SANGUE E FOGO
2 Propheta
O grande salão estava vazio.
Ygura passou rápido pelos pilares altos, onde estavam esculpidas as imagens de dragões grandiosos de eras passadas. O chão de ouro refletia a pele dourada e escamosa dela como um borrão. Seu longo corpo se torcia a cada mudança brusca de direção e ela adorava a sensação, a fazia sentir-se viva. Entrou por um portal lateral e se enroscou em um pilar, observando a sala silenciosa.
― Sabe que não deve entrar assim, Ygura.
A voz veio das sombras da sala. Uma enorme massa moveu-se na escuridão.
― Desculpa, vô ― disse Ygura. ― Mas está um dia tão lindo. O senhor precisa ver. Quanta animação e felicidade há no mundo hoje.
― Já vi muito desse mundo, minha jovem, e você tem lido muitas poesias ― disse o avô de Ygura. ― Tragam o nosso chá.
Imediatamente a porta lateral abriu-se com força e dois homens corpulentos apareceram forçando a maçaneta. Treze homens entraram puxando uma espécie de veículo com uma cesta grande na parte superior e rodas gigantes. Na cesta haviam dois grandes potes com bebidas fumegantes que liberavam lufadas de vapor no ar. Os homens deixaram o carro no meio da sala e logo saíram, fazendo reverências.
O avô de Ygura, Mallagor, saiu das sombras para pegar seu pote de chá. Era um dragão velho, com longos bigodes branco-acinzentado e olhos negros como a noite. As escamas azuladas se espalhavam pelo corpo, com algumas linhas de escamas amarelas aqui e ali. Mallagor era um dragão de corpo longo, assim como seu filho e como Ygura.
― Venha. Tome um chá comigo. ― Mallagor bebericou seu chá e deixou pousado nas mãos de dedos longos e unhas cinzentas, que na alvorada de sua vida haviam sido negras como a noite.
Ygura desceu rapidamente do pilar onde havia se enrolado. Ela se acomodou em frente ao avô e pegou seu pote. Cheirou a bebida e soltou o ar de alívio. Tomou um gole longo e relaxou.
― Que delícia, vô.
― Isso sim é um milagre de se ver ― disse Mallagor sorrindo. ― Os jovens de hoje não ligam mais para o ritual do chá.
― Eu ligo, vô ― disse Ygura. ― Ligo para tudo aquilo que é importante para meu povo. A tradição é importante.
― Você realmente é uma em um milhão, minha cara. O que me faz ficar mais preocupado ainda com o que vi.
― O que viu, vô? ― Ygura aproximou-se.
― Vi o que você veio pegar. ― Ele retirou de debaixo do corpo longo, uma esfera azulada de cristal, do tamanho de uma criança humana de seis anos. ― Aqui está a profecia que tive e que seu pai pediu. Tome e guarde em segurança. Se quebrar, a profecia se perderá.
― Prometo protege-la com minha vida ― Ygura guardou a profecia em sua bolsa presa ao corpo.q
― Ótimo ― disse Mallagor. Então sua expressão ficou séria. ― O que me preocupa é aquilo que não criei, mas que vi. Envolve você, minha querida. A descendente mais nova dos dragões de Midiar. Previ que logo, os nossos inimigos, aqueles que vivem nas sombras e se alimentam de sangue, irão fazer seu movimento. E nós iremos discutir quanto a isso, durante muitas luas e sóis. Os dragões estarão divididos em suas opiniões quanto ao tema, alguns achando que novas guerras trarão somente mais dor e sofrimento para o mundo, outros acreditando que é a hora de exterminar os vampiros. Então eu vi você, minha cara. Você brilhava como o sol da manhã e sem dizer uma única palavra unia todos os dragões atrás de você. Você irá partir daqui, de Midiar, e ir para onde meus poderes não podem alcançar, as terras sombrias. Com sua partida, todos os dragões de Alladan irão se levantar e seguir juntos para enfrentar os inimigos. Machos, fêmeas, jovens e velhos se levantarão para o embate final. Foi o que vi e é o que deve ser mantido em segredo. Entende?
Ygura não falou. As perguntas explodiam em sua mente, mas o avô não responderia nada que não achasse devido, o que de certo devia ser o caso ou ele teria esclarecido tudo.
― Entendeu minha cara?
― Sim, vô. Guardarei o segredo, mas por que meu pai não pode saber?
― Por que sinto que de alguma forma ele impediria que isso ocorra, mas também sinto, da forma mais clara que já senti na vida, que você deve fazer o levante de Midiar e de Alladan como um todo. Agora vá. Leve a profecia e viva seus dias como sempre viveu. Há um grande futuro a sua frente.
― Obrigada, vô. ― Ygura pegou a profecia, terminou o chá e beijou seu avô. Em seguida voou.
Midiar era uma das várias províncias da terra dos dragões, Alladan. Seu nome significava A Terra dos Grandes, em referência aos reis e anciões dragões que nasceram e cresceram na região. Praticamente todos os dragões que tiveram alguma influência e poder sobre Alladan nasceram em Midiar, desde Blaghar, O Primeiro, passando por Erudikkas, O Esperto, Mikodas, O Grande, Balaora, A Sábia, até o atual ancião Mallagor e o rei Ebravium, pai de Ygura.
Ygura era a filha mais velha de Ebravium e iria sucedê-lo como a rainha ou suceder o avô como a anciã. Esse era o destino inevitável de todo dragão, independente da província de onde nascera, o destino final era traçado a partir do nascimento.
Cada província determinava a qualidade de seus dragões. A província de Everunum sempre havia criado os melhores lutadores e os chefes dos exércitos, e assim, todos que lá nasciam eram treinados para a guerra e seu líder era o braço direito do rei de Midiar. Todos que nasciam em Krissódia eram inteligentes e seu destino era aconselhar e fazer diplomacia, sendo que desde pequenos eram treinados para esse fim. Assim acontecia com todas as outras doze províncias de Alladan.
Ygura sempre soube de seu destino final, como rainha ou anciã, mas pensou que se o ponto final era determinado, o caminho até ele não era. Portanto, aproveita sua vida de modo diferente de muitos outros dragões de Midiar. Enquanto a maioria dos dragões da província estavam preocupados com as leis e a ordem em Alladan, Ygura se preocupava em descobrir novos lugares e novos seres vivos.
Escondida, ouvia as lendas e contos dos humanos ao redor de suas fogueiras, prestava atenção nas aulas dos dragões mais velhos, viaja para outras províncias e aprendia o que eles faziam. Ela adorava a sensação de ser livre, pois sabia que mais cedo ou mais tarde perderia essa liberdade.
Seu corpo alongado, repleto de escamas douradas brilhava com a luz do sol. Sua cabeça, grande e pontuda, era rodeada por vários pelos vermelhos herdados de sua mãe, o que demonstrava sua linhagem do Oeste de Midiar. Tinha quatro patas com quatro dedos e garras negras. Os olhos reptilianos eram como ouro derretido, brilhantes e ativos.
Por ter sangue real puro, ela possuía as habilidades de todos os dragões, mas com certas limitações. Podia voar, mesmo sem ter asas, mas apenas até uma certa altura e por um tempo limitado, nunca conseguiria vencer os dragões da província de Midocas na velocidade de voo, mas ganhava de seus irmãos. Possuía força acima da média de um dragão comum, mas não chegava a ser forte como os dragões de Everunum. Assim se seguia com suas habilidades.
Seu pai vivia no Palácio de Midiar feito com ouro e pedras preciosas. Ygura passou rapidamente pelos humanos que limpavam as paredes e o chão. Os humanos vislumbraram uma mancha amarelada passar por cima deles, mas não se incomodaram, já conheciam a jovem.
― Pai ― disse Ygura ao entrar na sala oval, repleta de estátuas dos Grandes do Passado.
Ebravium a olhou sugestivamente. Estava com Kerinia de Krissódia, Balmor de Everunum, Norati de Midocas e outros dois dragões de províncias próximas.
― E aí está a nossa princesa ― disse Balmor com um sorriso. Suas escamas eram variadas entre o vinho escuro e o preto, cobrindo o corpo robusto sem asas. Embaixo da boca grande e quadrada tinha a barba branca que alisava com calma. Os olhos eram vermelhos e gentis. O maior dragão da sala era o único que sorria para Ygura.
― Que bom que tem energia ― disse Kerinia. Mantendo sua postura e expressão séria. O corpo era longo e delgada, com cabeça redonda e boca pequena. Tinha olhos grandes purpura e escamas em diferentes tons de azul, fazendo círculos e listras pelo corpo.
― Trouxe a profecia, meu rei ― disse Ygura e entregou a esfera ao pai. ― Senhores, Senhora.
― Muito obrigado, Ygura ― disse Ebravium, as escamas brancas como neve lembravam um manto de peles e a cabeça pontuda dava o aspecto de superioridade e poder que o Rei de Midiar precisava. ― Agora vá ajudar sua mãe. Ela está cuidando dos seus irmãos.
― Sim. Com sua licença, meu rei. ― Ygura saiu pela porta lateral.
― Tem uma filha energética, meu rei ― confessou Kerinia, assim que Ygura saiu. ― Poderá ser uma rainha muito ativa um dia.
― Assim espero ― comentou Ebravium.
Assim que fechou a porta, Ygura passou a voar rápido pelos corredores, até o jardim exterior. Lá encontrou a mãe e os irmãos.
Sua mãe, Neredya, era um dragão roliço, com escamas douradas pelo corpo e a coroa de pelos vermelhos ao redor da cabeça. Os olhos eram verdes e brilhantes, como duas lanternas atentas a tudo que ocorriam.
Ygura tinha três irmãos. Milinos era o segundo mais velho, com o corpo roliço da mãe e as escamas brancas do pai, além do gênio autoritário deste. Balnyra era a terceira filha de Neredya e Ebravium, doente e fraca, era a que conseguia permanecer mais tempo flutuando, habilidade que desenvolveu durante anos, já que não podia usar suas pernas atrofiadas. A irmã mais nova de Ygura era a que mais se parecia com ela. Tinha o corpo longo e delgado, em tons de dourado e branco, além de ter a personalidade ativa e feliz da irmã.
― Por onde esteve Ygura? ― perguntou sua mãe.
― Andando por aí, provavelmente ― disse Milinos, prestando atenção em um livro grosso com joias nas bordas.
― Estive perto do Templo Antigo, decifrando algumas runas ― respondeu Ygura e evitou olhar para a mãe, pois os olhos dela entregariam a sua mentira. ― O que estão fazendo?
― Estudando ― respondeu Milinos.
― Brincando ― disse Ebrivian.
Balnyra sorriu e continuou a mover um cordão, cuja ponta estava amarrado um globo azulado. Ebrivian tentava pegar o globo, enquanto sua irmã de modo cansado o movia para os lados. Ygura pediu o globo a irmã e brincadeira com a irmã ficou mais agitada. Ygura voava, descia, corria para um lado e para o outro, enquanto sua irmã tentava a alcançar.
O sol se pôs no horizonte a rainha chamou os filhos para dentro. Os humanos se apressaram a arrumar o jardim até o anoitecer.
Fale com o autor