Com o olhar distraído na tela do celular, enquanto segurava uma xícara de café, Sandra aguardava Paula no refeitório da agência. A amiga logo veio com a bandeja nas mãos, trazendo consigo um sorriso leve, antes de puxar a cadeira em frente à amiga e se sentar.

— Estou com tanta fome que poderia comer uma melancia inteira!

— Melancia, Paula? Com tanta coisa boa para se comer. — Sandra, descontraiu.

— Melancia é muito saudável e sacia bem, viu?

Sandra deu uma risadinha.

Paula começou a comer o seu pão, mas logo perguntou:

— Você está muito quieta hoje. Ontem você estava super feliz. Alguma coisa aconteceu?

— Nada demais, mas venho me perguntando: por que precisamos sentir tanta culpa, Paula? As pessoas podiam simplesmente... viver, sabe? Sem esse peso constante que parece corroer a alma — desabafou.

Paula arqueou uma sobrancelha, colocando o suco de lado.

— Culpa? Essa é uma questão profunda para um café de quarta-feira. — Disse com um sorriso brincalhão, mas logo suavizou o tom. — Mas, pensando bem... acho que a culpa é como um sinal, sabe. Um lembrete de que algo não está alinhado com o que acreditamos ou queremos para nós mesmos.

Sandra refletiu sobre as palavras da amiga.

— Mas... e quando você se sente presa entre ser feliz e sentir culpa? Quando o peso e a leveza coexistem o tempo todo? Isso é tão exaustivo. Eu só queria ser leve e feliz, pelo menos uma vez na minha vida.

Paula inclinou-se levemente para frente, apoiando os cotovelos na mesa, seu olhar firme, mas cheio de empatia.

— Sandra, leveza e felicidade não são coisas que simplesmente acontecem, é preciso lutar para tê-las. Além disso, exige coragem para reconhecer o que está nos puxando para baixo.

Sandra não respondeu de imediato. Apenas olhou para o copo à sua frente.

— Eu queria que existisse um jeito de me sentir completa, sem esses dois extremos me puxando para lados opostos. — Disse, com um sorriso fraco.

Paula a observou por um momento, como se escolhesse as palavras certas. Depois de um gole no suco, perguntou, num tom mais direto:

— Posso te fazer uma pergunta pessoal?

— Claro, pode perguntar.

— Você ainda ama o Mauro?

A pergunta pairou no ar, e Sandra automaticamente desviou o olhar. Um silêncio se instalou, mas Paula não pressionou, aguardando pacientemente.

Sandra finalmente suspirou e deixou a xícara de lado, inclinando-se um pouco para trás na cadeira.

— Essa é uma pergunta que eu venho tentando responder para mim mesma há um tempo, sabe? — começou, com um sorriso melancólico.

Ela ficou em silêncio por mais um momento, como se estivesse buscando as palavras certas ou, talvez, coragem para dizê-las.

— Eu lembro de quando nos conhecemos... — começou, com um olhar distante. — Ele era tão carinhoso, tão dedicado. Fazia questão de estar presente em tudo. Quando estávamos namorando, ele me levava flores sem motivo algum, só porque sabia que eu gostava.

Paula continuou ouvindo atentamente, sem interromper.

— Quando nos casamos, ele fazia planos para o futuro, falava sobre filhos, viagens, coisas que queríamos conquistar juntos. E quando Caio nasceu, vi um lado dele que eu nem imaginava. Ele é um pai maravilhoso, tão carinhoso, tão protetor.

Um pequeno sorriso surgiu no rosto de Sandra, mas logo desapareceu.

— Mas, sabe... as coisas mudam. O tempo passa, as responsabilidades aumentam, e de alguma forma a gente se perde no meio disso tudo. Ele continua sendo o homem incrível que sempre foi, mas…

Ela fez uma pausa, mordendo levemente o lábio inferior.

— Acho que o amor ainda está lá. Eu amo o Mauro, sim, mas... é diferente agora. Não é aquele amor vibrante, cheio de sonhos e expectativas. É mais... um carinho profundo.

Paula franziu levemente a testa, inclinando-se um pouco mais para frente.

— E isso é suficiente para você?

Sandra olhou para Paula, como se a pergunta tivesse atingido algo profundo dentro dela.

— Não sei, Paula. Talvez eu tenha me acostumado a pensar que deveria ser. Mas, ao mesmo tempo, me sinto culpada por não estar completamente feliz, porque ele não merece isso. Ele merece alguém que seja inteira para ele, e não alguém dividida entre o que sente e o que deveria sentir. Eu também mereço isso.

Paula assentiu, com um sorriso gentil, mas um pouco triste.

— Ninguém é completamente inteira, Sandra. Todos nós temos nossas lacunas, nossos pedaços que ainda estamos tentando juntar. O importante é ser honesta consigo mesma e com ele sobre o que você sente, porque fingir estar completa é o que realmente destrói.

Sandra balançou a cabeça como se concordasse.

— Talvez você esteja certa... Mas isso não torna tudo mais fácil.

— As coisas importantes raramente são fáceis, amiga. Apenas tente entender o que realmente quer.

_*_


Luís estava sentado em sua poltrona favorita, com o livro da Lenda do Lobo e da Águia nas mãos. Ele estava na metade da história, e seus olhos percorriam as palavras com atenção crescente. Havia algo naquela narrativa que parecia prender mais do que sua curiosidade. Era como se cada página falasse de sua vida. Do que estava vivendo.

"Iaraque estava à beira do rio, o corpo rígido enquanto o velho ancião Kaaporu o encarava com olhos carregados de sabedoria e decepção. A luz da lua cheia refletia nas águas tranquilas, como se Selene, a deusa, estivesse observando a conversa de longe.

— Você está brincando com forças que não entende, Iaraque — disse o ancião, a voz grave e firme, ecoando na noite. — O amor que sente por Aiyana não é algo errado, mas a forma como está lidando com ele pode destruir o que juramos proteger.

Iaraque cruzou os braços, desafiador, mas havia um lampejo de insegurança em seu olhar.

— E por que o amor deve ser punido, Chefe Akoru? Se é tão puro, tão verdadeiro, por que Selene nos colocaria um ao lado do outro para depois nos separar? — Sua voz era de frustração.

O ancião respirou fundo, como se entendesse o conflito.

— O amor não é uma punição, Iaraque, mas uma dádiva. É a maneira de Selene nos ensinar o equilíbrio. Mas o que você está fazendo não é amor; é desejo que coloca seu propósito acima de tudo. Você não está pensando no peso que suas escolhas terão em nossa aldeia, em nosso povo, e no equilíbrio que jurou proteger.

— O propósito... — Iaraque repetiu, negando com a cabeça. — Sempre o propósito. E a minha felicidade e de Aiyana? Não deve ser levada em consideração?

O ancião se aproximou lentamente, apoiando-se em seu cajado. Seus olhos brilhavam como se pudessem enxergar além das palavras de Iaraque, até o núcleo de sua alma.

— O verdadeiro amor requer sacrifício, Iaraque. Não é sobre possuir, mas sobre proteger. Você deve pedir perdão a Selene. Parar de se encontrar com Aiyana, às escondidas. E recomeçar. Caso contrário, não será apenas você que pagará o preço. Será ela e todo o nosso povo. A força que nos foi confiada se voltará contra nós, e tudo o que construímos será desfeito."


Luís fechou o livro, passando a mão pelo rosto. As palavras ecoavam em sua mente, trazendo uma inquietação que ele não conseguia ignorar.

O conflito de Iaraque parecia tão distante, mas ao mesmo tempo tão próximo. Assim como o guardião teimoso, ele também estava lutando contra algo que sabia ser arriscado, talvez até errado. Mas, como abrir mão? Como fingir que o que sentia por Sandra não existia? Ele sabia que as consequências poderiam ser desastrosas, mas não conseguia imaginar um mundo onde não a tivesse por perto.

Suspirou profundamente, como se livrar de tudo o que sentia. O ancião estava certo sobre o equilíbrio, sobre o impacto das escolhas. Mas será que ele, Luís, era forte o suficiente para fazer o que era certo?

Abriu o livro novamente, para voltar a ler, como se esperasse que as próximas páginas trouxessem uma resposta que sua mente não conseguia encontrar.

_*_


Mauro estava na cozinha, fritando um ovo enquanto sua mente travava uma batalha silenciosa. O cheiro familiar preenchia o ar. Seus olhos fixos no ovo dourando lentamente, mas os pensamentos estavam longe dali.

As palavras de Luís ecoavam em sua cabeça, como um veneno que ele não conseguia neutralizar. "Eu não preciso roubar Sandra de você. Ela sente o mesmo que eu." Isso o corroía. Será que Luís estava apenas tentando provocá-lo? Ou... será que havia algo de verdade naquela afirmação? O medo e a raiva se misturavam, criando um nó no estômago. Ele queria acreditar em Sandra, queria confiar nela, mas as dúvidas o sufocavam.

Ele sabia que seu casamento estava distante do que já foi um dia. Sandra parecia cada vez mais leve, mais feliz... mas não com ele. Não era ele a razão dos sorrisos ou do brilho que às vezes via em seus olhos. O medo de perdê-la o dominava, e a frustração de não saber como reconquistá-la era ainda mais devastadora. Ele queria mudar, queria lutar por ela, mas como lutar contra algo que ele nem sabia ao certo se era real?

Estava tão perdido nesses pensamentos que quase não percebeu quando Sandra entrou na cozinha. Ela se aproximou silenciosamente, inclinou-se e lhe deu um beijo no rosto. Foi algo simples, mas que o pegou de surpresa. Ela não fazia isso há tempos.

— Quer um pão com ovo também? — perguntou, tentando esconder a confusão interna atrás de um tom casual.

— Quero sim. — respondeu simplesmente enquanto sentava-se na mesa.

Ele começou a preparar outro ovo. Por um momento, o ambiente parecia normal. Mas Mauro não conseguia relaxar. Ele estava atento a cada palavra, a cada gesto dela, buscando sinais que pudessem confirmar ou dissipar suas dúvidas.

Sandra quebrou o silêncio: — Minha chefe falou comigo hoje sobre uma conferência.

Mauro virou levemente a cabeça, atento. — Ah, é? Que tipo de conferência?

— Sobre Publicidade Ética e Inclusiva. Estratégias voltadas para valores sociais, diversidade e inclusão. É uma grande oportunidade profissional, pois estarão os melhores publicitários de cada agência. Vai ser em Curitiba.

Curitiba. A palavra soou estranha nos ouvidos de Mauro. Distante. O nó no estômago apertou.

— Curitiba? E você vai sozinha? — perguntou, com a voz controlada, mas firme.

Sandra riu baixinho, aparentemente alheia à rigidez na voz dele. — Claro, Mauro. Como sempre fiz.

Ele virou-se, servindo o pão com ovo no prato dela antes de voltar ao fogão. Tentava agir casualmente, mas por dentro a batalha continuava.

— Quando vai ser isso? — perguntou, ainda de costas.

— Semana que vem. Vou ficar fora por três dias. Você pode ficar com o Caio? Ou, se for complicado, posso deixá-lo na casa da minha mãe.

Mauro desligou o fogo, respirando fundo.

— Não precisa levar ele para a sua mãe. Eu fico com ele.

Sandra assentiu, mordendo um pedaço do pão. — Obrigada. Vai ser bom ele passar um tempo com você.

— E essa conferência... é mesmo necessário você ir?

Sandra ergueu os olhos, um tanto surpresa com a pergunta. — Mauro, faz parte do meu trabalho.

Ele apertou os lábios, lutando contra o impulso de dizer algo que pudesse piorar a situação. — Eu sei... só... é difícil não pensar em certas coisas.

— Que coisas? — Sandra perguntou, franzindo a testa.

Mauro hesitou, mas não queria expor suas incertezas agora. Ele precisava pensar com clareza, precisava agir com cuidado.

— Nada. bobagens... — disse, forçando um sorriso, voltando-se para a pia.

Enquanto lavava a frigideira, ele olhou para o reflexo na janela. E se Luís estivesse certo? Esse pensamento o assombrava. Mas ao mesmo tempo, ele se perguntava se não era exatamente isso que Luís queria: colocá-lo contra Sandra, afastá-la ainda mais.

Decidiu, enquanto enxaguava a frigideira, que não deixaria ele vencer. Ele precisava encontrar uma maneira de trazer Sandra de volta para ele, de fazê-la lembrar do que tinham juntos. Mas o medo continuava ali, persistente, como uma sombra. Afinal, ele sabia que uma reconquista não seria suficiente se a conexão que tinham já estivesse perdida.

_*_


À noite, Sandra estava sentada em sua cama, com as pernas cruzadas, enquanto passava os olhos pelas redes sociais, pesquisando sobre Curitiba. Aproveitaria essa viagem para colocar a cabeça no lugar. O som da vibração do celular trouxe-a de volta à realidade. Era uma mensagem dele:

"Estou com saudades, Sandra. Preciso te ver."

Seu coração acelerou. As memórias daquela noite, da intensidade do que compartilharam, voltaram com força total. Mas, junto com as lembranças, vinha a sua acompanhante: a culpa. Lembrou-se do rosto de Larissa quando a encontrou na escola, tão amável e despreocupada. Lembrou-se de Mauro, com suas tentativas de gentileza. Eram coisas que a deixava exausta.

Ela hesitou, mas respondeu:

"Luís... o que aconteceu foi muito bom, mas acho melhor darmos um tempo, sabe? Uns dias sem nos ver."

Ela apertou o enviar e largou o celular ao lado, como se o simples ato de enviar a mensagem drenasse suas energias. Segundos depois, a vibração anunciou outra mensagem.

"Uns dias? Por que, Sandra? Posso te buscar na agência amanhã, depois do expediente. Vamos dar uma volta…”

Ela leu a mensagem, suspirando profundamente. Antes que pudesse tomar coragem, outra mensagem chegou:

"Eu não vou te perder. A gente precisa um do outro. Você sabe disso."

Sandra sentiu o coração disparar. Ele estava insistindo, e isso a deixava dividida. Parte dela queria muito encontrá-lo, sentir novamente aquele momento de fuga da realidade. Mas a outra parte, a destruía por dentro.

"Luís, depois que ficamos juntos, eu vi a Larissa na porta da escola… aquilo me quebrou, sabe… ela é tão meiga, não merece isso… além do mais, tem Mauro, ele também não merece e acho que está ele desconfiando… Por favor, vamos dar um tempo."

Minutos se passaram sem resposta, e ela achou que ele havia entendido, pois havia visualizado a mensagem. Mas então o celular vibrou mais uma vez:

"Eu só vou te pedir isso. Deixe-me te ver amanhã. Nada mais."

Sandra deixou o celular na mesinha de cabeceira. Ela sempre fora uma mulher decidida, sem problemas de ignorar ou eliminar certas questões que poderiam tirar o seu foco ou do controle das coisas, mas havia algo em Luís, e na intensidade daquele sentimento, que a fazia hesitar. Apagou a mensagem antes de Mauro entrar no quarto. Ele acabara de desligar o chuveiro. E quando ele se deitou, já estava com a sua luminária apagada, virada para o lado oposto ao dele. Não podia vê-lo, mas sentia ele a olhando como se soubesse de seus segredos.


Notas finais
"Às vezes, somos o lobo que luta para sobreviver; outras, somos a águia que aprende a superar."