando eu voltar, já terei feito a minha escolha." O pensamento era firme, ainda que sua voz interior tremesse. Enquanto o avião seguia seu curso, Sandra fechou os olhos, sentindo que o universo estava lhe mandando mais um lembrete de que o equilíbrio precisava ser restaurado — começando com ela.
_*_
Sandra ajustou o crachá em torno do pescoço enquanto se dirigia ao auditório principal. O primeiro dia da conferência havia sido repleto de palestras envolventes sobre publicidade, ética e estratégias inovadoras. Durante os coffee breaks, ela aproveitou para interagir com representantes de outras empresas renomadas, trocando ideias e contatos importantes.
Nos próximos dias, ainda haveria apresentações, reuniões e workshops práticos, mas o ritmo da programação também lhe permitiria explorar um pouco a cidade. Era sua chance de respirar um pouco fora da rotina agitada e conhecer os charmosos pontos turísticos de Curitiba, enquanto pensava em sua vida, longe de tudo e de todos.
Naquele fim de tarde, já de volta ao hotel, Sandra revisava as anotações do dia em sua cama, com o notebook ao lado. A janela aberta permitia que a brisa fresca entrasse, trazendo consigo o som distante do movimento da cidade. Já eram quase seis da noite quando ela ouviu três batidas suaves na porta.
Franzindo a testa, levantou-se e caminhou até lá. Ao abrir, encontrou Luís parado, as mãos nos bolsos do casaco e um sorriso leve, mas cheio de intenções, iluminando seu rosto.
— Luís? O que você está fazendo aqui? — Sua surpresa se misturava com a curiosidade e apreensão.
— Vim ficar com você, Sandra. Eu não consegui ficar longe. — Respondeu, decidido.
Sandra hesitou por um instante, mas acabou dando um passo para o lado, permitindo que ele entrasse. Fechou a porta atrás de si.
— Você está louco? Como soube onde eu estava?
— A gente precisa disso, Sandra. — Encarou-a com convicção. — Eu sei que isso é arriscado, mas se eu não viesse, passaria o resto da vida pensando no que poderia ter sido.
Sandra cruzou os braços, como se tentasse se proteger daquela proximidade. Seu olhar era puro nervosismo e exaustão emocional.
— Luís, eu te disse que precisava desse tempo para pensar… — Tinha certa frustração na voz.
Ele deu um passo em sua direção. Sua voz era suave, mas com uma determinação inegável.
— Pensar? Não resista, Sandra. Isso já está nos consumindo. — Ele buscava o olhar dela, tentando atravessar as barreiras que ela tanto se esforçava para manter.
— Já sabemos onde isso vai dar. Não há como vencer.
— Não sabemos disso. Não sabemos porque você continua fugindo. Porque eu continuo lutando contra algo que já não podemos mais negar. — Ele se aproximou mais, ficando perto o suficiente para que ela sentisse sua presença. — É mais forte do que a gente.
Ela fechou os olhos por um momento, tentando reunir forças para resistir. Quando abriu, os olhos estavam marejados.
— Mas e as vidas que serão destruídas ao nosso redor?
Ele balançou a cabeça.
— Não quero pensar nisso agora, Sandra. Eu só não posso passar a vida inteira me perguntando "e se". Não, não com você. Eu quero viver esse momento contigo, longe de tudo.
Ela respirou fundo, lutando contra o nó que se formava em sua garganta.
— Luís... me dê um tempo…
Ele assentiu lentamente, dando um passo para trás, respeitando o espaço dela.
— Tudo bem. Estou no quarto ao lado — disse, antes de sair.
_*_
Mauro parou em frente ao prédio moderno da Arctos, o imponente logotipo do lobo e da águia, brilhava sob a luz do sol. Ele estava decidido a confirmar suas suspeitas. A conversa no jantar com Sandra ainda ecoava em sua mente, misturada com as palavras de Luís, na última discussão.
Ele caminhou até o balcão de recepção, onde uma secretária o cumprimentou com um sorriso educado.
— Bom dia, senhor. Como posso ajudá-lo?
— Preciso falar com Luís Marcos. Ele está? — Perguntou, tentando soar controlado.
A recepcionista digitou algo no computador e, em seguida, interfonou. Após alguns segundos, ela olhou para Mauro.
— O senhor Luís Marcos não está no momento, mas posso encaminhá-lo ao senhor Arnaldo, um dos executivos. Mas fica a seu critério — informou.
Mauro hesitou por um instante, mas assentiu.
— Pode ser.
Ela fez outra ligação e, após receber a confirmação, entregou-lhe um crachá de visitante e indicou o caminho até o elevador.
— O senhor Arnaldo o receberá em sua sala no 8º andar. Pode subir.
Mauro entrou na sala de Arnaldo, onde foi recebido por um homem de terno alinhado, sentado atrás de uma mesa organizada. Arnaldo levantou, estendendo a mão.
— Mauro, é um prazer. A secretária me disse que você está procurando o Luís. — Disse ele, com um tom neutro, mas observando atentamente o visitante.
Mauro apertou a mão dele, mantendo o olhar fixo.
— Sim, eu preciso falar com ele. É algo pessoal.
Arnaldo indicou a cadeira em frente à sua mesa.
— Infelizmente, Luís não está na empresa hoje. Ele precisou fazer uma viagem de última hora. — Informou, enquanto voltava a se sentar.
Mauro estreitou os olhos, tentando disfarçar a tensão.
— Uma viagem? — perguntou casualmente, mas havia um tom ácido na pergunta.
Arnaldo respondeu sem perceber as intenções do outro.
— Sim, para Curitiba. Foi uma viagem às pressas, mas logo estará de volta. Se eu puder ajudar em algo.
As palavras ecoaram na mente de Mauro como um alarme. Curitiba. Mas ele manteve a calma, ajustando sua postura na cadeira.
— Curitiba. Ele volta quando?
Arnaldo franziu levemente a testa, sentindo algo estranho no comportamento de Mauro, mas respondeu:
— Não sei ao certo. Luís não mencionou uma data exata.
Mauro se levantou, lentamente, e disse:
— Tudo bem, então. Diga a ele que Mauro esteve aqui. O marido de Sandra. — As palavras foram ditas com calma, mas o olhar carregava um tom desafiador, misturado a uma ameaça silenciosa, como se cada palavra fosse um aviso velado de que aquilo não terminaria ali.
Arnaldo piscou, surpreso, o nome familiar atingindo-o como um soco. Ele disfarçou a reação, assentindo.
— Claro. Eu darei o recado.
Mauro agradeceu e saiu da sala, ecoando os seus passos decididos pelo corredor.
Assim que Mauro saiu, Arnaldo ficou parado por um momento, o nome “Sandra” ainda martelando em sua cabeça. Ele sabia que Luís e Sandra tinham algo fora do comum, mas agora as peças começavam a se encaixar de forma preocupante. Curitiba. Sandra. Luís. Mauro!
Com a mente inquieta, Arnaldo pegou o telefone e ligou para a agência Prisma Publicitá.
— Alô, aqui é Arnaldo, da Arctos. Posso falar com a Sandra? — perguntou, tentando soar casual.
A ligação foi transferida e logo a voz profissional de Jeiza respondeu:
— Olá, Arnaldo, tudo bem? Sandra está em Curitiba, representando a agência em uma conferência. Posso ajudá-lo com algo?
As palavras confirmaram seus temores. Arnaldo agradeceu e desligou, sentindo uma pontada de preocupação crescer. A viagem de Luís, a presença de Sandra na mesma cidade... havia algo acontecendo que ele não podia ignorar.
Enquanto isso, Mauro dirigia para casa, seus pensamentos fervilhando. Luís estava em Curitiba com Sandra. A raiva e o ciúme tomavam conta dele. As palavras de Luís, insinuando que ela sentia algo por ele, agora pareciam ganhar um certeza insuportável.
— Vocês me pagam! — Murmurou para si mesmo, com grande fúria.
_*_
Luís estava determinado. Ele a convidou para jantar naquela noite e, relutante, ela aceitou.
No restaurante, ele a observava enquanto ela tentava descobrir o que falar primeiro.
— Você não precisa carregar esse peso sozinha, Sandra. — Ele disse, quebrando o silêncio. — Eu também sinto, fala comigo. Não percebe que esses dias aqui, juntos, podemos resolver muita coisa?
Ela finalmente o encarou, com os olhos marejados.
— Luís, eu tenho medo.
Ele segurou a mão dela sobre a mesa.
— Eu também tenho medo, mas a gente precisa viver isso, nem que seja por um instante, para saber o que realmente vamos decidir… — hesitou ao falar. — Porque eu sei que vamos sair daqui com uma decisão, certo?
Ela apenas balançou a cabeça em concordância.
Naquela noite, de volta ao hotel, o silêncio entre eles dizia mais do que qualquer palavra poderia expressar. Sandra estava encostada na cabeceira da cama, seus olhos fixos na janela, enquanto Luís permanecia na poltrona, observando-a de longe. A tensão no ar era palpável, como uma corda prestes a se romper.
Quando ela finalmente se virou, seus olhares se encontraram, diziam tudo: desejo, culpa, amor e medo. Luís se levantou e deu um passo hesitante em sua direção, como se esperasse um sinal. Sandra não recuou.
Luís se aproximou, erguendo a mão para tocar suavemente o rosto dela. Seus dedos traçaram uma linha delicada pela sua pele. Sandra fechou os olhos por um instante, mas quando os abriu novamente, havia uma decisão ali. Ele a puxou gentilmente, e ela não resistiu. Seus lábios se encontraram em um beijo profundo, carregado de emoção reprimida e uma paixão que parecia ter aguardado por uma eternidade para ser liberada.
Sandra levou as mãos ao peito dele, sentindo o ritmo acelerado de seu coração que espelhava o dela. Luís a segurou pela cintura, como se temesse que ela desaparecesse. Quando o beijo finalmente terminou, eles se encararam, ofegantes, mas sem arrependimentos nos olhos.
— Eu não quero lutar contra isso. Não aqui. — Luís, revelou.
Ela o encarou e assumiu: — Nem eu…
Foi o necessário. Ele a puxou para si e se entregaram ao que sentiam, deixando de lado todas as dúvidas, medos e obrigações. Por um instante, foram apenas Sandra e Luís, vivendo o momento que haviam tentado evitar por tanto tempo, mas que parecia inevitável. E embora soubessem que o amanhecer traria com ele o peso de suas escolhas, naquela noite, eles permitiram que o amor falasse mais alto.
Nos dias que se seguiram, eles viveram como se fossem um casal normal, como se não existisse a realidade esperando por eles. Caminharam pelas ruas da cidade, exploraram lugares novos, riram juntos. Sandra parecia mais leve, e Luís estava genuinamente feliz.
Eles tomaram café da manhã no quarto, conversando sobre coisas triviais como filmes, música e sonhos que nunca compartilharam com ninguém. Luís segurou a mão dela em um momento, dizendo:
— É assim que deveria ser, Sandra. Só nós dois, sem complicações.
Ela sorriu, mas havia tristeza em seu olhar.
— Mas, infelizmente, não é assim… — Ela disse, pegando a mão dele e trazendo para o seu rosto, querendo eternizar aquela sensação.
Eles fizeram amor como se o mundo fosse acabar, cada toque carregado de urgência, cada beijo uma promessa silenciosa de amor eterno. A noite inteira seria pequena para tanto o que queriam dizer e sentir.
Na penumbra do quarto iluminado apenas pelas luzes da manhã que entravam pelas cortinas entreabertas, Luís e Sandra se aproximaram como se o tempo fosse um inimigo cruel. Cada movimento deles era uma dança, carregada de emoção e urgência, como se ambos soubessem que aquele momento não era eterno, mas que precisava ser vivido como se fosse.
Ele deslizou os dedos pelo rosto dela, traçando delicadamente cada linha, memorizando cada detalhe. Seus lábios se encontraram novamente, mas desta vez não havia hesitação. O beijo era profundo e intenso, como se quisesse transmitir tudo o que as palavras não podiam expressar. O mundo parecia ter parado ao redor deles, deixando apenas a sensação de estarem exatamente onde deveriam, mesmo que fosse pelo tempo que durasse.
Os toques se tornaram mais ousados, mas não perderam a ternura. Cada gesto era uma promessa silenciosa, um "eu te amo" que nenhum deles ousava dizer em voz alta. A vontade de preencher todo o vazio que as circunstâncias haviam criado entre eles, onde cada carícia pudesse apagar os medos e a culpa que os acompanhavam.
Os suspiros e os movimentos sincronizados eram a única linguagem que conheciam. Não havia pressa, mas uma sede de viver aquele instante de forma completa, a fim de gravá-lo em suas memórias para os dias em que a distância e a realidade os separassem novamente.
Não era apenas desejo; era a conexão de duas almas que haviam se encontrado em meio ao caos. Cada toque, cada beijo, era um ato de reafirmação de que, apesar de tudo, havia algo maior entre eles.
Quando a noite avançou e seus corpos descansaram, o silêncio que tomou conta do quarto não era vazio, mas repleto de uma compreensão mútua.
Apesar de toda a intensidade, havia uma sombra sobre eles, um lembrete de que aquele momento era uma exceção, uma pausa no que os aguardava. E mesmo assim, enquanto Luís a abraçava e ela repousava a cabeça sobre o peito dele, ambos sabiam que aquele instante seria eterno dentro deles, um memorial em meio às tempestades que enfrentariam.
_*_
No último dia, após as últimas agendas de Sandra, que Luís fez questão de acompanhar, assim como nos outros dias, eles se sentaram na varanda do quarto do hotel, observando o sol se pôr.
Sandra estava aninhada nos braços de Luís, enquanto o horizonte tingia o céu de tons de laranja e rosa. O momento parecia perfeito, exceto pela despedida que se aproximava.
— Eu não quero que isso acabe. — Ele quebrou o silêncio. — Vamos encontrar um jeito, Sandra…
Ela se ajeitou nos braços dele, virando-se para encará-lo. Seus olhos estavam marejados, mas firmes.
— Você tem asas, Luís. Eu deixo pegadas. Lobos e águias são de mundos diferentes…
Ele franziu a testa, incapaz de aceitar o que ela estava dizendo.
— Mundos diferentes? Podemos construir o nosso próprio mundo juntos.
Ela sorriu tristemente, levando a mão ao rosto dele, acariciando-o suavemente.
— Eu quero tudo isso que você quer. Mas você voa, Luís. Você é pura intensidade. Eu tenho raízes e preciso do chão firme.
Ele segurou a mão dela contra seu rosto, fechando os olhos por um momento.
— Raízes podem ser arrancadas, Sandra. Ou replantadas. E eu, eu poderia cortar as minhas asas se fosse preciso.
Ela balançou a cabeça, os olhos se enchendo de água.
— Você acredita nisso agora, Luís. Mas e depois? Uma águia que se prende ao chão não esquece que nasceu para voar. E quando perceber que as asas que você cortou para ficar comigo são as mesmas que você precisa para ser feliz? Eu não quero que você se perca por minha causa. E eu também não posso me perder. A terra sob as patas do lobo é tão vital quanto o céu sobre sua cabeça; mas ele sabe que seu território é mais do que um espaço; é sua identidade.
Luís meneava a cabeça levemente, entendendo as metáforas que ela dizia.
— Mas por que não podemos tentar? Por que não podemos criar nosso próprio mundo? — Ele fez uma pausa, os olhos fixos nos dela. — Quem disse que o lobo precisa se prender ao chão e a águia precisa sempre voar? E se existisse um lugar entre o céu e a terra, onde os dois pudessem viver juntos?
Sandra o olhou, visivelmente abalada pela força das palavras dele.
— E onde seria esse lugar, Luís? — Sua voz voltara a ficar trêmula, pelas emoções daquela conversa. — Eu queria poder acreditar nisso. Mas e se criarmos esse lugar apenas para descobrir que ele não pode nos sustentar?
— Então, você acha que somos um erro.
Ela balançou a cabeça rapidamente.
— Não, não. Mas talvez estejamos tentando forçar algo que só pode existir em outra realidade. Como Aiyana e Iaraque, que desafiaram tudo, e o preço foi alto demais.
Luís riu, sem humor, desviando o olhar.
— Você realmente acredita nisso? Que somos como eles? Destinados a nunca dar certo?
Ela segurou a mão dele, apertando-a.
— Eu acredito que somos como eles no sentido de que amamos profundamente, mas também somos responsáveis por algo maior. E é essa responsabilidade que não podemos ignorar.
O silêncio pairou entre eles. O sol já começava a desaparecer completamente, deixando o céu com os últimos traços de luz. Luís finalmente suspirou, seu olhar suavizando.
— Eu sei que parece difícil... mas com você, Sandra, sinto que não importaria o lugar, mesmo que o caminho fosse impossível. Eu só quero tentar. Por nós. Porque seja no céu infinito ou na terra profunda, somos o eixo que equilibra o nosso mundo, onde quer que estejamos.
Sandra engoliu em seco, seu coração dividido entre a esperança que ele plantava e a realidade que ela carregava. Era uma batalha que parecia não ter fim.
— Sabe o que faz uma águia voar tão alto? Não é só o céu aberto. É a certeza do ninho que ela tem para voltar. O suporte que a mantém firme, e o descanso que ela precisa para alçar mais voos. E você tem isso com Larissa. Ela é esse ninho.
Luís abriu a boca para protestar, mas Sandra o impediu.
— Pensa comigo, Luís. Você mesmo me contou. Quando você quis mudar de emprego, foi Larissa quem te incentivou, quem te deu confiança. Foi ela quem segurou as pontas em casa enquanto você se dedicava a crescer na Arctos. Ela é parte do motivo pelo qual você é capaz de ser essa águia tão forte.
Luís ficou em silêncio, as palavras dela ressoando profundamente. Ele se lembrou de como Larissa havia ficado acordada até tarde revisando sua apresentação para aquela primeira grande promoção. Como ela sempre sabia o que dizer para aliviar sua ansiedade.
— E quanto a mim? — Sandra continuou, com a voz suave, mas firme. — Mauro não é perfeito. Nosso casamento teve problemas. Mas ele é como as minhas raízes. Ele é quem sempre me incentivou quando eu duvidei de mim mesma. Quando pensei em desistir de abrir meu próprio caminho profissional; é ele quem cuida de Caio para que eu possa avançar em meu trabalho. Ele nunca me deixou sozinha, Luís. Ele sempre foi o meu chão; que me faz sentir segura para deixar as pegadas.
Luís suspirou fundo, os olhos intensos, mas tristes.
— Então você está dizendo que devemos continuar com nossas vidas por causa deles? Porque são nosso suporte?
Ela balançou a cabeça lentamente.
— Não é só por eles, Luís. É por nós também. Porque o que sentimos, é real, sim. Mas não é sustentável. Você sabe disso. Estamos tentando fazer algo que, no processo, corremos o risco de perder o que já temos. Larissa e Mauro são parte do que nos tornamos hoje. Eles são o que nos ajuda a ser quem somos. E, sem isso, talvez nem tivéssemos nos encontrado assim.
Luís abaixou os olhos, lembrando de como Larissa sempre o apoiou. Ele sabia que, apesar de suas falhas, ela era a pessoa que tinha estado ao seu lado em todas as batalhas. E, por mais que amasse Sandra, ele não podia negar a verdade nas palavras dela.
— E se eu não quiser voltar para esse ninho? — Ele murmurou, quase num sussurro.
Sandra segurou as mãos dele com força, os olhos fixos nos dele.
— Então você precisa ser honesto consigo mesmo. É realmente o ninho que está te prendendo ou é o medo de enfrentar o que construiu? Só então, decida se quer abrir mão disso por algo que não tem garantias. Porque, Luís, eu posso não ser esse tipo de ninho para você. E você pode não ser o chão que preciso.
A dor nos olhos de Luís era evidente, mas também havia compreensão. Ele sabia que Sandra estava certa. Que o amor entre eles era poderoso, mas que também estava entrelaçado com escolhas difíceis e responsabilidades que eles não poderiam simplesmente abandonar.
— Você está certa, não está? — Disse ele, com uma tristeza resignada. — Eu odeio admitir isso, mas você está certa.
Ela não respondeu, apenas o abraçou, e o segurou com força, como se não quisesse deixá-lo ir.
— Eu te amo muito, Luís. Até mais do que deveria. Mas esse amor precisa ser a força que nos permita seguir em frente, não a que nos destrua.
Ele sorriu levemente, feliz por ouvi-la dizer que o amava. Ainda que com ressalvas.
— Apesar de tudo, eu me sinto seguro em saber que me ama, porque eu a amo tanto. Amo mais do que pensei que fosse capaz de amar alguém.
Eles se calaram por um longo tempo, apenas se olhando, como se quisessem memorizar cada detalhe. O sol já havia se posto, e a luz suave do crepúsculo envolvia os dois.
— Será que um dia, o lobo e a águia poderão ficar juntos? — Luís, indagou com a voz embargada e Sandra sentiu as lágrimas brotarem de seus olhos, mais uma vez.
— Talvez um dia. Mas não agora…
Luís respirou fundo, tentando controlar a vontade de chorar. Ele a puxou para mais perto, apoiando a testa contra a dela, como se esse simples contato pudesse segurá-la um pouco mais.
— Então, eu espero pela próxima vida. — Disse, com um tom de determinação misturado à tristeza. — E na próxima, eu prometo que vou fazer tudo certo.
Sandra o abraçou fortemente, e chorou como se o peito fosse explodir de dor. Ele também chorava, passando uma das mãos pelos cabelos dela, enquanto a segurava firme, com a outra.
Minutos depois, ela se acalmou, olhando para ele, e disse, ainda fungando:
— Talvez, na próxima, a gente não precise lutar tanto contra o mundo. Nem contra nós mesmos.
Ele acariciou seu rosto, limpando as lágrimas dela que escorriam.
— Eu só queria que tivéssemos mais tempo, Sandra. Só mais um pouco.
Ela balançou a cabeça suavemente, seus olhos encontrando os dele.
— O tempo nunca é suficiente quando o amor é tão grande. Mas mesmo esse pouco que tivemos... foi tudo. Foi tudo o que eu queria e precisava viver.
Luís inclinou-se e a beijou. Não havia pressa, nem urgência. Apenas a profundidade de tudo o que sentiam. Quando se afastaram, ambos estavam com os olhos molhados. Sandra deitou no peito dele, para sentir o seu calor e seu coração pela última vez.
— Precisamos ir. — Falou, com tristeza.
Ele assentiu, sem dizer mais nada. E ficaram ali, mais um pouco, abraçados na varanda, permitindo-se viver aquele último instante de conexão antes de seguirem seus caminhos separados, até... a próxima oportunidade.
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