SOBRE LOBOS E ÁGUIAS
17 Capítulo 17
Os dias passaram e Mauro continuava a pensar nas duras palavras de Sandra: "Eu vou, e não vou mais insistir sobre isso. Mas sabe o que é pior? Ainda assim, eu queria que você me pedisse para ficar. Você diz que me ama mas não é o suficiente para lutar por mim."
Ele fechou os olhos, respirando fundo. A frase ecoava em sua mente como um martelo, batendo contra suas certezas, contra o orgulho que ele lutava para manter intacto.
Porque a verdade era que, naquele instante, ele quis pedir.
Por um segundo. Um maldito segundo e traiçoeiro.
Mas então, sua razão gritou mais alto. O orgulho queimava como brasas, lembrando-o de que ele não podia ceder.
Ela o traiu.
Ela destruiu o casamento.
Ela era quem deveria ter lutado antes.
Mas… e ele?
Quantas vezes Sandra esperou que ele tomasse as decisões? Quantas vezes ela pediu, mesmo sem palavras, que ele olhasse para ela de verdade?
Ele passou a mão pelo rosto, sentando-se na beira da cama, a mente um turbilhão. O orgulho o segurava no lugar, mas o vazio que Sandra deixou para trás crescia a cada segundo.
Se ele fechasse os olhos, ainda sentia o cheiro dela. Se abrisse, via apenas um quarto impessoal, uma mala pela metade e um futuro incerto.
Ele puxou o celular do bolso, o polegar deslizando pela tela. O número de Sandra estava ali, tão fácil de apertar. Por que ele hesitava?
Droga. Droga.
O telefone chamou duas vezes antes de ela atender.
— Alô.
A voz dela estava seca, sem emoção. Diferente do que ele conhecia. Diferente da Sandra que implorava para que ele tentasse.
Ele abriu a boca, mas as palavras se prenderam na garganta.
Diga.
Peça para ela voltar.
Faça alguma coisa, Mauro.
Mas ele não disse.
— Quero falar com o Caio.
O silêncio do outro lado foi cortante. Ele quase pôde sentir o exato momento em que o coração dela se fechou para ele.
— Claro. — A voz dela agora era fria, profissional. Como se falasse com um estranho.
Ele ouviu passos abafados, uma porta se abrindo, um murmúrio ao fundo. E então, a voz animada do filho:
— Pai!
Mauro forçou um sorriso.
— E aí, campeão? Como você está?
Caio começou a falar, empolgado, contando sobre as aulas de futebol que estava fazendo nas férias, um gol que marcou na quadra. Mauro tentou se concentrar, tentou ser o pai presente que sempre foi, mas seus olhos voltavam para a tela do celular, para o nome de Sandra ali, e para a forma como ela o atendeu — como se ele já fosse passado. Como se, pela primeira vez, ela estivesse realmente indo embora.
E ele não sabia se queria que isso acontecesse.
— Pai? Tá me ouvindo?
Ele piscou, tentando afastar os pensamentos.
— Claro, campeão. Continua…
Mas enquanto o filho falava, Mauro sabia que a única voz que ele queria ouvir não estava mais disposta a falar com ele.
E isso doía mais do que ele estava preparado para admitir.
_*_
O silêncio durou dias, até que o telefone vibrou sobre a mesa da cozinha. Sandra olhou para o visor e prendeu a respiração ao ver o nome de Mauro.
Atendeu com um simples: — Alô?
— Oi, Sandra.
A voz dele estava distante, mas sem o rancor de antes. Era como se, enfim, ele tivesse aceitado o que já era irreversível.
— Vou passar aí amanhã para ver o Caio, tudo bem?
Sandra assentiu, mesmo sabendo que ele não podia vê-la.
— Que bom. Ele sente sua falta.
Houve um silêncio breve antes de Mauro continuar:
— Preciso conversar com você sobre uma coisa.
Sandra ficou tensa.
— O que foi?
— Consegui a proposta que estava esperando. Vou me mudar de vez.
A notícia caiu como um soco, mas dessa vez, ela não se deixou desmoronar.
Ela apenas respirou fundo e respondeu:
— Então, é definitivo. — Não foi uma pergunta. Foi uma constatação.
Mauro recuou levemente, talvez esperando outra reação dela. Mas Sandra apenas manteve a voz neutra, sem permitir que qualquer traço de emoção a denunciasse.
— Precisamos pensar em como contar isso para o Caio. — Ele disse, como se quisesse apressar a conversa. — Não quero que ele sofra mais do que o necessário.
— Entendo.
Ela observou a luz fraca da cozinha refletida na mesa de vidro. A verdade é que, no fundo, já sabia que esse dia chegaria. O silêncio se prolongou até que Sandra disse, sem mudar o tom de voz:
— Amanhã então. Espero você aqui.
Mauro demorou um instante para responder.
— Até amanhã, Sandra.
A ligação foi encerrada.
Mauro baixou o telefone devagar, sentindo um peso estranho no peito. Esperava resistência, dor, talvez até uma súplica, mas Sandra apenas aceitou. Sem hesitação, sem emoção. E, por algum motivo, isso o incomodou mais do que qualquer confronto. Ele passou a mão pelo rosto, respirando fundo. A decisão estava tomada, mas então por que não sentia alívio? O silêncio dela ecoava mais do que qualquer palavra, e agora, parado diante da janela do hotel, ele se perguntava se não havia acabado de perder algo que nem sabia que ainda era seu.
No dia seguinte, Mauro chegou no horário combinado. Sandra abriu a porta, mantendo a expressão neutra, sem revelar qualquer traço de emoção. A presença dele ainda a atingia muito, mas ela não permitiu que ele percebesse.
Mauro, por outro lado, pareceu um pouco desconcertado. Esperava vê-la frágil, vulnerável como antes. Mas ela estava calma. Talvez até distante.
— O Caio está no quarto. Vou chamá-lo.
— Não precisa. Eu chamo.
Mauro seguiu para o corredor, e no momento em que o viu, Caio correu até ele.
— Paiii! Você voltou!
O menino se jogou nos braços dele com força, segurando-o como se temesse que desaparecesse. Mauro respirou fundo, sentindo o aperto familiar no peito.
— Voltei, filho. — Ficou emocionado ao abraçá-lo. — Mas… O papai vai precisar viajar de novo. E dessa vez, por mais tempo. — Ele limpou a garganta, tentando encontrar as palavras certas
Caio afastou-se um pouco, o olhar confuso.
— De novo? Mas você acabou de chegar!
Mauro tentou sorrir, mas falhou.
— Eu sei, campeão. Mas é um trabalho importante. Vai ser bom para nós. Eu prometo que vamos nos ver sempre.
O menino abaixou a cabeça.
— Mas você não vai embora hoje, né?
Mauro ficou desconcertado. A pergunta o pegou de surpresa.
Antes que ele pudesse responder, Sandra interveio, ainda de pé na sala.
— Por que não fica essa noite? — Sua voz era calma, sem traço de apelo. — Assim, vocês passam mais tempo juntos antes de você ir.
Mauro a olhou, buscando algo em seu rosto. Mas ela apenas sustentou o olhar, sem desviar. Por fim, ele assentiu.
— Tá bom, campeão. O papai fica essa noite.
Caio comemorou e correu para pegar seus brinquedos e o jogo dos Guardiões para mostrar a ele.
Mauro desviou o olhar de Sandra e seguiu o filho, tentando ignorar o incômodo estranho que sentia ao vê-la tão indiferente.
Sandra estava na cozinha, movimentando-se no automático, preparando um jantar para eles, como sempre fez. Como se fosse apenas mais um dia comum.
Mauro observava a naturalidade dela. Não parecia fazer aquilo por obrigação, nem para agradá-lo, apenas seguia um fluxo que um dia foi rotina, mas agora carregava um tom estranho, quase distante.
Ele desviou o olhar para Caio, que já se sentava na mesa de jantar, animado com a ideia de passar mais tempo com o pai.
— Olha, pai! O jogo dos Guardiões! — O menino ergueu a caixa, empolgado.
Mauro forçou um sorriso, tentando se concentrar no momento. Mas a verdade era que sua mente insistia em vagar para onde Sandra se ocupava entre as panelas, os sons familiares preenchendo a casa como se tudo estivesse exatamente como antes.
Mas não estava. Nada mais estava.
Enquanto ela servia os pratos, organizando os copos e os talheres era como se, por um instante, eles ainda fossem uma família. Mas bastava se olharem nos olhos para saber que não eram.
A conversa fluía com uma naturalidade forçada. Caio falava sem parar sobre um desenho novo que fez, sobre um vídeo engraçado que assistiu. Mauro e Sandra se revezavam em pequenas interações, acenando, sorrindo, comentando, mas evitando se olhar por muito tempo. Quando seus olhares se cruzavam, havia um constrangimento palpável.
O jantar seguia seu curso, com Caio falante, suas histórias e as coisas novas que queria aprender. Foi então que ele soltou, casualmente:
— Ah, pai, você sabia que vou estudar em uma escola nova?
Mauro franziu a testa, levando o garfo até a boca.
— Nova escola? — Ele olhou para Sandra, surpreso. — Por quê?
Sandra pousou o copo de água sobre a mesa e respondeu simplesmente:
— Essa escola será melhor para ele.
O tom dela era neutro, prático. Sem margem para discussões.
Caio, no entanto, não pareceu tão entusiasmado com a ideia. Ele abaixou a cabeça, empurrando os legumes no prato com o garfo.
— Mas eu não vou mais ver o Igor… — Murmurou, tristemente.
Mauro sentiu um incômodo crescer dentro dele. Por que ele só estava sabendo disso agora?
Antes que ele pudesse questionar, Sandra respondeu de forma tranquila ao filho:
— Você fará novos amigos, meu amor. Além do mais, você também passará um tempo com seu pai na cidade onde ele está trabalhando.
A reação de Mauro foi imediata. Ele ficou imóvel por um instante, absorvendo o que acabara de ouvir. Ela realmente estava dizendo aquilo? Ela realmente estava aceitando que Caio ficasse com ele por um tempo, sem contestar, sem hesitar?
Caio arregalou os olhos, empolgado.
— Sério? Eu vou ficar com você, pai?
Mauro abriu a boca, mas não encontrou palavras de imediato. Olhou para Sandra, esperando alguma explicação, algum detalhe que justificasse essa aceitação tão repentina. Mas ela não o olhou.
— Claro, Caio. Você e seu pai vão aproveitar um tempo juntos. — Disse, mantendo os olhos no filho, e sorriu.
Caio levantou as mãos na mesa, animado, mas sua expressão logo mudou para uma dúvida. Ele virou-se para a mãe, franzindo a testa.
— Mamãe, e você? Você vai também?
A pergunta fez Mauro segurar a respiração. Era ali que ele esperava alguma fraqueza na postura dela, mas Sandra continuou serena, sem demonstrar nada além de calma absoluta.
— Não, querido. Eu preciso trabalhar. Mas ligarei para você todos os dias, eu prometo.
Foi mais uma surpresa para Mauro. Aquela mulher à sua frente não era a mesma que, meses antes, havia implorado por outra chance. Ele queria encontrar algo em sua expressão. Raiva. Mágoa. Esperança. Qualquer coisa.
Mas Sandra não lhe ofereceu nada.
A única coisa que Mauro percebeu ali foi certeza.
A certeza de que ela se arrependia da traição.
A certeza de que estava fazendo de tudo para reconstruir a estabilidade de Caio.
A certeza de que estava afastando o passado da família que um dia foram.
Mas, ao mesmo tempo, a certeza de que, para ela, Mauro não fazia mais parte disso.
Era como se, naquela decisão prática e objetiva, Sandra estivesse sepultando qualquer resquício do que um dia existiu entre eles. E isso o deixou confuso.
E, de alguma forma, isso o incomodava mais do que qualquer lágrima, mais do que qualquer súplica que ela pudesse ter feito antes.
A observou por um instante, reparando na forma como ela segurava o garfo, no modo sutil como mordia o lábio ao pensar. Pequenos detalhes que ele conhecia bem, mas que, agora, pareciam pertencer a uma lembrança distante.
Respirou fundo, desviando o olhar para o prato. Por que sentia tanta falta de algo que ele mesmo não quis reconstruir?
Ele empurrou o pensamento para longe e voltou a atenção para Caio, focando no que realmente importava. Mas, no fundo, sabia que o silêncio de Sandra o perseguiria por muito tempo depois que aquela noite terminasse.
A casa estava mergulhada no silêncio. Mauro não conseguia dormir.
Estava deitado na cama de Caio, sentindo o peso das horas, mas lembrava-se do quarto ao lado. O quarto que fora deles por tanto tempo. A cama onde dormiram juntos, onde dividiram confidências e silenciosas noites de cumplicidade. Agora, Sandra estava lá sozinha.
Mauro fechou os olhos, exalando o ar pesadamente. Quantas vezes ele se virou na cama, encontrando o corpo dela ao lado? Quantas vezes ela adormeceu sobre seu peito, como se pertencer ali fosse a coisa mais natural do mundo?
Agora, aquele espaço era um território estranho. E ele já não pertencia mais a ele.
Foi então que ouviu. Um som baixo e contido.
Sandra.
Por um instante, ele ficou imóvel, ouvindo o choro abafado vindo do quarto ao lado.
Ele sabia que deveria ignorar. Mas não conseguiu.
Após longos minutos, levantou-se. Caminhou pelo corredor escuro, parando diante da porta entreaberta do quarto dela.
Sandra estava deitada entre os travesseiros, de costas para a porta, mas o corpo levemente trêmulo.
— Sandra…
Ela se mexeu, como se só agora notasse sua presença.
— Eu te acordei? — Perguntou, virando-se devagar e limpando discretamente o rosto.
— Te ouvi chorando.
Ela sorriu, mas era um sorriso vazio.
— Não, não… acho que é uma alergia. Ou estou resfriando.
— Não precisa mentir.
Ela suspirou, sentando-se lentamente na cama. Mas, dessa vez, não insistiu em fingir que estava bem.
Por um momento, ficaram apenas ali, se olhando. Mauro, de pé, parecendo dividido entre ficar e sair. Sandra, cansada demais para tentar convencê-lo de qualquer coisa.
Ele fez menção de ir embora. Mas algo o prendeu no lugar.
Ela não pediu. Não implorou. E, talvez por isso, ele tenha voltado.
Antes que pudesse pensar no que estava fazendo, deu um passo à frente, sentou-se na beira da cama e a beijou.
Sandra não hesitou. Não havia mais perguntas, nem promessas.
Não havia espaço para palavras ou justificativas. Apenas cedeu.
Mauro a puxou para perto, os dedos traçando o contorno do rosto dela como se tentasse memorizar cada detalhe. Os olhos de Sandra, antes carregados de mágoa e súplicas, agora apenas o observavam com uma calma desconcertante.
Ela deslizou as mãos por seus ombros, sentindo a familiaridade do toque, a tensão do corpo dele contra o seu. O passado ainda estava ali, gravado na pele, no cheiro, no gosto. Mas o futuro já não lhes pertencia.
A noite foi silenciosa, interrompida apenas por suspiros entrecortados e toques calmos, como se ambos soubessem que aquele momento jamais se repetiria. Não havia pressa.
O tempo parecia ter desacelerado, cada gesto carregando um peso que ia além do desejo. Era despedida, e ambos sabiam.
Os dedos de Mauro percorreram as curvas dela, e Sandra fechou os olhos, deixando-se levar pelo calor conhecido, pelo cheiro da pele dele, pelo gosto dos beijos que um dia já foram casa. Foi um encontro de memórias, de corpos que um dia se pertenceram sem medo.
E quando o sol começou a nascer, pintando tons dourados pelas frestas da cortina, Mauro já sabia: aquela havia sido a última vez.
Ele respirou fundo, tentando absorver a realidade daquela manhã.
A noite que passaram juntos ainda estava marcada. Se era uma despedida, por que não parecia o fim?
Por um momento, titubeou. O que aconteceria se ele simplesmente dissesse? "Vem comigo."
O pensamento surgiu antes mesmo que ele pudesse contê-lo.
Ele queria dizer. Mas… e se ela dissesse não?
O medo percorreu seu peito, maior do que o orgulho, maior do que a certeza que sempre achou que tinha. Ele não poderia suportar um não.
Porque, se pedisse, e ela recusasse… seria o fim de qualquer ilusão de volta. E, no fundo, ele já sabia a resposta.
Mauro deslizou para fora da cama, pegou as roupas espalhadas pelo chão e se vestiu sem pressa, como se cada movimento fosse um adiamento silencioso do inevitável. Ao amarrar os sapatos, olhou para Sandra uma última vez.
Ela estava acordada. O observava, sem perguntas.
Ele se aproximou, se inclinou e deixou um beijo leve em sua testa.
— Cuida do Caio. — Ela assentiu.
E então, ele percebeu. Dessa vez, ela não pediria para que ficasse. Porque ela já havia deixado ele ir, muito antes daquela manhã.
Mauro caminhou até a porta, parou por um instante. Poderia falar. Poderia dizer algo que mudasse tudo. Mas não disse.
Então, a porta se fechou atrás dele.
E ela apenas ficou ali, sentindo o vazio se instalar.
Mas, dessa vez, não chorou.
_*_
Foram dois meses de silêncio, de reflexões e noites insones. Luís seguiu a vida como pôde, tentando se convencer de que a decisão de Larissa era definitiva. Mas, então, ela ligou.
Foi direta. Queria voltar. Não disse que seria fácil, nem que esqueceria o que aconteceu. Mas queria tentar.
Naquela noite, Luís ficou sentado por longos minutos depois que a chamada terminou, segurando o celular entre os dedos. Uma parte dele sentia alívio. Outra, felicidade.
Larissa queria voltar. Eles teriam uma segunda chance.
Mas, no fundo, havia também um peso silencioso, um resquício de algo que ele não ousava nomear. Sandra era passado. Larissa era o futuro. Ele havia feito sua escolha. E lutaria por ela. Pelo que ainda podia ser salvo. Pela família que construiu.
Respirou fundo, guardando o celular no bolso e fechando os olhos por um instante.
A partir de agora, seguiria em frente.
Dois dias depois, Larissa voltou para casa com os filhos.
Igor correu até Luís, se jogando nos braços do pai com um entusiasmo inocente. Como se nada tivesse mudado.
Lucca, já um rapaz de 19 anos, entrou sem pressa, carregando algumas malas, e deu apenas um breve aceno de cabeça para o pai, mas logo o abraçou. Ele entendia demais. Talvez até mais do que Luís gostaria.
Larissa ficou para trás por um instante, observando a casa como se tentasse reconhecer aquele espaço depois de tanto tempo longe. Luís percebeu isso e apenas a esperou.
Depois que os filhos foram para seus quartos, eles ficaram a sós na sala.
Foi ela quem quebrou o silêncio.
— Eu ainda te amo, Luis. Mas não vou mentir… A construção da confiança será um processo longo e difícil. — Ela cruzou os braços, respirando fundo. — Mas vou tentar. Por nós, pelos nossos filhos, pelo amor que ainda temos.
Luís sustentou o olhar dela e assentiu, sem desviar.
— Eu aceito isso. E vou passar o resto da minha vida provando que mereço você.
Larissa ficou em silêncio por um momento, então perguntou, sem rodeios:
— Nesse tempo… você viu Sandra?
Ele sabia que essa pergunta viria.
— Não. Mantivemos o acordo. Nunca mais nos vimos. — Luís pegou o celular que estava sobre a mesa, virou a tela para ela e deslizou para a agenda. — Não tenho mais o número dela. Nem sei onde está agora.
Larissa observou por um instante, mas não pegou o telefone. Apenas balançou a cabeça.
— Não precisa me mostrar. Eu acredito em você.
Havia sinceridade em suas palavras, mas também um peso. Confiar nele não seria algo imediato.
— Só preciso que você seja fiel a mim. Preciso de você por inteiro.
Ele apertou os lábios antes de responder:
— Eu estou aqui. Completamente.
Ela assentiu com os olhos marejados. Ele se aproximou, cuidadoso, e a abraçou. Deram um beijo profundo, cheio de saudades, de dores, mas de uma certeza de que tentariam reconstruir o que foi perdido.
— Eu amo você, Larissa. Obrigado por voltar. — Declarou.
— Eu também te amo. — Acariciou o seu rosto, olhando-o nos olhos.
O dia seguiu com um almoço em família. Igor falava sem parar, enquanto Lucca ouvia com o mesmo desinteresse contido de sempre e dando algumas alfinetadas de irmão, de vez em quando. Luís sentiu o apoio de Lucca, e isso o deixou mais leve. Eles sempre foram amigos.
Após o almoço, Luís ajudava Larissa com a louça. O olhar tranquilo, mas atento. Aos poucos, eles estavam reconstruindo algo. Mas nem tudo permaneceria como antes.
— Estive pensando… sobre o Igor e o Caio. — Ele começou e Larissa ergueu os olhos.
— Acho que o melhor seria que eles não mantivessem mais contato… na escola e tudo o mais.
Ela não pareceu surpresa.
— Sandra tirou Caio da escola.
— É mesmo? — Luís piscou, mas não demonstrou reação imediata.
Como ela saberia disso? Sandra e ela haviam se falado nesse tempo em que estavam separados? Pensou em perguntar. Mas não perguntou. Apenas observou Larissa enquanto ela voltava a falar sobre o novo ano que chegaria, o futuro, os planos para a família. Ele tentou acompanhar. Focar no agora.
Mas, por um breve momento, seus olhos pousaram sobre o chaveiro sobre a mesa. O mesmo que ele sempre manteve consigo. A lembrança veio rápido. Ele fechou os olhos por um instante, mas olhou para Larissa e sorriu.
Ele precisava olhar para frente. E era isso que faria.
Ainda que doesse… em um dos lados do seu coração.
_*_
E o tempo passou, como sempre passa. Silencioso, implacável, deixando para trás marcas invisíveis em cada um dos envolvidos. Um ano se passou desde que cada um tomou um rumo diferente.
Sandra decidiu não continuar presa ao passado, e por isso tomou a primeira grande decisão: pediu demissão da Prisma Publicitá. Não poderia mais liderar projetos para a Arctos, a empresa em que Luís trabalhava.
Paula ficou surpresa quando recebeu o convite para assumir seu lugar.
— Você tem talento para isso. Vai crescer muito aqui. — Sandra disse, sorrindo para a amiga. Obrigada por tudo. Antes de ir, precisamos tomar o nosso café de sempre.
— Com certeza. Vou sentir muito a sua falta.
Ela não olhou para trás quando saiu da empresa pela última vez. Como se, finalmente, estivesse deixando para trás todas as sombras que a perseguiam.
Aceitou um cargo em uma agência menor, com menos possibilidades de crescimento, mas com mais flexibilidade. Poderia trabalhar de qualquer lugar do país. Era um recomeço, uma nova chance. E ela estava decidida a focar apenas em si e no seu futuro.
Mas isso não significava que o passado não se fazia presente de vez em quando.
Um dia, entretida com as redes sociais, uma foto chamou sua atenção.
Uma confraternização da empresa onde Mauro trabalhava. Um grupo reunido, risadas, taças erguidas. E ele estava lá. Ao lado de outra mulher, uma colega de trabalho que virou namorada.
O coração de Sandra deu um leve aperto. Aquela sensação agridoce de perceber, com todas as provas, que o passado realmente ficou para trás.
Ela fechou o celular e respirou fundo. Estava tudo bem. Ou, pelo menos, era isso que se repetia.
Mauro se estabilizou na nova cidade. O trabalho fluía bem, os dias seguiam um ritmo confortável. E ele tinha um novo relacionamento. Ela era inteligente, companheira, atenciosa. Alguém que o fazia sorrir e preencher os espaços vazios do dia a dia.
Mas, às vezes, sem querer, ele se pegava pensando em Sandra. Não com a mesma dor de antes. Não com raiva. Apenas com aquela sensação de que algumas histórias nunca se apagam completamente.
Talvez fosse por isso que, ultimamente, ele ligava para ela com mais frequência. No início, as conversas eram rápidas, curtas, práticas. Mas, aos poucos, começaram a se prolongar. Eram como amigos que se reencontravam, que sabiam de cor o jeito um do outro.
Às vezes, riam juntos. Compartilhavam histórias do Caio, do trabalho, de coisas banais. Mas havia algo ali, um fio invisível de algo que nunca se rompeu completamente. E, no fundo, Mauro sabia disso.
Talvez Sandra também soubesse. Mas nenhum dos dois dizia nada.
Caio aos poucos começou a entender. Seus pais não ficariam juntos de novo.
O assunto foi conversado com ele, com cuidado, em chamadas de vídeo entre duas cidades diferentes. Agora, ele passava as férias do fim do ano letivo, com Mauro.
O menino tentava se adaptar nessa nova rotina dos pais, mas, em certas noites, quando estava com um, ligava para o outro. E era assim que Sandra e Mauro se mantinham conectados, de um jeito que nem eles próprios entendiam completamente.
Luís tentou. Tentou com todas as forças reconstruir seu casamento. Foi com Larissa para uma segunda lua de mel. Tentou ser mais presente. Mas sabia que nunca mais seria igual.
O relacionamento deles era como um vidro que se quebrou e foi colado novamente. Ainda estava inteiro. Mas as rachaduras estavam lá.
Larissa ainda o amava. Mas, às vezes, quando o olhava, parecia vê-lo de longe. E Luís? Ele também amava Larissa. Mas, às vezes, olhava para a lua cheia ou para o chaveiro que insistia em mantê-lo, e se lembrava. Dela.
Ele nunca mais viu Sandra. Ou, pelo menos, não cara a cara.
Mas, em algumas tardes, ia à cafeteria. Sentava-se na mesma mesa de sempre. A mesa que, às vezes, Sandra também frequentava. Mas eles nunca se cruzavam.
Parecia que o universo brincava com eles, colocando-os nos mesmos lugares, mas nunca ao mesmo tempo.
E ele nunca saberia que ela também olhava para a lua cheia, ou para a sua bússola, sentindo o mesmo vazio inexplicável. Mas também, a mesma conexão.
Foi numa noite comum que Luís pegou o celular e digitou uma mensagem para Paula:
“Oi Paula, tudo bem? Tem notícias da Sandra?”
O celular vibrou pouco tempo depois: “Oi Luís. Ela está de mudança. para outra cidade.”
Luís encarou a mensagem por um longo tempo. Não respondeu.
Ela iria embora de vez.
Mas o que existiu entre eles nunca se apagaria completamente.
Algumas histórias não terminam.
Apenas mudam de página.
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