Notas iniciais
Gente eu tava com ele pronto e ESQUECI DE POSTAR Desculpa Toma Amo vocês

A casa dos pais de Praxis não era nem de longe tão grande — ou cara — quanto a mansão de Aurelius onde ela vivia agora. Sim, a mansão de Aurelius, uma vez que mesmo tendo seu nome na escritura, não conseguia se levar a enxergar a vida que levava com o homem como algo no qual devesse tomar parte por inteiro. A casa dele ainda era dele, o quarto que dividiam, mesmo com todas as coisas dela dentro, ainda não parecia dela. Todo o dinheiro e prestígio, nada parecia certo. Talvez, além do próprio orgulho, esse tivesse sido um dos motivos pelos quais Eupraxia acabou não abrindo mão de seu sobrenome no casamento. Não queria mais pedaços de Aurelius em sua vida que não pareciam seus.

Naquela manhã de domingo, acabou atendendo a um convite dos pais para tomar café na casa deles. Chique, cara e espaçosa, mesmo não sendo uma mansão, a casa era como um tapa na cara de Eupraxia a lembrando do porquê tinha aceitado o bendito casamento em primeiro lugar. Tudo em sua vida parecia estar sempre tentando lembrá-la desse terror enquanto ela tentava desesperadamente fugir.

Várias vezes, ela se perguntava se sua vida seria melhor caso não tivesse sido aprovada para a terrigênese. Seria mais pobre, com educação limitada e um trabalho de capacidades rasas, mas ao menos seria livre.

Ela abaixou a xícara depois de tomar um gole de chá, levantando o olhar para o céu muito branco acima da cabeça deles. Sua mãe tinha organizado a mesa do café na varanda, para aproveitarem o clima fresco, mas Eupraxia sabia que "aproveitar o clima fresco” era uma frase disfarçada para “aproveitar a falta de um Sol escaldante que poderia cegar todo mundo refletindo na pele da minha filha caso ela resolva dar um chilique no meio da conversa e perca o controle sobre suas habilidades”. E se isso era indicativo de algo, era de que ela não iria gostar do que quer que fosse que seus pais tinham para lhe dizer.

Assim, ela estava esperando em silêncio, sentada em sua cadeira tomando chá e comendo bolinhos sem fazer nenhum comentário além do bom-dia proferido ao chegar e das conversas de besteira que se seguiram, como um “como vai o trabalho?”, ao que ela respondeu “estressante”; “como vai seu marido?”, ao que ela respondeu “não sei, não quero saber e não ligo pra quem saiba”; e por fim, se ela tinha planos para aquela noite, ao que ela respondeu “não”, mas com uma pulga atrás da orelha muito forte sobre o motivo de estar ali.

E, certa como sabia que estava, sua mãe finalmente deixou o motivo claro ao terminar de comer um biscoito e colocar seu celular holográfico na mesa, apertando um botão e mostrando uma projeção que era, muito visivelmente, um convite formal.

— Lorde Haias vai dar um baile hoje à noite — ela mencionou, bebendo seu chá. — Altíssimo nível. A Família Real estará lá em pessoa.

Oh, aos infernos… Era exatamente por isso que ela tinha duvidado da natureza do convite. Eupraxia suspirou, esforçando-se ao máximo para não parecer enfezada com o anúncio, e falhando de imediato.

— Praxis — sua mãe a repreendeu, percebendo depressa o desinteresse da filha. — Lorde Haias é dono de uma das companhias que fornece insumos para a empresa de seu pai. É importante termos uma boa relação com ele.

Sim”, ela pensou, “é importante vocês terem uma boa relação com ele.”

Em sua inocência, Eupraxia tinha pensado que, ao manter seu sobrenome em seu casamento com Aurelius, também conseguiria fazer os Aristarche terem mais peso, com sorte peso o suficiente para seus pais poderem lidar com esse tipo de coisa por conta própria sem precisarem dela à tiracolo. Tinha subestimado o prestígio oferecido a inumanos que tinham passado pela terrigênese, e o quanto a extensão disso para a família deles era limitada. E não deveria ter. Deveria ter sabido melhor quais seriam os resultados.

— Não estou me sentindo muito bem hoje — ela comentou, o que não deixava de ser verdade. Sua pressão estava flutuante e o estômago estava a matando. — Pretendia me resguardar em casa e tirar o dia de folga amanhã caso não melhorasse.

Seu pai cruzou os braços, olhando para a filha com um olhar de desapontamento que só um pai poderia dar, e Praxis sentiu o estômago afundar até o chão.

— Apenas por uma hora, para marcar presença — ele pediu. Essa foi a primeira vez na qual seu pai se pronunciou durante todo o arranjo. — Isso pode ser a diferença entre eu assinar um novo contrato com Haias ou não, e se eu não assinar, posso levar um prejuízo enorme na fábrica, querida.

Uma hora. Uma hora inteira, e então poderia usar a carta da indisposição para escapar. Isso era tortura. Ela abaixou o olhar para o pedaço de bolo em seu prato, sentindo de repente que tinha perdido o enorme apetite de alguns instantes atrás. Eles nem precisavam mencionar o quão importante a presença de Aurelius também era, e só de pensar em convencê-lo a comparecer ao baile quando ele tinha tanto interesse por atividades sociais quanto ela a fazia querer dar um tiro na Eupraxia do passado, aquela que tinha dito sim no altar.

Agora era tarde para esse tipo de arrependimento. As coisas eram o que eram, e se ela deixasse seu pai na mão, estava claro que as consequências poderiam ser bem ruins. Ela não podia dizer não. Simplesmente não podia.

— Tudo bem — concordou, limpando a boca com um guardanapo de pano e o colocando sobre o colo. — Mas uma hora, entenderam? Eu não estou inventando coisas, estou mesmo muito indisposta hoje.

Foi o bastante, porém, para colocar um sorriso nos rostos de seus pais. Sua mãe bateu palmas, animada, e o pai agradeceu com um aperto leve no ombro dela. Eles pareciam muito felizes, mas tudo o que Praxis queria agora era se jogar na cama e desaparecer do mundo.

— Se não tiverem mais nada para tratar — a mulher comentou, pousando as mãos sobre a mesa. — Eu acho que vou me retirar agora. Se vou ter que passar por isso, é melhor que eu descanse durante o dia.

— Ah, perfeitamente querida — sua mãe respondeu, ainda com um sorriso grande demais no rosto. — Eu te envio o convite pelo celular.

E era aquele sorriso que acabava com Praxis, todas as vezes. Seus pais estavam muito bem com seus negócios e planejamentos próprios, mas ela conseguia ver na expressão de alívio dos dois o quanto ela ainda era indispensável para o sucesso deles. E os amava, eles sempre tinham feito tudo ao alcance por ela. A terrigênese dela não tinha sido só um jeito dos Aristarche mudarem de vida, mas também um meio para que a própria Eupraxia tivesse uma vida melhor que a que eles tiveram. Até hoje ela não sabia dizer o quanto isso tinha valido a pena.

— Com licença. Até de noite — ela se despediu, levantando-se da cadeira e deixando a varanda.

Não teria como escapar, no fim das contas, então era melhor já ir se preparando. Praxis pegou a limousine que a aguardava na porta da casa, seguindo de volta para a mansão de Aurelius. Se ele estava em casa naquele horário ou não, não quis saber. A mulher subiu direto para o quarto, mandando uma mensagem para a cozinha enviar suas refeições para lá e se enfiando debaixo dos cobertores.

Demorou toda a manhã e uma boa parte da tarde para ela encontrar Aurelius. Tinha enviado o convite para ele pelo celular, e a julgar pelo “ok” seco que recebeu como resposta, ele iria, mas não estava feliz por isso. Geralmente, havia algum tipo de conversa ou os dois debatiam o assunto para convencer o outro a ir, mas daquela vez, nada, o que só podia querer dizer que ele tinha recebido a mesma intervenção de seu pai. Inclusive, quando o homem entrou no quarto para conferir os ternos no guarda-roupa, ficou muito claro para ela que ele já estava ciente da celebração mesmo antes dela mandar o convite para ele, e que o fato dela ter sido convidada era apenas um facilitador em relação ao fato de que não precisariam se convencer da necessidade da presença do outro.

— O que você vai vestir? — Ele perguntou, distraído, olhando as gravatas na gaveta. E nesse momento ela percebeu que era melhor começar a se arrumar, ou acabariam se atrasando, e quanto antes fossem, antes ela poderia vir embora.

— Roxo — ela respondeu, abrindo sua metade do guarda-roupa e tirando um longo vestido roxo tomara-que-caia. Aurelius pegou uma gravata da mesma cor e abriu a gaveta de abotoaduras em seguida.

— Regras? — Ele perguntou, seguindo o protocolo conhecido pela mulher, enquanto ela entrava no banheiro e começava a encher a banheira com água.

— Uma hora de festa hoje, não estou me sentindo muito bem.

— Meu pai vai se ofender.

— Eu posso fingir um desmaio, não seria a primeira vez.

Ela esperou Aurelius considerar a proposta. Esperava que ele aceitasse, pois duvidava muito de sua capacidade de aturar o evento por mais tempo que isso.

— Ok — ele concordou. — Mas precisamos de uma dança, então. Se só temos uma hora na festa, meu pai só vai se aquietar se souber que as pessoas olharam pra nós.

Infelizmente, Eupraxia teve de admitir, era verdade. Ela tirou o robe de seda onde tinha passado o dia inteiro e entrou na banheira, mergulhando por completo os cabelos dentro da água.

E se só teriam uma dança, teria de ser uma muito boa, e ela não confiava muito em suas habilidades de dançarina para aquela noite. Eupraxia abriu os olhos, soltando algumas bolhas de ar pelo nariz e vendo as luzes do banheiro refletindo em padrões geométricos na superfície da água. Devagar, ela emergiu, passando a mão pelos cabelos e deitando a cabeça na beirada da banheira. A luz que costumava refletir em sua pele o fazia em padrões ondulatórios diferentes quando ela estava molhada. Eupraxia tinha muita certeza disso ser relacionado à refração da água, mas nunca tinha se preocupado em aprender a fundo. Não tinha motivo.

Aurelius apareceu na porta do banheiro naquele momento, segurando uma jaqueta de terno preta em uma mão, e uma azul marinho muito escura na outra. Eupraxia quase revirou os olhos. Todo esse tempo na alta sociedade e ele estava considerando combinar um terno azul marinho com uma gravata roxa?

— Você tá tirando uma com a minha cara? — Ela perguntou. A expressão de Aurelius não se alterou, deixando claro que não, ele não estava. — Preto, Aurelius, pelo rei. Ou cinza se quiser variar, mas azul só se você quiser me matar de desgosto.

— Eu deveria escolher o azul, então — ele respondeu, deixando o banheiro sem acrescentar mais nada.

Praxis demorou mais do que deveria. Parte dela sentia aquela sensação subconsciente de permanência, de que poderia ficar deitada na água sem nunca precisar sair, então o baile não aconteceria, não teria que aguentar Aurelius, nada disso seria necessário. Nada disso a irritaria. É claro, esses delírios da mente não passavam disso, delírios, e eventualmente, ela teve de se pôr de pé.

A mulher saiu do banheiro resmungando, mas ao menos Aurelius não estava mais por ali. Ele devia ter levado o terno para os criados passarem ou algo parecido, mas o importante era que não estava ali. Ela se enxugou, entrando no roupão de novo, e passando um tempo irritantemente longo para arrumar os cabelos e a maquiagem em equivalência a uma festa de gala. Não tinha saco para ficar se embonecando em salão de beleza, e sabia fazer um trabalho muito satisfatório ela mesma, mas o lado ruim era que dava mesmo muito trabalho. Um trabalho que ela estava muito irritada por ter por apenas uma hora de festa.

Talvez, ela pensou, pudesse fingir um desmaio agora mesmo, e assim não teria de ir.

Besteira. Seus pais precisavam. Ela sabia disso. Era só uma hora, não seria tão ruim assim. Eupraxia ficou repetindo esses pensamentos em sua cabeça por todo o tempo durante o qual ajeitava os cabelos e a maquiagem, até que já tinha feito todo o esforço de se arrumar e não haveria mais propósito em tentar desistir.

A mulher pegou o vestido que tinha separado, tirando o roupão e começando a vesti-lo. A peça começou a agarrar em suas coxas.

— Ah, para com isso — ela reclamou, puxando o tecido para cima, devagar. — Fala sério, não faz isso comigo, não agora de todos os momentos…

Xingando e grunhindo baixo de decepção, Eupraxia foi puxando a peça para cima, rezando para todas as entidades que conhecia nesse mundo para ela sair dessa furada e a situação melhorar. As entidades deviam estar se sentindo muito sádicas hoje, pois o que aconteceu foi que Aurelius entrou no quarto no exato instante em que ela estava forçando a peça por cima dos quadris.

Ele a encarou por alguns instantes e Praxis sentiu o rosto ficar vermelho, de súbito muito constrangida.

— Hum… Precisa de ajuda? — Ele perguntou, começando a formar um sorriso cínico no rosto, daquele tipo que ela tinha vontade de arrancar da cara dele fazendo carinho com um porrete.

— Não começa, Aurelius — ela resmungou, terminando de puxar o vestido e ajeitando o tomara-que-caia em cima do busto. Entretanto, não havia milagre que ela pudesse operar para alcançar o zíper apertado nas costas, e Aurelius percebeu isso muito rápido, indo até a esposa e segurando o zíper com menos delicadeza do que seria esperado de um marido atencioso.

— Anda logo, eu quero ir logo pra voltar logo pra casa — ele resmungou, começando a puxar o zíper para cima.

Praxis prendeu a respiração. A última coisa de que precisava era Aurelius dizendo que ela estava gorda ou coisa parecida. Felizmente, ele não parecia estar com o humor ou a paciência necessária para esse tipo de comentario. Com alguma força, e com Praxis admitamente encolhendo a barriga para dentro, ele conseguiu subir o bendito zíper para cima. Sem nenhum comentário engraçadinho da parte dele, a mulher se sentou na cama para calçar as sandálias, colocou as joias que tinha escolhido e pegou sua bolsa na mesa de cabeceira.

— Pronto. Vamos logo antes que eu mude de ideia — ela convocou, avançando para fora do quarto. Aurelius não lhe ofereceu o braço nem fez nada similarmente galante. Ele apenas fechou a porta e a seguiu para fora, os dois fazendo seu caminho até a limousine sem dizerem uma palavra sequer.

[...]

A última coisa que Aurelius queria em seu abençoado domingo era ter de comparecer a um baile chato de gente chata. Primeiro: quem dava um baile no domingo? Claramente algum desocupado que não tinha nada melhor para fazer na segunda-feira, e ai de você se não comparecesse porque tinha de trabalhar no dia seguinte; trabalhar era coisa de proletário. Nobre que era nobre ficava desocupado para ir nesse tipo de pataquada quando bem fosse necessário.

Esse era um dos aspectos que curiosamente compartilhava com sua esposa. Nenhum dos dois jamais entreteu a ideia de virar um nobre desocupado para ficar dentro de casa ou atendendo a eventos sociais o tempo todo, mesmo tendo dinheiro e investimentos para tanto — e embora parte do motivo fosse ter uma desculpa para estarem longe um do outro, ele também sabia ser porque os dois nutriam muita dignidade e orgulho de seu trabalho. Não era todo dia que se recebia uma tarefa direta do rei, afinal.

Agora não adiantava chorar as horas de sono perdidas. Só ficariam ali por uma hora, não era como se fossem perder muito tempo de descanso, de qualquer forma. A limousine parou na frente de uma enorme mansão decorada com um tapete vermelho na entrada, e um criado aguardava na porta para conferir os convites.

Santa paciência. É isso, não tinha mais volta. Era ir ou ir. O chofer abriu a porta da limousine e Aurelius desceu, contendo resmungos na boca da garganta. Ele pigarreou, colocando sua melhor expressão de contentamento no rosto e estendendo a mão para Eupraxia sair do carro.

Dali para frente, qualquer um poderia estar os olhando, das janelas, da varanda… Tinham que pelo menos parecer que se davam bem. Ela deu o braço ao marido e os dois foram seguindo a passos cautelosos e decepcionados em direção à entrada da mansão.

— Horas? — Ela pediu, subindo as escadas ao lado do marido. A mulher mostrou seu convite para o criado da porta e ele autorizou a entrada dos dois.

— Oito e vinte. Nove e vinte podemos sair daqui.

— Esplêndido. Mal posso esperar.

Aurelius também não. Eles caminharam para dentro do baile e, no mesmo instante, o conceito de “esplêndido” de Aurelius foi atualizado.

Sair com Praxis para qualquer evento formal era ter a certeza de estar acompanhado de uma das, se não fosse a mulher mais linda do local. Com o vestido colado até a cintura, a saia esvoaçando atrás de seus pés e o colo coberto por um belíssimo colar de ouro que ele mesmo tinha dado a ela, Aurelius por muitas vezes se sentia agraciado com o fato de que, pelo menos, não podia ceder nenhuma reclamação à beleza de sua esposa. Bastava ela entrar em um local como um salão de festa que ele se sentia imediatamente lembrado disso, em um nível ainda maior. Naquele salão, com luzes espalhadas para todos os lados e vindo de várias direções, a pele de Eupraxia brilhou; não forte o bastante para refletir em todo o ambiente como acontecia quando se deitava com ela, mas forte o bastante para sua pele reluzir em todas as direções, refletindo o brilho no colar de ouro e o realçando ainda mais. Era como estar ao lado de uma deusa, e Aurelius podia afirmar isso com cem por cento de certeza. Já tinha conhecido uma uma vez.

— Inferno — ela resmungou, encarando o próprio braço.

Sim, era horrível para ela que odiava chamar atenção, mas Aurelius não reclamaria. Era mais bonito do que gostaria de admitir em nome de seu próprio orgulho.

O criado ao lado deles estava encarando os dois, ou melhor, Eupraxia, de um jeito completamente embasbacado, e Aurelius levantou a sobrancelha, cruzando os braços e encarando o homem do alto. Ele podia jurar ter visto um micro sorriso aparecer na boca da esposa por um breve segundo quando fez isso, mas não tendo captado o momento na hora exata, não podia garantir.

Após um pigarreio constrangido, o criado levantou o braço, indicando ao casal o corredor para o salão.

— Por aqui, senhores, por favor. Aproveitem a noite.

Ah, claro”, Aurelius pensou, irônico. “Vou aproveitar muito os sessenta minutos de tortura nesse calabouço social. Obrigado.”

Foi um milagre que o homem tivesse conseguido se impedir de bufar. Ainda com a expressão irritadiça no rosto, ele seguiu com a esposa em direção ao salão, já considerando encontrar-se logo com seu pai para riscar um item de sua lista antes do esperado. Quem sabe não conseguissem ficar por menos de uma hora? Seria um presente muito bem-vindo.

O salão estava tão lotado quanto ele receou. Com a exceção de um pequeno círculo separado para danças, havia uma multidão de pessoas de pé ao redor das mesas de comida, ou sentados nas poucas mesas disponíveis, todos conversando uns por cima dos outros, gerando uma confusão de vozes sobrepostas e um ruído de fundo tão alto que Aurelius quis chorar por dentro. Algo o dizia que Praxis também.

E como tudo sempre podia ficar pior, todo mundo estava carregando um celular, o que significava uma overdose de sinais tocando no ouvido de Aurelius: muitos sons de notificação, muitas informações passando de um lado para o outro… Se sua esposa achava que ficar por uma hora era o máximo que ela poderia aguentar, poderia acabar se surpreendendo com a falta de paciência do próprio Aurelius para suportar a atividade.

— Tem muita interferência aqui — ele murmurou. — Estou com dor de cabeça. Vamos achar nossos pais logo pra gente poder dar oi pro Haias e depois dar o fora daqui.

— Não tínhamos uma dança? — Ela perguntou, parecendo muito infeliz ao fazer a pergunta.

E infernos. Sim, tinham. Tudo bem, uma coisa de cada vez.

— Consegue vê-los? — O homem perguntou, correndo os olhos pelo lado esquerdo do salão.

Quando era em prol de um interesse mútuo, os dois trabalhavam muito bem juntos. Eupraxia não demorou a indicar o fundo do salão com a cabeça, onde Aurelius encontrou seus pais interagindo com os sogros, e provavelmente comentando sobre a inaptidão dos filhos em chegar na hora.

Aurelius suspirou, começando a guiar Praxis pelo local, dando sorrisos educados e se espremendo entre as pessoas pelo caminho. Em dado momento, um garçom passou com uma bandeja e ele pegou uma taça de champanhe para si, pois só bêbado mesmo para dar conta dessa tortura.

Praxis acabou não pegando nada — o que fazia muito sentido se ela estava indisposta — e Aurelius virou sua taça quase de uma vez, já chegando sem ela no ponto do salão onde sua família estava.

— Até que enfim — foi a primeira coisa que o encosto insuportável que era seu pai falou. — Não te ensinei a ser pontual?

— Tive alguns imprevistos — Aurelius respondeu, apenas.

Imprevisto, no caso, era sua falta de vontade de comparecer, mas nenhum deles precisava saber. Depois de beijos no rosto e apertos de mãos trocados entre os seis presentes, a conversa voltou a acontecer, agora tendo os dois como assunto.

— Eupraxia, minha querida, você está deslumbrante nesse vestido — a mãe de Aurelius elogiou, arrancando um sorriso claramente forçado da mulher. Ao menos ela estava tentando ser educada.

— Obrigada. Vermelho também fica muito bem em você.

E a conversa fluiu sobre os tópicos mais banais e desinteressantes que se havia para conversar. Como vai o trabalho, como vai a vida, bla bla bla… Aurelius já sentia as bochechas começarem a reclamar de sustentar o mesmo sorriso falso o tempo todo, e só queria que Haias aparecesse logo para acenarem para ele, dançarem a bendita música e darem o fora dali.

Isso demorou uma boa meia hora para acontecer. O homem, para variar, em vez de aparecer acompanhado da esposa, estava com o consorte, e Aurelius sabia que se perguntasse, ele ia dizer que não fazia ideia de onde a mulher estava. Às vezes, Aurelius invejava Haias por esse tipo de liberdade.

— Aaaah, Aristarche! — Haias e o pai de Eupraxia se cumprimentaram como se fossem velhos amigos, e ainda bem, Aurelius pensou, essa parte do compromisso estava cumprida.

Haias beijou a mão das mulheres, deixando um galanteio a mais na mão de Eupraxia. Foi a segunda vez na noite que Aurelius quis socar alguém.

— Belíssima festa — a mãe de Aurelius elogiou. — Estávamos comentando agora mesmo sobre a comida.

Quanta mentira. E que falta de paciência que tinha com esse tipo de conversa fiada. Mais uma vez, ele se deteve a sorrir e acenar, desejando por dentro que caísse um raio em sua cabeça e o matasse para acabar com essa tortura. Para piorar, sua cabeça começou a doer de leve com o excesso de feed de rede naquele lugar, e agora ele também queria socar os telefones de todo mundo.

No fim das contas, tudo o que Eupraxia precisou fazer foi sorrir e acenar, e Aurelius repetiu o mesmo ao lado dela, assistindo a conversa evoluir entre o nobre e o sogro. Qualquer acordo que o homem queria fechar parecia ter sido garantido pela presença dos dois ali, e quando Haias deixou a roda de conversa, o casal já estava naquele baile pelos piores quarenta e cinco minutos de seu dia.

Acordo fechado. Dança. Casa. Fim.

— Com licença — Aurelius comentou, interrompendo uma conversa muito desinteressante sobre cores de ladrilhos para cozinha. — Prometi uma dança à minha esposa hoje, e acho que ela está começando a ficar impaciente.

Eupraxia respondeu com um sorriso amarelo e um pouco negacionista, rindo baixinho em seguida.

— Talvez um pouco, querido — a ironia na palavra foi o bastante para ele perceber. Com sorte, apenas ele. — Com licença — ela pediu aos pais e sogros, e logo os dois estavam seguindo até a pista de dança.

— Quarenta e cinco minutos de festa — Aurelius sussurrou no ouvido de Praxis enquanto os dois se ajeitavam em uma das beiradas da pista de dança. — Falta pouco pra liberdade.

Ali, a pele de Praxis reluziu ainda mais em cores, afetada pelas luzes da pista. Era exatamente com isso que os dois estavam contando para marcar uma curta presença no local. Aurelius segurou a mão da esposa, passando a outra pelas costas dela, e os dois começaram a balançar no ritmo da música, algum bolero clássico cujo nome ele não sabia dizer.

De tudo o que tinham que aturar naquele lugar, aquela tinha de ser a parte menos detestável. Não precisavam conversar com ninguém e até a música da pista era mais agradável que os ruídos de conversas e telefones.

Ironicamente, a melhor parte da festa era estar sozinho com a esposa.

Ele olhou para baixo, o olhar se prendendo nos ombros dela, que agora tinha virado de costas no meio de um dos movimentos da dança. Aurelius subiu uma das mãos devagar, quase sem se dar conta, levando-a ao ombro da esposa. Queria beijá-la, e não seria uma ideia ruim. Estavam ali para marcar presença e fazer bonito, então, por que não?

Aurelius a virou de frente para si no próximo movimento da dança, e encarou os olhos lilases dela por um instante, quase em um pedido silencioso. Praxis subiu a mão que estava nas costas dele lentamente para o pescoço do marido, e a resposta era muito clara. Sim.

Ele se inclinou, tocando seus lábios nos dela e deixando um beijo muito mais educado do que a maioria que costumavam compartilhar. O homem segurou a mão dela com carinho contra seu peito, um gesto raro, mas que de vez em quando acontecia entre eles.

E o beijo acabou. A música e a dança também, e Praxis deu um passo um pouco desajeitado para trás. Ele pigarreou, estendendo o braço para ela novamente, e começou a caminhar com ela no meio das pessoas em direção à saída.

— Uma hora? — Ela perguntou, seguindo com passos um pouco torpes.

— Um pouco menos. Você está bem? — O homem questionou, vendo como ela tropeçava pelo caminho para acompanhá-lo. Ela não tinha mentido mesmo sobre se sentir indisposta, e se já tinha vontade de ir embora antes, agora Aurelius tinha ainda mais.

— Eu acho que só preciso de ar fresco — ela respondeu, apertando o braço de Aurelius enquanto caminhavam. Ele percebeu se tratar de uma tentativa de buscar equilíbrio.

— Não se preocupe, estamos quase lá.

O homem se permitiu ser um pouco mais bruto, usando do tamanho avantajado para empurrar algumas pessoas pelo caminho e se desculpando, dizendo que a esposa não se sentia bem. Se serviu para amenizar qualquer fofoca pelo caminho, não sabia e não ligava. Só queria sair rápido. Praxis não era a única passando mal; se afastar da música fez o ruído dos telefones voltar a infernizar a cabeça de Aurelius e ele só queria distância disso tudo.

Eventualmente, o casal alcançou o corredor fora do salão. Ali já era muito melhor do que lá dentro, mas ainda assim os dois continuaram seguindo sem interrupções até estarem do lado de fora, onde Aurelius ajudou a esposa a se sentar em um dos bancos do jardim da casa.

— Devo buscar alguma coisa pra você? Água? Conhaque?

— Estou bem — ela respondeu de uma vez. — Só preciso de um tempo.

Aurelius franziu a testa e se sentou ao lado dela no banco. Tudo bem, podia não cair de amores por ela, mas os dois não se odiavam tanto que fossem de fato desejar a morte um do outro. Ao menos, ele não odiava. Praxis parecia meio verde, e Aurelius começou a se perguntar se deveria ligar para o médico da família.

— Talvez devamos chamar o médico.

— Não! — Ela rebateu em uma velocidade assustadora. — Nada de médico. Eu… Eu não quero as pessoas achando que é algo sério demais. Você sabe como essas fofocas aumentam de tamanho.

Bem, isso fazia sentido. Aurelius continuou sentado, esperando ela melhorar e preocupado com o bem estar da esposa, mas não sentindo abertura para fazer um carinho ou sequer segurar a mão dela, da parte de nenhum dos dois. Não existia intimidade para isso.

— Eu vou chamar o chofer — ele anunciou, levantando-se. — É melhor irmos pra casa, depois eu espalho por aí que você estava levemente indisposta.

Ele se levantou, pronto para fazer exatamente isso, quando se lembrou do motivo pelo qual “nada é tão ruim que não possa piorar” era uma máxima que sempre aparecia nas piores horas.

Descendo as escadas, ajeitando as abotoaduras e com uma cara de poucos amigos e muita fúria no rosto, Branimir, pai de Aurelius, vinha em direção a eles, soltando fogo pelas ventas.

— Aurelius… O que pensa que está fazendo?!

E mais essa agora…

— Prestando auxílio à minha esposa — ele respondeu, indicando Praxis com a mão. — Ela está indisposta.

O homem desceu o olhar para a nora por um instante, e no fim das contas foi bom que Praxis parecesse meio esverdeada. De outra forma, não sabia se Branimir teria acreditado.

— Mande-a para casa e volte para a festa. A maioria dos associados comerciais da família não conversou com você ainda.

É claro. Devia ter imaginado que isso aconteceria. Era típico de seu pai esperar por tal atitude, tinha certeza. Coitada de sua mãe, aturando uma praga dessas pela vida.

— Não vou mandar minha esposa adoentada pra casa sozinha. E se acontece alguma coisa e eu não estou lá com ela?

Nesse momento, ele sentiu a mão de Praxis tocando seu pulso, puxando seu terno de leve. Ela estava encurvada para baixo e parecia muito prestes a vomitar.

— Não brigue com seu pai, eu volto sozinha pra casa.

— Tá de brincadeira? — Ele retrucou. — Olha só pra você, não consegue nem ficar de pé!

— Ouça sua esposa e vá cumprir suas obrigações de família!

Aurelius sentiu o sangue ferver. Seus olhos assumiram o tom dourado forte de quando usava suas habilidades, e ele piscou várias vezes, tentando se controlar. A última coisa de que precisava era uma demonstração de descontrole.

— Eu não vou ter essa discussão com você — Aurelius disse, puxando Praxis pelo braço e a apoiando pela cintura, ajudando-a a ficar de pé. — Vá você fechar os negócios da família e tenha a decência de dizer aos outros que seu filho foi responsável o suficiente pra cuidar da esposa que estava se sentindo mal. Passar bem.

Geralmente, esse tipo de resposta acabaria mal. Já tinha saído em altercações físicas com o pai mais de uma vez, mas sabia que ele não ousaria fazer isso com Praxis adoentada ao lado. Seu pai tinha a pequenez de reclamar com ele de minúcias sociais em um baile onde apenas um membro da Família Real tinha comparecido — Aurelius viu Karnak conversando com Haias pelo canto do olho em algum momento — enquanto o próprio Aurelius estava correndo uma demanda diretamente para a Família Real.

O homem parou de andar, à beira da rua, vendo a limousine se aproximando, mas sua cabeça de repente estava muito longe.

Estava cumprindo uma demanda direta para a Família Real. Isso não acontecia em sua família há anos. E era ele o responsável, não seu pai.

Ele era o Chrysanthos mais importante agora.

— Pelo amor dos Boltagon, a gente vai entrar ou não? — Praxis perguntou, e Aurelius piscou os olhos, ajudando a esposa a entrar no carro.

Ele entrou atrás dela, fechando a porta e olhando o jardim de onde tinham acabado de sair. Se cumprisse essa demanda, se tudo desse certo… Talvez pudesse virar algumas mesas. Talvez pudesse herdar suas coisas bem antes do que o esperado. Talvez pudesse se libertar das pressões de sua família e virar dono da própria vida.

— Eu preciso descansar — Praxis anunciou, deitando em um dos bancos e fechando os olhos. — Me acorde quando chegarmos.

Aurelius concordou com um resmungo abafado. Tinha outras coisas na cabeça.

Notas finais
Link pro grupo de whatsapp: https://chat.whatsapp.com/DrHNqXKPp8cBfLb7UGgbAL Considere favoritar essa fic e Homem de Gelo também. Vai deixar meu coração bem quentinho ♥ Além dessa, tenho vagas também para uma interativa original sobre revoltas civis. Acesse aqui: https://www.spiritfanfiction.com/historia/a-rosa-do-tempo--interativa-19350882/ Considere também dar uma olhada nas minhas outras histórias? :D Eu tenho coisas para vários gostos ^^ Leia a duologia Hunters! Comece aqui: https://fanfiction.com.br/historia/771022/Hunters_Hunters_1/ Leia minha original de fantasia urbana, Carmim! https://fanfiction.com.br/historia/787245/Carmim/ Leia minha fanfic de Harry Potter! https://fanfiction.com.br/historia/781763/Marcas_de_Guerra_Historias_de_Bruxos_1/ Fanfic 2 atualizando atualmente: https://fanfiction.com.br/historia/799894/Amargos_Recomecos_Historias_de_Bruxos_2/