SOBRE LOBOS E ÁGUIAS
3 Capítulo 3
— ‘Tá, tudo bem? — Pergunta Larissa ao ver o marido se sentando para tomar café, com uma expressão cansada no rosto.
— Não dormi nada à noite. Vou tomar um café forte porque hoje o dia vai ser cheio.
— Mas hoje é sábado, Luís… — reclamou.
— Eu sei, mas estamos trabalhando na fusão das empresas. Aquela que te falei, lembra?
Larissa apenas balançou a cabeça em concordância. Luís se levantou e a abraçou por trás, beijando o seu rosto.
— Prometo que vou fazer o possível para agilizar isso; mas não depende só de mim… não fica brava…
— Não estou brava, mas já percebi que você gerenciando essa nova filial, quase não vai sobrar tempo pra gente. Eu te conheço, senhor Luís.
— A gente sabia como seria, Larissa, mas vamos tentar, juntos, como sempre fazemos, tá bom. — e lhe deu um beijo. — Eu te amo.
— Também te amo. Vou pedir o Lucca para me ajudar com essas caixas. Ainda tem muita coisa da mudança para colocar no lugar.
Luís foi saindo para se arrumar e a esposa o lembrou:
— Ah, não esqueça de que tem que levar o Igor na casa do Caio. Falei com a mãe dele ontem e já está tudo acertado. Parece gente boa. O Igor não fala de outra coisa.
— Eu esqueci disso… você não poderia levá-lo e eu busco?
Imediatamente, a esposa colocou as mãos na cintura em sinal de incredulidade.
— Por favor… — fez uma cara de cachorro que caiu da mudança, fazendo ela se render.
_*_
Larissa deu uma rápida buzinada na porta da casa de Caio. Igor desceu empolgado do carro e, antes de interfonar, o amiguinho abriu o portão para recebê-lo. Correram para dentro da casa quase atropelando Sandra no caminho.
— Ei, Igor! — chamou a mãe.
— Passaram como dois foguetes, por mim — disse Sandra, chegando próxima à janela do carro.
— Nem falou tchau — riu. — Como vai? Sou a Larissa.
— Oi Larissa! Estou bem, obrigada. E seja bem-vinda a essa cidade louca de pedra.
Conversaram um pouco sobre amenidades. Sandra a convidou para entrar, mas disse que a casa estava cheia de caixas da mudança, esperando por ela.
— Nossa, nem me lembre disso. A última vez que fiz isso foi há 5 anos e acredite, tenho coisas para guardar até hoje — brincou e as duas riram. — Fique tranquila que hoje o dia é deles. Qualquer coisa, pode me ligar. — Se despediram.
Passou pelo quarto do filho, deu algumas instruções; amarrou o cabelo pegando um cesto em seguida. Era dia de lavar roupa e organizar coisas em casa que não tinha tempo para fazer durante a semana. Pensou pela milésima vez que precisava contratar uma pessoa para ajudá-la. Seu trabalho tomava cada vez mais o seu tempo e consumia todas as suas forças.
Uma nova mensagem chegou em seu celular e falou para si mesmo que ficaria longe do aparelho o dia todo, senão não conseguiria fazer o que precisava. Porém, a notificação tocou mais uma vez, e ela decidiu colocar o celular no modo silencioso para ganhar um pouco de paz.
Quando abriu a tela inicial, viu que Luís havia lhe enviado uma mensagem. Hesitou por um momento, mas a curiosidade falou mais alto.
“Ei. Como você está? Esqueceu de me enviar o link do livro… nem li o livro ainda e já estou sonhando com ele kkk. está mais para pesadelo. Depois te conto. Até logo."
Sandra se sentou lentamente, encarando a mensagem que fluía com a familiaridade de amigos de longa data, mas ela sabia que aquilo poderia facilmente ser uma armadilha, bastava apenas uma resposta no tom certo — ou no tom errado. Aquela mensagem era a prova de que um simples deslize poderia abrir caminho para algo sem volta. Por alguns minutos, ela refletiu sobre como deveria responder: algo sério, direto e objetivo, deixando claro que a relação entre eles era totalmente profissional. Começou a digitar:
“Oiii, não foi esquecimento, foi falta de tempo mesmo rs, desculpa! Sério? Engraçado, eu também tive uns sonhos estranhos. Será que este livro é amaldiçoado? kkk. De qualquer forma, segue o link:”
E enviou a mensagem, pensando consigo mesma que, agora, talvez fosse tarde demais.
_*_
Luís estava em sua sala na Arctos, olhando a mensagem que acabara de receber, sorrindo sem perceber.
— Cara, você está parecendo um adolescente apaixonado, olhando para esse celular. — Arnaldo, seu amigo de longa data, entrou e se sentou ao seu lado, relaxadamente. — O que está acontecendo?
— Não está acontecendo nada. É impressão sua.
— Ah, claro. Só espero que seja sua esposa. — Arnaldo brincou, e Luís se sentiu tenso.
— Olha só esse relatório da Lupine. — Arnaldo mudou de assunto, entregando um documento. — Os balanços deles fecharam em alta durante 10 anos seguidos, mesmo nos tempos de maior crise. Isso é um feito e tanto, meu amigo. Essa fusão foi uma das melhores decisões que tomamos.
A conversa logo foi direcionada aos detalhes dos negócios, e em duas horas estariam numa reunião crucial para os últimos ajustes. O Grupo ALCO pretendia se tornar Arctos Lupine Co. A fusão, um sonho antigo da Arctos, estava finalmente prestes a acontecer. Depois de várias negativas, finalmente conseguiram convencer a Lupine de que agora, mais do que nunca, essa parceria seria vantajosa para ambas as partes.
Em breve, a águia e o lobo estariam, finalmente, juntos.
_*_
Entre uma tarefa e outra, Sandra foi organizando a casa e, em determinado momento, parou para preparar um lanche para as crianças. Igor e Caio estavam se dando super bem. Era bom para ele ter amigos mais próximos. Sandra e o marido sempre foram cuidadosos, não permitindo que ele fosse à casa de outros amigos ou que recebesse visitas, mas ultimamente ele parecia muito sozinho. Com os pais cada vez mais ocupados com o trabalho, ela sabia que ele precisava de companheiros da sua faixa etária para se socializar.
— Meninos, vamos lanchar? — Perguntou na sala, onde estavam jogando.
— Obaaaa!
— Lavem as mãos primeiro.
Sentados na mesa, os três iniciaram uma conversa divertida.
— Mãe, o pai do Igor joga Guardiões da Floresta com ele.
— Mesmo? Que legal! E como é?
Igor explicou:
— É tipo o melhor jogo de todos! Você vira o Guardião da Floresta, um herói que tem que salvar a floresta mágica. Aí você anda por uma floresta gigante, cheia de árvores, cachoeiras, e até bichos que falam com você, tem um papagaio que dá dicas. Depois, aparecem umas missões, tipo salvar um coelhinho que está preso ou impedir uns caras maus que querem cortar as árvores — tagarelou, o menino.
— Legal! — Se animou, Caio. — Me ensina a jogar pra gente jogar junto?
— Tá bom. E sabe como a gente luta? Com os poderes da natureza. Pode chamar um vento super forte, fazer raios caírem, ou até pedir ajuda de uma onça para espantar os inimigos. É muito irado.
Sandra observava os meninos conversando e, por um momento, viu-se pensando em como seria se tivesse outro filho para fazer companhia a Caio. Mas olhando para a situação atual do seu casamento, sabia que não era o melhor momento para pensar nisso. Antes de tomar qualquer decisão, era necessário colocar muitas coisas em ordem em sua vida.
Organizou a cozinha após o lanche e foi tomar um banho enquanto os meninos voltavam a jogar. Deixou a água cair nas costas e se apoiou na parede, de olhos fechados. Lembrou-se do seu sonho.
“Ela se encontra em uma vasta barreira banhada pela luz prateada da lua cheia. Ao longe, uma águia majestosa voa em círculos, sua sombra deslizando pela terra. O som do vento sussurra em seus ouvidos, trazendo palavras que ela não entende, mas que parecem antigas e importantes.
De repente, ela percebe um lobo parado ao pé de uma montanha. Ele uiva para a lua, e a águia, em resposta, solta um grito agudo que ecoa pelo céu. O lobo começa a correr em direção ao cume da montanha, enquanto a águia desce do céu, unindo-se ao lobo em um movimento harmonioso.
Sandra sente que deveria segui-los e percebe que está em um lugar familiar, como se já tivesse estado ali antes, embora não consiga lembrar quando. No topo da montanha, os dois animais se transformam em figuras humanas: uma mulher e um homem. Eles se entreolham com amor e dor nos olhos, e as palavras que o vento sussurra se tornam claras para Sandra:
"Nem o céu, nem a terra podem nos separar para sempre."
Antes que Sandra se aproxime, tudo se dissolve em uma luz dourada, e ela acorda com o som de um uivo e um grito de águia ecoando em sua mente.”
— Esse livro está me deixando louca — murmurou, fechando a torneira do chuveiro.
_*_
As comemorações no escritório da Arctos estavam animadas. A Lupine deu luz verde para a nova identidade visual, e a agência Prisma fez um trabalho impecável. Luís não conseguiu parar de pensar em uma pessoa para compartilhar a novidade: Sandra. Afinal, a ideia foi toda dela, mais um projeto brilhante criado e dirigido por ela.
Pegou o celular para mandar uma mensagem, mas, no mesmo instante, sua esposa ligou.
— Oi, amor. ‘Tá tudo bem?
— Está sim. Só te liguei para te lembrar de buscar o Igor. Estou um caco. Só preciso de um banho e cama.
— Pode deixar, não vou esquecer. Logo estaremos em casa. Mas eu tenho uma novidade para te contar... Fechamos, amor! A fusão está feita! — Ele não conseguiu esconder a animação na voz.
— Graças a Deus, amor! Não via a hora disso acabar, para você poder descansar e ficar mais tempo em casa.
— É… você tem razão. — Falou um pouco mais baixo, pensativo. — Mas olha, vai descansar, você merece. Logo estarei em casa. Beijo.
Não que ele não amasse sua esposa, ele a amava profundamente. Mas sentia falta de algum entusiasmo da parte dela em relação ao seu trabalho. Ele era apaixonado pelo que fazia; o respeito que conquistava, os resultados alcançados, o impacto de suas ideias. Ainda assim, não poderia colocar toda a culpa sobre ela, pois mesmo os seus colegas de trabalho não compartilhavam a mesma empolgação e visão que ele tinha. E isso, por vezes, o frustrava. Parecia que ninguém realmente o compreendia, que ninguém o desafiava ou discutia com ele sobre os pontos negativos e, para ele, isso era um sinal de verdadeiro interesse.
Exceto Sandra. Ela parecia captar sua energia, sua paixão por ideias e inovações. Não era à toa que eles se deram tão bem.
_*_
Sandra estava no quarto, organizando algumas roupas nas gavetas, quando ouviu uma movimentação. Pensou que deveria ser a mãe de Igor chegando para buscá-lo. Ela rapidamente trocou de roupa, pois ainda estava com uma dessas roupas despojadas de ficar em casa. Não poderia se despedir da criança e da mãe daquela forma.
Ao sair do seu quarto, ouviu o marido conversando com outro homem na sala de visitas. Estranhou, mas supôs que fosse o pai de Igor. Caminhava em direção à sala quando duas figuras agitadas passaram apressadas por ela.
— Ei! Vamos com calma, meninos. Igor, você pegou todas as suas coisas?
— Peguei, tia Sandra. Meu pai veio me buscar.
Ela os seguiu até a sala, onde Mauro e… Luís conversavam tranquilamente.
— Sandra, este é o pai do Igor, Luís — disse o marido.
Os dois se olharam, surpresos pela coincidência mas, naquele instante, sentiram algo estranho, como se estivessem se apoiando em uma memória distante. A sensação foi rápida, mas forte, uma certeza silenciosa de que esse momento já tinha sido vivido.
O lobo e a águia se cruzaram mais uma vez. Mas eles não sabiam disso.
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