SANGUE E FOGO
3 Consilia
Cacos de vidro se espalharam pelo chão.
Camellita estava no auge de seu surto, atirando tudo aquilo que conseguia alcançar com as mãos. O início da vida vampírica era diferente para cada um, porém, a maioria passava pelos surtos que eram episódios onde a ausência de sangue e o vampirismo dominavam o cérebro e o indivíduo acabava se descontrolando.
Porém, os de Camellita superavam qualquer outro que Demérius já havia visto. Duravam às vezes dois dias e a tornavam tão forte quanto o pai, de modo que certa vez, ambos quebraram o chão enquanto se empurravam.
A jovem gritava e se debatia, com os olhos em tom vermelho sangue. Cassindra segurava os braços da filha enquanto Erudios agarrava suas pernas. Nada mais restara do rosto doce e angelical que tinha, agora era uma expressão contorcida de dor e raiva.
― Demérius ― chamou Cassindra. ― Vá busca o mertidio. Anastacya, arrume o quarto de Camellita. Vamos, Erudios, me ajude a levá-la para o quarto.
― Não! Não quero! ― Berrava Camellita pelas escadas em direção ao quarto.
Demérius saiu pela porta lateral e desceu as escadas. Chegou na cozinha de piso branco, onde três humanas lavavam a louça do jantar e outros dois humanos conversavam com elas.
― Senhor ― disseram em reverência, mas Demérius ignorou.
Ele correu em direção a despensa e lá dentro usou sua chave para abrir uma grande porta de aço, nos fundos do espaço. Dentro havia várias prateleiras com frascos e tubos de ensaios de diversos tamanhos que possuíam líquidos de cores variadas. O ambiente era fantasmagoricamente iluminado por uma série de cristais no topo. Passou pelas prateleiras até encontrar a que queria, onde havia uma série de frascos com o líquido vinho.
Pegou o frasco e após se assegurar de fechar bem a porta, correu para o quarto da irmã, atravessando a casa com o máximo de velocidade.
― Onde vai correndo assim, Demérius? ― o Grand Duque Vitrorius, segurou seu braço. ― Sabe que este não é o comportamento adequado.
― Perdoe-me, pai, mas Camellita está passando por um surto. Estou levando mertidio para ela.
― Ah, sim. Tudo bem, vá logo. Depois quero conversar com você.
Demérius continuou sua corrida e abriu a porta do quarto. Imediatamente uma massa de cabelos louros veio em sua direção. Demérius havia lidado com o surto dos irmãos, então já imaginava que isso ocorreria. Assim que a garota se aproximou ele a pegou pela cintura e puxou para dentro do quarto. Erudios bloqueando a janela do outro lado do quarto. A mãe corria atrás da filha para que ela não se machucasse durante seu surto.
― Aqui o mirtidio, mãe.
― Obrigada, Demérius.
Cassindra pegou o frasco e puxou a rolha. Uma fumaça rosada subiu e logo todos no quarto sentiram o odor agradável. Camellita, que havia se empoleirado em um canto do teto, saltou para o chão, caindo com um baque.
― Sim, minha querida. Sabe o que é, não? ― encorajou Cassindra. ― Venha, beba.
Camellita aproximou-se devagar, tocando com cuidado o tapete que cobria o piso de seu quarto. A mãe pousou o frasco na borda da cama e observou a filha. Camellita, com seus longos cabelos louros e ondulados parecia uma fera selvagem, caminhando de quatro para a cama. A beleza jovial e gentil que cativou Vitrorius e Cassindra ainda era visível, porém, estava parcialmente obscurecida pela vontade de causar o caos.
A jovem aproximou-se da cama e com cuidado pegou o frasco, tirando-o das mãos da mãe e entornando o líquido vinho na boca de uma vez. Assim que o líquido desceu por sua garganta, ela teve um pequeno tremor. Relaxou os ombros e soltou o frasco vazio no chão. Logo a expressão animalesca sumiu, deixando em seu lugar a garota jovem e delicada que todos conheciam, sorrindo para o nada. Sentou-se no chão, balançando a cabeça levemente de um lado para o outro, como se ouvisse uma música agradável.
― Demérius, Erudios, podem colocá-la na cama? ― pediu Cassindra.
Os irmãos aproximaram-se da garota e a levantaram com cuidado, colocando-a na cama em seguida. Ela sorria e cantarolava baixinho, fazendo movimentos com os dedos ao ritmo de sua canção pessoal.
― Ótimo ― a mãe levantou-se da cama. ― Podem ir, tomarei conta dela. Muito obrigada, meus filhos.
Os irmãos saíram do quarto.
― Os surtos estão mais leves, não? ― Perguntou Erudios.
― Sim, estão ― disse Demérius. ― Mas ainda são muito violentos.
― Não como os meus, digo, ela só atacou uma das criadas.
― O problema não é atacar humanos ou não. É a obediência, isso assusta o pai e a mãe. Você conseguiu chegar ao distrito pobre por descuido nosso. Não prestamos atenção em você como deveríamos. Eu e Anastacya fomos renascidos pela mãe, você e Camellita pelo pai. Você estava causando estragos no distrito pobre, até o pai chegar. Apenas com a ordem dele você parou o que estava fazendo. Independente do sentimento e vontade que temos, a obediência com aquele que nos renasceu é suprema, sempre foi.
― Mas na semana passada Camellita desobedeceu ao pai.
― Sim. Mesmo que ele tenha mandado ela parar, ela desobedeceu e quebrou o pescoço da humana. Somente depois ela parou. Isso preocupa eles, por isso o tio Loran está pesquisando em segredo na biblioteca do Conselho. Um vampiro que não obedece quem o renasceu, imagina o que isso significa?
― Nossa imagem estaria manchada ― concluiu Erudios.
― Não só isso, mas caso ela saia do controle, podemos sofrer julgamento, como no caso dos Borendi.
Erudios estremeceu, ele sabia das consequências que envolviam criar vampiros. A antiga família Borendi era conhecida por gostar de criar vampiros novos, tendo a maior quantidade de vampiros da cidade. Contudo, alguns saíram do controle e o decreto sétimo do Antigo Conselho foi aplicado na família. A ordem de extermínio saiu do Conselho em sessão secreta, sem a presença de representantes da família e fora executada logo em seguida. A família então passou a existir somente nos livros de história dos vampiros.
― Bem, tenho que conversar com o pai. Nos vemos depois, Erudios.
― Até irmão.
Demérius subiu as escadas para o escritório do pai, contudo, encontrou o local vazio. Passou pela biblioteca que estava igualmente vazia. O último lugar que faltava encontrar o pai era na torre. Ele subiu as escadas em espiral chegando ao ponto mais alto da mansão, onde havia um pequeno espaço de madeira com o telescópio posicionado.
Vitrorius estava apoiado no parapeito, observando a cidade abaixo. Lockessia se estendia a sua frente. Escura e sombria, com a atividade frequente daqueles que ali permaneciam, vampiros, humanos e animais da noite. Ao longe, como uma fina linha, estava os limites da cidade.
― Sabe a quanto tempo estamos aqui, Demérius?
― Há muito, pai. Somos uma das mais antigas famílias da cidade. Participamos do Segundo Conselho e desde então não saímos da política.
― Sim. Meu pai foi o fundador de nossa família. Éramos viajantes, que tentavam sobreviver a todo custo. Eu havia sido criado não faziam nem cem anos quando encontramos essa cidade. Na época, ela estava um caos. A mercê de criminosos e corruptos, mas era um lar estável. O Primeiro Conselho estava para ruir quando meu pai decidiu se candidatar a uma vaga. Levou cinquenta anos, mas conseguimos o apoio de outras famílias poderosas como os Konlathys, os Mireri, os Marchi e os Albavis. Assim, o Primeiro Conselho caiu e o Segundo Conselho foi instaurado por não mais do que cem anos, até que o Terceiro Conselho fosse instaurado, o que hoje temos. Desde esse tempo somos influentes na cidade.
Vitrorius observou o céu manchado de negro pela fumaça espessa que saia das torres altas da cidade. Conforme anoitecia, o fluxo de fumaça diminuía, ficando apenas uma fina linha escura.
― O seu casamento significará um avanço para nossa cidade. Lockessia manteve importante relação com todas as cidades vizinhas. De Vampietta até Lorea. Brimmim a Junes. Porém, não possuímos contato sólido com as cidades do litoral e com as além de Vampietta. Precisamos desse acordo para expandir nosso âmbito de influência.
― Um casamento arranjado para aumentar o nosso poder, entendo. Acredito que isso influenciara inclusive aqui na cidade.
― Sim, ganharemos mais força no conselho e uma posição estratégica muito boa. Os Mohandis são, provavelmente, a família mais importante de Sebathia e não costumam realizar casamentos fora da cidade. Estive em contato com Svinose por cerca de um século para conseguir isso.
― Entendo. Irei fazer o possível para honrar o nome da família pai.
― Assim espero. Assim sempre esperei. Confesso que seus devaneios de sua vida humana me assustam filho. Sua fixação pelo fogo não será bem vista por sua mulher e nem por outros. Você precisa esquecer o passado. Você não é mais humano, agora, você é melhor do que eles. Não se esqueça disso.
― Entendo, pai.
― Muito bem. Amanhã, você, sua mãe e eu iremos a um almoço junto com os Mohandis. É a sua oportunidade de cortejá-la. Pedi que deixassem em seu quarto livros sobre a cultura e costumes de Sebathia e o que sabemos sobre as famílias nobres de lá. Aprenda tudo até amanhã. Tenho certeza de que Svinose fará o mesmo com a filha.
― Sim, darei o meu melhor pai.
― Mais uma coisa antes de ir. Como está Camellita e Cassindra?
― As duas estão bem. Os surtos têm diminuído de intensidade. Dessa vez, ela apenas quebrou alguns objetos menos valiosos. Deve estar se recuperando agora.
― Muito bem. Vocês estão indo bem com a situação. Vá agora, aproveite o seu tempo.
― Sim, estou indo, pai.
Desceu as escadas circulares e foi para seu quarto, onde havia uma pilha de livros em sua cama. Ele passou os olhos pelos títulos, sem muita vontade. Olhou para a lareira. Em seguida foi até a janela, não podia deixar que os vizinhos vissem o fogo.
― A lua não canta como antes.
Demérius parou, ainda segurando o batente da janela. Olhou para o lado e viu Nox, sentado no parapeito ao lado. A pequena criatura observava a noite, com um pé balançando.
― O litoral é imprevisível. É de lá que o sol nasce. É de lá que tudo começa. É de lá que tudo começará.
― O que?
Nox então saltou para baixo. Demérius correu para ver. Seu quarto ficava no terceiro andar da mansão. Se um humano saltasse daquela altura, com certeza morreria. Para sua surpresa, Nox aterrissou calmamente no telhado abaixo. Em seguida saiu saltitante pelos telhados, sem emitir qualquer som.
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