SALVE O MORRO
5 Um dia quase normal
Meu corpo todo doía quando o despertador tocou. Talvez pelo peso da minha consciência. Era o meu primeiro crime, eu nem sabia se podia ser preso por isso. Acho que sim, por ocultação de provas. Me sentei na cama. Os meninos já caminhavam e falavam alto em todos os cantos do quarto. Estiquei minhas pernas e encarei meu casaco que estava pendurado na cabeceira da cama. Dava para ver a pontinha do livro dentro dele. Me levantei, peguei o livro.
— Ei Charlie, você estava com o sono pesado, não dormiu bem a noite?
Me virei encarando Samuel, que estava parado, já com uma roupa social me olhando.
— Dormi muito bem.
Sorri.
— O que é isso?
Ele apontou pro caderno na minha mão.
— Um livro.
— Me empresta pra ler depois?
— Ahn...
Olhei pro livro e depois para ele.
— Claro.
Sorri tentando esconder o nervosismo. Peguei minha roupa no guarda roupa e me vesti. Coloquei o caderno dentro da minha bolsa, pra carregar sempre comigo. Antes que algum enxerido no quarto visse.
Maxuel ligou a televisão.
— Vocês entraram no facebook hoje?
— Não
Samuel respondeu.
— Colocaram fogo na casa daquele traficante.
Arregalei os olhos e me virei para pegar meu casaco.
— Que traficante?
O Júlio perguntou.
— Aquele João qualquer coisa.
Uma reportagem passava em um canal.
"Um incêndio criminoso aconteceu nessa madrugada na favela do Chapadão. Os policiais disseram que foram abordar uns homens que estavam tirando raxa de moto..."
Eu ri alto, e os meninos me encararam imediatamente. Fiquei sério no mesmo momento tentando disfarçar. Eles voltaram a olhar a tv.
"Quando eles chegaram na casa, o fogo já estava tomando conta da biblioteca, da sala e do porão, porão esse que os policiais ainda não sabiam da existência e não teriam investigado absolutamente nada. Agora eles estão impossibilitados de dar continuidade a investigação. Os fatos serão apurados. A polícia está atrás dos garotos que estavam tirando raxa e principalmente, daquele que começou o incêndio criminoso."
Meu celular tocou no meu bolso no mesmo instante.
Peguei o celular, era o advogado, atendi.
— Charlie.
— Oi
Sorri, peguei minha bolsa e imediatamente sai do quarto.
— Espera Charlie, vamos com você.
Samuel gritou do quarto e eu fingi de conta que não ouvi e apressei o passo.
—Charlie, o que você fez?
— Facilitei seu trabalho, por nada.
— Eu te vi crescer. Você não pode fazer isso, e se...
— Eles não vão descobrir.
— Eles vão te investigar.
— Boa sorte para eles então.
Desliguei o telefone.
Os meninos me alcançaram.
— Charlie, vamos chegar juntos. Assim dá uma impressão melhor.
Maxuel disse. Eu ri baixo e deixei que eles me acompanhassem. Entramos no prédio onde a maioria das aulas aconteciam. Tinha muita gente no corredor. Todos sem exceção pararam e ficaram nos encarando.
— Eu disse que dava uma boa impressão.
Maxuel disse rapidamente.
Eu balancei a cabeça positivamente.
— Oi
Uma garota loira veio até nós, um pouco tímida.
— Oi.
Samuel disse, ela encarou ele por alguns segundos, fez careta e depois me encarou e olhou rapidamente pro Maxuel e para o Júlio que se entreolharam e depois voltou a atenção a mim.
— Vocês podem almoçar com a gente mais tarde se quiserem.
— Não.
Respondi rápido.
— O que?
Júlio me encarou.
— Não dá boa impressão.
Sorri da lado, acho que ele entendeu o recado.
— Outro dia.
Eu disse para ser um pouco educado, mas não estava interessado. Ela soava desesperada.
Passei por ela e continue andando, até chegar na sala. Chequei no número no papel que estava na minha mão e os meninos foram entrando atrás de mim. Nos sentamos um ao lado do outro na sala. Logo todos entraram e se sentaram. Na minha turma tinha poucas garotas, a maioria em si, elegante e bem vestida. Outras nem tanto. Umas garotas que sentavam um pouco mais atrás que estava com a garota que nos chamou para almoçar não parava de nos olhar e cochichar alguma coisa. Eu me virei para frente e fui prestar atenção na conversa dos meninos. O Samuel falava alguma coisa de casa no lago que logo foi cortada pelo professor, que entrou na sala.
— Bom dia turma, hoje vamos começar uma nova etapa da vida de vocês. Hoje vocês são muito mais que adolescentes comuns. Vocês são...
— Desculpa professor.
Uma voz feminina interrompeu o professor.
Era a mesma garota que trombou comigo um dia anterior. Me endireitei na cadeira e a encarei.
— Eu não tolero atrás senhorita.
— Desculpa, eu dormi de mais.
— Entra, espero que essa seja a última vez que isso aconteça.
— Obrigada.
Ela sorriu e se virou, no mesmo momento me encarou e eu sorri. Ela fez careta imediatamente e se sentou do outro lado da sala.
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