O sol mal havia surgido no horizonte quando Luís entrou na Arctos com uma energia inusitada. Ele cumprimentava os colegas, distribuía sorrisos e até brincou com a recepcionista, algo que não fazia há dias. Ao entrar na sala que, também, dividia com Arnaldo, deixou sua pasta sobre a mesa e soltou um suspiro satisfeito enquanto olhava pela janela.

Arnaldo ergueu os olhos do computador, franzindo a testa.

— O que houve com você? Ontem parecia que tinha o mundo nas costas, e hoje está... brilhando.

Luís deu uma risada baixa, afrouxando o nó da gravata com um movimento descontraído.

— Acho que as coisas estão começando a fazer sentido.

— Sentido? Desde quando "sentido" é a palavra que define a sua vida ultimamente? — Arnaldo inclinou-se para frente, cruzando os braços.

Luís deu de ombros, caminhando até a mesa de café para servir-se de uma xícara.

— Vamos dizer que... tenho boas expectativas sobre o novo projeto. Às vezes, um novo desafio é tudo o que a gente precisa para renovar as energias.

Arnaldo o observou atentamente, mas não deixou escapar um leve sorriso que Luís tentou esconder ao virar-se de costas.

— Ok. Vou fingir que acredito que isso tem só a ver com trabalho.

Luís voltou para a mesa, sentando-se com um olhar casual, mas Arnaldo sabia ler os sinais. O comportamento animado do amigo era suspeito, ainda mais considerando o estado em que estava no dia anterior. Ele decidiu não pressionar, mas a semente da curiosidade já estava plantada.

_*_


Na casa dos Torres, Mauro tomou o último gole do café enquanto lia as notícias da manhã. Sandra estava no banheiro, e ele podia ouvi-la cantarolar uma música animada enquanto o som da água ecoava pela casa. Era algo que ele não presenciava há meses.

Ele se levantou, levando a xícara até a pia, mas sua mente estava atenta à mudança no comportamento dela. Nos últimos tempos, Sandra parecia sempre cansada, introspectiva, como se carregasse um peso invisível. Agora, havia uma leveza que ele não sabia como interpretar.

Ao passar pelo quarto para pegar seu casaco, seu olhar caiu sobre o celular de Sandra, que vibrava com uma notificação. Relutante, ele pegou o aparelho. Na tela, a mensagem de Luís piscava:

"Oi... passando só pra te desejar um ótimo dia... bjo."

Mauro sentiu o sangue ferver. Sua respiração ficou pesada, e ele apertou o celular com força antes de jogá-lo em cima da cama. O som dela cantando no chuveiro ainda ecoava, mas agora parecia abafado por uma onda de raiva crescente dentro dele.

Ele agarrou as chaves do carro e saiu pela porta da frente, batendo-a com força. O som ecoou pela casa, e Sandra desligou o chuveiro, chamando por ele:

— Mauro? Você saiu?

Sem resposta. Mauro já estava no carro, acelerando em direção ao trabalho, mas determinado a confrontar Luís, logo, antes que as coisas saíssem ainda mais do controle.

_*_


O final do dia chegou e Sandra estacionava o carro em frente à escola de Caio. Mauro ligou dizendo que não poderia buscar o filho, pois tinha um assunto para tratar antes de ir para casa. Ao caminhar em direção ao portão, avistou Larissa, aguardando por Igor.

Sandra hesitou por um instante, sentindo o desconforto subir por sua espinha.

— Oi, Sandra! — disse Larissa, virando-se ao vê-la.

— Larissa, oi! Tudo bem? — Respondeu Sandra, tentando soar natural, mas sentindo a culpa pulsar como um tambor dentro dela.

— Tudo ótimo. E você?

— Na correria de sempre, sabe como é — ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha, num gesto nervoso.

Antes que Larissa pudesse responder, Igor saiu correndo pelo portão, com Caio logo atrás.

— Tia Sandra! — Igor gritou, sorrindo ao vê-la. — Eu vou fazer aniversário!

Sandra se abaixou, forçando um sorriso mais caloroso enquanto cumprimentava o menino.

— Sério, Igor? Que legal! Já sabe o que vai querer de presente?

— Ainda não, mas vai ter um bolo grande dos Guardiões da Floresta! Você vai, né?

Sandra olhou para Larissa, que sorriu suavemente.

— Eu ia te mandar uma mensagem, mas já que estamos aqui, vou aproveitar para te convidar. Vou entrar em contato com você para passar os detalhes.

— Claro. Muito obrigada. — Sandra respondeu, o coração apertado ao ver a gentileza nos olhos da outra mulher.

Larissa tocou levemente no braço de Sandra, inclinando-se para dar um beijo em seu rosto.

— Preciso ir agora. Ainda tenho que preparar o jantar antes de Luís chegar. Ele anda tão corrido ultimamente, que mal está comendo direito.

Sandra engoliu em seco, o desconforto aumentando.

— Imagino. Essa sobrecarga de trabalho realmente tira nossa paz. Fiquem bem.

— Obrigada, querida. Nos falamos em breve, tá? — Despediu, puxando Igor pela mão.

Os meninos acenaram um para o outro. Sandra ficou parada ali, observando Larissa entrar no carro. Uma mulher amável e dedicada, que não merecia o que estava acontecendo.

Respirou fundo, tentando afastar os pensamentos que insistiam em invadir sua mente, e chamou Caio para entrar no carro.

— Vamos, filho. O dia ainda não acabou. — Deu um sorriso forçado, enquanto a culpa continuava a corroer suas emoções.


_*_


Mauro estava encostado no carro, no estacionamento da Arctos, com os braços cruzados, a expressão fechada e os olhos fixos na entrada. Quando Luís finalmente apareceu, e caminhava casualmente em direção ao veículo, ele descruzou os braços e deu alguns passos para frente.

— Luís! Preciso falar com você. — Sua voz carregada de tensão.

Luís que já estava com a chave na porta do seu carro, parou, erguendo uma sobrancelha, intrigado.

— Claro, Mauro. Parece importante. — Disse, num tom despreocupado, com aquele sorriso insolente que fazia Mauro sentir os músculos se contraírem.

Mauro deu mais um passo à frente, ficando cara a cara com Luís.

— Vou ser direto. O que você quer com a Sandra? — A pergunta veio carregada de raiva contida.

Luís inclinou levemente a cabeça, como se estivesse avaliando Mauro, antes de responder.

— Do que você tem tanto medo, Mauro? — Disse, calmamente. — Não confia em Sandra ou... em si mesmo?

Os punhos de Mauro cerraram ao lado do corpo, mas ele se esforçou para manter o controle.

— Eu confio na minha esposa. Mas não confio em homens como você, que não conhecem limites.

Luís deu uma risada de canto, cheia de sarcasmo.

— Limites? Você acha que isso está acima dos limites, Mauro? É sobre algo muito maior. — Ele deu um passo mais perto, diminuindo a distância entre eles. — Isso não é uma questão de “respeito”. Essa conexão que Sandra e eu temos, você nunca vai ter.

— Está começando a pisar em um terreno perigoso, Luís. — Mauro avisou, a voz baixa e ameaçadora.

Mas Luís parecia se alimentar do confronto. Ele deu mais um passo, o sorriso ainda presente.

— O que me espanta, Mauro, é você fingir que não sabe o que está acontecendo. Eu não preciso roubar Sandra de você. Ela sente o mesmo que eu. — E se inclinou-se levemente, sussurrando como se quisesse provocar ainda mais. — E saiba, que eu poderia tê-la a hora que eu quisesse.

Isso foi suficiente para Mauro. Em um movimento rápido, ele agarrou o colarinho de Luís e o empurrou contra o carro mais próximo, o som ecoando pelo estacionamento vazio.

— Cuidado com o que você diz. Você não sabe com quem está lidando. — Rosnou, os olhos flamejantes.

Mas Luís, mesmo preso, não perdeu a postura. Em vez disso, seu sorriso se alargou.

— Vai me bater? Isso vai mudar alguma coisa? — Ele desafiou, com um tom quase zombeteiro. — Não é com seus punhos que você vai reconquistar Sandra. E enquanto você está aí, bancando o machão, eu vou descobrir o que realmente importa. Vou dar a ela o que você nunca soube dar. Amor. Valor. E, claro, algo que só eu posso oferecer.

Mauro abriu ainda mais o colarinho de Luís, as mãos tremendo de raiva.

— Você é patético. Um homem de verdade respeitaria uma família, não faria o que você está fazendo. — Respondeu entre dentes.

— E um homem de verdade faria a mulher dele feliz, Mauro. — Luís rebateu, as palavras cortantes como facas. — E a Sandra não está feliz com você. Eu sei disso. E você também sabe.

Por um momento, Mauro pareceu à beira de perder o controle completamente. Mas então, com um esforço visível, ele soltou Luís, empurrando-o para longe.

— Você não vai vencer, Luís! Porque Sandra é uma mulher de princípios. E você é só um cara tentando compensar sua própria falta de caráter. — Mauro cuspiu as palavras antes de se virar e começar a se afastar.

Mas antes de entrar no carro, gritou:

— Fique longe dela. Ou as coisas vão sair do controle. — E com isso, entrou no carro e saiu do estacionamento, deixando Luís ainda com o sorriso desafiador no rosto.


_*_


Sandra estava na cozinha, finalizando os últimos preparativos para o jantar, quando Mauro entrou em casa. O aroma da comida, algo que ele costumava encontrar reconfortante, agora parecia não ter efeito algum.

— Oi, amor. Como foi o dia? — Sandra perguntou, lançando-lhe um sorriso. Ela parecia mais relaxada, o que só aumentava o nó na garganta de Mauro.

Ele tirou o paletó e pendurou no encosto de uma cadeira, forçando um sorriso.

— Nada de novo. E por aqui? Parece que você anda bem... animada ultimamente.

Sandra franziu o cenho, surpresa com o tom dele.

— Animada? Como assim? — Sentou-se à mesa, cruzando as mãos, sem olhar diretamente para ela.

— Só acho que você anda tão... leve, tão feliz. Alguma novidade especial que eu deveria saber?

Sandra sentiu um aperto no peito. O tom de Mauro parecia gentil, mas as palavras carregavam algo mais profundo.

— Não, nada especial. Só aliviada de ter conseguido adiantar algumas coisas no trabalho.

Antes que o clima ficasse mais tenso, Caio entrou correndo, com a energia característica de uma criança.

— Pai! Sabe o que o Igor disse hoje? Ele vai fazer uma festa enorme de aniversário! Não é mamãe?

Mauro aproveitou a oportunidade para mudar de foco. Ele abriu um sorriso animado para o filho.

— É mesmo, campeão? Você já sabe o que vai dar de presente para o Igor?

— Ainda não. A tia Larissa disse que vai mandar o convite! — respondeu Caio, entusiasmado.

Mauro, que até então mantinha o foco no filho, deu um sorriso que parecia mais cortante do que caloroso.

— A tia Larissa parece uma pessoa bem legal, não é, filho? — Ele comentou, com uma leve inflexão que fez Sandra erguer o olhar de imediato, como se buscasse entender o subtexto.

— Sim! Ela fez uns lanches muito gostosos no dia em que fui lá jogar com o Igor e o tio Luís. — Caio respondeu animado, gesticulando.

Mauro inclinou-se levemente, apoiando os cotovelos na mesa, e olhou para o filho com interesse fingido, enquanto desviava um olhar quase desafiador para Sandra.

— E o tio Luís também é legal? — Perguntou, ignorando a reação visivelmente tensa de Sandra.

— Ele é! Ele jogou videogame com a gente um pouco antes de sair. Ele é bom! — Caio respondeu inocentemente, enquanto Sandra, de repente, pareceu interessada em arrumar a toalha de mesa, tentando desviar o olhar.

Mauro voltou os olhos para Caio, mas às vezes os desviava para Sandra, suas palavras soando casuais, mas carregadas de um subtexto que ela captava claramente.

— É, parece ser uma família bem feliz, não é, filho? — Ele comentou, com um sorriso que oscilava entre o gentil e o irônico.

— Sim, eles são bem legais. O Igor tem muitos jogos e o tio Luís prometeu ensinar a gente um novo da próxima vez! — Disse Caio, sem perceber o clima tenso.

Sandra não conseguiu evitar o desconforto. Sentiu o olhar de Mauro recaindo sobre ela mais uma vez, como se estivesse esperando uma reação. Tentando manter a compostura, ela disse:

— Que bom que se divertiu, filho. O Igor realmente é um bom amigo. Temos que comprar um presente bem legal para ele.

Mauro assentiu devagar, pegando o copo de água e tomando um gole.

— Vamos pensar juntos no presente do Igor, ok, filhão? — Mauro continuou, dando toda a atenção ao filho enquanto ignorava deliberadamente Sandra, que observava o comportamento dele, confusa.

Eles terminaram o jantar com Mauro mantendo o tom alegre com Caio, mas sem interagir muito com Sandra. Ela tentou puxar assunto algumas vezes, mas ele respondia de forma vaga e desviava a conversa para o filho.

Quando finalmente foram para o quarto, Sandra percebeu que algo estava claramente errado. Mauro deitou-se ao lado dela, pegando o celular para acessar alguma coisa, ainda sem falar nada.

— Mauro, o que está acontecendo? Você está estranho hoje. — Ela perguntou, tentando quebrar o gelo.

Ele virou a cabeça para encará-la, os olhos tinham algo que ela não conseguia decifrar completamente.

— Só estou pensando em algumas coisas, Sandra. E observando. Às vezes, observar diz muito mais do que as palavras.

Ela franziu o cenho, sentindo uma inquietação crescer.

— O que você quer dizer com isso?

Mauro apenas apagou a luz e virou-se de costas para ela.

— Nada, Sandra. Boa noite.

Ela ficou ali, no escuro, encarando as sombras no teto, sentindo vontade de chorar. Mauro, por outro lado, mantinha os olhos abertos, a mente trabalhando em como lidar com o que sabia e com o que ainda temia descobrir.


Notas finais
"Um lobo solitário carrega a força de uma matilha inteira, mas conhece o peso da solidão."