Notas iniciais
Oi gente cheguei kkk Tá tarde né? Então eu fiquei presa no trabalho desculpa -q Mas tá aí :D Divirtam-se ^^

O apartamento de Adrian ficava na Hudson Square, em Manhattan, e era uma das conquistas de sua vida da qual mais tinha orgulho — depois do filho, é claro. Três quartos, vista maravilhosa, chão de madeira laminado, móveis escuros e muitas decorações que visivelmente tinham custado muito dinheiro, como quadros caros e vasos chineses. Adrian nunca tinha feito questão de ser rico, mas seria mentira dizer que não gostava do conforto, tanto para si quanto para seu filho. Por um momento, chegou a pensar que teria de abrir mão de tudo isso, se não fosse pela oferta da S.H.I.E.L.D.. Agora, sentado na escrivaninha em seu escritório, estava muito agradecido pela oferta generosa, pois não gostaria de precisar abrir mão de tudo o que tinha conseguido, ou pior, de tirar essas coisas de Trevor.

Fazia duas semanas desde aquela primeira reunião na sala de comando da base da S.H.I.E.L.D., e até onde Adrian sabia, o trabalho de Jaeger e Hamed ia muito bem, embora fosse naturalmente levar algum tempo para ser concluído. Enquanto isso acontecia, pediu a Mack se poderia levar a papelada para analisar em sua própria casa pelo menos por um fim de semana, e ali estava.

O trabalho de Adrian era advogar, mas às vezes lhe surpreendia a quantidade de trabalho de detetive que poderia estar envolvida. As burocracias legais sempre eram a parte mais fácil quando já se sabia o que fazer com um documento ou com um caso; só precisava processar a papelada. Chato, com certeza, mas fácil, e era o que estava acontecendo com Theodore.

Adrian tinha adiantado tudo o que podia no caso do garoto. A acusação formal contra os dois tinha se encerrado muito rapidamente, mesmo levando em conta quaisquer pauzinhos que Mack pudesse mexer. O fato é que se tratar de dois menores de idade com responsáveis influenciadores em volta bastou mesmo para inocentá-los, sem sequer precisar de julgamento ou audiência formal. Alguma troca de favores tinha com certeza tomado lugar ali para sequer ter havido a necessidade desse tipo de formalidade, e como a investigação não tinha produzido provas concretas, ter de basear a acusação em provas circunstanciais acabou não bastando para o promotor, que deixou o caso passar sem acusação. A surpresa era a velocidade com a qual isso tinha sido feito, em apenas seis meses. Sim, Mack tinha acelerado o processo de alguma forma. E, se não existia mais acusação, Adrian não tinha que se preocupar com defesa criminal, podendo focar apenas na parte burocrática da coisa.

A herança de Theo tinha sido processada formalmente, e os documentos adequados estavam na frente dele, só precisando da assinatura do garoto, mas algo dizia a Adrian que essa seria a parte mais difícil de conseguir. Por qualquer motivo que fosse, Theodore não parecia interessado em herança, ou qualquer coisa relacionada a isso, e com certeza o tipo de cliente mais difícil era o que não queria ser defendido. Adrian empurrou a pasta com os documentos dele para o lado; não havia mais nada que pudesse fazer pelo garoto enquanto ele mesmo não quisesse continuar com o processo. Agora, precisava se focar em sua outra dor de cabeça.

Adrian não tinha formação em economia, embora tivesse estudado aspectos legais na faculdade e portanto tivesse um bom conhecimento de leis tributárias. No entanto, isso se aplicava aos Estados Unidos, e já tinha sido complicado o suficiente para ele e Mack conseguirem o direito de defender os dois a partir de um escritório de advocacia americano, e juntando a isso toda a pesquisa que Adrian vinha precisando fazer sobre leis da África do Sul, o caso de Iniko Ngozi podia facilmente ser um dos mais complicados que já tinha pego na vida.

Não havia rastro fácil de dinheiro para seguir. Não era necessário ser sul-africano para se ter uma empresa sul-africana, e os números de registro das companhias tinham sido cancelados pouco depois da morte dos pais da garota. Adrian não fazia ideia de como isso poderia ter sido feito de forma legal, o que com certeza significava que ou havia acontecido alguma corrupção nos próprios cartórios e processamentos de documentos, ou, e era o que ele tentava descobrir agora, a herança de Iniko já tinha sido processada.

Ela era menor de idade quando tudo aconteceu, e Jones, o homem a quem ela tinha como figura paterna, tinha assumido responsabilidade legal pela garota depois de não sobrar nenhum parente vivo e ele ser tido como figura adulta próxima. Não parecia ter sido uma análise muito cuidadosa nesse caso, mas Adrian não duvidaria da própria Niko ter, em sua inocência de adolescente, testemunhado a favor do homem depois de lhe ser requisitado que falasse sobre a relevância dele como figura paterna em sua vida.

Se fosse esse o caso, e essa era a trilha de papel que tentava seguir, Jones teria controle da herança de Niko por responsabilidade legal enquanto ela fosse menor de idade, e com uma assinatura ela poderia ter passado tudo para ele sem sequer se dar conta. Depois disso, estava tudo em posse dos Purificadores para fazerem o que bem entenderem.

Era uma boa teoria, mas ainda precisava de mais investigação para ter certeza. Teria de perguntar a Niko se ela já tinha assinado algum documento, mesmo que não soubesse o que era, e se já tinha falado sobre herança com Jones antes. Não estava ansioso para essa conversa. Jesus Cristo o abençoasse nesse momento, mas mais ainda, abençoasse a coitada da garota. Se estivesse certo, e ela tivesse mesmo assinado a transferência de posses sem perceber, isso acabaria com o emocional dela. Podia sentir.

Adrian largou a caneta sobre a mesa, espreguiçando-se um pouco para trás. Estava sentado há horas, e vinha ficando mais e mais complicado se concentrar depois de tanto tempo. Queria fazer um bom trabalho, principalmente por conta da fé depositada nele por Mack, mas também porque não podia perder esse emprego. Talvez estivesse se esforçando demais naquele momento em específico; estava trabalhando há doze horas ininterruptas e começava a se sentir nervoso demais com a situação.

Estava se sobrecarregando. Hora de pausar um pouco.

Ele se levantou, caminhando até as enormes janelas de parede inteira do fundo do escritório. Adrian usava terno, mesmo estando dentro de casa, por ter precisado atender algumas video-chamadas e ter feito questão de estar adequadamente vestido para as tais. Ele afrouxou a gravata, cruzando as mãos atrás das costas e encarando a vista de Manhattan por um instante. E então, aconteceu mais uma vez.

A primeira coisa que ele ouviu foi uma sirene. Tudo bem, sirenes eram altas, mas ele estava no vigésimo primeiro andar, não deveria conseguir ouvir um sirene com clareza o suficiente para o barulho chegar a lhe incomodar os ouvidos. Era um carro de bombeiros, ele reconheceu, tamanha a nitidez do som, e logo tinha passado. Mas os outros barulhos não.

Adrian levou uma mão ao ouvido, grunhindo de dor enquanto ouvia uma multidão de vozes, cochichos e gritos espalhados pelo quarteirão, ecoando como se estivessem ao seu lado. Uma mulher estava discutindo com o marido por achar que ele tinha uma amante, acusação que o homem negava profusamente, alguns prédios para a direita. Havia muitas televisões ligadas, uma delas em uma das telenovelas que Yo-Yo gostava de assistir, ele reconheceu, graças às vozes de alguns dos atores familiares para ele. Um bebê chorava em outro apartamento enquanto um homem cantava para ele dormir. Em algum outro lugar, um cachorro não parava de latir. Tudo isso misturado a um burburinho de vozes, buzinas, músicas e todos os outros sons da cidade, ecoando na cabeça de Adrian como se estivessem bem ali, dentro da mente dele, tentando levá-lo à loucura, ou talvez deixá-lo surdo, o que não seria algo ruim agora.

Ele se voltou para a escrivaninha, a passos trêmulos, abrindo a gaveta com um notável desajeito. Lá dentro, encontrou a caixinha que tinha recebido da S.H.I.E.L.D. com os tampões para os ouvidos, e os colocou às pressas, ouvindo um clique suave. De repente, tudo estava no mais absoluto silêncio.

Adrian suspirou. Tinha tido o primeiro episódio desses três dias depois de chegar na base. Não demorou para lhe arrumarem esses tampões depois, algo que abafava qualquer som que não estivesse a poucos metros de distância dele. Infelizmente, eles não tinham bateria infinita, e também não eram aconselhados a uso prolongado, pois não sabiam se atrapalharia o desenvolvimento natural da mutação de Adrian, ou ele jamais tiraria aquelas coisinhas lindas dos ouvidos. Ele se jogou na cadeira de novo, respirando aliviado e dando Graças a Deus que os barulhos tinham sumido e podia ter paz em sua própria cabeça de novo.

Foi mais ou menos nesse momento que ele ouviu batidas tímidas na porta do escritório. Conhecia aquele jeito de bater. Ele olhou para o relógio, soltando um palavrão baixo ao perceber que tinha passado da hora de dormir de Trevor e que, distraído do trabalho, não tinha cozinhado o jantar que o menino queria comer. Como tinha ficado tão tarde tão rápido?

— Pode entrar, filhão — Adrian chamou, levantando-se da cadeira e dando a volta na escrivaninha, sentando-se sobre o tampo dela.

Trevor usava um pijama do Batman e certamente tinha jantado algo que a babá teria preparado. Ele parecia um pouco desapontado, e Adrian não podia culpá-lo. Estava desapontado consigo também.

— Você disse que ia fazer sarmale hoje — o garoto acusou, com a voz um pouco baixa e a expressão enfezada.

Sim, tinha dito. Tinha até comprado os ingredientes. Droga, como podia ter deixado a hora passar desse jeito?

— Me desculpe. O papai ficou distraído — Adrian respondeu, pegando Trevor pela cintura e o sentando em seu colo. — Fiz coisa errada. Acho que você devia me pôr de castigo por não fazer o jantar hoje — ele brincou, abraçando o filho com um braço.

Em vez de responder, Trevor apenas se virou, abraçando o pai em silêncio. Adrian quis se dar um tiro, talvez pular do prédio. Trevor só tinha a ele. A mãe o tinha abandonado, e se Adrian não pudesse estar ali pelo garoto, quem estaria?

— Tia Stacy fez comida pra mim. Tava gostoso, mas não é sua comida.

“Tia Stacy”, a babá de Trevor, era muito esforçada para os dezesseis anos que tinha nas costas, mas não podia substituir o pai. Ela só devia cuidar do filho por algumas horas enquanto Adrian trabalhasse, não pelo dia inteiro e mais um pedaço noite adentro. Droga, tinha avacalhado os planos de sábado da menina também.

— Vamos fazer o seguinte, então. Vou dizer a Stacy pra ir embora, porque já passou da hora dela, e você vai pra cama porque está tarde. E amanhã eu não vou trabalhar hora nenhuma, vou passar o dia todinho com você. Que tal?

Trevor o olhou meio desconfiado, mas com um brilho nos olhos que foi mais que o suficiente para Adrian reconhecer essa decisão como a escolha certa. Ele deixou um beijo na testa de Trevor e desceu da escrivaninha, colocando-o no chão.

— Então vamos, hora de dormir.

Depois de uma breve parada na sala para pagar Stacy e se desculpar pelo atraso — a garota disse que estava feliz por receber hora extra e que teria dito algo se precisasse ir embora mais cedo, para alívio de Adrian —, Trevor se despediu dela, e Adrian levou o filho até o quarto. O quarto de Trevor era cheio de decorações de filmes de Star Wars, um interesse recente do garoto. Até quatro meses atrás ele tinha passado pela onda “Vingadores” dele, e tinha se afundado em brinquedos dos heróis. Adrian conteve uma risada, pensando no que o filho diria se soubesse que o Gavião Arqueiro trabalhava com ele. Era mesmo uma pena não poder falar nada.

Ele conduziu o menino até a cama dele, o deitando sob as cobertas do C3PO e ajeitando os edredons para cobri-lo.

— Tomou sua insulina quando jantou? — Adrian perguntou, abrindo a gaveta do criado mudo do menino e tirando o medidor de glicose.

— Tomei. A Stacy lembrou direitinho.

— Ótimo. Dá o dedo pro papai.

O menino estendeu a mão por baixo do edredom e Adrian espetou o dedo dele, esperando um pouco pelo resultado. Felizmente, a glicose estava em um número adequado. Sempre que fazia uma medição, entrava em desespero de pensar no filho adoecido. Muitas vezes era só paranoia sua, e tinha noção disso, afinal, cuidava de Trevor muito bem. Mas ainda assim, a sensação estava lá.

— Tudo ótimo — respondeu, guardando o medidor, aliviado, e começando um carinho nos cabelos do filho. — Agora vai dormir que já passou da sua hora de estar na cama.

— Boa noite, pai. Eu quero meu sarmale amanhã, viu?

— Pode deixar. Boa noite.

Trevor fechou os olhos, e Adrian ainda ficou ali por algum tempo, fazendo uma prece ao Anjo da Guarda do filho para protegê-lo enquanto esperava o menino dormir. Em alguns minutos, Trevor pareceu ter pegado no sono, então Adrian desligou o abajur e deixou o quarto.

Do lado de fora, ele se escorou contra a parede do corredor, tentando não se culpar muito pelo dia perdido com o filho. Estava tudo bem, teriam o domingo inteiro um com o outro e não haveria trabalho que o impedisse. Cansado, ele levou a mão à orelha, tirando um dos tampões devagar e se certificando de que sua audição tinha voltado ao normal antes de se livrar do outro também.

Fazia pouco tempo desde a última vez na qual tinha precisado desses tampões, pouco demais na opinião de Adrian. Talvez fosse melhor avisar Yo-Yo; ela tinha pedido para que ele a falasse sobre quaisquer alterações no estado de sua mutação, e isso estava começando a se parecer com uma alteração para ele.

O homem pegou o celular, discando o número da inumana e caminhando a passos lentos em direção ao próprio quarto. Podia ser uma pessoa noturna, mas faria questão de dormir cedo para aproveitar o máximo do dia seguinte que pudesse com o filho.

Tinha acabado de cruzar a porta do quarto quando Yo-Yo atendeu.

Hola, Adrian. Tudo bem?

— Ah… Não sei. Eu precisei dos meus tampões hoje.

— De novo? Hum… — Amulher ficou em silêncio por um instante, e ele aguardou, ansioso, enquanto ela pensava. — Faz pouco tempo da última vez, não faz?

— Dois dias. É uma distância menor que nas outras ocasiões.

— Certo. Eu vou avisar o laboratório. Pode ser que sua audição esteja progredindo para um estado permanente de sensibilidade. Se for esse caso, ela pode acabar se estabilizando, mas vamos ficar de olho, continue me dando notícias.

Estabilizar? Era tudo o que Adrian queria. Que tivesse super-audição, se fosse o caso, poderia até ser útil no trabalho, mas que chegasse em algum ponto e ficasse nele em vez de ficar tendo todos aqueles picos estranhos.

— Certo. Combinado.

— E como você está?

Adrian olhou para a porta, para o final do corredor onde ainda conseguia ver uma fraca luz azulada escapando de baixo da porta de Trevor, efeito da luz noturna ligada no quarto.

— Trevor foi dormir. Acabei não dando atenção para ele como queria, mas ele está bem. Glicose normal. Cansado, mas vou passar o dia com ele amanhã.

Ele ouviu uma risadinha baixa do outro lado da ligação antes de Yo-Yo responder.

— Fico feliz por ele, de verdade. Mas eu perguntei como você está.

Adrian levou mais alguns segundos para perceber que tinha respondido a pergunta com o bem-estar de Trevor, e soltou uma risadinha em resposta também. Às vezes era tão pai babão que se assustava.

— Vou ficar melhor quando tudo isso se estabilizar. Mas não está tão ruim quanto poderia. Os tampões ajudam bastante.

— Vai ficar tudo bem, eu prometo. Fique com Deus, Adrian, e me ligue se precisar de algo.

— Obrigado. Deus te abençoe.

Os dois desligaram a chamada, e Adrian avançou para a janela do quarto. A cidade estava silenciosa, mas o homem sabia, os mesmos ruídos e terrores estavam todos vivos. Era ele quem, por ora, não os conseguia ouvir.

[...]

Os bunkers ocupados pelos agentes na base da S.H.I.E.L.D. eram bastante simples. Uma cama, uma escrivaninha, um guarda-roupa. Tudo meio cinzento, graças à construção de concreto, mas Theo tinha ouvido rumores sobre Mack estar organizando uma reforma interna no local. Até lá, os agentes faziam o possível para deixar os quartos com suas caras, como pudessem, e foi quando se viu com a chance de decorar seu bunker que Theo percebeu o quanto estava quebrado.

Não fazia ideia do que queria colocar em seu quarto. Quando olhava para seu passado, seus últimos anos e seus últimos passatempos, todos se voltavam para armas, lutas, e quaisquer coisas relacionadas aos Purificadores. Theo chegou à horrivel conclusão de que não sabia mais do que gostava, e que portanto enfeitar seu bunker se mostraria um desafio a longo prazo.

Já tinha decidido que não queria transformar o quarto em uma extensão de seu ambiente de trabalho, então nada de armas. Só o que precisava era descobrir qual era o passatempo de seu gosto. Filmes de ação, talvez? Ou algum video-game? Tinha tempo para isso, e ia se dedicar a descobrir. Enquanto não descobrisse, ele só teria uma peça decorativa da qual tinha absoluta certeza de que queria manter em seu quarto.

Theo precisou entrar no sistema da S.H.I.E.L.D. para conseguir uma boa foto de sua mãe. Não tinha sido algo fácil de pedir aos agentes de comunicação, ainda tinha alguma vergonha internalizada quanto a qualquer sentimento que julgasse vulnerável, mas Hamed não tinha feito nenhuma pergunta. Ele acessou o sistema, encontrou a foto, imprimiu e a entregou a Theo.

E agora, estava ali, presa com ímãs a um quadro simples de metal. Era uma foto de sua mãe em algum parque ou praça, sozinha, usando um vestido branco. Não fazia ideia de que praça era aquela, ou quem tinha tirado a foto em qual contexto, mas os detalhes não importavam por enquanto. Ainda tinha muita curiosidade sobre a mulher, vontade de conhecê-la, mesmo sabendo não ser possível se conhecer alguém depois da morte, a não ser pelo que tinham deixado em vida. Aos poucos, era o que vinha procurando sobre ela, e aquela foto era um ótimo começo.

Ele encarou a porta do bunker, pensando se sairia dali ou se continuaria no local por mais tempo. Vinha praticando com Hunter com alguma frequência, e o homem era um ótimo mentor, além de ser divertido e render ótimas provocações graças ao conflito das nacionalidades dos dois. Como um bom escocês, não podia deixar passar a oportunidade de zoar que o peixe com fritas deles era melhor que o da Inglaterra, mesmo que isso acabasse com Hunter pegando um pouco mais pesado na prática depois.

Theo acabou decidindo sair. Ele olhou para a foto mais uma vez, sentindo um misto de aperto e conforto no peito, e deixou o bunker. Não tinha nada de especial para fazer agora mas, era sábado à noite, ninguém estaria fazendo nada de mais com exceção do pessoal de comunicações que estava a trabalho praticamente vinte e quatro horas por dia. Coitados. Mas Theo não se iludia, sabia que poderia chegar a hora dele de trabalhar a mais também.

Ele acabou se encaminhando para o laboratório. Quando não sabia o que fazer, ou para onde ir, acabava indo atrás de Niko em busca de companhia familiar. Naquele momento, encontrou a garota resmungando na frente do computador enquanto digitava alguma coisa. Não queria atrapalhar, ela parecia ocupada, mas antes de deixar o local, acabou sendo visto.

— Ah, oi Theo.

— Não quero atrapalhar — ele disse de uma vez, sentindo o quão enfezada ela estava.

Niko apenas deu de ombros, escorando-se para trás e virando a cadeira para encarar o amigo. Theo viu aquilo como um sinal de que não estaria atrapalhando, e decidiu entrar no laboratório. Quando se aproximou o bastante, pôde reconhecer a planilha na tela do computador da amiga e entendeu na mesma hora de onde estava vindo a frustração dela.

— Te colocaram para fazer inventário? — Ele perguntou, quase sentindo um arrepio de repulsa na espinha. — Eca. Meus pêsames.

— Nem me fala. Foi a Morse. Vamos começar a fazer análises de DNA nos inumanos em breve, o que vai ser bem trabalhoso, e ela está pré-preparando algumas coisas. Daí, como eu fiquei com tempo livre nas mãos enquanto ela faz isso, a ideia maravilhosa dela foi de me dar o inventário do laboratório pra fazer. Estou nisso há tanto tempo que acho que fritei meu cérebro, as contas não estão nem batendo mais.

Trágico. Talvez tivesse mesmo chegado no laboratório bem na hora certa, porque Niko parecia prestes a estourar uma veia de nervosismo e, se tinha uma coisa pior que fazer inventário, era ficar errando conta e lidando com número que não batia sem saber de onde o erro surgiu. Tudo bem, o melhor que podia fazer por ela era ser o herói do dia.

— Deixa isso aí, vamos pra cozinha um pouco. Depois você termina — ele sugeriu com um sorriso divertido e, esperava ele, tentador.

Se foi sua expressão ou a proposta em si que acabou a convencendo não teria como saber, o importante foi que venceu. Ela se levantou, desligando os monitores e passando o braço pelos ombros do amigo.

— Obrigada Theo. Você é um salva-vidas.

— É, já ouvi isso algumas vezes — ele brincou em resposta, inflando o peito e colocando uma postura de herói.

— Palhaço — ela riu, seguindo com o amigo até a cozinha.

Naquele fim de tarde em específico, o salão estava vazio. Não havia ninguém na cozinha, nem nos video-games. O único outro ocupante do local era Erasmus, sentado na mesa bebendo água de coco.

— Eras! — Theo ouviu Niko cumprimentar, e se virou para a mesa.

Ele acenou para o garoto e a dupla foi até lá, sentando-se com ele. Erasmus devia estar com muita sede a julgar pelos dois cocos vazios ao lado dele na mesa. Theo se perguntou se o garoto estaria desidratando, mas não quis dizer nada em voz alta. Talvez pudesse soar rude demais.

— E aí, acabou seu inventário? — Ele perguntou, tomando mais um gole da bebida.

— Quem me dera. Theo decidiu me salvar da tortura.

— Mandou bem, ela tava toda estressada quando passei por lá na hora do almoço.

Theo sorriu em resposta, sem dizer nada. Tinha almoçado sozinho por comer bem mais tarde que os outros, já que estava treinando a mais que Hunter ultimamente. Não se importava com isso, mas de repente se perguntou se Niko se importaria e se tinha deixado a amiga na mão. Foi mais um assunto que ele decidiu não comentar.

— Tem mais dessas aí? — Theo perguntou, indicando os cocos. — Estou morrendo de sede.

— Acho que não, mas ainda tem do seu refrigerante escocês.

Refrigerante escocês. Theo riu um pouco da definição, antes de ir buscar uma lata para si. Sabia que Niko tinha odiado a bebida, então não se importou em oferecer, encontrando uma jarra de suco e levando para ela.

— Oh, obrigada.

Os três se serviram e beberam em silêncio, apenas ouvindo sons de conversas distantes na sala onde Mack e Hunter entraram para começar uma partida no video-game. Então, de repente, Niko pôs o copo de suco na mesa, parecendo ter se lembrado de algo.

— Theo, esqueci de te falar! Vou para Nova York em breve, passar uma tarde por lá. Já avisei o Cassian, o que foi ótimo, ele estava começando a ficar bem frustrado com essa demora toda.

— Cassian? — Erasmus interferiu, brincando com o canudinho da água de coco. — Quem é Cassian?

— O namorado dela — Theo respondeu, cortando com um sorriso divertido no rosto. — Um lixo de pessoa, insuportável, não sei o que ela viu nele.

— Haha — Niko ironizou, mas não discutiu, o que Theo viu como um sinal de sua brincadeira ter sido bem recebida.

Ao menos não tinha perdido essa habilidade. Ainda.

— Você pode me avisar quando for? — Eras pediu, voltando a beber alguns goles. — Tem alguém que eu queria visitar por lá também, talvez eu possa pegar uma carona.

— Claro! Quer vir também, Theo? Não tem ninguém para visitar, não?

Theo sentiu sua cabeça dar uma volta inteira assim que ouviu a sugestão. Ele agitou os dedos, levando-os ao bolso da calça quase sem se dar conta e tocando o metal do celular por cima do tecido da roupa. Vinha trocando as mesmas mensagens sem graça com Damon, e aquilo não adiantava de nada. Niko tinha razão, precisava visitá-lo, falar com ele de verdade.

Mas Theo pensou em ver Damon frente a frente, em estar tão perto dele de novo, com aqueles olhos verdes carregados de malícia, com os sorrisos arrogantes e estupidamente atraentes e com o jeito com o qual ele passava a mão pelos cabelos loiros de vez em quando para ajeitar o topete…

Não estava pronto para isso. Não agora.

— Não acho que eu possa ver Damon ainda — Theo respondeu. — E, sinceramente, não sei se ele está pronto para me ver.

— Quem é Damon? — Erasmus perguntou, agora brincando com o canudinho enquanto bebia.

Theo e Niko se entreolharam, e naquela troca de olhares, existiu uma conversa inteira. Theo estava ciente há um bom tempo que Niko sabia sobre o que tinha acontecido entre Damon e ele. Ela não teria concordado daquela forma em deixar Theo se despedir a sós do garoto, sem nenhum questionamento ou nem mesmo uma franzida de sobrancelhas, se não desconfiasse de algo. Não. O pedido de Theo foi visto não apenas com uma naturalidade enorme, mas como se ela já o esperasse, e seria impossível para ele não perceber com a atitude que Niko, no mínimo, desconfiava de alguma coisa.

Mas Theo nunca tinha falado nada em voz alta. Nem para ela, nem para si mesmo, ele constatou, e naquele momento em particular ele sentiu um choque diferente na boca do estômago por pensar assim. Sua mente já tinha feito as pazes com a situação com o garoto… Em partes. Bem, ok, em partes bem pequenas, mas ainda assim em partes. Talvez falar sobre pudesse ajudar em algo… Será?

Theo pigarreou, bebendo mais um gole de Irn-Bru e batucando os dedos na mesa. Erasmus olhou um pouco atordoado de um para o outro, e Theo percebeu que não conseguia falar sobre ainda. Estava menos preparado que tinha imaginado.

— Desculpe. Não queria tocar em uma ferida — o inumano comentou, abaixando a cabeça e mexendo com o canudinho dentro do coco.

— Não. Tudo bem… Ele… Ele é um amigo. Aconteceram algumas coisas e acabamos tendo que nos separar.

Sua resposta não ajudava muito Erasmus a entender o que tinha acontecido, Theo tinha certeza, e a expressão do garoto de quem ainda esperava mais informação deixou claro que a resposta de Theo não tinha ajudado em quase nada. Felizmente, por sensibilidade ou puro interesse, Niko decidiu interferir na situação.

— Ele estava nos Purificadores com a gente, mas era mutante e não sabia. Imagine você que isso não fez muito bem pra cabeça dele.

— Oh — Erasmus respondeu apenas, e ele parecendo entender.

Theo sentiu algo se remexer em seu estômago e se perguntou se teria bebido Irn-Bru demais. Niko continuou falando.

— Acabamos deixando ele com os outros mutantes para vir pra cá e a família dele o abandonou, então ele ficou sozinho. Poderia ser uma boa ideia visitarmos ele em Nova York, mas… Foi tudo muito complicado, entende? Acho que Theo não está pronto para vê-lo de novo.

Essa resposta satisfez a curiosidade de Erasmus, e sem mencionar uma letra que fosse sobre o real motivo pelo qual não podia ir à cidade. A habilidade de Niko para contornar a situação era de se admirar, mas mesmo que pudesse ter evitado o assunto e a resposta, Theo se sentia afetado só por ter tudo voltando em sua cabeça, os momentos passados com Damon, a despedida…

Ele percebeu nesse momento que não vinha lidando com nada. Vinha ignorando, mandando mensagens de conversa fiada e não pensando sobre o que tinha acontecido de fato.

Precisava de ar.

— Com licença — ele pediu, levantando-se da mesa e deixando a cozinha, sentindo lágrimas subirem aos olhos e a garganta apertando devagar.

Não era sobre Damon, especificamente. Era a situação toda. Era o que tinha acontecido, o que tinha feito. Quem ele era. Quem ele não podia ser. Theo seguiu aos tropeços pelo corredor do lado de fora da cozinha, apoiando a mão contra a parede e levando a outra ao rosto, enxugando suas lágrimas às pressas. Não queria que ninguém o visse desse jeito. Só precisava de um tempo.

— Ei, Theo — ele ouviu Niko chamá-lo, tocando-o no ombro para atrair sua atenção. Ótimo. Ela tinha o seguido.

Ele fungou, respirando fundo e tentando se impedir de chorar, falhando miseravelmente no processo. O toque de Niko ainda estava presente, um convite para ele se virar para ela, o que o garoto acabou fazendo. As mãos dela foram ao rosto dele, enxugando as lágrimas do amigo e levantando o rosto para que ele a olhasse.

— Está tudo bem?

Parecia bem? Era uma pergunta retórica, um sinal de preocupação. Theo quase respondeu que sim, por mais idiota que a resposta fosse soar, mas antes que pudesse se impedir, foi traído pela própria boca e um murmúrio embargado.

— Não… — Ele respondeu, soluçando, fungando e voltando a enxugar as lágrimas. Sequer conseguia ver Niko muito bem, com a visão embaçada pelo próprio choro.

— Tudo bem, estou aqui com você. Por que não nos sentamos um pouco?

Theo não respondeu, apenas acompanhando Niko para escorregarem até o chão, pela parede. Os dois se sentaram, e ela segurou uma das mãos do amigo, entrelaçando seus dedos nos dele. Theo ainda estava chorando, enxugando as lágrimas com uma mão e apertando os dedos da amiga com a outra. Niko não disse nada, apenas ficou segurando a mão dele e esperando enquanto, aos poucos, Theo parava de chorar.

Eventualmente, parou. Ele terminou de enxugar o rosto, fungou uma última vez e respirou fundo, encarando o teto do corredor. Niko acompanhou o olhar dele e os dois ficaram em silêncio por um tempo. Não sabia se ela estava só esperando, ou se pensando em algo, mas Theo estava colocando os pensamentos no lugar. As memórias que ele tinha afundado no fundo da cabeça. Não podia deixar isso assim. Não podia parar de pensar em seus problemas e decidir que os tinha resolvido.

Ele olhou para Niko e ela mudou a postura, sentando-se de lado para encará-lo. Estava esperando, Theo percebeu. Se dissesse a ela que queria ficar sozinho, tinha certeza, a garota iria embora sem fazer nenhuma pergunta.

Mas não queria ficar sozinho. Estava cansado de se sentir sozinho, abandonado… De ter as pessoas que amava e a quem ele amava arrancadas dele. Mas Niko estava ali. Era sua melhor amiga, e não iria a lugar nenhum. Não tinha de ficar sozinho. Podia confiar em alguém. Podia contar a alguém.

Só para ela. Sem cozinha cheia, sem Erasmus por perto. Nada. Só ela. Não podia ser muito difícil, não quando os dois sabiam muito bem o que estava acontecendo. Só precisava falar as palavras.

Droga Theo. Diga. É só falar. Diga!

— Estou apaixonado pelo Damon.

Ele demorou alguns segundos para entender que as palavras tinham mesmo saído de sua boca. Levantando o rosto, viu que Niko carregava um sorriso pequeno e bondoso, e ela apertou a mão de Theo.

O mundo não tinha explodido, não tinha começado a pegar fogo. Nada tinha mudado ao seu redor. Mas, por dentro, Theo sentiu um peso do tamanho de um elefante sair de suas costas. Pronto, era essa a verdade. Estava apaixonado. Paixão era isso, não era? Uma atração forte e intensa, como a que sentia por Damon. E era sim atraído por ele, e agora que podia revisitar seus sentimentos em sua mente, sabia, sempre tinha sido. Só não conseguia admitir antes.

— Como isso faz você se sentir? — Niko perguntou, fazendo um carinho na mão de Theo com o polegar, o que foi muito positivo para ajudá-lo a manter a calma.

— Assustado — ele respondeu. Como já tinha falado, manter a conversa no assunto parecia bem mais fácil. A parte difícil tinha sido começar. — Eu… Não sei o que fazer com isso. Não sei se devia sentir isso.

— Por quê?

— Porque não, oras.

E só na hora em que verbalizou a resposta que Theo percebeu, não havia motivo. “Porque não” não era motivo, “porque meu pai disse que não” seria no mínimo hipócrita considerando quantos ensinamentos dele estava dispensando agora, e não diria que era errado porque não achava que fosse. Só não esperava acontecer com ele. Com os outros tudo bem, mas com ele?

— Eu acho que vocês dois têm muito para resolver ainda — Niko respondeu, levantando-se e sendo acompanhada por ele. — Mas não tem pressa. Foi uma boa escolha vocês se afastarem um pouco. Por isso me ofereci para te acompanhar caso quisesse visitá-lo agora, inclusive.

Ha. Bem, isso fazia sentido. O encontro deveria ser mais tranquilo com Niko presente, mas Theo não achava que seria. Não para si mesmo.

— Não consigo vê-lo ainda, sozinho ou com alguém. Não dá.

— Tudo bem — ela respondeu, passando a mão nos cabelos de Theo e ajeitando o topete que ele tinha amassado. — Quando for a hora, vai ser a hora. Obrigada por confiar em mim para dizer isso.

— Você… Você acha que está tudo bem?

Niko deu de ombros, com um sorriso mais divertido no rosto.

— Bem… Damon, sério? Não podia ser um cara menos pé no saco? — Ela brincou. — É claro que está tudo bem. O coração ama quem ama. E amor é bonito, Theo. Não é feito pra ser guardado e escondido. A gente nunca sabe até quando quem amamos vai estar por perto.

Ele a puxou para um abraço, e receber o carinho dela de volta foi como um sopro fresco em uma tarde quente de verão. O fato de ter sentimentos não mudava nada. Não devia mudar. E embora ainda existisse um caminho em sua frente para lidar com isso, Theo sentia como se tivesse acabado de dar um passo gigante na direção certa.

— Obrigado, Niko.

— Eu te amo, seu besta. Pode confiar em mim pra qualquer coisa, viu? A gente tá junto pro que der e vier. Nós prometemos continuar juntos quando a coisa dos Purificadores acabou, e é isso que vamos fazer.

Sim, iriam. Não estava sozinho. Tinha ganhado uma irmã no meio de toda essa confusão, e só agora estava se dando conta disso. Ele segurou as mãos dela, as apertando e abrindo um sorriso carregado de conforto e alívio.

— Eu te amo também.

Notas finais
Link pro grupo de whatsapp: https://chat.whatsapp.com/DrHNqXKPp8cBfLb7UGgbAL Considere favoritar essa fic e Homem de Gelo também. Vai deixar meu coração bem quentinho ♥ Além dessa, tenho vagas também para uma interativa original sobre revoltas civis. Acesse aqui: https://www.spiritfanfiction.com/historia/a-rosa-do-tempo--interativa-19350882/ Considere também dar uma olhada nas minhas outras histórias? :D Eu tenho coisas para vários gostos ^^ Leia a duologia Hunters! Comece aqui: https://fanfiction.com.br/historia/771022/Hunters_Hunters_1/ Leia minha original de fantasia urbana, Carmim! https://fanfiction.com.br/historia/787245/Carmim/ Leia minha fanfic de Harry Potter! https://fanfiction.com.br/historia/781763/Marcas_de_Guerra_Historias_de_Bruxos_1/ Fanfic 2 atualizando atualmente: https://fanfiction.com.br/historia/799894/Amargos_Recomecos_Historias_de_Bruxos_2/