O coffee break estava em pleno andamento. Risos e conversas ecoavam pela sala elegantemente decorada da Arctos, com mesas de café estrategicamente dispostas e banners exibindo os valores e conquistas da fusão. Sandra chegou pontualmente, mas optou por permanecer mais próxima de pessoas de outras agências publicitárias, mantendo um ar profissional. Luís, por sua vez, estava cumprimentando parceiros da Lupine, mas seus olhos frequentemente buscavam por ela.

Depois de alguns minutos, ele finalmente a encontrou. Sandra estava perto da janela, segurando uma xícara de café e observando a paisagem. Luís aproximou-se, cauteloso, mas sorrindo.

— Achei que não ia vir — comentou com um tom leve.

— Eu disse que tentaria, e aqui estou. — Sandra respondeu, erguendo ligeiramente a xícara antes de dar um gole e colocá-la na mesa mais próxima. Ela enfiou a mão na bolsa e tirou um pequeno embrulho.

— Eu trouxe algo para você. Não é nada demais, só uma lembrança.

Luís, surpreso, pegou o pacote e desembrulhou. Dentro, estava um pequeno chaveiro de madeira, com uma águia esculpida. Ele passou os dedos pela textura detalhada, visivelmente encantado.

— Uma águia... É incrível. Obrigado. — Agradeceu, com um grande sorriso.

— Vi em um sebo que adoro visitar. Achei que tinha a sua cara. — Sandra disse, tentando disfarçar o significado mais profundo de sua escolha.

— Agora me sinto em dívida. Vou encontrar algo à altura para você. — Ele brincou, mas havia sinceridade em sua promessa.

Sandra deu de ombros, mas antes que pudesse responder, Luís inclinou levemente a cabeça, como se algo chamasse sua atenção.

— Essa marca no seu ombro... — começou, indicando-a sutilmente, visível pela blusa cavada que ela usava — é de nascença?

Sandra olhou de relance para a marca.

— Ah, não. Me machuquei já tem um tempinho. Achei que ia sumir, mas ficou essa cicatriz.

Luís relaxou, soltando um pequeno suspiro, como se estivesse aliviado.

— Por um momento, achei que… bobagens! Tudo aqui está excelente, não acha? — desconversou.

Ela concordou, contudo Sandra sabia exatamente aonde ele queria chegar. Ela manteve um sorriso profissional, mas sabia que Luís havia feito a conexão com a história da lenda, assim como ela mesma havia feito antes. O silêncio que se seguiu foi carregado de tensão. Ambos evitavam se olhar. Continuaram conversando sobre trivialidades, mas um leve incômodo pairava. Cada um carregava suas próprias dúvidas e certezas, como um segredo que insistia em vir à tona.

De longe, Arnaldo observava os dois. Ele via os sorrisos e os gestos aparentemente profissionais, mas sua experiência o fazia enxergar além. Sabia que algo a mais acontecia ali, mas não se envolveu. Luís precisaria lidar com aquilo sozinho.

Enquanto o coffee break prosseguia, Luís segurava o chaveiro em sua mão, apertando-o levemente. Algo dentro dele começava a questionar o que realmente estava sentido por Sandra.

E ela, mesmo sorrindo para os colegas e participando das conversas, alimentavam as dúvidas sobre a marca, o livro e Luís. Eram como um eco, sussurrando que o destino talvez estivesse brincando com eles de um jeito que nenhum dos dois conseguia mais controlar.

_*_


Sandra saiu do prédio do trabalho e encarou a chuva torrencial daquela tarde. Teimosa como era, achou que daria tempo de chegar ao ponto de ônibus, já que o seu carro estava na oficina mecânica, fazia dois dias. Ela suspirou, apertando a bolsa contra o corpo, tentando se proteger das gotas que já a molhavam e ficavam cada vez mais fortes.

Enquanto caminhava apressada pela calçada, sentiu a água inundar seus sapatos e o cabelo grudar no rosto. Já estava encharcada. Foi quando um carro preto parou ao seu lado e a janela se abaixou. Luís.

— Sandra? — Estava surpreso e preocupado. — O que você está fazendo debaixo dessa chuva?

Ela se virou, completamente molhada, e tentou sorrir, embora o desconforto fosse evidente.

— Meu carro está no mecânico, e eu não tinha ideia de que ia chover assim — respondeu, ofegante.

Ele abriu a porta do passageiro, sem hesitar.

— Entra. Agora.

— Luís, eu vou molhar todo o seu carro.

— E eu vou ficar aqui discutindo com você enquanto pega um resfriado? Entra logo, vai. — Ele insistiu, mas de modo gentil.

Relutante, Sandra entrou no carro, tentando secar as mãos na roupa pingando água. Luís a observou por um instante antes de dar uma risada suave.

— Você está parecendo um gato molhado. — Ela revirou os olhos, mas não conseguiu se conter e os dois caíram na gargalhada.

— E você está parecendo muito engraçadinho 'pro meu gosto. — Retrucou, cruzando os braços, sentindo o frio começar a subir pelo corpo.

Durante o trajeto, conversando, Luís notou que ela tremia. Sem pensar duas vezes, encostou o carro em um canto seguro e ligou o aquecedor.

— O que está fazendo? — Ela perguntou, confusa.

— Você está tremendo de frio. Não vou deixar você congelar no banco do meu carro — alcançou o banco de trás e pegou um casaco. — Aqui, coloca isso. Vai ajudar.

Enquanto começava a se cobrir com o casaco, ele veio e a ajudou, envolvendo-a naquele pedaço de tecido, e ao fazer isso, seus dedos roçaram a pele arrepiada dela, fazendo ambos se retraírem por um momento.

— Pronto. Agora você está quentinha. — Exibiu um sorriso gentil, perigosamente perto demais. — E está oficialmente proibida de ficar doente — apertou levemente o nariz dela com dois dedos.

Sandra riu com a descontração e seus olhos encontraram os dele, como sempre acontecia.

— Se eu puder fazer algo mais... — ele completou, com a voz mais baixa, descendo o olhar para a sua boca.

Sandra engoliu em seco, sentindo aquela proximidade. Mas forçou um sorriso para aliviar a tensão.

— Você já está fazendo muito, obrigada…

Hesitante, Luís assentiu, saindo de perto dela e ligando o carro novamente. O resto do trajeto foi silencioso, com um silêncio desconfortável, cheio de algo que ambos não ousavam nomear.

Quando chegaram em frente à casa de Sandra, ele parou o carro e olhou para ela.

— Chegamos. Se precisar de mais alguma coisa, é só me ligar, tá bom? — Seu sorriso quase tímido.

Sandra tirou o casaco de cima de si e entregou a ele, não querendo, de fato, fazer aquilo.

— Por favor, fique com ele. Vai se resfriar. — Pediu Luís.

— Melhor não… mas agradeço, de verdade.

Luís assentiu, compreendendo. Ela saiu do carro, enquanto ele esperava até que ela entrasse em casa. No trajeto de volta, não conseguiu afastar o pensamento de que aquele momento no carro, por mais simples que fosse, havia mudado a dinâmica entre eles.


_*_


Dias depois…


A conversa na Arctos & Lupine estava descontraída. Arnaldo, Luís e Fabrício estavam sentados, discutindo os impactos positivos que a inovação da empresa estava causando no mercado.

— Vocês viram isso aqui, rapazes? — Arnaldo jogou uma revista em cima da mesa, enquanto se sentava. — Entramos para a lista das empresas mais inovadoras do setor. Esse foco na sustentabilidade foi o tiro certeiro.

— Exato! — comemorou Luís. — As outras empresas não tiveram coragem ou visão suficiente. Isso nos colocou à frente, não só no mercado de inovação, mas também como referência em responsabilidade social. Era o que eu insistia em dizer, há anos, aqui dentro.

Fabrício, rindo, completou:

— É, Luís Marcos, você realmente tem olhos de águia — e riram com o trocadilho. — Agora estamos no radar de investidores que sequer olhavam pra gente. Isso nos coloca no topo da cadeia alimentar, amigos.

— Com certeza. E obriga o mercado a olhar para esse modelo de liderança que será exemplo para as outras empresas — afirmou, Arnaldo.

— E falando em inovação — disse, Fabrício —, estou querendo inovar minha vida pessoal também — deu um risinho cínico.

— Lá vem… — Arnaldo comentou, conhecendo as artimanhas do colega de trabalho.

— Aliás, vi um possível investimento dias atrás, no coffee break, que acredito que possa dar ótimos resultados. — Usou um tom de voz malicioso — Sabe aquela publicitária da Prisma? — Perguntou e Luis franziu o cenho imediatamente.

— Você está falando da Sandra?

— É, acho que era esse o nome. Não é de se jogar fora, viu. Ela é solteira? Se bem que se for casada, pego do mesmo jeito — O tom de Fabrício era despreocupado, mas de uma insinuação desrespeitosa.

Luís sentiu o sangue subir à cabeça e o rebateu, ríspido.

— O que disse??

Arnaldo deu um leve toque em seu braço, como um alerta silencioso para manter a calma. Luís respirou fundo, mas não deixaria isso passar assim. Levantou-se da mesa.

— Fabrício, vou te dar um único aviso. Aqui na Arctos, respeitamos as mulheres, sejam elas parte da nossa equipe ou de empresas parceiras. Se eu ouvir mais algum comentário desse tipo vindo de você, vou considerar seriamente o seu desligamento.

Fabrício assustou-se, e constrangido, começou a balbuciar uma desculpa.

— Calma, Luís… foi só uma brincadeira… eu só disse…

— Já disse o suficiente. Agora pode sair.

Fabrício acenou rapidamente, pegou suas coisas e saiu da sala, visivelmente desconfortável.

Quando a porta se fechou, Luís colocou as mãos na cintura, e bufou, cabisbaixo, sabendo que tinha passado um pouco do limite. O amigo o observava com certa preocupação.

— Você sabe que ele não vale a sua raiva, certo? — Arnaldo falou, cauteloso.

— Eu sei. É só que... — Luís passou a mão pelos cabelos — ando estressado com tudo. Perdi a cabeça.

— Não acho que seja só sobre o Fabrício.

Luís ia dizer algo, mas hesitou:

— Não quero falar sobre isso agora.

— Tudo bem. Mas sabe que pode desabafar a qualquer hora, não sabe?

Luís balançou a cabeça afirmativamente, ainda olhando para o chão.

Arnaldo entendeu o recado e saiu da sala. Sabia que algumas batalhas eram travadas sozinhas e que, naquele momento, o melhor era respeitar o espaço de Luís.

_*_


O cursor piscava no monitor à sua frente, enquanto sua mente estava em outro lugar. Pegou o celular, abriu o aplicativo de mensagens e ficou olhando para a tela, o nome de Luís destacado no topo da lista. Pensou em escrever um agradecimento simples, para aliviar a tensão que parecia pairar entre eles desde aquela noite, no carro.

Mas o que diria? "Obrigada pela carona"? "Espero que o seu carro esteja seco agora"? Nada parecia certo. Suspirou e bloqueou a tela, decidindo que o melhor era deixar tudo como estava.

Instantaneamente, o som de uma notificação a fez pular levemente na cadeira. Ela olhou para o celular e, para sua surpresa, era uma mensagem de Luís.

"Oi, Sandra. Tudo bem? Estava pensando em você depois de toda aquela chuva. Como você está? Recuperada do susto de ficar molhada até os ossos? Desculpe, queria ter mandado mensagem antes, mas essa correria aqui na Arctos…"

Ela riu sozinha, aliviada pela abordagem leve e respondeu:

"Oi, Luís, fique tranquilo, sei que está trabalhando muito, e por aqui também não está diferente… Estou bem, obrigada, só um pouco sem graça por ter transformado seu carro em um aquário. Estraguei muito ele?"

A resposta veio quase imediatamente:

"Nem um pouco. Nada que não seque. Mas você esqueceu algo no carro."

Ela estreitou os olhos. "Esqueci? O que foi?"

"Surpresa", ele respondeu, com um emoji piscando. "Vc já está com o seu carro? Espero que não, pois pensei em te pegar no fim do expediente e te dar uma carona"

Sandra digitou apressadamente, sentindo as bochechas esquentarem. "Inclusive vou buscá-lo hoje rsrs. Não precisa se preocupar, Luís. Vou pegar um táxi."

A resposta dele foi firme e direta: "Sem chance, você vai comigo. Te pego às 18h. Sem discussões."

Ela suspirou, balançando a cabeça. Luís tinha um jeito de ser insistente, e, no fundo, uma parte dela se sentia aliviada por tudo estar bem entre eles. Mas outra parte sabia que passar mais tempo com ele só aumentaria os seus conflitos.

"Ok, mas prometo que vou te recompensar," ela respondeu.

"Você já me recompensa, Sandra. Às 18h."

Luís sempre conseguia deixá-la intrigada, mesmo quando tentava manter o controle. E agora, só conseguia pensar o que ela teria esquecido no carro dele.

Às seis e doze, Luís estava estacionado em frente à agência Prisma, esperando por Sandra. Ele a viu sair pela porta principal, carregando a bolsa de um lado e um casaco no outro braço. Quando seus olhos se encontraram, ela sorriu levemente e apressou o passo em direção ao carro.

— Me atrasei um pouquinho… Obrigada por vir me buscar. — disse, entrando no carro e ajeitando o casaco no colo.

— Nada demais. Gosto de te ajudar. — Ofereceu o seu sorriso fácil de sempre.

No caminho, os dois conversavam sobre o trabalho, os filhos, as demandas do dia a dia. Durante um momento em que ambos riam de alguma história contada por ele, seus dedos se tocaram casualmente. Ela recolheu a mão rapidamente, e ele a olhou de relance.

Estacionou o carro em uma rua próxima à oficina onde o carro dela estava. Ele se virou para Sandra, com o olhar suavemente fixado no dela.

— Agora… — Luis disse, de repente, alcançando algo no console central, e entregou a ela um pequeno objeto embrulhado em papel escuro. — Isso aqui é para você.

Sandra olhou para ele, surpresa.

— Para mim? Mas... você disse que eu tinha esquecido algo no carro. Não era verdade, era?

— Não exatamente. Eu vi isso no Mercado de Pulgas e pensei que era a sua cara.

Ela desembrulhou o presente com cuidado, revelando uma bússola antiga, com um intrincado desenho de um lobo gravado na tampa de metal. Seus olhos brilharam ao examinar o objeto.

— É lindo, Luís. — disse, com a voz mais baixa, emocionada. Ela passou o dedo suavemente sobre o símbolo do animal, enquanto ele observava cada detalhe de sua reação.

— Achei que combinava com você. — explicou ele. — Sabe, por causa de tudo... a lenda, o livro. E você, bem... você é o lobo.

Ela riu suavemente, mas seus olhos ainda estavam fixos no presente, marejados. — E você é a águia… — disse baixo, ainda passando os dedos distraidamente pela bússola.

— É engraçado, não é? — Ele falou, reflexivo. — Como algumas coisas parecem tão... conectadas. Como se já estivessem escritas.

Sandra sorriu de leve e completou:

— Como se já estivessem escritas em um livro…

Luís se lembrou de uma passagem do livro e disse:

— Iaraque foi levado ao céu, tornando-se uma águia, enquanto…

— … Aiyana se tornou um lobo, e uma busca eterna se iniciou — ela completou, automaticamente e, juntos, completaram o trecho final: — esperando pelo dia em que se reencontrariam.

Imediatamente seus olhos se encontraram e, naquele instante, o mundo ao redor parou. Não havia som, movimento ou qualquer outra coisa além da presença um do outro. Seus corações aceleraram, batendo em um ritmo descompassado, mas em perfeita sintonia.

O olhar que compartilhavam era mais do que simples contato visual; era um mergulho profundo, quase avassalador, em algo que eles não compreendiam. Havia uma sensação de reconhecimento ali, e, por um breve momento, a lenda deixou de ser apenas palavras em um livro. Ela se tornou viva como se, pela primeira vez, a história de Iaraque e Aiyana fizesse sentido. Eles se viram como mais do que Luís e Sandra; se viram como algo que sempre existiu, mas nunca foi plenamente compreendido. Aquilo era intrigante e, maravilhosamente, emocionante.

Segundos, talvez minutos, se passaram, mas que pareciam horas, e finalmente, ambos piscaram, voltando à realidade.

Sandra levou uma mão ao peito, respirando fundo. Luís passou a mão pelo cabelo, num gesto nervoso.

— Isso foi... estranho — murmurou Luís, mais para si mesmo do que para ela.

— Foi como... — Sandra começou, mas interrompeu-se, balançando a cabeça, como se rejeitasse o pensamento. — Não importa.

Ele inclinou-se levemente para frente, como se quisesse entender mais do que ela estava disposta a dizer. — Como se o quê?

Ela suspirou, desviando o olhar para a janela. — Como se algo maior estivesse nos empurrando para alguma direção…

Luís tocou de leve a mão dela, seus dedos roçando os dela em um gesto quase imperceptível. O contato foi breve, mas suficiente para criar outra onda de emoções.

— Você é um mistério, Sandra. — sussurrou.

Os dois estavam tão próximos que podiam sentir a respiração um do outro. Ele intensificou o toque na mão dela, entrelaçando os dedos. Sandra fechou os olhos por um breve momento, juntando todas as forças dentro de si para não ceder. Luís também lutava.

Ela o encarou, mais uma vez, sentindo que ele queria dizer algo mais, mas optou por manter a distância emocional. Guardou a bússola com cuidado em sua bolsa e agradeceu com um sorriso gentil.

— Obrigada, pelo presente... e pela carona. Significa muito.

— Sempre que precisar. — respondeu ele, sincero.

Sandra saiu do carro e caminhou até a oficina. Quando estava prestes a entrar, virou-se para ele, ainda observando-a e deu um breve sinal de despedida. Ele apenas acenou, mas por dentro, uma tempestade de sentimentos o consumia.

Assim que ela desapareceu de vista, Luís encostou a cabeça no encosto do banco, respirando fundo, enquanto a frase ecoava em sua mente: "e uma busca eterna se iniciou, esperando pelo dia em que se reencontrariam…"

Naquela noite, nenhum dos dois conseguiu dormir bem. E quando adormeceram, ainda que por um momento, sonharam com a montanha, a lua cheia, e dois guerreiros com os seus respectivos animais, se olhando ao longe sem poder se aproximar.

_*_


Sandra entrou apressada no banheiro da agência, tentando manter a compostura até chegar ao último box. Fechou a porta, apoiou as mãos na parede fria e deixou escapar um soluço abafado. Seu peito parecia prestes a explodir com tudo o que vinha segurando há dias. As lágrimas começaram a cair, silenciosas no início, mas logo se transformaram em um choro profundo, doloroso, como se estivesse exorcizando algo que não podia mais conter.

A porta do banheiro se abriu, e passos ecoaram no piso de azulejos. Sandra prendeu a respiração, tentando se recompor.

— Sandra? É você? — A voz de Paula, sua colega de trabalho, soou preocupada.

Sandra limpou o rosto apressadamente com as mãos, mas sua voz a traiu ao responder.

— Estou aqui, Paula. Só... só um momento.

Paula, desconfiada, ficou em silêncio por um instante antes de responder.

— Estou lá fora, tá bom?

Alguns minutos depois, Sandra saiu do box, o rosto visivelmente abatido. Paula estava encostada na pia, com os braços cruzados, olhando para ela com uma expressão de pura empatia.

— O que aconteceu? — Perguntou suavemente. — Não precisa fingir que está tudo bem. Dá para ver que não está.

Sandra tentou disfarçar, mas os olhos marejados a entregaram. Então, sem aviso, ela desabou. As lágrimas voltaram, e Paula a abraçou sem hesitar.

— Vamos sair daqui. — Disse Paula, guiando-a até uma sala de reuniões vazia.

Sandra sentou em uma cadeira, tentando controlar o choro, enquanto Paula fechava a porta e puxava outra cadeira para se sentar ao lado dela.

— Pronto. Agora respira. O que está acontecendo? — Perguntou, com um tom calmo e acolhedor.

Sandra respirou fundo, hesitando. Mas havia algo em Paula que a fazia sentir que podia confiar nela.

— Eu... eu estou emocionalmente envolvida com alguém, Paula. — Disse finalmente, a voz tremendo. — Não é o meu marido.

Paula ergueu as sobrancelhas, mas não pareceu surpresa. Apenas esperou que Sandra continuasse.

— É o Luís... o Luís Marcos da Arctos. — Disse ela, quase sussurrando.

Paula inclinou a cabeça, como se conectasse os pontos em sua mente.

— Luís? O mesmo Luís com quem você tem trabalhado nos últimos meses?

Sandra assentiu, envergonhada.

— Eu sei que é errado. Sei que não deveria sentir isso, mas… está acontecendo; tem algo... parece que a gente… como se... — tentava encontrar as palavras.

— ... como se houvesse uma conexão inexplicável? — Completou Paula, com um brilho nos olhos.

Sandra a olhou surpresa.

— Sim…. Como você sabe?

Paula sorriu, com um ar quase enigmático.

— Porque já vi isso acontecer antes… Enfim, às vezes, a vida coloca pessoas no nosso caminho com um propósito maior. Elas vêm para nos ensinar algo, para nos transformar. E nem sempre é fácil, porque essas conexões mexem com o que há de mais profundo em nós.

Paula disse, cheia de convicção e Sandra ficou em silêncio, absorvendo as palavras.

— Mas por que isso agora? Por que assim? — Sandra perguntou, quase em desespero.

Paula segurou a mão dela, como se quisesse transmitir conforto.

— Porque talvez seja um ciclo que está pedindo para ser fechado. Não estou dizendo que você deve seguir esse sentimento, Sandra, mas você precisa ouvir o que ele está tentando dizer. Esses encontros, essas conexões... às vezes, não são sobre o outro. São sobre nós mesmos. Sobre o que deixamos para trás, o que negamos, o que ainda precisa de equilíbrio.

Sandra foi ouvindo e se acalmando, como se Paula estivesse tocando em algo que ela mal conseguia compreender, mas que fazia sentido de uma forma assustadora.

— Equilíbrio?

— Ciclos só se fecham quando aprendemos o que eles vieram ensinar. Talvez, só talvez, Sandra, o que você está vivendo agora seja uma oportunidade de olhar para algo que sempre esteve aí, esperando.

— E se eu não quiser olhar?

Paula suspirou de leve.

— Os ciclos não perguntam se queremos olhar. Eles simplesmente aparecem. E, até encararmos, eles continuam voltando... de formas diferentes, mas sempre pedindo a mesma coisa: equilíbrio.

Sandra, ainda intrigada, nada falou. Paula manteve o tom leve ao concluir:

— Quando você estiver pronta para entender o que isso significa, me procure. Às vezes, só precisamos compartilhar o que nos assusta para clarear a nossa visão e para as peças começarem a se encaixar.

Sandra deixou escapar um suspiro longo, sentindo-se aliviada.

— Eu nunca falei isso para ninguém.

Paula apertou a mão dela com carinho.

— Você precisava tirar isso de dentro. Agora respira, tá bom? Tudo vai se ajeitar. Você é forte. Ah, e pode confiar em mim.

— Muito obrigada. Você nem imagina o quanto me ajudou.

Enquanto voltava para sua mesa, Sandra sentia-se um pouco mais leve. Ela ainda não sabia, mas as palavras de Paula começaram a plantar sementes de reflexão.


_*_


Luís gritava no celular pressionado contra o ouvido. A voz no outro lado da linha era a de Fabrício, e a conversa já havia passado do ponto da paciência.

— Não me interessa, Fabrício! Isso já passou do prazo. É para resolver o problema, não criar mais desculpas! — Sua voz reverberando nas paredes do pequeno espaço da sua biblioteca residencial.

Fabrício tentou argumentar, mas Luís já estava além do ponto de escutar.

— Fale com sua equipe. Chega! Preciso de resultados! Amanhã cedo, a solução precisa estar na minha mesa. Ponto final. — Ele encerrou a ligação com um toque irritado na tela do celular.

Luís apoiou as mãos na mesa e respirou fundo, tentando se controlar. Passou os dedos pelos cabelos, em um gesto automático de frustração. Seu coração estava acelerado, não apenas pela briga com Fabrício, mas pela soma de tudo o que ele vinha tentando controlar e que, claramente, estava escapando pelos dedos.

Ele saiu do escritório, passando pela sala, onde Larissa e os dois filhos estavam assistindo a um programa na televisão. Assim que ele apareceu, todos o olhavam com expressões que misturavam surpresa e preocupação.

— Desculpem. — Murmurou, e sem esperar resposta, foi direto para a varanda. O ar fresco da noite o atingiu, e ele fechou os olhos, deixando escapar um longo suspiro. Tudo parecia fora de controle: o trabalho, os sentimentos, seu casamento que sempre esteve fora de perigo. Ele se apoiou na grade da varanda, olhando para o céu estrelado, tentando encontrar algum tipo de equilíbrio.

— Pai? — A voz de Lucca interrompeu seus pensamentos. Luís virou-se para ver o filho mais velho, que se aproximava devagar, com as mãos nos bolsos. — Você está bem? Posso fazer alguma coisa? — Perguntou, com uma preocupação genuína no olhar.

Luís sorriu de leve, tentando tranquilizá-lo.

— Estou bem, filho. Só... estressado demais. Nada com que você precise se preocupar, tá bom.

Lucca hesitou, depois se aproximou um pouco mais.

— É que a gente nunca te viu desse jeito… ficamos preocupados.

— Eu sei, filho. É só uma fase, mas já vai passar. Depois vou conversar com sua mãe e com o Igor. Pedir desculpas. Vocês não merecem isso — lamentou.

O filho apenas meneou a cabeça, ainda pensativo.

— Mas me fala, filho — emendou Luís —, e a faculdade? Como está indo?

— Ah, estou tendo dificuldades com Física Quântica, mas tá dando pra levar.

— Não é a minha área, mas se eu não puder ajudar, a gente encontra alguém que possa.

— Tá de boa.

— E as garotas, hã? — Perguntou, e o filho deu um sorrisinho. — Então, tem mesmo uma garota? — Luís riu.

— Já que você tocou no assunto… tem uma garota sim. — Começou meio tímido — Mas eu não sei como… quero dizer, e se ela me der um fora?

Luís ficou surpreso com a confissão, mas imediatamente mudou seu tom para algo mais descontraído.

— Hum, então tem alguém tirando o sono do meu filhão? — Ele deu um sorriso mais sincero e colocou a mão no ombro do filho. — Lucca, sabe o que eu aprendi? Você nunca vai saber o que pode acontecer até tentar. Às vezes, a gente precisa dar o primeiro passo, mesmo sem garantias.

— Mas e se eu fizer isso e ela me esnobar?

— Então você aprende que ela não é a garota certa para você, e segue em frente. — Luís olhou para o filho com carinho. — Gostar de alguém é complicado, Lucca. Não importa se você tem 17 ou 40 anos. Mas vale a pena tentar, mesmo que o resultado não seja o que você espera.

Lucca pareceu ponderar as palavras por um momento antes de sorrir de leve.

— Valeu, pai. Acho que vou tentar.

Luís bagunçou os cabelos do filho com um gesto carinhoso.

— É isso aí. Agora vai lá tranquilizar a sua mãe, daqui a pouco eu vou lá.

Enquanto Lucca voltava para dentro, Luís permaneceu na varanda, olhando para o céu estrelado. Sua mente voltou-se para Sandra e o que eles estavam vivendo. O conselho que acabara de dar ao filho era algo que ele mesmo queria, mas sabia que não podia fazer.


Notas finais
"O desequilíbrio que eles criaram como guardiões tornou-se o fio que os une pelas eras, uma busca incessante por harmonia que só pode ser encontrada quando aprenderem a respeitar as leis que um dia quebraram." (A lenda do Lobo e da Águia)